Os Guardiões da Magia
Três
Novamente amanhecia e a Floresta Velha que nunca dormia parecia ter renascido vibrando e festejando em todo seu esplendor.
O sol já reluzia alto entre as nuvens brancas e azul do céu, seu raios entraram sorrateiramente na pequena caverna despertando de seu profundo sono dois antigos rivais que por culpa das circunstâncias ou de suas próprias inteligências decidiram aliar-se, talvez fosse apenas uma questão de orgulho, achando melhor ter um aliado do que um inimigo forte.
Os olhos se abriram preguiçosamente, num ato reflexo voltaram a se fechar pela claridade do sol, ainda se sentia sonolento, talvez ainda não estivesse recuperado completamente do poder daquela árvore. Ficou alguns minutos deitado no frio chão, havia esquecido de usar umas das tantas mantas que Shion colocou na bolsa.
- Finalmente acordou – disse uma voz à sua esquerda.
- Não, ainda estou dormindo – disse virando-se para o outro lado fechando com força os olhos.
- Como quiser! – e voltou a sua atividade mexendo em qualquer coisa no fundo da caverna.
Tentando voltar a dormir, querendo voltar a calidez do mundo dos sonhos, onde a realidade era um desejo vitorioso de nosso mais profundo ser. Suspirou relaxando, ou pelo menos tentando, relaxar seu corpo, porém sempre que fechava os olhos o clérigo fazia algum tipo de barulho, batendo na parede com sua maça... Uma, duas, três vezes...
- Mas o que você está fazendo? - perguntou Mu levantando-se mau-humorado.
- Estou verificando essa parede – explicou olhando fixamente para o ponto na parede em que batia.
- Que!?Porque?
- Ora é simples, aqui não é seguro, é necessário verificar sempre cada canto, cada minúsculo grão de areia – virou-se sério batendo o cabo da maça em sua mão – apenas espero que minha checagem seja suficiente – suspirou forte.
Mu o ignorou indo em direção a saída da pequena caverna, que mais parecia uma gruta, respirou fundo deixando o ar puro invadir seus pulmões inspirando e exalando profundamente. Não entendia muito bem o que o tal clérigo buscava batendo nas paredes, talvez fosse assim que a tribo dele agia de maneira paranóica, será que era por isso que os magos os odiavam, não sabia muito bem, a verdade era que nunca compreendeu perfeitamente a disputa entre Magos e Clérigos, perguntou uma vez para Shion ele por sua vez sorriu e comentou "disputa do maior" nunca chegou a entender, talvez fosse algum tipo de código...
Respirou novamente não queria pensar nisso naquele momento, andou devagar indo procurar algum lago, ou rio.
Vagarosamente entrou pela mata, apurando os ouvido a fim de ouvir os sons calmantes de alguma cachoeira.
A medida que adentrava a floresta sentia-a mudar, eriçar-se continuamente e o cheiro doce que dela emanava. As árvores de copas altas tinham seus galhos retorcidos um a um, pareciam dar-se as mãos saudando umas as outras, o solo era macio sob seus pés na verde grama que crescia velozmente. Lá longe pode vislumbrar o brilho prateado da correnteza o som tão ansiado que faziam com que lembrasse das horas felizes de sua infância, nos momentos em que sozinho admirava a beleza quase irreal das árvores ao redor da casa de Áries quando ia para treinar os difíceis feitiços que precisava aprender... Que saudades sentia.
Num vagar saudoso encaminhou-se até o rio, não era tão longe de onde se encontrava, embora houvesse sempre a ineqüívoca molestia de qualquer perigo por minimo que fosse, contudo não estava preocupado o que sentia era um sentimento gratificante de poder sentir a água por entre seus dedos.
Suspirou descendo devagar o pequeno morro que dava acesso total a água, não era tão funda como se fazia parecer ao longe, chegava não muito até seus joelhos.
Desabotoando seu longo manto de cor cinza que se misturava aos arbustos no anoitecer, tirando a longa faixa de verde veludo que lhe rodeava a cintura num abraço, tirando o longo chapéu pontudo para sentir em seu rosto a quentura cativante do sol para por fim amarrar os cabelos macios num coque alto e por fim descalçou as sandálias colocando tudo em cima de uma rocha dobrando cada peça. Olhou em volta procurando seu cajado que continha a única pedra-da-lua já criada pelas mão habilidosas dos altos-elfos, pelo menos foi o que havia dito Shion antes de dá-lo, ficou preocupado quando não o viu, porém lembrou que havia deixado na gruta junto com sua mochila de viagem, não sabia se devia confiar no Clérigo, mas queria dar-lhe o benefício da dúvida.
Esticou seus braços num longo e majestoso bocejo, indo em direção a água, sentia cada pedaço de sua pele eriçar com o contato, seu corpo tremeu inteiro ao lavar a nuca e o pescoço devagar passando a mão pela pele em círculos para depois lavar completamente o rosto molhando os pequenos fios que se soltavam gradativamente, fechou os olhos deixando a água escorrer pela pele de seu rosto, abriu os olhos percebendo o fundo raso do pequeno rio e os peixes que passavam tranqüilamente entre suas pernas, a água tão cristalina refletindo a luz do sol.
Olhou novamente e sob a água que se movia-se em ondas pode definir o reflexo flutuante do galho e da pessoa em cima deste tão silenciosa, sua figura não se movia parecia fundido com a natureza como se dela pertencesse. Não sabia porque mais sentia-se intimidado e a sua percepção gritava perigo, juntando sua magia uniu as mãos fazendo um simples escudo de magia ao redor do corpo que por sua própria transparência não era percebido. Com movimentos fluídos saiu da água muito calmamente com naturalidade sempre se precavendo dos movimentos do estranho que sua magia podia transmitir.
Vestiu-se preparando-se para qualquer ataque, tinha consciência de sua magia limitada, não podia enfrentar alguém que usasse feitiços, mas podia infringir algum dano, contudo se o atacante não era alguém treinado nas artes mágicas sabia que podia enfrentar tranqüilamente, porém havia sempre que lembrar das sábias palavras de Shion: "Por mais fraco que algo pareça, sempre tenha em mente a força não é medida pela aparência."
Respirou fundo esperando enquanto continuava a abotoar seu extenso manto soltando os cabelos para amarrá-los num rabo de cavalo muito baixo, colocando por fim seu chapéu.
Parado na beira do rio esperou, a morna brisa acariciava-lhe as roupas fazendo-as balançarem, a magia que seu corpo soltava parecia despertar as criaturas vivas escondidas da Floresta, estava perceptiva à tudo ao redor, expectante esperava paciente.
Atrás de si a Floresta mexia-se e alegrava-se entre as suas mais primorosas vegetações e por entre os arbustos a figura do Clérigo apareceu, estava aborrecido e chateado por ter sido deixado sozinho, mas alegrava-se por não ter encontrado nada de suspeito. Parou olhando a magia desprender-se do corpo do Mago e como ele respirava pesadamente, a magia dele tateava cada canto e esperava.
Shaka franziu o cenho achando tudo muito suspeito, olhou em volta tentando achar o motivo de tal demonstração de magia. Usando um simples feitiço clerical fechou os olhos deixando que sua magia detecta-se o mal deixou sua magia fluir sentindo a do Mago tão forte e tão calma, sua magia mesclou com a do Mago e conectando-se dessa forma pode ouvir perfeitamente os pensamentos do Mago o que o assustou um pouco, porém sentiu-se tão bem como nunca antes era um sentimento contraditório e maravilhoso. Por fim sua magia foi em busca de sentimentos ruins, encontrando várias, mas estavam longe demais para realmente serem de todo uma ameaça, entretanto um mal, não tão grande para se temer, mas forte o bastante para ficar atento, estava próximo demais.
Antes que pudesse verificar a fundo a essência daquele mal, sentiu a magia do Mago o chamando e corou profundamente diante da intensidade do chamado já que sentia em seu corpo a magia dele e não pode impedir-se de ter o corpo todo sucumbido, não conseguiu evitar o calor que sentiu em todo o seu ser, nem a misteriosa sensação de passividade e obediência que o fez aproximar-se do Mago deixando ser envolvido pelo escudo dele . Agradeceu silenciosamente por ele ter novamente se enfocado sua magia ao redor deixado de centra-la nele. Respirou fundo recolhendo sua magia já sabendo a direção da sensação de mal, estava em cima deles, pegou sua Maça que estava presa a sua cintura e juntamente com o Mago esperou.
Não demorou muito para o estranho movimentar-se por entre as sombras, num silêncio sepulcral tão rápido quando apareceu, desaparece como se nunca houvesse estado ali se não fosse por que o tinha visto Mu pensaria que ele jamais esteve naquele rio vigiando-o.
Ele não sabia o que aquilo significava, não sabia qual o motivo de tal acontecimento, da possibilidade de alguma coisa acontecer no futuro próximo. Tinha um mau pressentimento acerca disso, acerca das próprias chances de sair dessa sem machucados, sem uma morte eminente.
- Precisamos recomeçar a viagem – disse Mu com uma voz distante que não parecia a sua.
Shaka por sua vez via tudo com espanto, tinha uma certa habilidade com ataques furtivos ou de longas distâncias, mas não dessa forma como se pode vencer um inimigo cuja a existência se desconhece. Era como andar no escuro e, sua magia não era suficientemente potente para enfrentar um inimigo sem vê-lo. Respirou saindo de sua postura de luta, colocando sua maça de volta na cintura arrumando alguns fios dourados que se soltaram de sua longa trança a brisa naquele momento soprava vinda da colinas dos túmulos e tudo parecia respirar de uma forma severa e primitiva , e passando por seus tímpanos o sons das vozes angustiadas que cantavam sua pena e sua morte, na mais absoluta dor, as árvores então pararam de mexer-se como que sentindo a apreensão e os pequenos sons da Floresta cessaram abruptamente. Sentiu seu corpo tremer e se encaminhou para fora daquela brisa sufocante.
- Teremos que passar pela Colina – disse Shaka mais para si mesmo – se quisermos sair da Floresta Velha.
- Então peguemos imediatamente nossas coisas – falou Mu já indo em direção a pequena caverna – apresemo-nos.
Calados foram até o ponto em que descasaram não havia mais tempo a perder nem tempo a ganhar era apenas uma questão da quantidade de milhas que podia separá-los de algo realmente cruel, ambos sabiam, mas nada disseram, deixando seus pensamentos vagarem para outro lugar, não queriam pensar no perigo naquele momento.
- Podemos desviar de caminho para não adentar na Colina – argumentou para si mesmo.
- Talvez não seja tão seguro ir por um outro lugar que não a Colina, além do que é um atalho para chegar em Bri.
- Você não ouviu as lendas? - perguntou Shaka terminando de pegar suas coisas.
- Algumas, mas não creio que todas sejam verdadeiras.
- Eu, por outro lado, sim acredito em cada uma delas.
- Mas eu não, não posso imaginar uma alma fazendo mal para os seres vivos – replicou.
- Por acaso não sentiu quando o vendo sussurrou em seu ouvido a dor da colina, ela é mal e os mortos que dormem nela também.
- Contudo precisamos nos afastar daqui o mais rápido possível e o caminho mais rápido, é claro, é a Colina.
- Podemos tirar isso na sorte?
- Um jogo de azar?
- Não de todo! Você precisa apenas me vencer nos dados – argumentou Shaka com um sorriso tirando de sua bolsa três dados iguais em tamanho e cor de seis lados.
- Isso é um jogo de azar – disse Mu cruzando os braços.
- Nesse mundo é necessário de tudo aprender – disse com um meio sorriso.
- Com tanto que você não roube.
- Eu sou um Clérigo, não um Ladrão, minha Ordem proíbe tal coisa.
- Explique então as regras.
- É simples, você precisa tirar um número maior que eu – dizendo isso ajoelhou-se esperando que o Mago fizesse o mesmo – comece você.
Pegando os dados sentiu em eles o vestígio do calor corporal do Clérigo, olhou diretamente para os olhos do Clérigo tentando ver algum tipo de titubeio, ou mentiras neles, mas nada encontrou só a serenidade e a firmeza da sabedoria.
Apertou os dados na mão para finalmente jogá-los, quicando os dados foram parar perto de uma pedra triangular, no número doze. Não era um número alto, mas também não era um número para se desprezar, sorriu esperando que o clérigo jogasse.
Shaka sorriu também, pegando os dados e os balançando em sua mão que fazia um barulho abafado de um sino tilintando, depois de vários segundos jogou-os quicando batendo-se entre si, num movimento constante que deixavam em expectativa os dois que os olhavam atentamente, até que eles pararam na mesma pedra mostrando finalmente dezesseis.
O Clérigo sorriu vitorioso, olhando o semblante derrotado do Mago o que o fez pensar em como seria contar para seus mestres que havia ganhado de um Mago, eles com certeza não acreditariam. Voltou-se então para o problema que tinha em mãos qual o caminho rápido e seguro para atravessar a Colina...
Com a ponta de seu dedo começou a desenhar as Colinas e as saídas alternativas.
- Do lado leste há uma espécie de precipício que dizem as lendas foram jogados bebês com algum tipo de deformação – riscou a metade do desenho – mas a o lado sul, a esquerda do caminho das Flores me parece ótimo.
- Têm certeza, há lendas que dizem que lá mora uma espécie de monstro que guarda as Flores – manifestou-se Mu.
- Creio que nenhuma criatura que guarda Flores deve ser ruim – disse levantando-se seguido imediatamente pelo Mago.
- Espero que não!
E terminado de arrumar o resto dos mantimentos caminharam pela trilha do lado sul da Floresta Velha, uma longa trilha que desaparecia subindo um pequeno morro, talvez ali fosse uma estrada onde os coches iam e vinham com sua carga diária, mas naquela hora não havia nada nem ninguém.
O vento sussurrava e as árvores pareciam caminhar seguindo os passos dos viajantes, cresciam e transformavam-se indo e vindo na mais perfeita harmonia.
Ao longe os sons de cascos foram-se ouvidos, eram apressados e de pouca disponibilidade para parar. Os dois viajantes pararam indo para a beira da estrada esperando que o cavaleiro passasse e deixasse o caminho livre novamente.
Os cascos velozes se aproximaram, porém ao chegar perto dos viajantes o cavaleiro parou olhando diretamente para os dois por cima da cabeça de seu cavalo que relinchava satisfeito com a corrida. O silêncio era grande e por mais tenso que parecesse ninguém ousava quebrá-lo. Até que Shaka disse:
- Espero que não estejamos atrapalhando sua passagem, senhor – pronunciou num tom simples que mais parecia sarcasmo disfarçado.
- De maneira alguma sou apenas um viajante desejoso de aventuras – respondeu.
- Espero que encontre todas as que puder ter – disse respeitosamente – agora se não se importa temos uma viagem longa...
- Eu notei tal fato, e sendo assim presto os meus serviços aos senhores – falou descendo do cavalo e finalmente os dois puderam ver a longa espada que o cavaleiro carregava, e o longo escudo que estava amarrado na cela do cavalo com um desenho de dois Dragões.
Era um homem alguns centímetros mais alto que o Clérigo e o Mago, tinha uma longa capa na cor marrom, e uma camiseta longa de tecido fino amarrada por uma faixa vermelha, o tecido separado em dois cobre metade das coxas fortes, nos joelhos uma placa de metal e finalmente a calça de cor branca e por último usava uma sandália de tiras. Um homem moreno de cabelos negros com profundos olhos verdes.
- Agradeço seu oferecimento, mas receio recusar...
- Ora vocês não me parecem tão fortes para sobreviver nessa Floresta – disse interrompendo.
Shaka olhou diretamente, não havia gostado nada do tom que havia usado aquele Guerreiro que pelas roupas era óbvio o que ele era, mas achou que de nada adiantava discutir e sempre podiam contar com algum aliado.
- Se o senhor deseja, mas antes quem é o senhor? - disse ainda desconfiado.
- Sou Aiolos do Templo de Sagitário Guerreiro ao seu serviço.
Continua...
Nível do Guerreiro: O atributo Principal de um Guerreiro é a sua Força.
1 Veterano
2 Guerreiro
3 Mestre de Armas
4 Herói
5 Aventureiro.
Comentários:
Esse Capítulo não ficou tão bom como eu o havia imaginando, mas espero que aqueles que estão lendo gostem.
Achei difícil pensar quem faria o papel de Guerreiro, fiquei horas imaginando qual escolha seria a ideal para essa classe de personagem e como eu imaginei que sempre é um mártir que acaba nesse papel acabei escolhendo o Aiolos, não sei se foi a melhor escolha, mesmo assim eu gostei.
