Capítulo 4: Doces por Bom Comportamento

-mermaybe-

[INVERNO, JANEIRO DE 2011]

Apartamento dos Rowdyruff Boys

O cômodo, alagado de informações do jeito que estava, aparentava ser pequeno demais (embora não o fosse) para comportar um número tão faraônico de livros. Uma das paredes se abria em uma porta de correr enquanto as outras eram bloqueadas por estantes de madeira escura que subiam até o teto. No meio da biblioteca havia uma mesa na qual havia mais livros, uma xícara de café pela metade e um pequeno gravador.

Não havia janelas e, sentado à mesa, estava Brick.

Elas ainda não acordaram —ele ouviu Boomer gritar de algum lugar do aparamento. Puta merda,Brick pensou. Demora tanto assim para alguém dormir?

O garoto passara simplesmente os últimos três dias trancado em sua biblioteca, sem trocar uma palavra com seus irmãos, sem atender às insistentes chamadas de telefone até que as mesmas cessassem, sem comer e sem dormir. Boomer e Butch se esforçaram para entrar na sala, esperando enfiar algum bom senso em sua cabeça, mas Brick os havia enxotado aos berros. Ele precisava pensar. E tudo ao redor estava atrapalhando. Desde seus irmãos que não estavam fazendo nada além do normal, como assistir TV, jogar videogame, tocar guitarra, malhar na sala de treinamento... Até a presença quieta e adormecida das Powerpuff Girls nos quartos ao lado o estava impedindo de pensar.

Cada respiração daquelas meninas que ele ouvia por causa de sua superaudição era um lembrete da ameaça constante que pairava sobre sua cabeça.

—Foda-se —Brick murmurou para si mesmo, engoliu o resto de café da xícara e a jogou na parede —a louça se partiu em dezenas de pedacinhos e no momento em que ela atingira o chão, o garoto já estava na sala de estar. Boomer e Butch imediatamente levantaram os olhos para o irmão ruivo. —Foda-se —ele esclareceu para seus irmãos como se aquilo explicasse alguma coisa e voou pelo corredor onde estavam os quartos. Esmurrou as portas dos quartos em que as meninas se encontravam, gritando: —ACORDEM! AGORA!

Ele voltou até a sala, onde seus irmãos não haviam mudado nenhum centímetro de lugar, exceto pelo fato de que agora pareciam estar tendo um diálogo silencioso e Brick sabia exatamente qual era o assunto, coisa que o irritou ainda mais. O ruivo pegou três camisetas brancas que estavam em cima do sofá e jogou uma para cada irmão, mantendo uma para si mesmo.

—Vocês. Façam alguma coisa de útil e peguem sua Powerpuff para acordar. Eu não as quero sujando o apartamento com aquelas roupas nojentas delas, então enfiem isso nelas. E já deixando claro, pelo período de tempo que aquelas meninas estiverem aqui, elas não vão sair de suas vistas, entendido? Boomer vai manter o olho na azul, Butch na verde, enquanto eu vou pegar a vermelha. Essa é a única ordem por enquanto. Vão.

—Cara, você está...

AGORA!

E Brick foi deixado sozinho. Respirou fundo enquanto caminhava para o quarto de sua contraparte. Se ele ia lidar com aquela Powerpuff até que conseguisse encontrar uma solução, ia precisar de toneladas de paciência. Ele supôs que, se as personalidades de seus irmãos fossem realmente tão parecidas assim com as delas, Boomer ia ter o trabalho mais fácil. Pensar nisso lhe fez sentir uma imensa simpatia por Butch —ele provavelmente pegara a mais estressada de todas. Mas, é claro, Brick não podia negar que ele era uma das piores pessoas do mundo, o que tornava sua Powerpuff correspondente um verdadeiro pé-no-saco.

Com total desinteresse pelo respeito à privacidade dela, ele abriu a porta sem bater.

Na madrugada do primeiro dia de 2011 em que os garotos retornaram para o apartamento com suas mais recentes prisioneiras, eles simplesmente jogaram cada menina nos quartos que estavam sobrando e trancaram a porta. Elas haviam insistido por algum tempo, chutando a porta e gritando obscenidades que os meninos jamais esperariam das Powerpuff Girls, mas eles só as ignoraram até que se calassem —e elas poderiam muito bem estar mortas pelo silêncio que se instalou nos próximos dias, apenas quebrado pela curta respiração das três, que indicava que as mesmas estavam dormindo.

Felizmente, na escolha de um lugar para morar alguns anos atrás, os Rowdyruff Boys haviam optado por um dos maiores apartamentos da cidade, e a quantidade de quartos era a exata para abrigar eles seis sem que ninguém tivesse que dividir quartos ou terem que conviver com alguma Powerpuff dormindo no sofá de sua sala.

É claro, havia a possibilidade de deixá-las em algum galpão nas redondezas, alguma prisão subterrânea, no último andar de algum outro prédio abandonado... As opções eram infinitas. Mas ele não confiava. O preço por aquelas garotas era alto demais para que ele arriscasse tirar elas de sua vista, nem que fosse por algumas horas. Então, depois de ignorar as tentativas de reclamação de seus irmãos, ele se manteve firme em sua decisão: eles teriam que aguentar viver com as Powerpuff Girls dentro de sua casa por tempo indefinido. Isso era fantástico. Fantástico pra caralho.

O quarto que ele entrava agora era simples, com paredes e piso brancos, com móveis de madeira preta. Era sempre muito bem iluminado pelas inúmeras janelas, mas agora estava escuro como se fosse noite, uma vez que a garota parecia ter abaixado as persianas. De qualquer forma não importava, pois ele tinha superpoderes que permitiam que ele enxergasse muito bem no escuro.

Na enorme cama posicionada no meio do quarto, estava a garota ruiva, dormindo profundamente sem parecer ter se abalado pela gritaria. Ele presumiu que ela tivesse tomado uma ducha no banheiro da suíte, pois a camada de sujeira que lhe cobria anteriormente se fora em partes, dando lugar a uma pessoa quase normal.

—Acorde —Brick falou se aproximando da cama, pela primeira vez um pouco incerto de como proceder. Ele deveria chacoalhá-la? Não queria encostar muito nela, mas acabou fazendo isso. Nenhuma resposta. Ela estava morta? Qual era o nome dela mesmo? —Ei... hum... Powerpuff.

As pálpebras dela tremeram e a garota piscou algumas vezes confusa. Ele não entendia como os olhos dela continuavam cor-de-rosa mesmo após ter perdido seus poderes e ter virado normal —humanos geralmente não tinham aquela cor de olho sobrenatural.

Brick começou mais uma de suas frases irônicas, mas de repente, mesmo ele tendo superpoderes e podendo previr todas as ações do mundo, ele recebeu um soco na cara. O "impacto" meramente moveu dois centímetros de sua cabeça, mas a surpresa foi tanta que no segundo seguinte a garota ruiva não estava mais no quarto.

Ele rosnou e voou atrás ela, que já tinha atingido o corredor (Que vitória para ela, Brick pensou revirando os olhos) e segurou-a pela parte de trás da camiseta ensanguentada, movimento que deixou parte das costas dela à mostra. Brick, não conseguindo conter, soltou um som baixinho pelos lábios que Blossom interpretou corretamente e se virou com fúria para fuzilá-lo com o olhar.

—Que foi? Está chocado? Saiba que é isso que você fez com o mundo!

Era muito feio. Todos os ossos da garota pareciam que iriam se romper para fora a qualquer instante, com a pele agarrando-se neles. Brick se lembrava da garota sempre ter sido magra (tanto é que nas lutas ela costumava ser um alvo pequeno para atingir), mas isso... A visão fez o estômago de Brick revirar e ele a soltou.

Foi ela se ajeitando enquanto lhe olhava com ódio que o fez falar, a raiva claramente contida em sua voz:

—Olhe... Powerpuff. Você vai ficar aqui querendo ou não, pois não há maneiras de escapar a não ser que você decida que a morte é uma opção melhor do que ficar viva alimentando suas esperanças estúpidas de que algum dia vai conseguir salvar o mundo estando desse jeito. Estamos no último andar de um prédio bem alto, não há outros prédios próximos para você dar os seus pulinhos, nós destruímos os elevadores e bloqueamos todas as escadas e todos os andares com entulhos. Não há maneiras de escapar. E aqui nós vamos ser obrigados a te dar comida, cama, chuveiro...

—Ah, como você é generoso —ela o interrompeu acidamente, mas ele prosseguiu.

—... que definitivamente é um progresso em relação a como você e suas irmãs viviam antes. Se comportem —ele levantou a voz quando viu que ela ia discutir novamente. —e então... então eu vou ver. Dependendo de como as coisas ocorrerem, deixamos vocês irem.

Blossom olhou para ele, tentando analisar o fundo de sua alma, mas Brick se mantivera impassível. Ela abriu a boca para responder quando a porta de um dos quartos explodiu aberta. Eles nem tinham que olhar para saber quem era, ou assim pensaram, pois se surpreenderam ao ver Boomer saindo do quarto com o cabelo bagunçado e o lábio sangrando.

—Você apanhou de uma humana? —os olhos de Brick subitamente se iluminaram com divertimento e Boomer lhe lançou um olhar feroz.

—Ele não foi o único —Blossom murmurou sob sua respiração ao que Brick lhe olhou com desprezo e atirou um tecido branco na cara dela. Uma rápida inspeção lhe informou que aquele tecido era uma camiseta cinco vezes maior que ela. Ótimo.

—Seu soco não serviu nem ao menos para me fazer cogitar sentir dor —o ruivo retrucou ajeitando o boné vermelho na cabeça sem dar maior atenção a ela.

—Eu subestimei ela —respondeu Boomer com simplicidade. Virou-se para Blossom: —Você. Vai falar com ela.

—Desde quando eu concordei em obedecer você?

Brick bufou e respondeu por Boomer:

—Desde que ele é o captor com poderes e você a capturada sem poderes. Agora vai. Antes que eu tenha que te forçar e, Powerpuff, você não vai gostar se eu tiver que fazer isso.

Resistindo a tentação de cuspir na cara dele, Blossom pisou para dentro do quarto escuro que abrigava Bubbles e olhou para trás, para os dois meninos que ela odiava só não mais do que odiava Ele.

—E Buttercup?

Um flash verde escuro a cegou por um breve momento e então Buttercup estava ao seu lado, jogada no chão, cabelos emaranhados e com os olhos queimando, fixando um único ponto verde que havia se materializado ao lado de Brick e Boomer.

—Você pode ficar com ela —disse Butch com selvageria, enquanto Buttercup se levantava, ainda encarando. —Eu não vou desperdiçar nem mais um minuto com essa Powerputa.

O avanço que Buttercup fez na direção dele foi interrompido pela porta batendo em sua cara. E, mesmo que os Rowdyruff Boys provavelmente nem mais estivessem ali parados, ela podia sentir a risada dele vinda de algum lugar do apartamento, fazendo cada osso do seu corpo vibrar.

Ela virou bruscamente para Blossom abrindo a boca para reclamar, mas a ruiva levou um dedo aos lábios indicando silêncio. Eles conseguem nos ouvir, Buttercup quase podia ouvir e ver a irmã falando, embora o quarto estivesse completamente escuro. A irmã ruiva disse suavemente:

—Bubbles?

Buttercup tateou pelo interruptor impacientemente e acendeu a luz.

Ao primeiro momento, o quarto parecia deslumbrante, todo pintando de creme, com móveis dourados reluzentes que gritavam limpeza. Ou pelo menos estariam gritando limpeza, se os lençóis brancos da cama não estivessem com algumas gotas de sangue. Levantando um pouco o olhar na cena, Bubbles estava sentada próxima do sangue, olhando para as mãos em punho, cujas articulações estavam com feridas abertas. Então ela tinha socado a cara de Boomer assim como Blossom socara a de Brick, e tinha socado muito bem.

O humor de Buttercup subitamente melhorou.

—Essa é a Bubbles que eu conheço. Ele tentou algo?

—Além de nos manter em cativeiro nessa prisão de luxo? Não —Bubbles suspirou e se levantou, rumou para o banheiro e abriu a torneira para lavar o sangue. Ela olhou para as irmãs pelo espelho e disse: —E pelo estado de vocês duas, eu não fui a única que se esforçou para conseguir algum resultado neles. Mas... e agora?

Blossom fez um muxoxo.

—Brick me disse que se nos comportarmos, eles nos deixarão ir.

—E você acredita nele? —Buttercup estava incrédula.

—Sim. Tenho que acreditar —respondeu Blossom tranquilamente, mas sua expressão dizia outra coisa. Sem fazer nenhum som, ela moveu os lábios formando as palavras "me dêem tempo, vou pensar em algo."

—Tudo bem então, se Blossom acredita, então nós também acreditamos —disse Bubbles. Ela trocou olhares significativos com Blossom e Buttercup e continuou: —Nós conseguimos nos comportar, meninas.

Blossom assentiu e caminhou para o outro lado do quarto para levantar as persianas, e então abrir a própria janela. O céu estava rosa claro e uma brisa gelada de fim da tarde bateu em seu rosto enquanto ela respirava fundo. Ela sabia onde estava —era um apartamento de luxo que, se sua memória humana não lhe falhasse, havia sido construído quando ela estava por volta da idade de 13 anos. A garota se inclinou para fora e analisou todos os lados. Eles estavam no andar da cobertura e o prédio provavelmente tinha uns 30 andares, mas as construções mais próximas eram estabelecimentos comerciais baixinhos, impedindo que as garotas conseguissem pular. Não há maneiras de escapar, Brick havia dito. Veremos.

Ele fechou a janela e encontrou Bubbles e Buttercup no meio do processo de se despir. Blossom ergueu uma sobrancelha.

—O quê? —Buttercup deu de ombros. —Estamos aproveitando a hospitalidade de nossos anfitriões —ela passou a camiseta branca pela cabeça —a peça por pouco não continuou caindo pelos ombros ossudos dela, fato que a fez resmungar com impaciência. —Eles são burros ou estão querendo nos irritar?

—Esperem aqui, eu vou verificar se eles não tem algo menor —Blossom foi até a porta. No momento em que pisou para fora do quarto, a garota ruiva bateu de encontro com uma pedra trêmula. Ela levantou o olhar, confusa, para que seu rosto imediatamente assumisse um tom irritado.

—Sabe —Butch, a pedra trêmula, disse sorrindo. —É muito engraçado ver vocês olhando pra gente com ameaça, sendo que vocês não podem fazer nada.

—Você estava escutando a conversa? —ela cruzou os braços.

—E se eu estivesse? Essa é a minha casa. Minhas ordens. Eu posso fazer o que eu quiser com você aqui porque esse é o meu espaço. Na verdade, acho que eu vou fazer xixi em vocês três para marcar território.

O ruído de nojo de Blossom foi abafado por uma risada. Boomer se aproximou deles no corredor e disse:

—Brick foi arrumar algumas coisas de meninas para vocês. Mas não fiquem muito animadas. Ele só não quer as três gralhando em cima dele.

Blossom ficou lívida.

—Nós não iríamos... Escute, o mínimo de contato que tivermos com ele ou com algum de vocês, melhor. Ele está esperando demais.

—Ah, não funciona assim para ele —Boomer disse. —Você vai ficar muito feliz em saber que ele mandou a gente pegar a nossa Powerpuff correspondente e ficar de olho nela.

—Coitada de você —Butch riu. Os dois pareciam estar tão à vontade, conversando com ela daquela maneira... Só tornava as coisas ainda mais doentias. —Você pegou o pior Rowdyruff Boy para te vigiar.

—Vocês três são todos lixo do mesmo saco —ela levantou o queixo.

—Continue com as ofensas, gatinha, que nós continuamos com nossos poderes.

—Agora —Boomer anunciou, batendo as mãos juntas. Ele analisou Blossom com aquele sorriso maleficamente meigo por alguns segundos sufocantes, e então chutou a porta do quarto que ela havia acabado de sair, que voou aberta com um som de pancada altíssimo. Bubbles e Buttercup soltaram gritinhos e, graças a Deus, elas já estavam vestindo as roupas brancas largas que os meninos deram. —Como vocês sobreviveram?

—Hora de falar —Butch acompanhou o irmão para dentro do quarto. —Ou cabeças vão rolar. Não foi uma piada.

—Não! —Blossom respondeu automaticamente, invadindo o quarto junto com Boomer e Butch, extremamente alvoroçada. —Isso não é da conta de vocês! Não!

—Ah, vamos lá, Powerpuffs —Boomer despreocupadamente se sentou na cama e Buttercup pulou para fora de lá na hora, parecendo um animal que acabara de ser ameaçado. O loiro sorriu para ela, chacoalhou os cabelos espetados e jogou o corpo para trás, se deitando na cama de braços abertos. —Vocês não ficariam curiosas?

—Se eu vou ter que ficar presa aqui, significa que esse quarto é meu, então saia da minha cama —Bubbles rosnou se elevando sobre Boomer.

Ele apontou o dedo na cara dela. Ela bateu com raiva na mão dele para espantá-lo, mas ele continuou apontando, agora sério.

—Você me socou alguns minutos atrás, o que não foi um bom começo para o nosso relacionamento, então vai se foder.

Buttercup apareceu torcendo o braço de Boomer para trás. Ele se contorceu pela surpresa, mas logo em seguida estava educadamente olhando para ela, zombando ao parecer dizer "É sério isso?"

Vai se foder você. Não fale com ela, não toque nela, nem ao menos olhe pra ela.

—Com licença —Boomer mal puxou o braço torcido delicadamente e ele já se soltou, tamanha era sua força. Ele se sentou na cama de pernas cruzadas e olhou para as meninas, sorrindo ironicamente. —Já acabaram com as ofensas? Vocês sabem que isso não vai levar a nada. Estão prontas para nos contar como sobreviveram?

—Brick ordenou que vocês arrancassem algo de nós? —Blossom estreitou os olhos.

—Claro que não —respondeu Butch, se jogando na poltrona ao lado da cômoda. Um pedaço de pano que era uma blusa antiga de Buttercup lhe chamou a atenção e ele começou a revirá-lo entre os dedos, falando distraidamente: —Parece que ele se importa? Bom, nós estamos curiosos. Queremos saber como as belezinhas insistentes aqui se recusaram até mesmo a morrer. Ou alguém trouxe vocês de volta? Por favor, só isso, depois deixamos vocês em paz! Esse sangue é de vocês? —ele apontou para o tecido.

—A maior parte não é —respondeu Buttercup sombriamente. —E eu não vou contar porra nenhuma. Vá ocupar seu tempo com outra coisa.

—Eu até queria, acredite em mim, mas por causa de vocês e do problema mental de Brick temos que ficar presos aqui.

—Vou quebrar o braço da loirinha se vocês não começarem a falar agora —Boomer cantarolou e Bubbles agarrou o braço instintivamente.

—Gostaria de ver você tentar —ela atirou de volta.

—Ou vocês são muito corajosas ou muito burras por estarem falando com a gente nesses maus modos —Butch riu e Boomer se juntou a ele. As garotas experimentaram um momento de devaneio enquanto elas arrancavam aquele sorriso da cara deles com espancamento. —Eu particularmente acho mais provável a segunda opção.

—Engraçado você nos chamar de burras —Blossom estava delineando a borda da cômoda perto de Butch com a ponta do dedo, olhos baixos assim como sua voz, que pingava veneno. Uma coisa poderia ser dita sobre ela, ela tinha a assustadora habilidade de tornar um ambiente pesado e fazer as outras pessoas se sentirem pequenas. Ela encarou os olhos dos meninos e prosseguiu: —Não foi o papai de vocês que esteve lhes usando todos esses anos para depois descartá-los como o lixo que vocês realmente são? Vocês só são carcaças. Máquinas que cumprem um comando. Não tem inteligência nisso.

Se aquilo desestabilizou os dois garotos, eles foram rápidos o suficiente para esconder antes que os olhos humanos das meninas registrassem. Tudo o que Butch disse foi, no mesmo tom leve, ainda que agora um pouco mais seco:

—Meu Deus, ela é igual o Brick —ele olhou para Bubbles e Buttercup. —Como vocês aguentam isso? Eu não aguento isso.

—Vocês vão contar a droga da história ou R.I.P. braço da loira? —Boomer se levantou e piscou ameaçadoramente para Bubbles, que mostrou os dentes.

—Eu consigo suportar um braço quebrado numa boa, meninas —ela revirou os olhos. —Não há muito que contar, de qualquer forma.

—Ainda queremos saber —disse Butch, se levantando também. Ele e Boomer foram para a porta. —Anda logo com essa merda.

Buttercup fechou os olhos e respirou fundo.

—Tanto faz, meninas... De verdade, não é uma grande coisa. Blossom? —depois de um segundo, Blossom assentiu. Buttercup se virou para os Rowdyruffs e disse: —Se preparem para ficar decepcionados.


As meninas tiveram que correr para acompanhar os Rowdyruff Boys por alguns corredores cheios de portas, passar por uma sala absolutamente gigante para depois entrar em outro cômodo também grande, ainda que menor do que o anterior, que servia como sala de jantar. A mesa preta laqueada era comprida demais, tanto que eles cinco só ocuparam uma das pontas. Havia um lustre centralizado para estar pendurado no meio da mesa e no canto da parede havia um bar de bebidas com duas banquetas.

—Entããão...? —Boomer incentivou, assim que havia se ajeitado em sua cadeira.

Buttercup suspirou e, vendo que suas duas irmãs ignoravam os meninos sem muita vontade de falar, ela começou:

—Quando Ele soltou aqueles destroços em cima da gente, um pequeno alçapão se abriu e se fechou rapidamente no asfalto —foi aí que nós caímos sem que ninguém percebesse. Achamos que era algum esconderijo do governo, por este estar tão próximo da Prefeitura. Era um bunker subterrâneo com uns cinco espaços. Mas estava vazio, então... então nem o Prefeito nem mais ninguém pode ter tido tempo de chegar lá.

—Um alçapão no asfalto na frente do Palácio do Ele?! —Butch não conseguia acreditar, mas não parecia que as Powerpuffs estavam mentindo. —Boomer, me lembre de avisar o Brick. Ele com certeza vai querer verificar isso.

—Vocês não... —começou Bubbles, e olhou para baixo, parecendo discutir internamente. Ela acabou por decidir que seria melhor tomar uma negação do que permanecer na dúvida para sempre. —Vocês sabem onde estão o Prefeito e a senhorita Bello?

Ops, aí morava um problema. Quanta informação eles poderiam dar para essas meninas? Brick não havia conversado com eles dois sobre isso, mas eles presumiam que perguntas sobre informações sigilosas estavam terminantemente proibidas de serem respondidas. Mas ainda... Ele havia colocado essas informações como secretas. E os Rowdyruff Boys não respondiam mais a Ele. Pelo menos não debaixo dos panos.

Mas. Eles não queriam e não deveriam dar uma coisa que as Powerpuffs queriam —e pelo tom de voz da loira, aquela era uma informação que realmente importava. Ela encarou os olhos de Butch e depois de Boomer, seus próprios olhos azuis brilhando com a esperança de uma resposta ou se preparando para receber um comentário rude. Butch deu de ombros e indicou com a cabeça para Boomer decidir, e este resolveu responder honestamente:

—Nunca ouvi falar nessa mulher. E não sabemos onde o Prefeito está.

Houve um sonoro suspiro de alívio coletivo saindo das meninas e elas puderam finalmente relaxar e encostar-se à cadeira com mais conforto. Butch não deixou de reparar na postura delas —ele percebia muito isso nas pessoas, e as vezes a análise da linguagem corporal (principalmente em mulheres) se tornava algo útil para ele. Embora um peso gigante parecesse ter saído de cima dos ombros delas, elas não estavam nem perto de parecer relaxadas. Também, pela expressão recorrente nos rostos delas, o garoto se perguntou como elas ao menos conseguiam dormir.

Isto é, se elas dormiam. Não o surpreendia nada o fato de elas terem dormido por três dias depois de chegarem ao apartamento com camas confortáveis dos meninos.

—Bom —Blossom continuou, parecendo ter assumido uma nova perspectiva. Prefeito e senhorita Bello podiam estar vivos, afinal de contas. Era só uma chance, mas era tudo o que elas tinham. —Uma vez que, além dos espancamentos sofridos pelo Ele, nós também caímos de uma altura consideravelmente perigosa para seres humanos naquele estado, nós demoramos muito tempo para acordar. Quando acordamos, exploramos o lugar e lá tinha tudo o que precisávamos. Kit de primeiros socorros, comida enlatada, água, camas, chuveiros, roupas...

—Então depois de algum tempo, nossos ferimentos praticamente sararam por completo —Bubbles soava como se ainda tivesse 14 anos e Blossom e Buttercup seguraram a respiração —a Bubbles adorável que elas tanto sentiam falta estaria retornando? —Era hora de finalmente subir e ajudar as pessoas.

—Ajudar as pessoas como? —Boomer deu uma risadinha descrente. —Ele jogou o Antídoto X em vocês, eu vi. Vocês não têm poderes.

—Parecemos o tipo que corre de briga? —Buttercup levantou uma sobrancelha. —O tipo que vai deixar um detalhezinho minúsculo, como não ter poderes, nos impedir?

—Hum... acho que não.

Butch levantou um dedo.

—Ter superpoderes não é um detalhezinho.

—Para você! Duvido que, se fossem vocês sem poderes, conseguiriam fazer metade das coisas que fizemos durante todos esses anos!

—E vocês fizeram...?

—Nos dividimos para cobrir vários estados ao redor, mesmo assim mantendo Townsville como prioridade —respondeu Blossom, sem conseguir esconder o seu orgulho. —Nós espionávamos comunidades de sobreviventes e descobríamos o que precisavam com mais urgência. Então procurávamos os itens ou roubávamos da sua gente e jogávamos perto deles para que pudessem achar. Isso tudo sem deixar que uma única pessoa sequer visse nossos rostos.

—Não acredito em vocês —uma voz diferente disse e todos pularam com o susto.

Por incrível que pareça, não foram as três meninas humanas que mais se sobressaltaram com aquela voz. Boomer e Butch olharam para cima de olhos ligeiramente arregalados, parecendo... culpados? Eles estavam no mínimo desconfortáveis e evitando o olhar de seu irmão Brick, que havia acabado de entrar no cômodo e, pela expressão cética no rosto, tinha escutado boa parte da conversa. Ele continuou:

—E olha, eu estou tão feliz de ver que todos estão se dando tão bem uns com os outros. Já estão trocando figurinhas?

—Que bom que isso nunca vai acontecer —retrucou Buttercup bufando.

Blossom deu um sorrisinho malvado para sua contraparte.

—Você só está bravo por três garotinhas humanas indefesas terem conseguido fazer mais do que você sequer fez algum dia tendo poderes.

—É, basta olhar pela a janela e ver o progresso que vocês fizeram no mundo durante todos esses anos. Quem está ganhando? A sua paz do Vale do Arco-Íris ou a nossa destruição?

—Ele está ganhando —Bubbles atirou, lívida. E ela pensara que ele era o irmão inteligente. —Não nós, não vocês, nem mais ninguém. Apenas Ele. E vai continuar assim se algo não for feito rápido.

—É exatamente por isso que eu trouxe vocês aqui —Brick puxou uma cadeira e se sentou nela. —Nós vamos matar o Ele. Vocês podem ser úteis para mim, pois tem anos e anos de informações sobre o cara. E quando chegar a hora, a sua presença pode ser um bom elemento surpresa para desestabilizá-lo.

—É um começo —Blossom precisava ser cautelosa ao entrar nessa área. —Mas conhecemos vocês a nossa vida inteira. Sabemos que quando isso acabar, vão nos matar. Porque colaborar, então?

—Vocês não têm ideais de altruísmo, dar a vida pelo outro, ou qualquer coisa parecida? Se vocês morrerem, vão morrer sabendo que seus seres humaninhos preciosos estão livres do Ele. Deveriam estar nos agradecendo agora, estamos quase fazendo um favor.

—Não é um favor, vocês só querem se vingar porque o papai não fez o que vocês queriam —Buttercup estralou os dedos. —Então nossos seres humaninhos preciosos estão livres do Ele e nas mãos de gente como vocês. E nada muda.

—Felizmente para você —Butch disse. —Temos zero interesse em governar.

—Só queremos causar discórdia —Boomer acrescentou piscando um olho.

—E de qualquer forma, eu já te falei —Brick olhou para Blossom. —Se vocês se comportarem e concordarem em colaborar, eu deixo vocês irem.

Ele não soava convincente. Mas ainda assim, era Brick, um Rowdyruff Boy. Ele jamais pareceria estar falando a verdade para as meninas, a não ser que as estivesse ofendendo. Ele sabia que elas não acreditavam em nenhuma palavra do que ele dissera e, pela sua expressão vitoriosa, também sabia que elas não tinham outra opção. Isso o fez dar um sorrisinho malicioso que Blossom respondeu com um brilho assassino.

Ele se inclinou para frente e disse:

—Então, já que vocês aceitaram por livre e espontânea vontade, isso torna as coisas oficiais. Aqui estão as regras: vocês não entram nos nossos quartos, não entram na biblioteca, não entram na sala de TV, não entram na sala de treino, mas eu vou ser legal e deixar vocês passearem na sala e na cozinha... É melhor que nada. Vocês três não dormem no mesmo quarto, porque a última coisa que eu preciso é vocês fazendo planos para nos matar enquanto dormimos. E por favor, não encham o saco. Eu, muito mais do que vocês, quero resolver as coisas logo para ter as três fora da minha casa.

—Mais alguma coisa? —o tom de voz de Bubbles era cortante.

—Sim —ele respondeu com desprezo, esticando os braços para trás da cabeça. —Eu pedi pizza. E vou deixar vocês comerem.