Capítulo IV: Sentimentos aflorados
– Minha casa por um acaso parece uma "Casa de Chá"? – Shaka seguia em direção à cozinha, aparentemente a contragosto.
– Não precisa se preocupar, monsieur Shaka, eu realmente não-
O loiro voltou-se para Sophie, sorrindo simpaticamente.
– Sem problemas. É claro que será um prazer tê-la em minha casa para um chá da tarde. O problema é que o Afrodite pensa que-
- Ah, Shakinha, não seja rabugento, vai! Em nenhuma outra casa desse Santuário tem chás tão bons quanto na sua! Além disso, somos amigos, não custa, né?
Shaka balançou a cabeça. Era sempre a mesma coisa, a mesma discussão boba entre ele e o pisciano. Mas quando Afrodite não aparecia ao menos um dia da semana para tomar chá, ele até sentia falta. O cavaleiro de Peixes era sem dúvidas o amigo de todos. Quase uma mãezona que sempre tinha um ombro amigo a oferecer quando era preciso. Virgem era um tanto reservado, escolhia a dedo suas amizades, tinha suas diferenças com alguns dourados, mas possuía bom apreço por todos. E na lista dos mais chegados, Afrodite constava, sem sombra de dúvida.
Afrodite puxou Sophie pela mão, em direção a umas almofadas coloridas que estavam espalhadas no chão. Aquela parte do salão virginiano era linda, repleta de anjos e ninfas desenhados nas paredes e com as luzes do sol entrando pelos grandes vidrais. A francesa nunca visitara um lugar tão impressionante e aconchegante como aquele. Sentou-se nas almofadas como Afrodite lhe indicou e ambos ficaram esperando que Shaka retornasse com a bebida.
– Shaka, posso colocar umas rosas por aqui? Sinto que está faltando algo nesse hall.
– Você fará suas rosas mesmo que eu diga que não, estou certo? – respondeu ele, da cozinha.
– Sim, você está certo. Mas eu não entendo por que desperdiça as flores da Sala das Árvores Gêmeas.
– Se elas nascem lá, ali devem permanecer. Aquele é um jardim sagrado, não posso profaná-lo invadindo-o por puro capricho.
Afrodite suspirou.
– Sempre o corretíssimo cavaleiro de Virgem. – riu.
Não demorou para que Shaka retornasse trazendo as xícaras numa bandeja. Serviu aos convidados e a si mesmo.
– Obrigada. – Sophie sorveu um pouco do chá. – Delicioso!
– São de ervas indianas. Shaka sempre traz baldes delas quando volta de seu país.
– Isso porque não vou lá com frequência. – voltou-se para Sophie. – Tenha certeza de que as especiarias indianas são as melhores.
Ela sorriu. Como aquele lugar era agradável! Um lugar onde homens eram treinados para proteger com suas vidas podia ser assim tão divino? Não lhe espantava que aquele fosse o Santuário de Atena. Só os deuses eram dignos de um lugar assim.
– Perdoe-me a curiosidade, monsieur Shaka, mas, o que é a Sala das Árvores Gêmeas?
– Bem, – bebeu um gole do chá. – é um jardim secreto que existe em meu templo. Fica dentro de uma sala e nesse jardim existem duas árvores onde brotam as belas flores de cerejeira. Como eu disse anteriormente, é um local sagrado.
– Aquela sala tem uma longa história. – falou Afrodite, com ar pensador. – Mudando de assunto, Shaka, será que você poderia avisar ao Mu que eu preciso que ele dê uma arrumada na minha armadura?
– Sim, mas... o que andou fazendo com sua armadura? Há tempos não somos obrigados a vesti-las.
– Estava arrumando meu templo esses dias e deixei a caixa dela cair. São só alguns arranhões, então acho que não dará muito trabalho.
– Posso chamá-lo aqui se quiser.
– Sim, por favor!
Shaka concentrou-se e chamou Áries telepaticamente. Esse por sua vez disse que subiria imediatamente até Virgem. Quem dispensava os chás indianos?
Mas antes que Mu aparecesse, quem surgiu em Virgem foi um dos gêmeos. Sophie não os conhecia bem e, logo, não pôde distinguir qual deles era.
– Ah, que bom que estão aqui! – aproximou-se e sentou-se despojadamente sobre umas almofadas. – Se importa de servir um pouco de chá para mim, Shaka?
Virgem ergueu uma sobrancelha, contrariado. Se ainda fizesse alguma confusão com a aparência dos irmãos, certamente reconheceria esse por sua atitude. Um folgado ao extremo aquele Kanon.
– Acho que você pode me ajudar, Dite. – disse o geminiano, voltando-se para Peixes. – Estou precisando de uns er... conselhos. – olhou para Sophie, sentada a seu lado e sorriu. – Oi, filha do pinguim! Que prazer vê-la aqui.
– Pinguim?
– Um apelido bobo que deram a seu pai. – explicou Shaka, se levantando. – Vou buscar uma xícara para o Kanon.
– Traga uns biscoitinhos também! – disse Kanon, de pirraça.
Shaka fingiu não dar a mínima. Afrodite pousou sua xícara vazia sobre a bandeja no chão.
– Muito me espanta você querer um conselho, Kanon. Geralmente, você quer outras coisas.
– Bem, se você estiver disposto eu também aceito...
Sophie corou, ouvindo a conversa. O olhar de Kanon era quase sempre malicioso. Lembrou-se das palavras de seu pai: "Gêmeos são os piores. Especialmente o mais novo, Kanon. Quando passear pelo Santuário, lembre-se de nunca ficar sozinha com ele".
– Tenha respeito com Sophie! – Afrodite riu. – Conte-me, qual o problema?
– Aquele imbecil do Saga me expulsou do quarto na noite passada. Ex-pul-sou! E logo ontem, que eu estava com uma vontade louca de-
– Reunião dourada? – exclamou Mu, adentrando o templo. – Boa tarde. Ou eu diria noite? Já passa um pouco das seis.
Shaka já estava voltando com mais duas xícaras.
– Boa noite, Mu.
Sophie não podia acreditar que Áries e Virgem fossem mesmo namorados. Pareciam apenas bons amigos.
Mu sentou-se ao lado de Afrodite, em frente a Kanon e Sophie.
– O que achou do chá, senhorita Sophie? – sorriu. – O que fez em sua armadura, Afrodite?
– Ah, simplesmente delicioso! – respondeu a ruiva, sorrindo.
– Eu a deixei cair e ela arranhou. – disse o pisciano, levemente manhoso. – Mas nada que dê muito trabalho para consertar.
Mu riu e balançou a cabeça. Pensara que fosse mais grave.
– E como eu ia dizendo, eu estava com muita, mas muita vontade de-
– Poupe-nos dos detalhes, Kanon. – disse Shaka.
- Hunf. E ele me mandou dormir no sofá.
Os cavaleiros não puderam conter o riso. Sophie riu discretamente, mas no fundo estava com dó.
– E por que isso? – perguntou Mu.
– Oras, e não é óbvio? Não é só Mi- – Afrodite fez uma pausa. Quase falara demais. – Saga está com ciúmes.
– De quem? – perguntou Kanon, com ar legitimamente inocente.
Afrodite deu um ligeiro olhar para Sophie. Esta conversava com Shaka e não percebeu.
– Ah, mas só porque eu disse que ela é muito bonita? Estou mentindo?
– Sabemos como você é. – disse Mu, com ar acusador e divertido a um só tempo.
– Eu sou inocente. Vocês sabem que estou certo, a garota é mesmo linda. Mas não é por isso que eu vou tentar fazer coisas assim pervertidas com ela.
Mal terminou de dizer isso, ele se inclinou para abraçar a jovem. Mas acabou por abraçar o ar e cair de lado nas almofadas onde ela estava sentada. Mu fora mais rápido e a teletransportara para seu lado.
– Não podemos confiar em você, Gêmeos. – disse Shaka, reprovadoramente.
– Sinto lhe dizer, meu amigo, mas você merece que o Saga tenha te colocado para dormir no sofá. – Afrodite deu de ombros. – Se quer se entender com ele, tente convencê-lo de que você não estava com segundas intenções em relação à Sophie.
– Dite, não fale dela como se ela não estivesse aqui. – disse Shaka, vendo que a menina estava envergonhada.
– Ah, perdão.
Kanon deixou a xícara na bandeja e se levantou.
– Vocês são todos maldosos. Sempre me julgando errado. – disse, fazendo drama. – O chá estava ótimo, Virgem. Até mais. – acenou.
Quando ele saiu, Sophie perguntou em voz baixa:
– Será que ele ficou ofendido?
– Não se preocupe querida. Aquilo tudo foi só teatro.
– Nunca se deixe levar por esse rosto angelical que ele interpreta. – disse Shaka. – Kanon é imprevisível.
Os outros dois assentiram.
Sophie ficou encantada com a forma deles de tentarem protegê-la. Sentia-se uma criança recebendo mimos. Tinha dezenove anos e achava que já sabia se cuidar, mas não era por isso que ia dispensar os conselhos deles.
Os quatro passaram daquela conversa para histórias sobre os Cavaleiros de Ouro, como havia sido quando se conheceram, a tensão das guerras, os treinos árduos. Assim como a francesa pôde conhecê-los melhor, eles puderam conhecer seu lado maduro, conheceram as opiniões dela e ficaram encantados ao notar que ela muito se parecia com Camus. Como podia, se eles nem viviam juntos? Mas Sophie era exatamente o que eles esperavam de alguém que fosse educado pelo cavaleiro de Aquário.
Nessa conversa, Sophie também ficou sabendo o paradeiro dos Cavaleiros de Ouro que estavam ausentes. Era provável que os irmãos Aiolia e Aiolos retornassem juntos e em breve. E, segundo Afrodite, seu querido italiano também já devia estar em vias de retornar da Itália.
– E por que não foram juntos? – perguntou a jovem.
– Ah, você verá como é aquele canceriano cabeça-dura! Para quem não o conhece, ele é malvado e assustador. Pura fachada, pode ter certeza. – sorriu, como se visse Máscara da Morte em sua mente. – Bem, ele disse algo assim: "Tenho assuntos sérios a resolver! Acha que vou aparecer no meu país com um cavaleiro que mais parece uma boneca a tira colo?".
Shaka e Mu riram da forma que Afrodite imitou seu amado.
– Que rude! E o que você respondeu?
– Sei que parece rude, minha cara Sophie. Mas é o jeito dele. No fundo sei que aquele italiano me ama. E ter me chamado de boneca foi uma forma que ele encontrou de me elogiar. – riu. – Então, eu respondi que cuidaria bem do Templo de Câncer, deixaria cheio de rosas para quando ele voltasse. E que se eu sentisse muita saudade dele, poderia me consolar com o Shura.
– Feito cão e gato, vocês dois. – disse Mu.
– Exatamente! Ele ameaçou cortar minha cabeça. Ah, tão carinhoso o meu amor!
Sophie riu. Estava curiosa para conhecer o cavaleiro de Câncer e vê-lo junto de Afrodite.
– E o cavaleiro Shura? Ele está no Santuário?
– Não. – respondeu Shaka. – Ele teve de escoltar Atena em sua viagem até o Japão.
– Aposto como ela tinha segundas intenções. Nunca chamou nenhum de nós para escoltá-la.
– Saori já é uma mulher, mas continua mimada. Nunca entenderemos suas atitudes.
– Mas vocês tem de concordar que o Santuário é muito melhor sem ela. – disse Milo, que acabara de surgir ali.
– Perdeu o chá, Milo. – disse Afrodite, sorrindo.
Shaka observou de forma discreta o jeito com que Sophie olhava para o escorpiano. Ele só podia estar enganado. Ela não podia estar interessada nele! Mas estava óbvio que ela não sabia nada sobre o relacionamento de seu pai com Milo. Deuses! Virgem tinha de estar enganado.
– Fica para a próxima. De qualquer forma, tive um belo lanche da tarde.
Afrodite imediatamente entendeu a insinuação de Milo. E notou também que Shaka percebera os sentimentos de Sophie. Confirmou, com um discreto aceno de cabeça.
– Sophie, seu pai está lhe esperando. Vamos, eu posso conduzi-la até Aquário.
– Ah... merci! – levantou-se devagar, com medo que suas pernas tremessem tanto que não a sustentassem. Sentia as faces quentes, devia estar um verdadeiro pimentão.
– Não, Milo! Eu a levei para sair, eu devo entregá-la sã e salva para Camus. – Afrodite levantou-se também e pegou as sacolas dele e de Sophie.
– E é melhor que você fique, Milo. Preciso ter uma conversa contigo. – disse Shaka.
"Esse tipo de atitude... por quê? Estão fazendo isso deliberadamente ou é só minha impressão? Será que não querem me deixar perto dele? Terá isso alguma relação com o que Afrodite me disse mais cedo?", pensava Sophie, perturbada por suas dúvidas.
– Venha, Sophie. – Afrodite puxou-a pela mão. – Obrigado pelo chá, Shaka. Amanhã te levo minha armadura, Mu! Até mais, rapazes.
– Obrigada pela tarde. – disse Sophie e acenou para eles.
Os três cavaleiros acenaram de volta, enquanto viam Sophie e Afrodite se afastarem.
– O que queria falar comigo, Shaka?
Diria para Milo que a filha de Camus se apaixonara por ele? Shaka estava incerto se essa seria a melhor atitude a ser tomada.
– Sente-se. Não está com pressa, sim?
...
Camus deslizava o sabonete sobre sua pele clara, vendo as marcas recentes. Se pensava no que acontecera algumas horas atrás, ainda sentia o corpo estremecer. Mais uma vez, rendido. Seu limite havia esgotado, não? Então por que caíra nos braços de Milo mais uma vez? A mesma velha história se repetindo. E havia apenas um culpado nisso: ele mesmo.
"Sempre se deixando levar, não é mesmo, Mestre do Gelo?", pensou, usando sarcasmo contra si.
Envenenado pelo Escorpião. Condenado a amá-lo eternamente. Isso incluía perdoar todas as faltas de Milo? Que fosse. Se entregara novamente, no fim das contas.
Terminou de se enxaguar e fechou o chuveiro. Em cinco minutos já estava vestido. Ficou na sala, lendo um livro qualquer e esperando Sophie. Estava terminando de ler a segunda página quando ela e Afrodite adentraram o templo.
– Chegamos, papa! Veja quantas coisas comprei. – pegou as sacolas com Afrodite. – Vou levá-las até meu quarto, d'accord?
Camus assentiu com a cabeça.
– Obrigado por levá-la para conhecer Atenas, Dite.
– O prazer foi meu. Sua menina é adorável e parece muito com você. – sorriu, mas ao ver que Sophie já deixara o aposento acabou por ficar com o semblante sério.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou o aquariano, notando a seriedade do amigo.
– Nada grave, acho. Mas o fato é que preciso falar com você. Apareça em Peixes amanhã, ok?
– Certo.
– Bem, boa noite. Diga a Sophie que lhe desejo bons sonhos. – voltou a sorrir.
– Boa noite.
Afrodite acenou e começou a se afastar.
– E Afrodite, foi de propósito, não foi?
– Oh, você percebeu? – riu. – O que importa é que deu certo. Até mais!
O que poderia ter acontecido? Camus levantou-se e foi apagar as luzes do grande salão de entrada de Aquário. Tinha o pressentimento de que fosse lá o que Afrodite tivesse para lhe dizer, não era algo bom.
...
