Ia postar só amanha, mais como Obsidiana Negra alegrou meu dia atualizando as fics dela, resolvi postar logo
E já aviso que esse capitulo é forte, quem tiver problemas cardíacos melhor não ler :/
Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Lisa Kleypas do seu livro A Redenção – Série The Travis Family.
Essa fanfic é uma adaptação.
Capitulo 04
Pouco a pouco o casamento foi se fechando à minha volta. Primeiro, eu senti que estava no paraíso quando parei de trabalhar. Eu tinha todo o tempo do mundo para deixar o apartamento perfeito. Eu passava o aspirador no carpete de modo que as fibras de poliéster formassem listras simétricas. Cada centímetro quadrado da cozinha estava sempre limpo e brilhante. Eu passava horas estudando receitas, aprimorando minhas habilidades culinárias.
Pouco antes de Sasori chegar do escritório, eu passava maquiagem e trocava de roupa. Eu comecei a fazer isso depois que, certa noite, ele disse que esperava que eu não fosse uma daquelas mulheres que relaxava depois de fisgar um marido. Se Sasori fosse um babaca o tempo todo, eu não teria sido tão complacente.
Foram os momentos entre os surtos que me mantiveram com ele; as noites em que ficávamos abraçados em frente à TV e assistíamos ao noticiário, quando ele inesperadamente me puxava para dançar depois do jantar, ao som da nossa música preferida. Ele sabia ser afetuoso e divertido. Ele sabia ser amoroso. E ele tinha sido a primeira pessoa, em toda a minha vida, que precisou de mim. Eu era sua plateia, seu reflexo, seu consolo, a pessoa sem a qual ele nunca seria completo. Ele tinha descoberto minha maior fraqueza; eu era uma dessas pessoas desesperadas para ser necessária, para ser importante para alguém.
Havia muita coisa no nosso relacionamento que funcionava. A parte com a qual eu tinha dificuldade de lidar era a sensação constante de desequilíbrio. Os homens da minha vida, meu pai e meus irmãos, sempre foram previsíveis. Sasori, por outro lado, reagia de modo diferente, em momentos diferentes, a coisas iguais. Eu nunca sabia se algo que eu fazia seria recebido com elogios ou críticas.
Sasori se lembrava de tudo o que eu já tinha lhe contado a respeito da minha família e da minha infância, mas pintava tudo de um jeito diferente. Ele me dizia que eu nunca tinha sido amada de verdade, a não ser por ele. Ele me dizia o que na verdade eu pensava, quem na verdade eu era, e ele falava com tanta autoridade sobre mim que comecei a duvidar do meu próprio entendimento. Principalmente quando ele repetia frases típicas da minha infância... "Você precisa superar isso." "Você está exagerando." "Você leva tudo para o lado pessoal." Minha própria mãe tinha dito essas coisas para mim, e agora Sasori as repetia.
Ele explodia sem aviso quando eu fazia o sanduíche errado para o almoço dele, quando esquecia de realizar alguma tarefa. Como eu não tinha carro, precisava ir andando ou de bicicleta até o mercado, que ficava a uns quatro quarteirões, e nem sempre dava tempo de fazer tudo que era necessário. Sasori nunca mais bateu em mim depois daquela vez. Em vez disso, ele quebrava objetos de que eu gostava, como quando arrancou uma correntinha de ouro da minha garganta, ou quando jogou um vaso de cristal no chão. Às vezes ele me prendia contra a parede e gritava na minha cara. Eu temia isso mais que qualquer coisa, a força da voz do Sasori devastando meus circuitos, despedaçando partes de mim que não poderiam ser consertadas.
Eu comecei a mentir compulsivamente, com medo de revelar qualquer coisinha que eu tivesse feito ou dito que Sasori não gostaria, qualquer coisa que pudesse irritá-lo. Eu me tornei uma bajuladora, e dizia para Sasori que ele era mais inteligente que todo o mundo junto, mais que seu chefe, que as pessoas no banco, que qualquer um na família dele ou na minha. E, apesar de tudo isso, ele nunca estava satisfeito.
Nossa vida sexual desmoronou, pelo menos do meu ponto de vista, e tenho quase certeza de que Sasori nem reparou. Nossa vida entre quatro paredes nunca foi mil maravilhas — eu não tive experiência nenhuma antes do Sasori, e não sabia direito o que fazer.
No começo do nosso relacionamento, eu sentia algum prazer ao ficar com ele. Mas aos poucos ele foi parando de fazer as coisas que sabia que eu gostava, e o sexo se tornou algo mecânico. Mesmo que eu soubesse explicar para Sasori o que eu queria, não teria feito diferença. Ele não tinha interesse nas possibilidades do sexo que iam além da simples questão de um corpo entrando no outro.
Eu tentava ser o mais prestativa possível, fazendo o que fosse necessário para que o ato acabasse rapidamente. A posição favorita de Sasori era por trás, penetrando em mim com estocadas retas, egoístas, que não me davam estímulo algum. Ele me elogiava por ser uma dessas mulheres que não fazia muita questão de preliminares. Na verdade, eu gostava que não tivéssemos preliminares, que só serviriam para prolongar um ato que era sujo, com frequência desconfortável e que não tinha nada de romântico.
Eu percebi que não era uma pessoa sexual. Não me excitava ver o corpo bem trabalhado de Sasori, tonificado pelas boas horas de almoço que ele passava na academia. Quando nós saíamos, eu percebia como as outras mulheres olhavam para o meu marido e me invejavam.
Uma noite eu recebi um telefonema de Hinata, e pelo som da voz dela eu soube, no mesmo instante, que havia algo errado.
"Sakura, eu tenho más notícias. É a Tsunade...", enquanto ela falava, eu senti o peso do choque e do desespero, e tive que me esforçar para entendê-la, como se Hinata estivesse falando alguma língua estrangeira. Tsunade teve dor de cabeça durante dois dias seguidos e caiu inconsciente em seu quarto — papai ouviu o baque na sala de baixo. Quando os paramédicos chegaram, ela já estava morta. Um aneurisma no cérebro, disseram no hospital.
"Meus sentimentos", Hinata disse, com a voz embargada pelas lágrimas. Eu ouvi quando ela assoou o nariz. "Ela era uma pessoa tão maravilhosa. Eu sei o quanto vocês se amavam."
Eu sentei no sofá e reclinei a cabeça, deixando as lágrimas correrem em trilhas quentes pelos lados do meu rosto.
"Quando é o funeral?", eu consegui perguntar.
"Em dois dias. Você vem? Quer ficar aqui em casa comigo e com o Naruto?"
"Vou. Obrigada. Eu... como está meu pai?", não importava a situação do nosso relacionamento, eu sentia uma compaixão imensa por meu pai. Perder Tsunade seria difícil para ele, uma das coisas mais difíceis que ele jamais teve que enfrentar.
"Eu acho que ele está bem, na medida do possível", Hinata assoou o nariz outra vez. Ela acrescentou, com um sussurro apertado, "Nunca o vi chorar antes."
"Eu também não", ouvi a chave na fechadura da porta da frente. Sasori tinha chegado. Fiquei aliviada, querendo o consolo dos braços dele. "Como está Hanabi?", perguntei, sabendo que a irmãzinha de Hinata era muito chegada em Tsunade.
"Obrigada por perguntar... ela está arrasada, mas vai ficar bem. É difícil para ela entender como tudo pode mudar assim tão de repente."
"É difícil até para os adultos entenderem", eu encostei a manga da blusa nos olhos molhados. "Não sei se vou de avião ou carro. Eu ligo para você depois que conversar com Sasori e planejar o que vou fazer."
"Tudo bem, Sakura. Tchau."
Sasori entrou no apartamento e deixou a pasta no chão.
"O que aconteceu?", ele perguntou, franzindo o rosto ao se aproximar de mim.
"Minha tia Tsunade morreu", eu contei e comecei a chorar de novo.
Sasori veio sentar do meu lado e pôs o braço ao meu redor. Eu me aninhei em seu ombro. Depois de alguns minutos de conforto, Sasori levantou, foi até a cozinha e pegou uma cerveja na geladeira.
"Sinto muito, querida. Eu sei que é difícil para você. Mas até que vai ser bom para você não poder ir ao funeral."
Eu pisquei, surpresa.
"Eu posso ir. Se nós não tivermos dinheiro para passagem de avião, eu posso..."
"Nós só temos um carro", a voz dele mudou. "Então quer dizer que eu tenho que ficar sentado no apartamento o fim de semana todo enquanto você vai para Houston?"
"Por que você não vem comigo?"
"Eu devia saber que você esqueceria. Nós já temos compromisso para esse fim de semana, Hana", ele me encarou e eu lhe devolvi um olhar vazio. "O festival anual de lagostim da empresa, na casa do dono. Como este é o meu primeiro ano, não posso perder isso de jeito nenhum."
Eu arregalei os olhos.
"Eu... eu... você quer que eu vá a um festival de lagostim em vez de ir ao funeral da minha tia?"
"Não existe alternativa. Por Deus, Hana, você quer destruir minhas chances de promoção? Eu vou a esse festival de lagostim, e pode ter certeza de que não vou sozinho. Eu preciso de uma esposa lá, e preciso que você cause uma boa impressão."
"Não posso", eu disse, mais perplexa do que brava. Eu não podia acreditar que meus sentimentos por Tsunade significassem tão pouco para ele. "Eu preciso ir ficar com a minha família. As pessoas vão entender se você disser para elas que..."
"Eu sou a sua família!", Sasori arremessou a cerveja longe, e a lata acertou em cheio o canto da pia, produzindo uma explosão de espuma. "Quem é que paga suas contas, Hana? Quem é que põe um teto sobre a sua cabeça? Eu. Ninguém na porra da sua família está nos ajudando. Eu sou o chefe da família. E você vai fazer o que eu mandar."
"Eu não sou sua escrava", rebati. "Eu tenho direito de ir ao funeral da Tsunade, e eu vou..."
"Tente", ele debochou, chegando até mim em três passadas grandes e furiosas. "Tente, Hana. Você não tem dinheiro nem meios para chegar lá", ele agarrou meus braços e me sacudiu, e eu cambaleei para trás, até encontrar a parede. "Só Deus sabe como uma imbecil que nem você conseguiu se formar na faculdade", ele disse. "Eles não dão a mínima para você, Hana. Tenta enfiar isso nessa sua cabeçona."
Eu enviei um e-mail para Hinata dizendo que não poderia comparecer ao funeral. Não expliquei por que, e não recebi resposta dela. Como não recebi ligações do resto da minha família, entendi o que eles pensaram de mim por não ir. O que quer que eles pensassem, contudo, nem de perto era tão ruim quanto o que eu pensava de mim mesma.
Eu fui ao festival de lagostim com Sasori. Sorri o tempo todo. Todo mundo me chamou de Hana. Eu fui com mangas compridas, para esconder os hematomas nos meus braços. Eu não chorei uma única lágrima no dia do funeral de Tsunade.
Mas eu chorei na segunda-feira, quando recebi um pacote pequeno pelo correio. Ao abri-lo, vi a pulseira de Tsunade com todos os pequenos e tilintantes berloques.
Cara Sakura, dizia o bilhete de Hinata, eu sei que isto era para ser seu.
Na metade do nosso segundo ano de casamento, a determinação de Sasori em me engravidar se tornou uma obsessão. Eu desconfiava que ele me mataria se soubesse que eu continuava tomando as pílulas anticoncepcionais em segredo, então eu as escondi em uma das minhas bolsas, que enfiei em um canto do nosso armário.
Convencido de que o problema era eu — não podia ser ele —, Sasori me fez ir ao médico. Eu chorei no consultório do médico por uma hora, e disse para ele que me sentia infeliz, ansiosa e não sabia por que, então voltei para casa com uma receita para antidepressivos.
"Você não pode tomar essa porcaria", Sasori ralhou, amassando a folha de papel antes de jogá-la no lixo. "Pode fazer mal para o bebê."
Nosso bebê inexistente. Eu pensei, culpada, na pílula que tomava todas as manhãs, um ato secreto que tinha se tornado meu último esboço de autonomia.
Era difícil tomá-la durante os fins de semana, quando Sasori me vigiava como um falcão. Eu tinha que correr até o armário quando ele estava no chuveiro, tatear em busca do disco de papelão, tirar uma pílula e tomá-la a seco. Se ele descobrisse... não sei o que faria.
"O que o médico disse sobre você engravidar?", Sasori perguntou, enquanto me observava atentamente.
"Ele disse que pode demorar até um ano."
Eu não tinha sequer mencionado para o médico sobre tentar engravidar, só pedi para ele renovar minha receita de anticoncepcional.
"Ele disse quando são os melhores dias? Os dias em que você está mais fértil?"
"Logo antes de ovular."
"Vamos olhar no calendário para ver. Com quantos dias de ciclo você ovula?"
"Dez dias, eu acho."
Quando fomos até o calendário, no qual eu sempre marcava um X nos dias em que minha menstruação começava, minha relutância parecia não importar para Sasori. Eu seria invadida, fecundada e forçada a passar pelo processo de gravidez simplesmente porque ele tinha decidido assim.
"Eu não quero engravidar", eu me ouvi dizer com uma voz emburrada.
"Você vai ficar feliz quando acontecer."
"Mesmo assim não quero. Não estou pronta."
Sasori bateu o calendário no balcão com tanta força que pareceu o estrondo de um tiro.
"Você nunca vai estar pronta. Isso nunca vai acontecer a menos que eu force. Pelo amor de Deus, Hana, quando você vai crescer e virar uma mulher adulta?"
Eu comecei a tremer. Sangue correu para o meu rosto e a adrenalina fez meu coração estressado bater mais depressa.
"Eu sou uma mulher. Não preciso ter um bebê para provar isso."
"Você é uma vadia mimada. Uma parasita. É por isso que sua família não dá a mínima para você."
Eu também explodi.
"E você é um babaca egoísta!"
Ele me bateu com tanta força que jogou meu rosto para o lado e meus olhos foram inundados. Eu ouvi um assovio agudo nas orelhas. Engoli em seco e ergui o rosto.
"Você disse que nunca mais ia fazer isso", falei com a voz rouca.
Sasori respirava com dificuldade, os olhos arregalados e enlouquecidos.
"A culpa é sua por me deixar maluco! Foda-se, eu vou colocar você na linha."
Ele me agarrou por um braço e com a outra mão me segurou pelo cabelo, e assim me arrastou até a sala de estar. Ele gritava palavrões enquanto me jogava de barriga para baixo no sofá.
"Não", eu gritei, sufocada pelo estofamento. "Não."
Mas ele puxou meu jeans e minha calcinha para baixo e entrou na minha carne seca, e doeu, uma pontada violenta que ardeu como fogo, e eu soube que ele tinha rasgado alguma coisa dentro de mim. Minhas lágrimas deslizavam em uma trilha salgada e quente até a almofada. Eu tentei pensar em algo além da dor, dizendo para mim mesma que logo iria acabar. É só aguentar. Aguente que ele vai acabar em um minuto.
Uma última estocada dolorosa e Sasori estremeceu sobre mim, e eu estremeci também quando pensei no líquido dele dentro de mim. Eu não queria saber de ter filhos dele. Eu tampouco queria saber de sexo.
Arfei de alívio quando ele saiu de mim, e senti o calor escorrendo pelas minhas coxas. Ouvi o som de Sasori puxando o zíper e fechando as calças.
"Sua menstruação começou", ele disse, grosseiro.
Nós dois sabíamos que era cedo demais para minha menstruação, que não era daí que vinha o sangue. Eu não falei nada, só me levantei do sofá e coloquei minhas roupas no lugar.
Sasori falou de novo, parecendo mais normal.
"Eu vou terminar o jantar enquanto você se limpa. O que eu preciso fazer?"
"Cozinhar o macarrão."
"Por quanto tempo?"
"Doze minutos."
Eu estava dolorida da cintura aos joelhos. Eu nunca tinha feito sexo violento com Sasori antes. Isso é estupro, uma vozinha se manifestou dentro de mim, mas eu logo disse para mim mesma que se estivesse mais relaxada, menos seca, não teria doído tanto. Mas eu não queria, a voz insistiu.
Eu me endireitei, franzi o rosto devido à dor brutal e latejante e fui mancando até o banheiro.
"Um pouco menos de drama, se você não se importar", ouvi Sasori dizer.
Segui em silêncio até o banheiro e fechei a porta. Liguei o chuveiro e deixei esquentar o máximo que eu conseguia aguentar, então tirei a roupa e entrei.
Fiquei debaixo da água pelo que pareceu uma eternidade, até meu corpo estar limpo, ardendo e doendo. Eu estava em meio a uma névoa de confusão, imaginando como minha vida tinha chegado àquele ponto. Sasori não sossegaria até eu ter um bebê, e então iria querer outro, e o jogo inconcebível de tentar satisfazê-lo nunca acabaria.
Aquilo não era uma questão de tentar sentar com alguém para conversar francamente sobre seus sentimentos. Isso só funciona quando o outro se importa com o que você sente. Sasori, mesmo quando parecia estar escutando, só estava reunindo argumentos para usar contra mim mais tarde. A dor dos outros, fosse emocional ou física, não fazia sentido para ele. Mas eu pensei que ele me amava. Será que ele tinha mudado tanto desde que nos casamos, ou eu teria cometido um erro fatal de avaliação?
Desliguei o chuveiro, enrolei uma toalha no meu corpo dolorido e fui até o espelho. Usei a mão para limpar um círculo no espelho embaçado. Meu rosto estava distorcido, com o canto externo de um olho inchado.
Sasori bateu na porta do banheiro.
"Você já está aí há muito tempo. Saia para comer."
"Não estou com fome."
"Abra a porra dessa porta e pare de birra."
Eu destranquei e abri a porta, e o encarei, aquele homem furioso que parecia pronto para me despedaçar. Eu estava com medo dele, mas mais do que isso, estava derrotada por completo. Eu tinha me esforçado muito para jogar pelas regras dele, mas ele não parava de mudá-las.
"Eu não vou me desculpar desta vez", ele disse. "Você que pediu. Você sabe que não deve falar comigo daquele jeito."
"Se nós tivéssemos filhos", eu disse, "você bateria neles também."
Uma nova onda de raiva começou a tingir o rosto dele.
"Cale a boca."
"Bateria sim", eu insisti. "Você desceria pancada neles sempre que fizessem algo que você não gostasse. Esse é um dos motivos pelos quais não quero ter um filho com você."
A falta de reação do Sasori me assustou. O silêncio foi tão grande que o gotejar do chuveiro me fez estremecer. Ele ficou me encarando sem piscar, aqueles olhos cor de mel brilhando como pequenos botões. As gotas não paravam. Toda pele do meu corpo nu, a toalha úmida e fria me cobrindo, ficou eriçada.
"Onde estão?", ele perguntou de repente, e passou por mim. Ele começou a revirar as gavetas do banheiro, jogando para o lado maquiagem, grampos e pincéis, que aterrissavam com estrépito nos ladrilhos molhados do chão.
"Onde estão o quê?", eu perguntei, meu coração acelerando ao máximo, num martelar que fazia minhas costelas doer. Eu fiquei espantada com a calma que eu demonstrava enquanto o terror corroía meus órgãos internos como ácido de bateria. "Eu não sei do que você está falando."
Ele jogou um copo de água vazio no chão, estilhaçando-o. E continuou a esvaziar as gavetas como um louco.
"Você sabe exatamente do que eu estou falando."
Se encontrasse minhas pílulas anticoncepcionais, Sasori me mataria. Uma estranha resignação, enjoativa, instalou-se por baixo do medo e meu pulso se acalmou. Eu estava zonza e gelada.
"Eu vou me vestir", falei, ainda calma, mesmo enquanto ele quebrava, rasgava, jogava, destruía; líquidos e pós eram derramados, misturando-se em poças coloridas.
Fui até minha cômoda e peguei jeans, lingerie e uma camiseta, embora fosse tarde e eu devesse ter pegado um pijama. Acho que meu subconsciente já tinha avaliado que eu não dormiria aquela noite. Enquanto terminava de me vestir,
Sasori irrompeu no quarto e me empurrou de lado. Ele puxava as gavetas e as revirava, formando pilhas com minhas roupas no chão.
"Sasori, pare."
"Então me diga onde estão!"
"Se você está procurando uma desculpa para me bater de novo", eu respondi, "apenas vá em frente e bata", meu tom não era de desafio. Eu nem estava mais com medo. Eu estava cansada; o tipo de cansaço que te domina quando seus pensamentos e emoções secam e você fica sem nada.
Mas Sasori estava decidido a encontrar a prova de que eu o tinha traído, para me punir até eu ficar com medo para sempre. Depois que terminou com as gavetas, ele foi até o armário e começou a jogar meus sapatos e arregaçar minhas bolsas. Eu não sabia se tentava fugir ou me esconder. Fiquei parada ali, entorpecida, esperando a execução.
Ele veio do armário com as pílulas na mão, o rosto transtornado. Eu compreendi vagamente que, tanto quanto eu, ele não estava mais no controle de suas ações. Havia um monstro nele que precisava ser saciado, e ele não pararia até estar satisfeito.
Eu fui agarrada e jogada contra a parede. Minha cabeça se encheu de um ruído indefinido quando a parte de trás do meu crânio atingiu a superfície dura. Sasori me bateu mais forte do que jamais tinha batido, com a mão fechada dessa vez, e eu senti meu maxilar estalar. Eu só entendi algumas palavras, alguma coisa sobre as pílulas, que eu ia tomar todas as pílulas que queria, e ele tirou algumas da embalagem e enfiou na minha boca, que tentou manter fechada enquanto eu tentava cuspir, expeli-las. Ele me socou no estômago e eu me dobrei, e então ele me arrastou pelo apartamento até a porta da frente.
Eu fui arremessada ao chão e aterrissei com tudo na borda do degrau da frente. Uma dor agonizante me sacudiu quando o pé dele atingiu minhas costelas.
"Você vai ficar aí até de manhã", ele rosnou. "Pense no que você fez."
E ele bateu a porta.
Eu estava deitada na calçada, o piso aquecido pelo sol fumegando como um forno, apesar de já estar escuro. Outubro no Texas é quente como alto verão.
Cigarras fervilhavam e cantavam, a vibração de suas vozes preenchendo o ar.
Depois de um longo tempo eu me sentei, cuspi um bocado de líquido salgado e avaliei o estrago. Eu sentia dores na barriga, nas costelas, entre as pernas e na nuca. Minha boca sangrava.
Meu maior medo era que Sasori abrisse a porta e me arrastasse para dentro. Tentando pensar apesar da cabeça que latejava com violência, considerei minhas opções. Sem bolsa. Sem dinheiro. Sem carteira de motorista. Sem celular. Sem chave do carro. Sem sapatos, também. Eu olhei para meus pés descalços e tive que rir, embora isso fizesse minha boca inchada doer. Merda, aquilo não estava nada bom. Então me ocorreu que eu provavelmente teria que passar a noite toda lá fora, como um gato que Sasori tinha posto para fora. Quando a manhã chegasse, ele me deixaria entrar, e eu rastejaria de volta, castigada e derrotada. Eu queria me enrolar e começar a chorar, mas de repente eu estava me levantando, tentando me equilibrar.
Vá para o inferno, eu pensei, olhando para a porta fechada. Eu ainda podia andar.
Se eu pudesse ir para qualquer lugar naquele momento, teria ido procurar meu melhor amigo Sai. Eu precisava da compreensão e do consolo que ele me proporcionava. Mas naquelas circunstâncias, só havia uma pessoa que podia realmente me ajudar. Naruto. Todo mundo, de McAllen a El Paso, ou lhe devia favores ou queria lhe fazer um favor. Ele sabia resolver problemas com rapidez, eficiência e sem estardalhaço. E não havia ninguém no mundo em quem eu confiasse mais.
Eu fui descalça até o mercado, a quatro quarteirões. Conforme eu adentrava na escuridão, uma lua cheia cor de laranja foi subindo no céu. Ela tremeluzia diante dos meus olhos como se fosse um adereço em uma peça escolar, pendurada em ganchos. Uma lua de caçador. Eu me sentia boba e com medo quando era iluminada pelos faróis dos carros que passavam. Mas logo as dores acumuladas foram crescendo e chegaram a um ponto em que eu parei de me sentir boba. Eu tinha que me concentrar em pôr um pé diante do outro. Eu receava que pudesse desmaiar. Mantive a cabeça baixa, não querendo que ninguém parasse o carro para falar comigo. Nada de perguntas, nada de estranhos, nada de polícia. Eles poderiam me levar de volta para o meu marido.
Na minha cabeça, Sasori tinha se tornado tão poderoso que eu pensava que ele conseguiria explicar qualquer coisa, para então me levar para aquele apartamento e talvez me matar.
A dor no maxilar era a pior. Eu tentei ver se os dentes estavam todos no lugar, se não tinha quebrado ou entortado nenhum, mas até o menor movimento da minha boca era uma agonia. Quando cheguei ao mercado, pensei seriamente em oferecer meu anel de casamento em troca de Tylenol. Mas de jeito nenhum que eu ia entrar naquela loja toda iluminada com gente entrando e saindo. Eu sabia como estava minha aparência, a atenção que eu iria chamar, e isso era a última coisa que eu queria.
Encontrei um telefone público do lado de fora e fiz uma chamada a cobrar, apertando cada botão com total concentração. Eu sabia de cor o número do celular do Naruto. Por favor, atenda, eu pensei, imaginando o que eu faria se ele não atendesse. Por favor, atenda. Por favor... E então eu ouvi a voz dele e a gravação perguntando se ele aceitava a ligação.
"Naruto?", eu segurava o aparelho com as duas mãos, agarrando-me a ele como se fosse uma corda salva-vidas.
"Sim, sou eu. O que houve?"
A tarefa de responder e explicar me pareceu tão opressiva que não consegui falar por um momento.
"Eu preciso que você venha me pegar", eu consegui sussurrar.
A voz dele ficou muito calma, delicada, como se ele estivesse falando com uma criança.
"O que aconteceu, querida? Você está bem?"
"Não."
Um silêncio breve, elétrico, e então ele perguntou com urgência na voz:
"Onde você está, Sakura?"
Demorei um momento para conseguir responder. O alívio de ouvir meu próprio nome, pronunciado por aquela voz familiar, derreteu o torpor. Minha garganta trabalhou muito, e eu senti lágrimas quentes correndo pelo meu rosto, ardendo na minha pele machucada.
"No mercado", consegui finalmente soltar.
"Em Dallas?"
"É."
"Sakura, você está sozinha?", ouvi Naruto perguntar.
"Hum-hum."
"Você pode pegar um táxi até o aeroporto?"
"Não", eu funguei e engoli em seco. "Estou sem minha bolsa."
"Onde você está?", Naruto repetiu, paciente.
Eu lhe disse o nome do mercado e da rua onde ficava.
"Tudo bem. Quero que você espere perto da entrada principal... tem um lugar onde você pode sentar?"
"Tem um banco."
"Minha garota. Sakura, sente-se nesse banco e não se mexa. Vou mandar alguém aí o quanto antes. Não saia daí, entendeu? Fique sentada e espere."
"Naruto", eu sussurrei, "não ligue para o Sasori, está bem?"
Eu o ouvi inspirar profundamente, mas quando ele falou, sua voz era calma.
"Não se preocupe, querida. Ele nunca mais vai chegar perto de você."
Enquanto eu esperava, sentada, percebi que atraía olhares curiosos. Meu rosto estava machucado, um olho quase fechado e o maxilar imenso. Uma criança perguntou para a mãe o que havia de errado comigo, mas ela mandou o garoto ficar quieto e não ficar encarando. Fiquei grata que ninguém tivesse se aproximado de mim, que o instinto natural das pessoas fosse evitar o tipo de confusão em que, era óbvio, eu estava metida.
Não sei dizer quanto tempo se passou. Pode ter sido alguns minutos ou uma hora. Mas um homem se aproximou do banco, vestindo calça cáqui e camisa. Ele se agachou na minha frente e eu encarei um par de olhos pretos preocupados. Ele sorriu, como se para me tranquilizar.
"Srta. Uzumaki?", a voz dele era suave e espessa como calda quente de chocolate. "Meu nome é kiba inuzuka, sou amigo do seu irmão. Ele me ligou e disse que você precisava de uma carona." Observando-me, ele acrescentou lentamente, "Mas agora estou me perguntando se você talvez não precise ir para o pronto-socorro."
Eu sacudi a cabeça, em pânico.
"Não, não. Não quero ir. Não me leve..."
"Tudo bem", ele procurou me acalmar. "Tudo bem, sem problema. Vou levar você para o aeroporto. Deixe-me ajudá-la até o meu carro."
Eu não me mexi.
"Prometa que não vamos para o pronto-socorro."
"Eu prometo. Pode acreditar."
Mesmo assim não me mexi.
"Não posso entrar em uma avião", eu murmurei. Estava ficando muito difícil falar. "Estou sem minha identidade."
"É um avião particular, Srta. Uzumaki." O olhar dele era gentil e condoído. "Você não vai precisar de identidade. Nem de passagem. Vamos, meu carr..."
Ele parou de falar quando viu meus pés sangrando. "Cristo", ele sussurrou.
"Nada de hospital", eu balbuciei.
Sem pedir permissão, Kiba se sentou do meu lado. Eu fiquei olhando enquanto ele tirava os sapatos e as meias, recolocava os pés nus dentro dos sapatos e punha suas meias em mim.
"Eu lhe daria os sapatos", ele disse, "mas você não vai conseguir mantê-los nos pés. Posso carregar você até o carro?"
Eu neguei com a cabeça. Eu tinha certeza de que não conseguiria tolerar que alguém me segurasse, por qualquer que fosse o motivo, ainda que brevemente.
"Tudo bem", Kiba falou baixo. "Leve o tempo que precisar", ele levantou e esperou com paciência enquanto eu lutava para me levantar do banco. Kiba mantinha as mãos para cima, como se precisasse se segurar para não me pegar.
"O carro está ali. O Cadillac branco."
Juntos nós caminhamos devagar até o carro, um sedã branco-pérola brilhante, e Oliver abriu a porta para mim e eu me arrastei para dentro.
"Você acha que pode ser mais confortável com o encosto abaixado?", ele perguntou.
Eu fechei os olhos, exausta demais para responder. Kiba se inclinou, apertou um botão e desceu o assento até eu ficar semi reclinada.
Ele foi até o outro lado, entrou e deu partida. O Cadillac ronronou baixo enquanto saíamos do estacionamento para a avenida. Ouvi o som de um celular sendo aberto e um número sendo discado.
"Naruto", Kiba disse depois de um instante. "Sim, ela está comigo. Indo para o aeroporto. Mas eu tenho que lhe dizer... ela levou uma bela surra. Ela está um pouco em choque", uma pausa longa e Kiba respondeu em voz baixa. "Eu sei, cara." Naruto falou mais alguma coisa. "É, eu acho que ela pode viajar, mas quando chegar aí... aham. É o que eu acho, com certeza. Eu aviso quando ela decolar. Sem problema."
Não existe carro mais macio que um Cadillac — a coisa mais parecida com um colchão sobre rodas que existe —, mas cada solavanco delicado produzia novas dores no meu corpo. Eu tentei rilhar os dentes contra a dor, apenas para arfar contra a erupção de dor no meu maxilar.
Eu ouvi a voz de Kiba em meio ao batimento que latejava alto nas minhas orelhas.
"Está sentindo vontade de vomitar, Srta. Uzumaki?"
Eu soltei um som de negação. De modo algum eu iria fazer aquilo — doeria demais.
Um pequeno recipiente de plástico foi colocado com cuidado no meu colo.
"Só para garantir."
Eu fiquei em silêncio, de olhos fechados, enquanto Kiba manobrava com cuidado em meio ao tráfego. Os faróis dos carros que passavam produziam um brilho vermelho fraco nas minhas pálpebras. Eu estava vagamente preocupada com a dificuldade que sentia para pensar de modo coerente... Eu não conseguia ter nenhuma ideia do que aconteceria a seguir. Tentar sustentar um pensamento coerente era como ficar debaixo de uma grande nuvem tentando pegar gotas de chuva com uma colher de chá. Eu senti que nunca mais conseguiria estar no controle de nada.
"Sabe", ouvi Kiba dizer, "minha irmã costumava apanhar do marido. Com frequência. Sem motivo nenhum. Por qualquer motivo. Eu não fiquei sabendo disso na época, ou teria matado o filho da puta. Quando ela finalmente o deixou e foi para a casa da nossa mãe com os filhos, ficou lá até conseguir dar um jeito na vida. Ela fez terapia e tudo mais. Minha irmã disse que o que mais a ajudou foi ouvir que não tinha sido culpa dela. Ela precisava ouvir muito isso. Então eu quero ser o primeiro a lhe dizer... não foi culpa sua."
Eu não me mexi nem falei. Mas senti lágrimas escorrendo das minhas pálpebras fechadas.
"Não foi culpa sua", Kiba repetiu com firmeza, e dirigiu o resto do caminho em silêncio.
Continua!
Forte né! Esse tema é muito delicado, e devia ser mais explorado pois é algo real e que só quem vive sabe a dificuldade nao só fisica, mas principalmente emocional, como a Sakura vai conseguir confiar novamente em outro homem?
Bem obrigada Obsidiana Negra, Lary, Daniele Uchiha e pelos comentarios, esse capitulo é dedicado pra voces!
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