Bretanha 268 - 270 d.c
O.o.O
No ano em que completou 21 anos, Radamanthys deixou a casa dos escudeiros para sagrar-se cavaleiro juntamente com Aiacos e Minos, pois o momento de sua iniciação nos mistérios druidas se aproximava e as disciplinas que o prepararia para tal exigia solidão. No entanto, embora os três aprendizes devessem ser mantidos afastados do resto da comunidade, não ficavam completamente isolados dos boatos que corriam a Escócia.
Era um tempo de morte e presságios em todo solo Bretão, assim como em qualquer outro lugar. Uma rede de relações mantinham o rei informado sobre o que estava acontecendo no Império e, de vez em quando, um dos barqueiros da aldeia do Lago levava um canudo de couro contendo uma mensagem, ou o próprio mensageiro, que era conduzido de olhos vendados aos aposentos reais, para comunicar suas informações.
Entretanto, a notícia de que o autodenominado imperador romano Postumus havia sido assassinado por suas tropas, ao se recusar a oferecer os despojos de uma cidade capturada, foi julgada conhecimento essencial, pois fora ele que separara o Ocidente, inclusive a Bretanha, do resto do império.
Um homem chamado Victorinus se apossara do título, mas os boatos afirmavam que ele era um guerreiro de alcova, cujos adultérios já lhe desgastavam o apoio. Dizia-se que era sua mãe, Victorina, quem na verdade governava o então Imperium Galliarum.
Mas para eles, que viviam imersos em seus treinos militares, essas intrigas pouco significavam, pois no final do inverno Minos, o filho do rei e provável Rei das terras altas, perdeu a batalha na última disputa onde os três jovens, os melhores escudeiros que seriam angariados naquele ano, disputavam. E o rei, que entrara num estado de rancor seco, teve que abaixar a cabeça diante da superioridade de seu sobrinho, Radamanthys.
- Quem ele pensa que é? - bradava o monarca - Acha que só porque sabe pegar numa espada vai comandar meu reino?
O ano que seguiu parecia prometer poucas mudanças. Radamanthys ficou sabendo que os povos do mediterrâneo, assolados pela peste e pela fome, culpavam o imperador por suas dificuldades, e Gallienus, como o seu rival ocidental, tombou sob a espada de um assassino.
- E o sucessor? - perguntou o rei ao seu braço direito, Valentine.
- Pouco se sabe sobre Claudius! A não ser que é de um lugar de Danu e um bom general!
- Isso não tem importância! - bradava o monarca, andando de um lado a outro.
Valentine, parado a um canto, segurando ainda alguns manuscritos, mordia os lábios em meio aquela confusão politica.
- Os Romanos não são minha preocupação atual! - refutou Siegmund.
- Sobre isto, trouxe informações! - atalhou Valentine, aproximando-se com uma mensagem nas mãos.
- Os saxãos estão batendo em nossas costas! - falou Valentine, olhando o rei significativamente.
- Dobraram o número de navios? - perguntou Siegmund, lendo a missiva. - Ano passado não passavam de 15 embarcações!
- Eles têm se multiplicado, senhor! - o jovem parecia aflito - Precisamos fazer algo antes que esta guerra estoure!
- Esta batalha é inevitável, Valentine! - o rei jogou-lhe a carta nos braços num gesto de desdém - Há gerações que os saxãos pelejam contra nosso povo!
- Mas não estamos preparados, majestade! - Valentine o encarou - Se entrarmos em guerra, certamente perderemos!
Contudo, o litoral saxão ficava distante. A medida que o ano se aproximava da festa de consagraçãos dos cavaleiros e da colheita, Radamanthys treinva com mais afinco a cada dia e isso dava-lhe uma razão mais imediata a enfrentar. Suas últimas lições eram responsabilidades de estratégias guerreiras e uma vez que o seu tio era obrigado a reconhecer sua existência, como sucessor da Bretanha, era evidente que ainda não aprendera a apreciá-lo mais do que antes.
- Preparado?
Perguntou um dos homens, que naquela manhã, juntamente com um grupo, rodeavam o jovem bretão de cabelos loiros e porte robusto, para mais um treino.
- Em posição!
O homem deu a ordem ao receber um aceno de cabeça de Radamanthys. Este se encontrava no centro, peito nu, espada na mão esquerda, sem escudo ou elmo. Os homens ao seu redor ergueram suas armas.
- En garde!
Com agilidade, o jovem bretão atacava e defendia-se com destreza, amparando uma estocada nas costas, defendendo a retaguarda de uma violenta maça de ferro com astúcia, derrubando, uma a uma, as enclaves de seus "inimigos". Após atirar longe, num golpe preciso, a espada do mestre de treinamento, estendeu-lhe a mão para levantá-lo. Este sorriu.
- Está indo muito bem! - disse-lhe.- É um perfeito guerreiro!
- Me esforço para isso! - completou o jovem. - O senhor é o melhor espadachim de todo território!
- Você certamente herdou sua facilidade em manejar uma espada de seu pai! - volveu-lhe Tarvos - Possui o sangue frio necessário para atacar sem piedade e a humildade certa para saber conduzir-se no campo de batalha!
Radamanthys o encarava com orgulho. Admirava-o como sábio e como general.
- Será um grande rei! - completou Tarvos - Pergunto-me....- fitou o jovem nos olhos -...Se também será justo!
- Serei o que me ensinou a ser! - respondeu Radamanthys.
- Sabe que possui inimigos perigosos, não é?
Atalhou o homem, caminhando ao lado do aprendiz, enquanto este debruçava-se sobre uma tina com água para lavar o rosto.
- Fala do meu tio? - volveu Radamanthys - Ter um rei como inimigo pode me ser embaraçoso! Mas não tenho medo dele!
- O medo é necessário! - advertiu Tarvos.
- Não entendo porque se submete a ele! - retorquiu o jovem, olhando-o com afetação - Meu tio é um tirano!
- As vezes é preciso servir para poder comandar! - Tarvos o olhou paternalmente - Um dia você entenderá!
E dando um leve tapa nas costas do rapaz, afastou-se, não sem antes comentar:
- Não se atrase esta noite!
Radamanthys sorriu. Era hoje! A noite em que finalmente seria um cavaleiro bretão! Voltou-se para guardar a espada, mas a aproximação de Valentine o impediu de completar seu pensamento.
- O rei quer vê-lo!
- Agora? - interrogou o rapaz.
- Imediatamente! - refutou Valentine.
Era um dia claro, logo após o solstício de verão e por entre as folhas da sebe de pilriteiros ele podia vislumbrar a cintilação do azul do lago. Nesse dia, as brumas eram apenas uma névoa fina no horizonte. Era difícil acreditar que naquelas paragens tão paradisíacas houvesse como governante o próprio "diabo", como dizia os crsitãos.
Radamanthys, colocando uma veste por cima do tronco, encaminhou-se ao encontro do tio. Siegmund o esperava na sala do trono. À Radamanthys, pareceu que o olhar do tio se demorou mais sobre ele do que o habitual. Ele o encarou, conservando ainda na memória a lembrança de quando atravessou as brumas pela primeira vez.
- Chamou-me? - perguntou, após reverenciá-lo.
- Sim, meu sobrinho! - falou o rei, fazendo um sinal para que Valentine os deixasse a sós.
- O que deseja?
- Em breve você será enviado além das brumas, para o mundo real! - disse o monarca, esparramado no trono e fitando-o com desdém.
- Conheço meus deveres! - respondeu Radamanthys - Pretendo voltar para o lado de meu pai o mais rápido possível! - completou - Quero combater os cristãos!
O rei esboçou um ar de riso e apoiando a mão no queixo, indagou.
- Você se preocupa demais com o que não oferece perigo! - disse - Os cristãos não vão longe!
- Penso o contrário, senhor! - falou o jovem - Penso que eles podem sim serem muito mais perigosos do que pensamos!
- O que você pensa não me interessa! - disse o rei, dando a discussão por encerrada. - O que quero informá-lo é que antes de voltar para casa irá a outro lugar!
- Mas...
- É a paga por tê-lo aturado estes anos todos! - completou Sigmund - Você é um rapazinho muito arrogante e não é um bom guerreiro!
Radamanthys sentiu o sangue ferver. Decerto ele queria testá-lo, mas sabia que diante de qualquer prova justa, com toda sua instrução, não iria fracassar.
- Para onde serei enviado?
- Você deve compreender...- começou o rei, depois de um curto silêncio - ...Que será seu desafio! Você partirá sem nenhum objeto pessoal e tirará sua sobrevivência do que estiver ao seu alcance!
- Já passei por este teste! - falou Radamanthys.
- Não se trata mais de questão militar, mas de sua iniciação nos mistérios druidas! - refutou o monarca. - Disciplinar o corpo e a mente necessita desafios! Você deve, verdadeiramente, sentir-se digno de ingressar nos mistérios!
- Aonde eu serei enviado? - voltou Radamanthys.
- A Saxônia! - declarou o rei.
Fez-se um longo silêncio. Em seguida, Radamanthys refutou, confuso:
- A Bretanha é o meu lar! Para sentir-me digno de ser um druida não preciso ir à terras inimigas! - ele franziu o cenho - O que o senhor pretende?
O rei ergueu-se.
- Você fez um juramento quando principiou seus estudos como pajem! - disse - Ainda não os concluiu e portanto, está sob minhas ordens ainda!
- Não creio que aventurar-me fora de meus domínios esteja em meu treinamento!
- Modere seu tom ao se dirigir ao rei! - bradou o monarca com toda sua autoridade.
- Não estou mais me referindo ao soberano, mas a meu tio! - Radamanthys o encarou com altivez - Sei muito bem o que pretende!
- Eu ordeno que se cale! - berrou Siegmund.
- Quer por seu próprio filho no trono da Bretanha! - Radamanthys já não podia controlar-se - Nunca aceitou o meu pai ter sido o escolhido para sucessor!
- Você não sabe o que diz! - grunhiu o rei. - Cale-se!
- Mas eu digo que porei um fim nas suas ambições desmedidas!
O monarca acompanhava com um olhar de ódio as palavras do sobrinho, seu cenho estava violentamente franzido. Radamanthys teve tempo de voltar ao normal.
- Concluirei minha iniciação nos Mistérios da maneira que achar melhor! - disse por fim - Mas lembre-se: Você não governará a Bretanha através de Minos!
E dando as costas ao rei, sem nem ao menos acenar-lhe, deixou o recinto sob o olhar transtornado deste. Ainda enfurecido, o jovem encaminhou-se para fora, sob o frio sol da manhã. Aiacos, afastando-se de um grupo com quem conversava animadamente, chegou-lhe ao pé:
- Algum problema?
- Meu tio! - retrucou Radamanthys.
- As pessoas desta aldeia não eram tão tolas! - disse Aiacos, cruzando os braços - Não sei porque permitem déspotas como Siegmund!
- Porque o rei da Bretanha o apoia! - concluiu Radamanthys, lembrando-se do pai - Mas quando eu for o rei, isso vai mudar!
- Houve períodos em que falávamos abertamente dentro de nossas casas e períodos em que permanecíamos presos, como rodeados pelas brumas! - Aiacos parecia filosofar - Mas agora esta terra se acha sobre uma cratera, cujo poder destruirá tudo se não fizermos algo!
Os olhos de Radamanthys baixaram e Aiacos desviou os seus para o nada. De repente, erguendo o olhar na direção da ária de treinamentos, o jovem bretão divisou seu primo e percebeu que o tio seria capaz de tudo pra conseguir o poder. Até colocar a vida do próprio filho em perigo. Suspirou.
- É por isso que tenho quase me matado de tanto treinar, Aiacos! Para realizar esta grande obra: salvar a Bretanha!
- Eu estarei com você! - volveu o jovem de origem oriental.
Radamanthys o encarou com amizade. No começo viam-se como rivais na espada, mas a medida que o tempo ia passando, a tensão abrandava-se e acabou surgindo uma grande afeição entre os dois. Cada ano parecia trazer um novo entendimento enquanto aprimoravam habilidades que pensavam estarem dormindo.
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A visão estava se desvanecendo. Relutante, Radamanthys deixou a imagem do Tor coruscante e retrocedeu sobre seus passos, em círculos, até voltar ao jardim. A medida que a hora da cerimônia se aproximava, quedava-se mais nervoso. A voz de seu guia na sua firme orientação, impedindo que ele se extraviasse, até que a esplêndida lembrança de sua viagem interior se tornou a cena familiar que ele via todos os dias.
Abiu os olhos, piscando sobre os últimos raios do sol e colocou as mãos sobre a terra, para se fixar novamente no seu poder. A sebe de pilriteiros e as ervas cultivadas com cuidado ainda eram belas, embora houvessem perdido as bordas resplandecentes que havia visto na sua terra.
Aiacos e Minos já estavam prontos para os festejos e aproximaram-se dele naquele momento. Radamanthys suspirou profundamente o ar perfumado e deu graças aos deuses por novamente trazê-lo de volta da meditação com segurança.
- A visão só surge para aqueles que foram instruídos à maneira antiga, como nós estamos sendo instruídos aqui! - falou Minos.
Radamanthys sacudiu a cabeça. Desde que começara a se iniciar nos mistérios que passara a pesar sobre ele a luz da manhã, filtrada entre as folhas de macieira, revelando com impiedosa nitidez toda sua realidade. Se o rei não houvesse deixado tão explícito que só o aceitara por ser seu sobrinho, ele quase poderia ter sentido pena dele.
- Há muitos dentre nós em quem o dom se manifesta intensamente...- respondeu Radamanthys - ...Mas isso lhes traz poucos benefícios, pois surge espontâneo, sem controle! Despreparados, não saberiamos distinguir percepções sujas nem como concentrar o nosso poder quando queremos!
Minos franziu a sobrancelha, pensativo:
- É por isso que devemos ser cuidadosos quanto ao lugar e a situação em que nos permitimos ter visões?
Aiaco inclinou a cabeça, perguntando-se se o jovem futuro rei da Bretanha temia pela segurança de sua visão ou que sua visão pudesse escapar de seu controle. Parecia-lhe presunção que alguém pudesse estabelecer tais limites às mensagens dos deuses.
Já havia algumas semanas que eles vinham aprendendo as muitas maneiras de ler os sinais dos deuses. Os druidas conheciam a arte de interpretar presságios, o transe dos Bardos e a visão em sonhos que surge quando o sacerdote dorme envolto pela pele do touro sacrificado.
Tais habilidades eram também praticadas pelos saxões. A gente de Gales usava pequenos cogumelos que podem proporcionar visões mesmo aos que não possuiam o Dom e os negociavam com os escoceses, em troca de remédios.
Mas havia outro método, usado apenas pelos bretões, que era a arte de ver imagens em lagoas ou no período das grandes festas. Radamanthys ouvira falar deste último, mas se o rito havia sido realizado desde que chegara às terras altas, só os cavaleiros de nível mais alto sabiam.
- Agora vamos! - disse Aiacos - Vocês acham que são videntes porque podem viajar em espírito, mas este é apenas o primeiro passo!
- Esta noite....- Minos sorriu entusiasmado -....Tentaremos ver imagens no fogo e na água! E então descobriremos se algum de nós três possui o Dom para ter visões!
Os três jovens encaminharam-se até o centro dos festejos. Muitos refestelavam-se com cerveja, vinho e carne, cujo forte odor enchia todo o local. O rei ocupava seu lugar de costume, no centro da grande mesa, rodeado de seus séquitos. Ele fitou Radamanthys com semblante afetado. Seja lá o que estivesse planejando, Radamanthys sabia que ele não ficaria satisfeito de vê-lo ocupar o lugar de seu filho.
- Aproximem-se, jovens escudeiros das terras altas! - gritou Tarvos, responsável pela cerimônia. - Ajoelhem-se diante dos três grandes faxos a quem jurarão lealdade e amor!
Os rapazes, ambos trajando uma túnica branca e outra vermelha, símbolo da pureza e do sangue que iriam derramar pelo pais, quedaram-se abaixados, arqueando levemente as cabeças.
- Eu juro...- começou Radamanthys ao ter seu nome chamado pelo mestre - ....Honrar e respeitar a religião de meus antepassados, proteger os fracos, os órfãos e cumprir minha palavra dada! - dizia com tom firme - Ser leal na guerra, servir ao soberano e ser cortês com as mulheres!
- Em nome dos deuses, seu juramento foi aceito! - gritou Tarvos, belamente vestido para o ritual.
- Minos de Cornwall! - chamou Tarvos.
O jovem fez seu juramento, repetindo as palavras do primo e por último Aiacos também teve sua vez de prestar sua palavra. A um comando de Tarvos, ambos ergueram suas cabeças, ainda de joelhos, e viram a aproximação do rei, imponente em suas roupas guerreiras.
Sigmund travou de sua espada e solenemente, tocou a cabeça de cada um dos garotos, que após receberem sua armação, levantava-se, aproximava-se de seu cavalo e o montava sem colocar os pés no estribo. Um fulvo e megalomaníaco festival de aplausos soou pela clareira.
- Sejam bem-vindos....- disse Tarvos -...Corajosos guerreiros de Kerridwen!
E os reverenciou.
O restante da noite foi trabalhosa para os três novos cavaleiros. Ambos tiveram de esfregar as pedras do Caminho da Procissão, pois Siegmund acreditava firmemente no esforço como um meio de cansar o corpo e ocupar a superfície da mente. Além disso, imaginava Radamanthys, o trabalho árduo se destinava a impedir que se dessem ares de superioridade.
Mas mesmo com a distração, Radamanthys podia sentir a tensão apertar-lhe o estômago a medida que se aproximava a hora de testar a visão. Quando o sino convocou o resto da comunidade para comer, os três sentaram-se a sós, pois este esforço se realizava melhor com o corpo purificado.
Quando foram guiados ao santuário acima da nascente, a madrugada havia caido. Estavam vestidos de igual maneira, com trajes brancos, que pendiam sem faixas na cintura dos ombros até os pés nus, e mantos de lã crua. Os cabelos revoltos ao vento. Ao longo do caminho, haviam sido dispostas várias tochas. Sua luz oscilante refletia nos fios claros de Radamanthys.
Visto através daquele véu dourado, o caminho tão familiar parecia misterioso e estranho. Ou então fosse apenas a expectativa do transe começando a afetá-los. Parecia que naquele momento seria muito mais fácil abandonar a consciência normal e viajar entre os mundos.
Um banco fora colocado sobre a plataforma de pedra. Diante deles, carvões ardiam em um braseiro. Uma mesinha entalhada achava-se bem próxima, com um jarro de prata e um pedaço de pano dobrado em cima. Em silêncio, cada um ocupou seu lugar, com as mãos pousadas nos joelhos.
Foi um sentido diferente da audição que fez Radamanthys voltar-se. Dois homens aproximavam-se com passos firmes e deslizantes. Reconheceu a postura rígida dos ombros de Tarvos antes mesmo que ele alcançasse a luz. Valentine vinha atrás, trazendo nas mãos alguma coisa envolta em linho branco.
- É o Graal? - sussurrou Minos ao seu lado.
- Não pode ser! - murmurou Radamanthys - O único homem que tem permissão para vê-lo é o cavaleiro que o guarda! - Valentine colocou o fardo sobre a mesa - Deve ser alguma outra coisa antiga!
Valentine removeu o pano de linho da coisa que segurara e a ergueu para que ficasse a luz das tochas. Era uma bacia de prata, com algumas mossas, mas polida com esmero, com um desenho cinzelado em torno da borda.
- Dizem que esta bacia foi usada para ver imagens em Vernemeton, a Casa da Floresta, de onde sairam os primeiros cavaleiros druidas que habitaram a Bretanha! - disse Tarvos - Roguem aos deuses que a toquem agora!
Radamanthys pestanejou, enquanto por um momento à sua visão da bacia se superpunha uma outra imagem, do mesmo vaso, reluzente e novo. Era imaginação ou reconhecimento?
Mas não teve muito tempo para admirá-lo. Tarvos se pôs diante deles e num abrir e fechar de olhos, atraiu ao seu redor o fascínio de seu posto, de modo que ele se tornou majestoso.
- Não pensem...- disse ele - ...Que o que estão prestes a fazer seja de algum modo menos real porque ainda estão sendo instruidos como druidas! A face do destino é sempre maravilhosa, conquanto terrível! Tomem cuidado ao lhe erguer o véu! A poucos é concedido algum conhecimento do que está por vir! - ele fez uma pausa, fitando cada um dos rapazes sucessivamente, com um olhar que penetrava até a alma.
Quando falou novamente, a sua voz tinha a ressonância do transe:
- Fiquem tranquilos, portanto! Deixem o espírito puro! Abandonem a mente afobada! Vocês devem se tornar um vaso vazio a espera de ser enchido, uma passagem aberta através da qual a imagem flui!
A fumaça subiu do braseiro em espirais quando Valentine espargiu as ervas sagradas sobre os carvões. Radamanthys fechou os olhos, enquanto a consciência do mundo exterior já começava a se dissipar.
- Minos, filho de Siegmund...- disse tarvos - ...Quer contemplar a água e buscar ali a sabedoria?
- Quero! - foi a resposta de Minos.
Radamanthys não precisava dos olhos para saber quando o primo contemplou a bacia, nem precisava ouvir o murmurio de instruções com as quais Tarvos o guiava. Quando Minos falou, Rdamanthys também pôde ver as imagens em sua mente, fragmentadas e caóticas, tempestades e exércitos, e dançarinos nas pedras sacras.
Dentro em pouco elas cessaram. Radamanthys deu-se conta de que o primo era reconduzido ao seu lugar anterior e então foi a vez de Aiacos e novamente ele compartilhou da visão. A voz de Tarvos ficara mais grave, ordenando-lhe que procurasse uma época mais próxima da atual e acontecimentos significativos para a Escócia.
Durante certo tempo, só apareceram sombras em turbilhão, depois, indistintamente, viu os pântanos que circundavam o Lago. Vultos com tochas moviam-se ao longo da margem, gritando. Em seguida, a imagem desapareceu. Ouviu-se um ruido de água derramada quando a bacia foi esvaziada e Aiacos sentou-se de novo em seu antigo lugar. Radamanthys sentia que ele tremia e perguntou-se o que sua mente se recusara a ver.
Mas nesse momento ele sentiu Valentine de pé, com uma chama diante dele.
- Radamanthys, filho de Uther, deseja buscar visões? - a voz surgiu das trevas.
Radamanthys murmurou o consentimento e foi amparado até a cadeira. A consciência alterou-se novamente e ele abriu os olhos. Valentine verteu mais água na bacia e a pousou diante dele.
- Incline-se para frente e olhe para dentro...- disse Tarvos - ...Inspire...expire...espere que as águas se aquietem! Deixe sua visão penetrar abaixo da superfície e diga o que vê!
Valentine havia colocado mais ervas sobre a brasa. Quando Radamanthys aspirou aquela essência, sua cabeça girou e ele piscou, tentando concentrar-se na bacia. Então pôde ver uma orla prateada rodeando a escuridão cambiante, salpicada pelas luzes bruxuleantes de tochas.
- Se não conseguir ver nada, não tem importância! - prosseguiu Tarvos - Fique à vontade...
"Isso não tem importãncia!" - pensou Radamanthys.
"Meu tio espera que eu fracasse!"
Talvez fosse mais fácil sem a distração da visão externa. Não ousou fechar os olhos de novo, mas deixou que eles se desfocassem, de modo que só visse um borrão embaçado, rodeado por um círculo de luz.
"Procure os pântanos..."- disse a si mesmo.
O que Aiacos estivera tentando ver?
E com o pensamento, a visão começou a emergir a sua frente, primeiro em rápidos fragmentos dispersos, depois completa e inteira. O crespusculo avançava para o anoitecer. O Lago brilhava tenuemente à última claridade. Mas a mescla de pânatno e ilhota que se estendia em torno na direção Sul e Leste estava inteiramente sombria.
Tochas moviam-se ao longo do terreno elevado, porém sua visão era atraida para um poço escuro à sombra de um salgueiro. Algo se movia ali. Com um arquejo, reconheceu os cabelos reluzentes do tio. Com um braço, ele agarrava-se ao peito, como se estivesse tentando retirar algo. Radamanthys esforçou-se para ver com mais nitidez e a cena mudou.
Ele havia sido encontrado pelos que o procuravam. À luz das tochas, Radamanthys podia ver Minos soluçando, embora não ouvisse nenhum som. Dois druidas estavam na água, erguendo algo em seus braços. Os homens puxaram....
- O rei! Morto! - as palavras sairam aos arrancos de sua garganta - Estamos sendo atacados!
Radamanthys afastou-se convulsivamente da mesa e a bacia e o jarro foram arremessados longe. Em disparada, sob os olhos crispados dos que ali se encontravam, desceu o caminho de pedras em polvorosa.
- Às armas!!! - gritava - Estamos sendo atacados!
- Ele vai ficar bem! - disse Tarvos, preocupado - Agora peguem suas espadas!
Aiacos e Minos obedeceram, se encaminhando para a nascente, onde a festa prosseguia normalmente. Valentine aproximou-se do mestre guerreiro.
- Será que é verdade o que ele viu? - indagou.
- Eu preferiria que fosse!
E retirando a espada, seguiu atrás dos dois jovens aprendizes.
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- Majestade! - gritava o jovem - Majestade!
O rei, fazendo um sinal aos músicos para que parassem de tocar, fitou o sobrinho de maneira carregada. Este estava resfolegante pela corrida.
- O que está fazendo aqui? - interrogou o monarca.
- Saxões! - disse Radamanthys - Estão nas nossas costas!
Houve um prolongado silêncio. Siegmund, encarando-o, ergueu-se de seu trono, aproximando-se dele.
- O que disse?
- Saxões estão nos atacando! - repetiu Radamanthys.
- Os saxões estão longe daqui, meu rapaz! - falou o rei.
- Eu mesmo os vi! - disse o jovem com fervor - Estão aqui e vão matá-lo!
Siegmund gargalhou.
- Você bem gostaria de ter visto, não é? - respondeu com sarcasmo - Seria menos um para disputar o trono com você!
A manifesta injustiça disso privou-o da fala, mas Radamanthys pôde sentir sua nuca retesar-se quando uma flecha, surgida do nada, passou ao largo do monarca, indo alojar-se no encosto de seu magnifico trono. Um grito estridente de cidadãos deu o alarme.
- Saxõees! - gritavam.
- Peguem suas espadas! - bradavam outros.
Radamanthys, retirando a espada, jogou-se em cima de um enorme guerreiro de estranhas pinturas no corpo que tentara, porventura, estocar o ardiloso rei das terras altas.
- Saia daqui! - gritou Radamanthys.
- Majestade! - Tarvos lhe chamou, puxando-o pelo braço - Venha! Eu o levarei a um lugar seguro!
Com destreza, Radamanthys golpeava. Suas investidas eram pesadas, ágeis, mortais. Com uma inexplicável rapidez, seu punhal foi cravar-se no inimigo às costas de Valentine, que de espada em punho, acabara de livrar-se de um grande lançador de massas.
- Minos!
Gritou, ao ver o primo completamente acuado diante do algoz. Correndo para ele, amparou-lhe um potente golpe que teria lhe fendido o crânio não fosse a agilidade de seu primo.
Minos levantou-se, restabelecendo-se e travando de sua arma, ao lado de Radamanthys, derrotou em pouco tempo, o que sobrava dos guerreiros germânicos.
- Radamanthys...- gritou Valentine; este voltou-se para ele - ...Tarvos foi ferido!
Um medo familiar começou a se fazer presente nele. Tentou andar, mas o frio lhe derreou os passos. Ainda estava lá, tentando por em ordem seus pensamentos quando Aiacos, espavorido, apareceu as suas costas.
- O mestre faleceu!
Siegmund encontrava-se em seu trono, estarrecido. Ao canto, aprisionado por alguns homens, o assassino do grande general bretão. O corpo de Tarvos estendido no chão trazia uma adaga cravada em seu pescoço. Radamanthys aproximou-se.
- Não! - inconformado - Tarvos não seria batido tão facilmente! - disse, olhando a todos.
Uma eternidade depois, podia-se ouvir as vozes aflitivas das pessoas fazendo buscas ao redor, com as vozes amortecidas pela dor ou roucas devido ao pranto e ao medo. Radamanthys virou o rosto para a parede, socando-a com força. O único homem que o havia ajudado estava morto! E ele não pudera estar lá para lutar ao seu lado! E tudo para defender alguém que não merecia tal distinção! Chorou.
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Aos poucos voltou ao normal e recebeu permissão para ingressar no exército. Aiacos contou-lhe que Tarvos combatera com fervorosidade. Mas o rei, deixando-o para trás, quis fugir para os aposentos do palácio.
- Embora seja um covarde, Siegmund sabia que Tarvos era seu melhor homem e deve estar atormentado pela culpa! - completou o oriental.
- Não fico surpreso pela traição dele! - disse Radamanthys - Um rei lutando suas próprias batalhas....- Radamanthys encarou o amigo com ironia - ...Não seria deveras interessante?
- Outra coisa...- volveu Aiacos - ....Ele o está acusando!
Radamanthys o encarou.
- Como?
- Diz que foi sua visão que trouxe os saxões até nós!
Não! Ele não podia acreditar!
- Eu o salvei! A ele! E por isso permiti que Tarvos morresse!- bradou.
- Eu sei! - respondeu Aiacos - Mas o povo não pode saber que foi ele quem errou quanto aos Saxões estarem tão próximos e nós tão frágeis!
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Sua instrução prosseguiu, mas não mais recebia lições de imagens, e pelo que parecia, estava satisfeito por isso. Havia aprendido o primeiro paradoxo da profecia, de que vislumbrar o futuro não significa necessariamente compreendê-lo, muito menos alterá-lo.
Com o correr do tempo, a aldeia também se restabeleceu. Todos passaram a se esgueirar de um lado para o outro, com olhos parecendo buracos em um cobertor e os rostos brancos em contraste com os cabelos escuros, como se houvessem morrido com Tarvos e fossem apenas o seu fantasma que permanecia com eles na Escócia.
E assim aquele verão medonho havia findado. Nos pântanos, as tabuas cresciam cheias e marrons, ondulando ao vento que agitava as folhas amarelecidas dos salgueiros, e as brumas que rodeavam o pais pareciam tingidas de ouro.
Certo anoitecer, quando a lua nova estava surgindo, Radamanthys voltava de sua caminhada quando entreviu um vulto claro avançando pela trilha em direção ao Lago e reconheceu Minos. Seu pulso soltou instantâneo alarme, mas ele conteve o grito que lhe subia pela garganta e em vez disso assobiou para que Aiacos fosse atrás dele.
Quando os alcançou, Minos estava sentado sobre uma moita de sabugueiros, com os braços apoiados nos joelhos, bastante sério, encostado a um grosso tronco de árvore. Com o ruido de seus passos, tanto o jovem príncipe quanto Aiacos ergueram para ele seus olhos. Minos franziu a sobrancelha.
- Eu estou bem! - falou o príncipe com secura - Não precisava mandar Aiacos atrás de mim! - completou emburrado.
Radamanthys e Aiacos se entreolharam.
- Talvez, assim como meu pai, você também ache que deveria entrar no Lago e me afogar, pelo erro que cometi! - volveu Minos.
- Erro? - Radamanthys arqueou o cenho - De que erro está falando?
- Da morte de Tarvos! - Minos pegou de um galho seco e pôs-se a desenhar no chão.
Radamanthys engoliu em seco. Isso era pior do que havia imaginado. Agachou-se perto do primo, sabendo que não deveria tentar acalmar-lhe nesse instante.
- Se houve algum culpado, este sou eu! - falou, procurando-lhe os olhos.
- Não há culpado ou inocente! - esbravejou Aiacos - Por que alguém tem de ser responsabilizado? Foi uma fatalidade!
- Meu pai diz que foi culpa minha...- Minos rendeu-se.
- Eu sei o que ele está pensando! - Radamanthys ergueu-se.
- Eu sou o príncipe herdeiro da Escócia e nem mesmo fui capaz de derrotar, sozinho, aquele saxão!
Minos levantou-se, jogando com ódio o galho ao chão e dando as costas aos companheiros. Radamanthys compreendera o ponto doloroso.
- Ainda por cima, permiti que meu povo perdesse o maior general que já existiu! - completou.
- Eu vi o que aconteceu....- começou Radamanthys - ...Vocês dois estavam lá! - disse por fim - Mas o rei não acreditou em mim! Não paro de pensar que se ao menos eu houvesse me esforçado mais para prever a tempo...
- Isso é bobagem! - tornou Aiacos - Você não podia saber que os Saxões, em paz há 10 anos, tivessem resolvido atacar agora, sem mais nem menos!
- Eu me sinto culpado! - Radamanthys falou então - Talvez sempre me sinta assim! Talvez eu possa, algum dia, me perdoar...
Durante alguns segundos os três amigos se encararam, enquanto a foice branca da lua flutuava pelo céu. Só quando Aiacos suspirou, alisando os cabelos em tom de enfado, foi que perceberam quanto tempo se havia passado e que precisavam voltar a aldeia.
Durante algum tempo sentiram-se em paz. Mas no instante seguinte, Radamanthys sentiu-se desvanecer. O vulto do manto diante deles era do rei das terras altas.
- Minos...- Radamanthys disse tranquilamente - ...Você precisa comer algo, pois notei que não se alimentou este dia!
O jovem principe se reteseu ao ver o pai.
- Vá! - pediu Radamanthys. - Aiacos, você também! - volveu ao outro amigo.
Por um momento, Radamanthys pensou que o soberano insistiria para que eles ficassem. Confessou a si mesmo que quando percebeu a ameaça no silêncio do monarca, quase chamou de volta os companheiros, mas essa confrontação tardara demais e sabia que teria de enfrentá-lo sozinho.
Encarou-o.
- Se tem algo a me dizer, vamos caminhar um pouco, onde não seremos perturbado!
Ficou surpreso ao ouvir sua voz soar tão firme. Seguiu à frente pela trilha que circundava o Lago.
- Por que está tão taciturno nestes últimos meses? - perguntou quando o silêncio se tornara insuportável, como a quietude antes da tempestade. - Recusa ao seu filho um consolo só porque ele parte de mim?
- Você matou Tarvos! - sibilou o rei - Deseja mal ao meu filho porque sabe que ele deveria ser o rei de toda Bretanha! Está tentando roubar o último descendente de meu sangue!
Radamanthys olhou-o fixamente, enquanto a raiva tomava o lugar de sua apreensão.
- Você está louco! Tarvos era como um pai para mim e certamente sua perda foi muito mais forte do que seria a de meu pai! - completou com convicção - As nossas escolhas não têm nenhum papel a desempenhar em tudo isso, ou todo este ensinamento que tenho recebido é mentira?
Sua voz era grave e acentuada. Siegmund o escutava eufórico.
- Meu pai decidiu mandar-me para me tornar um grande guerreiro na terra onde ele mesmo fora treinado!
- Seu pai me tomou o trono! - rosnou o rei. - Era eu quem devia usar a coroa!
- Mentira! - Radamanthys rebateu com fúria - Você queria a coroa e ela seria sua pelo direito de primogenitura se não fosse tão ambicioso a ponto de fazer seu próprio pai desertar-lhe!
- Fedelho desgraçado! - berrou Siegmund, cuspindo no chão.
Suas faces estavam contraidas numa careta horrenda.
- Você decidiu tomar as rédeas do poder usando seu filho! - continuou o jovem sem se alarmar - Mas enfurece-se ao descobrir que Minos é tão combativo quanto você é honesto!
- Você é igual ao seu pai! Arrogante e presunçoso!
- Desde que pus os pés na Escócia que você me odeia! O que fiz para merecer isso? Não tenho culpa de suas brigas políticas com meu pai!
Siegmund o agarrou pelo colarinho, como uma fera se jogaria sobre sua presa. E quando ele o puxou para perto a fim de encará-lo, Radamanthys sentiu sua energia se expandir e diante da ira do rei das terras altas, a sua raiva pareceu subitamente a impertinência de uma criança.
- Como ousa falar assim comigo? - esbravejou o soberano - Com uma única palavra eu poderia destruir toda sua vida!
O seu braço subiu em uma curva impetuosa de dobras de tecido escuro, como a asa dos corvos, e Radamanthys o encarava. Por um momento, o marulho das ondulações de encontro a margem foi o único som.
Em seguida, do cheiro penetrante da terra úmida e do murmúrio da água, um outro tipo de poder começou a fluir dentro dele. Uma força poderosa e contínua que poderia absorver qualquer tipo de raio que a fúria majestosa de Siegmund pudesse atrair.
Por um instante, Radamantys tocou algo fundamental dentro de si, embora não conseguisse saber o que era. Lentamente ele se aprumou e quando o rei o olhou de frente, o poder refluiu de seu corpo, até ele não passar de um velho encurvado, mais baixo que ele próprio.
- É o rei da Escócia...- falou o jovem com um suspiro - ...Mas nós dois somos filhos dos deuses que governam estas terras! Em tudo que diga respeito ao bem do pais e do povo eu o obedecerei, mas apenas porque acho conveniente fazer isso!
Siegmund ergueu seus olhos para o sobrinho, com seus traços enrrugados esculpidos em linhas de luz e sombra pela lua.
- Você é jovem...- disse ele - ...Jovem e atrevido! Recuse-se a me temer se quiser...- ele falava desdenhoso - ...a própria vida lhe ensinará a ter medo!
Ele deu-lhe as costas, iniciando o caminho de volta ao longo da margem.
- Minos é meu primo...- Radamanthys gritou - ...E não deixarei que o use para suas maquinações!
Com isso, Siegmund voltou-se mais uma vez em sua direção.
- Faça como quiser! - respondeu fatigadamente - Mas quando eu era mais jovem eu também tive visões! Consultei os antigos druidas e vi que Minos será o rei da Escócia! Faz bem em buscar sua amizade...- o rei falava com altivez - ...Pois é ele e não você que será o senhor desta terra!
Siegmund fez menção de voltar-se, mas lembrando-se de algo mais, olhou o sobrinho nos olhos antes de seguir se caminho.
- Arrume suas coisas!
- Para quê? - perguntou Radamanthys, franzindo a testa.
- Você irá a Germânia para cumprir, finalmente, sua iniciação!
O.o.O
Finalmente o terrível verão da morte de Tarvos se desvaneceu na lembrança. Radamanthys sabia o que esta tragédia havia causado em todo condado, mas a medida que o tempo passava, ficou evidente que Siegmund também fora afetado, mais profundamente do que imaginava, ou talvez do que ele mesmo esperava.
Fisicamente ele era ainda vigoroso, na verdade, Radamanthys não acreditava que uma pessoa sem uma excepcional resistência conseguisse realizar o trabalho exigido quando abaixo de uma coroa. Mas desaparecera a agudeza que feria amigo ou inimigo.
Radamanthys, porém, achava dificil sentir pena, e sendo jovem, não compreendia como os golpes da vida podem corroer o espírito. Com o corpo sadio e robusto e deliciado com o rápido desenvolvimento de seus poderes, aceitou animadamente a sua última prova, convicto de que sua decisão fora a mais acertada. Não iria fraquejar!
E assim ele penetrou na bruma e extraio das profundezas de seu ser a palavra do poder, que abriria seu caminho. Pois tudo havia sido tão difícil, Como simplesmente estivesse lembrando algo que já aprendera. Aiacos e Minos fariam o mesmo quando chegassem a sua vez.
No ano de silêncio que se seguiu, Radamanthys foi obrigado a olhar para dentro de um modo que as incontáveis exigências de sua instrução nunca haviam permitido antes. Isso, ele pensava, é que era a verdadeira iniciação, pois não são os adversários exteriores os mais perigosos, mas aqueles antagonistas que habitam o mais recondito de seu intimo.
Com respeito ao juramente que fizera ao ordenar-se cavaleiro, fez seus votos de sacerdote em um ato de tornar sacro o seu sacrifício. Mas embora ele se oferecesse ao serviço dos deuses e da guerra, para ser usado como determinasse, ele não havia compreendido a advertência de que não podia prever ou controlar o que a grande Deusa mãe fará conosco depois do compromisso já estabelecido.
Contudo, depois que o seu juramento havia sido prestado, passou pelo mistério do caldeirão e a marca do dragão do guerreiro bretão foi colocado sobre seu punho esquerdo.
O.o.O
Com a atenção concentrada em seus treinamentos, a principio Radamanthys não percebeu que as coisas não estavam correndo tão bem na Bretanha. Durante os últimos treinos de guerreiro, Aiacos e Radamanthys ficaram mais próximos. Ficaram surpresos ao descobrir que sem palavras, compreendiam-se mais sobre o que havia em seus corações ou sobre o que ocultavam em suas mentes. Usando apenas a voz para comandar, para Radamanthys, as palavras ganharam um significado novo e sagrado.
Assim, as deliberações da primeira reunião dos sacerdotes e sacerdotisas da Escócia consagrados a que foi admitido, após o seu ano de silêncio, pareceram impregnados de importância incomum. Na verdade, as questões eram bastante sérias. Vários anos haviam passado desde que novos meninos foram mandados para serem instruidos nas artes da guerra e dos mistérios.
Além disso, as arrecadações que ajudavam a manter as comunidades do país haviam ficado cada vez menores, devido aos gastos desnecessários promovidos pelo rei para capacitar seu real sucessor, Minos.
- Não é que não tenhamos dinheiro...- disse Argnax, que no ano anterior, tomara o posto de Tarvos - ...A Bretanha nunca esteve mais próspera! Mas o imperador Claudius, em Roma, parece ter-se esquecido de nós, e com a morte de Victorinus, o imperium Galliarum tem assuntos mais prementes do que arrecadar impostos aqui!
Valentine advertiu.
- É a mãe dele, Victorina, que agora governa lá, apesar daqueles jovens primos que ela colocou para esquentar o trono! Ela é muito mais forte do que ele foi, por tudo o que eu tenho ouvido! - suspirou, continuando em seguida - Talvez ela acolhesse bem a colaboração bretã!
- Os nobres nos sustentavam um bocado enquanto o pé de Roma lhes calcava o pescoço! - disse Suona, a grã-sacerdotisa - É quase como se eles achassem que não precisam mais de nós! Como se pudessem abandonar os velhos costumes agora que os cristãos estão crescendo!
Por um momento, todos a olharam fixamente, em atordoado silêncio. Em seguida, Siegmund pigarreou.
- Você está sugerindo que usemos armas para trazer de novo o poder para nós?
Suona suspirou e ficou em silêncio, mas os outros já tagarelavam sobre conjecturas.
- Não podemos decidir nada sem sabermos o que temos pela frente! - disse o rei - E já esgotamos o conhecimento disponível pelos meios normais...
- O que está sugerindo? - perguntou Valentine, franzindo o cenho.
- Somos, por acaso, gregos, para ficarmos debatendo sobre os limites de nossa filosofia? - o rei levantou-se, imperioso - Se nossas artes merecem ser preservadas, então vamos utilizá-las! A passagem da primavera está quase diante de nós!
- Aonde o senhor quer chegar? - Argnax perguntou, após um curto silêncio.
- Vamos aproveitar este ponto de quilíbrio....- tornou o rei, acolhendo a todos num único olhar - ...Para uma aliança com os Germânicos!
O.o.O CONTINUA O.o.O
