3.
Nós andamos por cerca de dez minutos até o Parque Nakanoshima, tempo suficiente para Shikamaru tragar mais um cigarro. Yoshi tentava correr a nossa frente o caminho inteiro, lutando contra o restringimento de sua coleira, praticamente se sufocando, como se o passeio fosse a coisa mais excitante do mundo. A tarde ia se esvaindo, colorindo o céu em tons de laranja e a temperatura começava a cair. Em uma tentativa, com pouco sucesso, de bloquear o frio, eu tentava colocar minha jaqueta mais próxima ao meu corpo.
"Vocês seguem a mesma rota toda vez que saem para caminhar?" eu perguntei a Kazuo.
O velho balançou sua cabeça em negativa. "Nós tentamos um caminho diferente sempre que possível. Depende do clima, de quanto tempo temos, esse tipo de coisa. O parque é grande, afinal."
O parque era, de fato, grande. Árvores se estendiam pelo meu campo de visão. Eu conseguia ver, mais a frente, um campo de futebol vazio e uma ponte que atravessava um pequeno lago.
"Na noite em que encontrou Tenten Shiranui, qual caminho você seguiu?"
Tanaka apontou para uma trilha que seguiu entre grandes árvores. "Caminhamos na trilha que segue a margem do Rio Tosaborigawa."
"E onde você viu Tenten Shiranui?"
Tanaka pediu para que o seguíssemos. Andamos por quase mais dez minutos até o local, nos sentando em um banco vazio, encarando as margens do rio. Yoshi pulava na perna de seu dono, indicando que queria continuar a caminhada. Eu olhei para o Nara, que rapidamente captou minha intenção. Para que isso funcionasse, quão menos distrações Kazuo tivesse, melhor. Shikamaru pegou a coleira do cachorro e seguiu caminhando, saindo do nosso campo auditivo.
Uma entrevista cognitiva difere de uma entrevista padrão pelo fato de você tentar levar o entrevistado de volta a cena estudada, fazendo-o reviver as sensações e impressões que o marcaram no momento. No lugar de focar no evento em questão, você o circunda, olhando para ele através de diferentes sentidos. As memórias que esse método evoca são consideradas mais fidedignas do que as obtidas pelos métodos mais tradicionais. Honestamente falando, eu não precisava trazer Tanaka de volta ao local, mas como nós estávamos próximos, achei que não prejudicaria ninguém.
"Eu quero que você feche seus olhos Tanaka-san. Eu farei uma série de perguntas e peço que não censure suas respostas. Eu não me importo o quão estranhas ou insanas elas possam parecer, apenas me diga o que vier a cabeça."
Kazuo me direcionou um olhar cético.
"Confie em mim, vai dar tudo certo. Eu já fiz isso antes."
Ainda não parecendo muito confiante nas minhas instruções, ele fechou os olhos.
"Eu quero que você pense sobre a sua noite de segunda-feira. Você levando Yoshi para passear como de costume. Que horas são?"
"Próximo das dez horas. Eu sempre o levo pra caminhar perto das dez."
"Antes ou depois das dez?"
O rosto enrugado de Kazuo tomou um semblante de concentração, até que relaxou. "Era depois das dez. Eu tinha acabado de assistir a um programa de TV. O noticiário estava prestes a começar."
"Como o tempo estava?"
"Estava chovendo."
"Descreva a chuva. É intensa? Fraca?"
"Era uma daquelas garoas, sabe? Pode não estar chovendo forte, mas você acaba ensopado mesmo assim."
"O parque está lotado?"
"Nesse tempo e nessa hora?" Kazuo balançou a cabeça. "Não, era apenas eu e Yoshi. E Tenten, é claro."
Eu ignorei a menção de Tenten porque nós não havíamos chegado a esse ponto da história ainda. "Como você está se sentindo?"
"Um pouco irritado, na verdade. Eu tinha levado meu carro para a oficina mais cedo e me cobraram uma fortuna. Agora eu estava passeando com meu cachorro na chuva. Só vamos dizer que já tive dias melhores."
"O que você consegue cheirar?"
"... terra molhada?"
"O que você consegue enxergar?"
"Poças d'água que se formam pela trilha. Estou com minha cabeça abaixada para evitar a chuva no meu rosto."
"Você está andando rapidamente ou devagar?"
"Rapidamente. Eu só quero voltar pra casa o mais rápido possível e sair da chuva."
"O que Yoshi está fazendo?"
Um sorriso. "Arrastando-me pelo caminho, como sempre. Mesmo com a coleira, às vezes tenho a impressão que é ele que me leva para passear e não o contrário."
"Como você percebe que Tenten está no parque?"
"Alguma coisa me chama a atenção. Um movimento fora da trilha, próximo à descida que dá no rio."
Com um quase imperceptível aceno de cabeça, Kazuo me indica a direção do local da narrativa. Mesmo iluminado pela luz do fim de tarde, não me parecia ser o terreno mais seguro para caminhar.
"Como ela está se movendo?"
"Vacilante. Ela cambaleia como se estivesse bêbada. Minha primeira impressão é que ela está totalmente inebriada. Eu não quero ficar encarando, mas você sabe como é quando vê uma ambulância parada no meio da rua depois de um acidente. É impossível desviar o olhar, sabe? Então eu observo ela cambalear enquanto tenta descer o terreno íngreme em direção à margem do rio e me parece estranho que esteja sozinha. Não há sinal de um namorado ou de alguma amiga. Está escuro e é tarde. Não é o lugar de uma mulher estar sozinha. Eu começo a ficar preocupada quando percebo que ela está se direcionando ao rio, como se fosse entrar nele. Eu corro e por muito pouco consigo segurar seu braço a tempo de impedi-la. Se ela tivesse entrado na água nesse tempo do ano, morreria afogada ou de hipotermia. Muito provavelmente, de ambos."
O resto da história estava no registro policial. Tanaka tentou conversar com ela e quando percebeu que ela não conseguia responde-lo, a levou do parque até o único estabelecimento aberto nas proximidades, o Akimichi's Bar, e pediu para que o dono ligasse para a polícia. Kazuo Tanaka era a primeira pessoa que conheci em muito tempo que não possui um celular.
"Eu quero que volte alguns passos para trás, Tanaka-san, volte para o momento que ficou ciente da presença de Tenten. Eu não quero que diga nada, apenas imagine a cena em sua cabeça. Imagine-a o mais claramente possível, cada pequeno detalhe, não importa o quão pequeno ou insignificante. O que você vê? O que você escuta? O que você cheira? O que você sente?"
Eu dei a Kazuo alguns momentos e depois disse para ele abrir seus olhos. Seu rosto enrugado se mostrava confuso.
"O que é?" perguntei.
"Você vai achar que estou sendo paranoico."
"Paranoico ou louco, eu não me importo. Eu quero ouvir o que você tem a dizer." Eu dei um sorriso encorajador e esperei até que ele sorrisse de volta. "Então o que aconteceu? Você foi sequestrado por alienígenas e levado até a nave mãe?"
O sorriso de Kazuo desapareceu rapidamente, seu semblante ficando sério e, seu olhar, um pouco assustado. Ele apontou em direção aos arbustos e árvores a sua direita. Quando retomou a falar, foi com absoluta certeza. Não tinha dúvida de que ele acreditava em cada palavra que estava dizendo.
"Alguém nos observava dali."
eguchi-82: você está online?
flor-de-cerejeira: sim ^^
eguchi-82: ocupada?
flor-de-cerejeira: você ñ faz ideia
eguchi-82: ...nosso encontro hoje a noite ainda está de pé?
flor-de-cerejeira: claro que sim
eguchi-82: não posso esperar até te conhecer
flor-de-cerejeira: eu tbm
eguchi-82: tenho q ir, trabalhando como um louco aqui
flor-de-cerejeira: ok, vejo vc + tarde
eguchi-82: ;*
Sakura saiu da sala de bate-papo, seu sorriso se desmanchando. Quem ela estava tentando enganar? Com trinta anos, já tinha passado da idade de ficar agindo como uma adolescente apaixonada. Só podia estar louca. Ela olhou pela janela de seu cubículo, convencida que os olhos de todos seus colegas de trabalho estariam nela, julgando-a, mas eles estavam com suas cabeças voltadas às telas dos computadores, o som de teclas sendo digitadas e de conversas ecoavam pela sala.
Ela encarava o relatório aberto em sua tela, tentando fazer com que as palavras que lia fizessem algum sentido. Mas era inútil. Ela só conseguia pensar sobre seu encontro. Ela havia dito ao marido que iria para um happy-hour com as garotas do escritório depois do trabalho. Não que ele fizesse questão de saber. Ela poderia ter dito que estava emigrando para o Haiti e ainda assim teria recebido o mesmo desinteressado "Hn" como resposta. Nem sempre foi assim, no começo eles costumavam passar a noite conversando, compartilhando seus dias, sonhos e segredos. Mas esses dias haviam passado, seu relacionamento se desgastando com o passar dos seis anos de casamento.
Embaixo de sua mesa estava sua bolsa, e dentro dela estava seu perfume mais caro, sua lingerie mais ousada e seu vestido vermelho favorito. O vestido ia até um palmo do joelho, como se fosse uma segunda pele, demarcando todas suas curvas, com um leve decote. Sexy sem ser vulgar, o que era importante. Ela não achava que Eguchi fosse do tipo de homem que apreciava vulgaridade. Ele parecia ser um cavalheiro, um homem sensível. E foi isso que a atraiu no inicio. Ter alguém que a escutasse, realmente a escutasse.
Sakura encarava o embaralhado de palavras na tela enquanto dizia a si mesmo que ainda estava em tempo de desistir. Mas logo em seguida pensou na negligência com que o homem que se casara a tratava e soube que isso não aconteceria. Ela já vinha conversando com Eguchi por alguns meses e o quanto mais ela o conhecia, mais gostava dele. Ela nem havia o encontrado, não sabia sequer seu nome verdadeiro, mas o fato é que ele a compreendia como ninguém jamais o fez. Direcionando seu olhar para o relógio no canto da tela do seu monitor, viu que eram apenas três horas da tarde e teve certeza que as próximas quatro se arrastariam como se fosse um último dia de aula.
