N/A: Eu ia pedir desculpas por ter postado o capítulo de uma outra fic minha no lugar do capítulo 2 de Quimera mas, como ninguém reclamou, vou fingir que nada aconteceu u.u
Legendas:
- Fala
Pensamento
/Dupla personalidade/
Quimera(grego Khímaira) s. f. Ser mitológico geralmente representado por um corpo híbrido. Ser oriundo da imaginação. Esperança inalcançável, utopia.
Projeto Quimera
- Capítulo 3 -
Passos silenciosos cortaram o cômodo, se afastando da janela recém fechada. Esgueirou-se com cuidado extremo, não trazendo consigo um único floco branco enquanto caminhava até a escrivaninha de mogno, sempre fugindo dos olhares dos quadros. Sabia que não haviam câmeras, ao menos, não aparentes, mas era melhor não arriscar.
Ajoelhou no carpete vermelho, escondendo-se atrás do móvel, evitando com antecedência o olhar de qualquer um que por ventura entrasse agora. Levantou a tela do laptop que jazia esquecido e começou a procurar o que viera buscar. Os dedos voaram sobre o teclado, olhos atentos examinando tudo. Entretanto, sua audição continuava voltada para a porta e além, buscando qualquer indicação que passos se aproximavam.
Se fosse pego...
Se não conseguisse...
Trincou os dentes e pôs o pensamento de lado, concentrando-se na tarefa em questão. Conectou um pequeno dispositivo a máquina e copiou os arquivos tão desejados, a lógica lhe dizendo que aquilo era tudo que precisaria. Desconectou o aparelho, guardando-o no bolso da jaqueta surrada antes de fechar o laptop. Com cuidado, voltou para a janela, estudando a paisagem branca por um instante.
No fundo de sua mente, um número ínfimo foi formado. Chances de ser pego ou de dar certo? Ignorou, possibilidades não eram importantes agora. Já sabia que as nada estava a seu favor. Abriu a janela e voltou pelo caminho que fizera, a neve que começava a cair sendo encarregada de apagar suas pegadas.
-X-
- Ei! Acorde!
Hn...
- Acorde! Vai perder o café!
As safiras se abriram, piscando preguiçosas. A luz entrava livre pela janela, ferindo suas pupilas e dificultando ainda mais a já árdua tarefa de enxergar.
/ Não estamos na Abadia. / – Cyber lhe sussurrou de seu pequeno e escondido refúgio.
O efeito foi imediato. O ruivo se sentou de súbito, encarando o lugar novo num misto de ferocidade e insegurança. O cômodo lhe encarou de volta, bagunçado e apinhado como jamais vira um cômodo ser. Sentado na ponta da cama, bem ao seu lado, estava um garotinho franzino de cabelos louro-sujo e olhos azuis.
- Onde estou? – o lobo rosnou, cada nervo de seu corpo queimando. Porque não estava em seu quarto, acordando com a maldita sirene? Seria este um novo tipo de teste? Uma nova tortura?
Estava realmente fora da Abadia?
Estava...livre?
Como que esperando por uma brecha, a imagem do falcão voltou a mente do ruivo com o sutil impacto do Stroblitz. Via Bryan parado, verdadeira estátua de gelo a lhe encarar com olhos vazios da borda do penhasco. Ele não fizera um único movimento, não tivera a menor das reações. Não, tudo que Tala percebera foram os olhos cravados em si, estraçalhando sua mente por todo o agonizante momento em que seu corpo cortava o ar, a vã esperança de ser salvo lhe ferindo mais que qualquer coisa.
Porque o lobo esperara. Até o derradeiro momento que seu corpo atingiu o chão, o lobo ainda esperara.
Porque...? – cobriu o rosto com as mãos, na tentativa de esconder as lágrimas. Doía tanto. – Bryan...
- Ei! Tudo bem? – o lourinho perguntou, assustado e mais confuso a cada segundo. Uma hora o ruivo parecia pronto para lhe bater, na outra começava a chorar?
A mão infantil estava a meio caminho do ombro do mais velho quando uma batida na porta foi ouvida, seguida pela abertura desta. Uma senhora entrou no quarto sem cerimônia, seus olhos se estreitando ao ver a cena.
- Dimitri! O que está aprontando?
- Mas...
- Sem mas! Lá pra baixo, rapazinho!
Com um muxoxo, o loiro se levantou e saiu do quarto. A senhora suspirou, deixando de prestar atenção no garotinho quando este sumiu no corredor, para focar o ruivo na cama. Este, parecia alheio a toda a agitação, preferindo se perder em pensamentos. Presas pelos cílios longos, resquícios de lágrimas davam um ar ainda mais triste ao seu rosto abatido.
Esse vai dar trabalho. – percebeu a senhora, cujo instinto afiado pelos anos de prática jamais lhe enganara. Aproximou-se ainda mais, ocupando o lugar deixado pelo loiro. Tocou o ombro do ruivo com toda a calma que podia, chamando atenção para si.
- Meu nome é Anna, e sou a dona deste orfanato. – ela disse devagar, querendo dar tempo ao garoto novo de digerir as informações.
Orfanato? Então estou mesmo fora. – em qualquer outra situação, o lobo ficaria feliz. Porém, naquele momento, tais palavras só serviram para lhe deixar mais inseguro.
- Qual o seu nome, criança?
O capitão dos Demolition Boys hesitou, avaliando a senhora a sua frente. Ela tinha cabelos negros bastante salpicados com branco, presos em um coque apertado. Seu corpo todo parecia flácido e desgastado, como um elástico esticado várias vezes além de seu limite, a imagem piorada pelas roupas gastas. No entanto, seus olhos negros ainda brilhavam, mostrando um carinho forte e determinado.
- Tala. – o ruivo disse por fim, desfazendo-se das lágrimas com um gesto de descaso. Daria um voto de confiança àquela mulher.
- Prazer em conhecê-lo, Tala. Consegue ficar de pé? – vendo o lobo assentir, Lea sorriu – Então é melhor descermos e tomarmos café.
O mais novo obedeceu e logo ambos desciam lado a lado a velha escada barulhenta, Tala tentando se preparar para o que iria encontrar.
-X-
- Fez o que mandei? – a voz era vazia, como se nenhuma daquelas palavras realmente importasse. Mas era mentira. Havia um "que" a vibrar escondido, perdendo-se no ar congelado como um último suspiro.
Havia dor. Havia medo.
Porém, apenas uma pessoa era capaz de notar detalhes tão sutis. O resto era totalmente incapaz de perceber.
O resto não significava nada.
O homem confirmou, seu longo uniforme negro delatando cada mínimo gesto, intencional ou não. Contudo, não havia escolha. Não confiava na própria voz para responder. Sabia muito bem o quão indefeso estava ante tal demônio.
Mas também sabia que estava prestes a domá-lo. Depois de anos esperando uma brecha, finalmente lhe era dada a permissão.
- Se me trair... – a voz fria tornou a soar, congelando o ambiente a sua volta e deixando que o homem usasse de sua imaginação para dar sentido a ela. Foi o último aviso, antes daqueles olhos finalmente se fecharem e a postura relaxar, dando livre acesso.
O homem lambeu os lábios e avançou.
-X-
A bola de neve cortou o ar, espatifando-se a centímetros dos fios ruivos. Os olhos azuis se estreitaram em resposta, mas ninguém estava prestando atenção. Como poderiam? Ninguém ali lhe conhecia. Naquele pedaço de chão em algum lugar da desolada e frígida Rússia, ele não era Tala, o temido e poderoso líder dos Demolition Boys. Tampouco era Tala, o feroz lobo de gelo da Abadia, valioso fruto do projeto cyber. Não, ali ele era apenas o "garoto novo", do qual ninguém conseguira se aproximar ainda.
E se for um sonho? – no fundo de sua mente, sabia que não era, porém a normalidade em que passara os últimos dias lhe forçava a se perguntar.
Escorregou a mão enluvada para o bolso da calça, envolvendo Wolborg com força. Sentiu as bordas afiadas ameaçarem lhe ferir e sorriu. Aquela era a única prova de que era real, certeza que, mesmo depois de tudo que passara, ainda lhe sobrara um pouco de sanidade.
Wolborg...e Bryan...
Mordeu o lábio, sentindo-o frio pelo beijo do falcão. O que havia acontecido? O que Boris se atrevera a fazer para deixar seu Bryan daquele jeito?
Você ainda lembra de mim?
Levantou, deixando para trás o banco que, mesmo depois de roubar seu calor por tanto tempo, continuava frio. Suspirou e,desvencilhando-se com facilidade das crianças brincado, voltou para o velho prédio chamado orfanato. Os dias poderiam ter tornado o lobo acostumado à nova rotina, mas tanto tempo sem treino lhe deixava entediado e frustrado. O melhor era arrumar o que fazer antes que acabasse socando o que não devia.
-X–
O avião pousou, seus pneus atritando contra a longa pista negra em gritos pequenos e estridentes. As aeromoças abriram as portas, liberando os passageiros com sorrisos e frases ensaiadas. Entre eles estava um rapaz de cabelos bicolores e óculos escuros.
Suspirou, ajeitando melhor o casaco e seu capuz. O vento frio lhe beijou o rosto como uma saudosa mãe, entretanto, este pequeno carinho, desejado até certo ponto, era o único que iria receber naquela terra congelada. E Kai sabia disso.
Começou a andar, chegando ao prédio do aeroporto com passos cuidadosos. Não chamava a atenção, longe disso, mas estava alerta. Afinal, tinha um trabalho a fazer, um que não traria nada além de puro desagrado aos homens mais poderosos da Rússia. Não que se importasse, de qualquer forma. Algumas coisas são mais fortes que o medo ou bom senso.
Saiu do aeroporto e chamou um taxi, logo trocando meia dúzia de palavras frias com o motorista. O veículo se pôs a andar, cortando com habilidade as ruas congeladas.
Kai fechou a mão sobre sua beyblade, invocando o calor da fênix e tentando aplacar o frio que ameaçava tomar seu coração. Observava a paisagem cinzenta sem realmente vê-la, a mente fixa no plano que lentamente se desenrolava. Não era tolo a ponto de achar que nada daria errado.
Tala...
