Lili cochilou um pouco quando já era quase amanhecer, e acordou sobressaltada com os primeiros raios de sol. Colocou o mesmo vestido que comprou no dia anterior, ajuntou seus poucos pertences, fez sua higiene matinal, arrumou os cabelos. Poucos minutos em seguida, ouviu uma suave batida na porta.
Abriu para encontrar um Jae-ha com uma feição preocupada, diferente do provocador habitual. Ele examinou seu rosto para ver se o assediador do dia anterior havia deixado marcas, ficou mais aliviado ao perceber a pele da moça tão alva como sempre. Ela sentiu o coração disparar com o suave toque, e com a preocupação do dragão.
"Bom dia Lili! Acho que é mais conveniente que desçamos juntos - no caso de reencontramos aquele porco que te atacou ontem - vamos comer algo e logo partirmos." A moça estranhou este tom sério, não sabia que ele era capaz disto, nenhuma provocação ou piadinha de duplo sentido. Reparou que o rapaz tinha leves olheiras também "Será que ele não dormiu bem?" Desta vez, devido à gratidão que sentiu pela preocupação dele consigo, decidiu não fazer nenhuma provocação em relação à sua aparência.
Tomaram um desjejum reforçado, pois seria um dia longo de viagem, combinaram caminhar por algumas horas, para que pudessem cobrir o restante da viagem pelo ar sem levantar suspeitas. Se tudo corresse bem, chegariam a Awa antes do pôr do sol. Jae-ha, apesar da tensão de toda situação de ser guarda-costas de uma dama da corte - agora entendia por que Hak era sempre tão sério - sentia um entusiasmo crescente em voltar à movimentada cidade portuária.
Saindo da taberna, Jae-ha pegou Lili por uma das mãos, e seguiu assim até saírem da cidade, não queria ter problemas com mais nenhum "engraçadinho" - apesar de uma voz no seu interior lhe dizer que estava exagerando na proteção. Lili sobressaltou-se por segundos com o gesto, mas não fez nada para não constranger seu "guarda-costas".
Já haviam saído da cidade, e o sol brilhava quente sobre suas cabeças, devia ser por volta de 9h da manhã. Jae-ha então parou, e se virou para Lili: "Acho que já nos afastamos o suficiente", disse pegando um cantil e bebendo um pouco de água. Se aproximou dela e sem nenhum aviso a pegou em seus braços, desta vez o susto a fez dar um gritinho de surpresa.
Jae-ha riu da reação da moça, olhou para ela bem humorado "Segure-se em mim, não precisa ter medo, não vou te deixar cair." E saltou em direção ao céu. Lili no impulso, enterrou o rosto no pescoço do rapaz e segurou forte com as duas mãos envolvidas em seu pescoço. O que o fez achar a situação ainda mais divertida, a destemida Lili então tinha medo de altura?!
Com o tempo, sentiu o toque se afrouxar, e percebeu que ela olhava a paisagem por cima de seu ombro. Algumas horas depois, sentiu a moça encostar o rosto em seu peito, e sua respiração ficar cadenciada e tranquila. "Ela adormeceu?" Falou baixinho consigo mesmo, olhando o rosto delicado e tranquilo de Lili que dormia em paz em seus braços. Sentiu algo estranho, que nunca tinha sentido antes, uma vontade de que ela fosse só sua, e que ninguém pudesse tocá-la. Se repreendeu, afastando tais pensamentos, lembrando-se das festas e bares de Awa e como seria divertido passar uns dias na saudosa cidade onde passou seus dias de pirata.
Já estava entardecendo quando avistaram o mar. Ambos se animaram, quando se aproximaram da cidade, Lili olhava maravilhada… "- O litoral da tribo da água é bonito, mas esta cidade é ainda mais bonita!" Ele observava o entusiasmo quase infantil dela, o brilho de curiosidade nos olhos, o sorriso espontâneo, o rosto estava tão perto do seu… "Como é linda!" Pensava enquanto aspirava o perfume floral que exalava dos cabelos longos da moça esvoaçando ao vento, mesmo mal instalada, sem poder se banhar adequadamente, ela parecia impecável aos seus olhos.
Ela olhou para ele sorrindo, se deparando com os olhos violeta intensos do dragão a observando distraidamente, corou um pouco dizendo "Que bom que chegamos! Você deve estar muito cansado por me carregar este tempo todo!" Ele sorriu e apenas disse, "Acredite senhorita, já carreguei cargas muito mais pesadas do que esta…" Lili se sentiu tranquila, chegava a gostar de Jae-ha quando ele não fazia tantas provocações… ele então emendou "... e outras mais sexies que as vezes tiravam minha concentração no ar." Arrrrgh! E eu cheguei a pensar por um momento que ele fosse uma pessoa agradável! Pensou Lili, que só lançou a ele um olhar de desdém.
O dragão se fingiu indiferente à irritação da moça, mas sabia que precisava fazer isto para manter uma certa distância, para manter seus sentimentos em cheque - uma distância que não o deixasse agir com a urgência que ele sentia em beijá-la, sem se lembrar quem ela era, ou quem ele era, ou o que viria no amanhã, beijá-la a noite inteira e fazê-la sua… sentia nestes momentos, uma empatia ainda maior do que já tinha por Hak, pois conseguia compreende-lo melhor agora.
Aterrisaram nas falésias que davam acesso à cidade, para se adentrarem à pé em Awa, como viajantes comuns. Lili se afastou dele emburrada, com os braços cruzados, evitando seu olhar. Mal percebia a visão de tirar o fôlego do sol começando a deixar o mar pintado de dourado e toda cidade começando a se acender aos seus pés. Ao perceber a beleza da paisagem, relaxou um pouco. Jae-ha quebrou o silêncio "- Vamos, conheço uma pousada confortável, devem ter vagas apesar do verão ser alta temporada aqui na cidade."
Chegaram em um hotel bonito, mas não muito luxuoso. A construção seguia o padrão tradicional da cidade, com dois pavimentos, a um quarteirão da praia. Os quartos do andar de cima tinham sacadas com vista para o mar. Os proprietários reconheceram Jae-ha como um membro do grupo que salvou sua filha mais velha dos traficantes de mulheres. Ficaram felizes e surpresos de vê-lo por lá, pois as histórias da princesa lendária voavam por toda Kouka, imaginavam então que eles estavam longe. Ele explicou que estava escoltando Lili, uma amiga do grupo, e estava em Awa para conseguir um transporte de barco.
Segundo os donos do hotel, os dois tiveram sorte, pois em dois dias todas as vagas estariam tomadas pelos turistas que vinham para o festival. Sobravam apenas três quartos não reservados, dois deles dos mais caros do hotel, mas em sinal de gratidão, cobrariam apenas a taxa de quartos comuns. Lili pagou alegremente, e ocuparam quartos lado a lado no segundo andar do hotel, onde podiam desfrutar da vista da cidade e da praia.
"- Acomodem-se, descansem um pouco, e retornem para o jantar, são nossos convidados de honra! Tenho certeza que nossa filha ficará muito feliz em rever um de seus salvadores!" Disse a senhora simpática. Lili olhou de soslaio para Jae-ha, com um pouco de desdém (ou ciúmes), ele sorriu convencido "Viu? Por aqui sou uma lenda!" Ela apenas manteve o silêncio enquanto subiam em direção aos seus quartos.
Lili finalmente pode tomar um banho decente, lavar seus cabelos e trocar de roupa. Vestiu um yukata de verão que havia comprado, verde água estampado com flores de lótus cor de rosa, atado com um obi do mesmo rosa das flores. Deixou os cabelos soltos para que secassem, o que não demoraria com a brisa morna litorânea de verão. No dia seguinte, se possível, sairia para conhecer a cidade, e talvez comprar outras roupas, adereços, quem sabe alguma maquiagem. Trouxera consigo dinheiro suficiente para se permitir alguns luxos.
A moça desceu para o jantar e encontrou Jae-ha devidamente impecável, e galante conversando com os proprietários, uma moça muito bonita que parecia sua filha, e algumas outras moças, que pareciam ter chegado para jantar no restaurante da pousada, que estava bem cheio. Enquanto descia as escadas, percebeu que ele a olhava discretamente, tentando não ser notado. Os proprietários disseram alegres, "Lili chegou, vamos assentar para jantarmos!" O casal se assentou com a filha ao lado, Jae-ha puxou uma cadeira para Lili ao seu lado, do outro e nas duas cabeceiras as convidadas - amigas da filha do dono do hotel - se acomodaram.
O jantar típico, com frutos do mar frescos, estava delicioso, uma bebida doce, com leve teor de álcool, orgulho da região, também foi servido. Lili se servia de tudo com uma elegância que só uma nobre poderia ter, o que não passou despercebido de Jae-ha que sempre se encantou pela elegância e beleza em todas suas formas.
As filha dos proprietários, corava toda vez que olhava o dragão, e as três moças flertavam descaradamente com ele, cada uma tentando chamar-lhe mais a atenção. O homem atraente, dava atenção a todas agradavelmente, mas ao mesmo tempo, em nenhuma delas em especial.
Jae-ha perguntou sobre a situação da cidade, após a investida dos piratas e seus amigos em livrá-los do trafico humano. Ouviu então, com satisfação, que Awa nunca esteve tão bem, que havia fartura e prosperidade, os negócios de importação, exportação e as colheitas eram muito proveitosos. As moças na mesa então disseram cheias de excitação que em comemoração ao período de abundância, haveria um festival da colheita, para comemorar a fartura e fertilidade que os deuses concederam a eles. Uma delas, tentando seduzir o belo homem disse que era uma nova tradição, que as mulheres adultas dançassem para pedir um novo ano de auspicioso.
Jae-ha sorriu e se virou para Lili - o que ele não havia feito até então - e disse: "Lili poderia ser ajuntar a vocês, já que estamos aqui, por que não a apresentam a tradição?" A moça não entendia por que, mas ser exposta daquela maneira a deixou furiosa! Quem ele era para sugerir o que ela devia ou não fazer?
Vendo o rosto de Lili mais vermelho do que jamais o vira, e com seu senho franzido, deu um sorriso de lado e disse com ar inocente: "Me desculpe, não sabia que você não sabia dançar, talvez seja mesmo muito jovem para se expor dançando em um festival de fertilidade, não é mesmo?" As moças continuaram tagarelando sobre seus trajes, e como ensaiaram meses para o dia do festival. Os donos do hotel comentavam sobre os pratos, as bebidas e tudo de maravilhoso que aconteceria no dia da festa.
Terminando a sobremesa, Lili - que se mantivera séria e em silêncio - agradeceu com muita educação, se levantou e começou a subir. Jae-ha também agradeceu, se despediu da moças prometendo revê-las no dia seguinte, e subiu, estava muito cansado, precisava dormir - finalmente teria paz e conforto para um noite de sono reparador!
Quando terminou de subir os degraus da escada, deparou-se com uma Lili muito brava, de braços cruzados e fulminando-a com os olhos. Deu-lhe boa noite, e já ia passando direto, quando ela o interrompeu:
"- Seu... seu cavalo petulante!" - ela esbravejou, segurando-o pelo rabo do cavalo. "- Não me trate de maneira tão... rude!"
"- Rude?" - Jae Ha sorriu atrevidamente. - "Mas era você que queria ser tratada como uma mulher, não?" - Ele a segurou pelo queixo gentilmente. "-Só estou cumprindo seus desejos, minha senhora."
Se Lili pudesse morrer embaraço, ela com certeza teria naquele momento. Seu rosto estava queimando de vergonha diante daquele galanteio. Sim, ela havia pedido para ser tratada como uma adulta, mas isso ultrapassava todos os limites de cortesia. Ela não era uma das mulheres fáceis que esse desavergonhado predava como se fosse comida.
"Se consegue vencer sua inibição, então, dance com as outras mulheres da cidade! Se achar muito constrangedor, ninguém vai te julgar por isto, nem todas mulheres tem o dom, ou aprenderam a dançar…" Ele falou com ar de sinceridade, talvez interpretando a irritação da moça como constrangimento. "Vamos dormir, tivemos dias muito intensos, nós dois merecemos uma noite de descanso!" Lili soltou seu rabo de cavalo, e seguiu para seu quarto, sem nada dizer, e sem entender o tamanho da frustração que aquele comentário lhe causava.
Entrando no quarto, se trocou, e deitou-se na cama, olhando o teto. Estava absolutamente ultrajada! Quando ela pensava que aquele sujeito não poderia ser mais petulante, ele a surpreendia! Desta vez, ele desdenhosamente duvidou das suas habilidades de dança e insinuou que ela não deveria se apresentar no festival para poupar um vexame.
E só por isso, ela gostaria de estrangular aquele pescoço longo. Ela não era nenhuma amadora na dança, pois sempre fora extensivamente treinada nas artes femininas a vida toda. E para ela dançar com maestria era uma questão de honra, pois sua falecida mãe tinha carregado a reputação de ter sido a melhor dançarina da Tribo da Água, não que ela esperasse chegar ao nível dela, é claro, mas acreditava que poderia se aproximar da pessoa que ela havia sido se esforçasse na arte que ela tanto apreciava.
Se aquele convencido ao menos soubesse o quanto dançar exigia técnica e habilidade não ousaria subestimá-la novamente!
E foi aí que uma perversa ideia começou a tomar forma em sua mente...
Ela não só dançaria, mas também o provocaria. Iria colocar aquele convencido em seu devido lugar...
...Aos pés dela!
