Capítulo IV: Esperanças.
Eras atrás aquelas ruínas foram parte de um cenário dos mais magníficos daquelas terras. Muito antes de Findabhair e Fionavar existirem. Na verdade, num passado distante aqueles dois reinos já foram uma só terra.
Aquele reino antigo chamava-se Findhél e era governado por Vhaldemar,o poderoso. Vhaldir e Vhenér eram seus filhos e eram gêmeos. Com a morte do grande rei seus filhos entraram em conflito para assumir o trono. Vhaldemar gostaria que fosse Vhaldir e o rapaz faria a vontade do pai, mesmo sem ele mesmo desejar aquilo. Vhenér sabia de seu desinteresse em assumir a coroa e secretamente o odiava.
E esse mesmo ódio deu inicio a grande batalha pelo poder. Vhenér e Vhaldir enfrentaram-se exatamente onde hoje é a Floresta dos Espíritos. Daquela guerra não saíram vencedores então os dois irmãos resolveram dar um ponto final. Pelo desejo do pai, que tanto respeitava, Vhaldir não abdicaria nada, mas diante da vontade insana do irmão em usar uma coroa, ele lhe deu um reino para governar. Dividiu Findhél em duas terras e entregou Fionavar ao irmão.
Vhenér fingiu contentamento. Estabilizou e cresceu seu reino e anos depois declarou guerra ao irmão. Queria todo o poder daquela terra para si, porém mais uma vez saiu derrotado.
Houve anos e anos de guerra entre os herdeiros de ambas as coroas, até que Dageron, de Findabhair e Vhenél de Fionavar selaram novamente a paz entre os dois reinos e ambos passaram a lutar lado a lado como irmãos.
Durante a separação dos reinos uma pequena parte do povo, descontente com aquilo resolveu ir embora da cidade. Pediram permissão ao rei Vhaldir para ocupar uma parte das terras mais próximas do mar e o bondoso rei consentiu. Formaram então um pequeno povoado independente chamado inicialmente de Vahlia.
Baseado no que havia acontecido com seus dois príncipes, o povo de Valiant decidiu que não haveria diferenças entre eles.
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- Não vamos conseguir nos esconder aqui por muito tempo. Temos que partir logo. – disse uma moça de cabelos loiros escuros e olhos verdes. Não era tão alta e aparentava ter a mesma idade de Marin.
- Concordo, mas temos de esperar a Marin voltar. Já se passaram quatro dias, ela deve estar chegando a Findabhair para pedir ajuda. – disse uma outra moça de olhos esverdeados e cabelos castanhos.
- Você acredita mesmo que ela vai voltar? Niave, eu me pergunto como você consegue. É óbvio que ela vai nos abandonar. O único motivo que prendia a Marin aqui era o irmão. Touma certamente está morto. Por que ela voltaria?
- Pra nos ajudar. Você não a conhece como eu. Ela vai voltar. Eu sei. E vai trazer a ajuda que estamos precisando.
- Findabhair tem problemas demais com uma guerra iminente. Eles não sairiam de casa para vir ajudar um povo independente que está prestes e se extinguir. Não crie esperanças demais. Estamos perdidos.
- Você é quem cria esperanças de menos, Shina. Aliás, sempre foi assim, É como se você não visse nada além das coisas ruins.
- Eu vejo a verdade das coisas.
- Suas verdades são distorcidas. Se não pode ter esperanças por si mesmo, seria bom que tivesse pelo seu povo.
- Tolice. Nós estamos perdidos.
- Shina, Niave, vocês precisam ver isso.
- O que houve Hyoga?
O rapaz nem teve tempo de responder. Logo atrás dele surgiu outro jovem, cambaleando e bastante ensangüentado.
- Touma! Você...
- ... está vivo. – completou Shina.
- Aonde... aonde está... a minha... irmã? – perguntou o rapaz bastante ofegante.
- Vamos cuidar de você primeiro. Depois falamos da Marin.
- Não... Eu... eu preciso saber... saber se ela está viva...
- Ela está viva. – respondeu a moça.
- Está viva, mas não está aqui no acampamento.
- Shina!
- Você ia esconder dele que a Marin não está aqui, Niave?
- Eu não sou você. Venha Touma, vamos cuidar dessas feridas, depois conversamos sobre a Marin.
- Não. Eu... preciso saber.
- A Marin saiu do acampamento para ir até Findabhair procurar ajuda. E ela foi só. Recusou qualquer tipo de companhia. – disse Shina.
- Há quanto tempo ela saiu?
- Quatro dias. Deve estar chegando a Findabhair.
- Beba um pouco de água Touma. Descanse um pouco. Você está muito machucado. Deve ter perdido muito sangue.
- Estou machucado sim, mas... a maior parte... desse sangue não é meu.
- Você tem um corte extenso na perna. Parece bem sério.
- Touma está preocupado com algo, Niave. Deixe-o falar.
- Será que não vê que ele está fraco, Shina?
- Niave, a Shina está certa. – disse Hyoga – Junto com Touma vieram outros de nós que estavam perdidos. Tão feridos como ele e com a mesma urgência no olhar. Eles dizem que não temos tempo.
-Não temos tempo para que, garoto? – perguntou Shina para o rapaz ferido que bebia a água que Niave lhe oferecera.
- Temos que sair dessas ruínas... imediatamente. Alguns corsários estão se reunindo para procurar o restante de nós. Infelizmente viemos para o lado errado.
- Estamos mais vulneráveis que antes. A Marin precisa voltar logo. – disse Niave.
- Não temos tempo para esperar por ela! Será que você não vê isso?
- Infelizmente a Shina está certa. – disse Touma.
- Mas se sairmos daqui, para onde iremos? – perguntou Hyoga.
- Para o único lugar que os resta. – respondeu Shina
- Findabhair. – disse Touma.
- Temos que torcer para não sermos confundidos com inimigos. Vamos Hyoga. Temos que preparar as coisas. Devemos partir ainda hoje. – disse Shina saindo da barraca improvisada, sendo seguida pelo rapaz.
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A comitiva da rainha aproximava-se das ruínas. A viagem já chegava ao final de sua segunda tarde. Aiolia cavalgava um pouco a frente de Marin, pensativo. A moça por sua vez cavalgava quase na mesma linha que Aiolos e Aeallyra estavam.
- Mais um pouco e montaremos o acampamento.
- Ótimo. Estou ficando cansada e os cavalos também.
- Perdão pelas palavras minha senhora, mas estou louco por um pouco de água para me lavar.
- Você não é o único, Aiolos.
Cavalgaram mais um pouco e logo arrumaram o acampamento. Com todas as coisas em ordem todos descansaram um pouco. Aiolia estava quieto num canto, ainda pensativo. Aiolos observava o irmão de longe. Conhecia bem o rapaz e estava preocupado, mas sabia que naquele momento ele apenas estava cansado e queria voltar pra casa.
- Deixe o garoto, Aiolos. Ele tem que aprender a viver além das espadas e armaduras.
- Estou tranqüilo quanto a isso, minha senhora.
- Então o que está lhe preocupando agora?
- Donegal fica mais perto de Valiant do que nós. E se quando chegarmos lá os corsários já tiverem feito o resto da tragédia?
- Temos que ter esperanças. Porque nada pode ficar pior pra essa moça do que isso.
- Ela está bem diferente agora, você não acha? Parece aflita.
- Não é para menos. Estamos nos aproximando de onde o resto do seu povo pode estar. Ou não.
- Talvez devêssemos fazer algo por ela.
- Algumas palavras de conforto.
Marin estava sentada um pouco afastada de todos, como de costume. Estava ansiosa para rever o que sobrara de seu povo de novo, estava preocupada com o irmão, pensava o que seria de sua vida agora que não tinha mais um lar e que sua única família poderia estar morta. Para completar estava fazendo frio naquela noite.
- Marin?
- Senhora.
- Tudo bem?
- Apenas um pouco de frio.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Meu bem, posso não ter tanta idade assim, mas eu sei reconhecer uma expressão aflita. E posso ver isto nos seus olhos.
- Não é para menos, não acha? Estou aos poucos perdendo tudo o que tinha. Minha casa, meu povo, minha famílias. Me sinto perdida. Estou entrando em desespero!
- Acalme-se menina. Acalme-se. De nada vai adiantar ficar assim.
- E o que quer que eu faça? Me sinto completamente impotente. Queria poder ajudar meus amigos, mas não sei por onde começar, não sei o que fazer, não sei o que dizer a eles.
- Sei bem como se sente.
- Perdão senhora...
- Me chame de você, pelo menos por hoje.
- Você... está querendo comparar-se a mim?É uma rainha!
- Posso ser uma rainha Marin. Posso ter todo o poder que a coroa puder me oferecer. Mas acredite que isso não me dá força alguma. Ao menos não a que eu preciso.
- E como consegue ficar tão calma e tranqüila assim se diz que não tem forças?
- Porque nesses momentos é preciso manter a calma.
- Manter a calma? – perguntou nervosa – Impossível! Me desculpe, mas parece que não dá a mínima para seu povo dessa forma. Parece que não luta por eles. Eu estou aqui desesperada para ajudar o meu povo e você...
- Acha que também não estou desesperada? Não me julgue pelo que não vê, Marin. Me atrevo até a dizer que meu desespero é maior que o seu.
- Então me diga como é possível que fique assim o tempo todo! – as lágrimas começaram a rolar pelo rosto da menina e sua explosão repentina chamou a atenção de Aiolia e Aiolos que estavam conversando ali perto.
- Eu sou a rainha de um povo. E o meu dever é protegê-los. Mas antes eu preciso que eles confiem em mim. Como acha que eu vou conseguir isso se expuser uma fraqueza? Tenho que me manter forte e confiante o tempo todo para que eles acreditem em mim e em homens como eles dois – Aeallyra disse apontando para os dois irmãos – Eu não sei combater. Não sei usar uma espada ou qualquer outra arma de guerra. Você tem essa vantagem sobre mim. Não poder acompanhar o calor de uma batalha perto do meu povo acaba comigo, mas não posso deixar que isso tome conta de mim porque sei que eles vão esperar justamente pela minha força e minha confiança. Esta é única coisa que eu sei fazer. Usar as palavras, passar confiança. Eu não fico assim porque quero, Marin. Fico assim porque é o que eu preciso fazer. Disse que não sabe o que fazer para ajudar aos seus, mas saiba que você já fez demais por eles. Arriscou-se ao deixá-lo sozinhos para atravessar esse caminho atrás de uma ajuda que poderia não conseguir, já que estamos todos sob o mesmo risco de ataque.
- Desculpe o meu descontrole. Eu não imaginava que...
- Fosse assim tão difícil?
- Sim.
- Acredite em mim menina. Vai ficar tudo bem. Você já está levando a ajuda. E seu povo pode ficar em FIndabhair se quiser.
- Muito obrigada, senhora.
- Já pode ficar mais calma. – disse a rainha levantando-se. Lançou um sorriso para a menina e saiu em direção a sua tenda sendo seguida por Aiolos.
- Aeallyra, está tudo bem?
- Está Aiolos, está. Eu só fico preocupada. É coisa demais para ma menina como ela suportar. Marin me lembra a mim mesma quando assumi a coroa.
- Me pergunto se o que disse para essa menina não foi excessivo.
- Eu apenas disse o que todos os outros sabem. Inclusive você.
- Mas Aeallyra...
- Aiolos, está tudo bem.
Continua...
Finalmente postando... ^^
Bom, esse capitulo não ficou muito grande e tb não ficou muito como eu queria... Mas como é mais um capitulo de transição, achei melhor não fazer muitas mudanças ou incluir muitas coisas... O proximo capitulo sim, teremos mais conteudo... ^^
Espero que gostem.
