Capítulo IV
"Dar o fora?" esbravejou, chamando a atenção de todos na sala. Os subordinados se viraram para ver o espetáculo. Draco parou a sua caminhada furiosa até a sua sala para vislumbrar ao seu redor e o rolar dos seus olhos foi quase audível.
"Perderam alguma coisa aqui?! Trabalhem!" esmurrou a mesa para dar mais ênfase e foi exatamente o que eles fizeram. Draco podia apostar que pelo menos metade deles teve que trocar as calças depois. Segurou o braço do empregado com força e abriu a porta de sua sala, jogando-o na poltrona e, logo em seguida, dirigindo-se até a mesa com passadas pesadas e espaçadas. O homem se ajeitou e começou a falar, visivelmente nervoso e prestes a pular pela janela atrás do loirinho. Não seria ótimo? Draco pensou enquanto olhava para a porta, batendo com o pé em impaciência. Onde estava a tonta da Pansy? Ela é quem devia lidar com esse tipo de situação pra que Draco pudesse ficar no seu canto pouco se fodendo. Quando seu outro secretário, Blaise Zabini, entrou com o assistente dele e fechou a porta atrás de si, Draco finalmente virou-se ao empregado e postou-se em sua frente, encostado na beirada na mesa. Os braços estavam cruzados, assim como as suas pernas na altura dos tornozelos.
"Você quer dar o fora, é isso? Do melhor escritório de advocacia do país?"
O empregado umedeceu os lábios e apertou os olhos.
"Sim, Sr. Malfoy."
"Posso saber o por quê? Pessoas não dão o fora da minha empresa. Eu chuto elas pra rua."
"É que acho que o senhor não me dá o valor que mereço, e-" começou, esfregando as palmas.
Draco murmurou um 'o quê?' mudo e riu com nariz.
"Valor que você merece!" repetiu, imitando a voz quase chorosa do empregado. Para Draco, foi uma representação muito fiel. "Valor que você merece! Na hierarquia em que vivemos, qual você acha que é seu valor, funcionário?" indagou com seu tom costumeiro e inclinou a cabeça para o lado. O funcionário respirou fundo e Draco pôde sentir — e agradecer — que, se ele não fosse um muggle, já teria sido reduzido a cinzas. Malfoy queria ver até onde sua vítima iria antes de surtar completamente e perder quaisquer chances de ter algum sucesso em sua vida. Era só erguer o tom de voz um pouquinho, só respondê-lo de uma maneira que Draco não conseguisse replicar (o que era difícil), e era o seu fim.
"Você não me respondeu, seu idiota. Mas como eu sou muito gentil, me deixa esclarecer. Aqui estou eu, olha-" ergueu a mão acima da cabeça e ele seguiu com o olhar. "Aqui, está todo mundo que trabalha nessa empresa, incluindo, pasme, Pansy Parkinson." dessa vez, desceu até o peito, na altura da gravata. "Aqui, está a barata que eu matei hoje cedo no estacionamento." um pouquinho mais baixo... "E lá embaixo, funcionário, está você. Debaixo de umas duas camadas de bosta. Esse é o seu valor." concluiu e ele abaixou a cabeça, olhando para os próprios sapatos.. Draco ouviu Zabini pigaerrear baixinho e seus olhos imediatamente ricochetearam para ele. Viu que ele acotovelou o homem ao seu lado e implorou para que ele não abrisse a bo-...
"Senhor, se eu puder intervir, eu que não dei instruções claras a el-" e a voz que se pronunciou, Draco não sabia de quem era.
"Cala a boca,-" Draco virou o rosto para a fonte da voz. Olhou-o dos pés à cabeça com desdém, estudando as feições que nunca vira antes. "Eu nem sei o seu nome. Por que você existe?" questionou e o assistente deu um passo para trás para ficar protegido por Zabini. Os lábios de Draco se curvaram em um sorriso debochado. "Ensine ao seu cão o lugar dele, Zabini. Eu detestaria ter que fazê-lo por contra própria, e eu não gosto de bichos." Draco enfiou o pé no meio das pernas do empregado e ele pulou na cadeira, abrindo espaço para que o pé ficasse apoiado na própria poltrona, não onde Draco havia mirado e errado.
"Ele ainda está sendo adestrado, Malfoy" Zabini falou provocativo e repousou a mão no ombro do assistente, que se esquivou ligeiramente, assustado. Draco quebrou o contato visual quando teve que se virar para o empregado porque viu a sua mão patética se levantar, pedindo permissão para falar. Pelo menos, ele era educado.
"Eu tentei conversar com o senhor, mas o senhor me ignorava! E e-eu não sabia o que fazer..." ele se explicou e Draco se perguntou que mundo era esse onde um presidente precisa guiar um subordinado nos seus afazeres.
"Se tem alguma dúvida, você que vá ao Zabini, ou Pansy, ou qualquer um que se importe. Acha que tenho tempo pra correr atrás de você e te perguntar como está indo isso ou aquilo? Eu tenho cara de babá?!" vociferou, estapeando levemente a bochecha e voltando a posição anterior.
Ele ficou em silêncio, mudo, e o loiro repousou o queixo nos nós dos dedos. Algum tempo depois, virou-se para Zabini.
"Ei, Zabini, eu tô falando sozinho? Eu pareço estar falando sozinho?" perguntou ao secretário com um tom quase genuíno de dúvida.
"Não, Malfoy."
"Então o gato comeu a língua do pobrezinho. Temos gatos aqui, Zabini? Temos?" e vasculhou a sua sala rapidamente.
"Nenhum gato."
"Então me responde de uma vez!" Malfoy chutou a poltrona com o pé que estava repousado ali e ele ficou exaltado. A cena era tão ridícula que chegava a ser cômica: o lábio inferior estava tremendo como que se ele quisesse explodir na frente do presidente, mas sabia muito bem que não podia. E ele queria ser um advogado, com essa atitude? Impossível.
"O senhor não precisa ser grosso." foi o que ele disse, e Malfoy lembrou-se que precisava, sim, ser o quão grosso lhe fosse de gosto.
A situação era bem básica. Draco Malfoy tinha uma política direta de trabalho e de vida que funciona muito bem: seja cruel, caso contrário, será subestimado. Ser amigo dos funcionários sempre resulta em problemas no futuro, já que amigos são, na teoria, obrigados a se tratarem bem, e tratar bem é apenas um jeito mais bonito de dizer 'não os entupa de serviço'. Sem contar que Draco pagava o suficiente para seus subordinados deixarem o orgulho nas suas casas e se deixarem ser pisados. Faz parte do emprego. Não é como se Malfoy fingisse ser tudo flores e depois pulasse na frente deles dizendo 'ei, surpresa! Lamba a sola do meu sapato, escória!' Nenhum daqueles muggles tinha aceitado a oferta sem saber o que vinha junto no pacote, então Draco genuinamente não conseguia entender como que ainda ouvia crises histéricas como essa tão regularmente. E nem compreendia como Pansy deixava que ele vivenciasse essas situações, porque tinha deixado bem claro que não estava nem aí para quem saía da sua empresa. Só que aquele específico funcionário havia chegado no próprio Draco, como se fossem semelhantes, do mesmo nível, e disse que queria sair, o que deixou o loiro muito irritado. Por que as pessoas sempre pensavam que ele estava aí? Já não tinha uma reputação tão bem construída para espantar os inconvenientes?!
"Merlin, como você me irrita." murmurou, meneando a cabeça enquanto endireitava o punho da camisa preta. Draco detestava gente lenta.
"Eu posso processá-lo por isso, senhor."
Draco parou no mesmo instante, como se tivesse sido congelado, e, lentamente, ergueu a cabeça alguns poucos centímetros. Desencostou-se da mesa e, sem nunca tirar seus olhos dos dele, encurtou a pouca distância que separava os dois e que o funcionário queria desesperadamente ter mantido. Malfoy quase podia ouvi-lo engolindo em seco, quase que sentia a umidade da palma das mãos dele, o suor frio nas têmporas. O arrependimento era palpável.
"O que foi que você disse?" segurou os braços da cadeira e se inclinou para perto do rosto dele. "Que merda saiu da sua boca?"
"Q-que eu posso processá-lo...?"
Um sorriso malicioso brincou nos lábios de Draco quando o tom vacilante chegou aos seus ouvidos.
"Eu é que devia processá-lo. Deve ser contra a lei ser tão idiota." Draco quase que sussurrou no ouvido do funcionário, em desprezo. "Você que tente me processar. Até contrate alguém daqui, eu lhe dou um desconto. Meu melhor advogado em sua defesa. Eu faço questão de vê-lo nos tribunais e lhe ensinar a não ameaçar quem você não pode vencer."
E o funcionário simplesmente sabia que estava certo. Draco Malfoy poderia fazer uma chacina naquela empresa, poderia banhar-se no sangue dos seus homens todos os dias, usá-los para o que bem entendesse, que não iria jamais pagar por isso, porque ele era intocável. Sendo o advogado mais promissor de todo o país, não havia prova que ele não refutasse, argumento que ele não pudesse replicar com perfeição, réu que ele não provasse inocente. E era por isso que Draco sinceramente não trocaria ser quem era nem por todas as graças do céu. Ele já vivia no seu próprio paraíso.
"Q-quer saber? Deixa pra l-lá. Eu p-preciso i-ir..." disse em um tom aflito, se contorcendo na cadeira para tentar escapar dos avanços de seu chefe, mas Draco não iria deixá-lo ir embora assim tão fácil. O que os outros pensariam se ele mostrasse misericórdia de um subordinado?
"Você p-precisa i-ir?" projetou o lábio inferior. "Mas logo agora que estava ficando divertido? Ah, não, eu não gosto de deixar as coisas inacabadas." Draco riu e percebeu quando o homem contraiu todos os músculos daquele corpo insolente dele. "Sabe o que eu devia fazer com você?" deslizou sua mão até o cinto, onde estava a sua varinha, e Blaise levou as mãos aos olhos. O assistente, que também era um bruxo, ficou inquieto. Por isso, achou que fosse a hora perfeita para desafiá-lo, e Zabini só não impediu porque não acreditava existir alguém nesse mundo com coragem o suficiente para se meter nos assuntos de Draco naquela altura.
"O senhor não vai querer fazer isso." disse. Blaise escondeu o rosto com a ficha que segurava porque sabia que seu assistente iria tomar o lugar do empregado naquela cadeira em um piscar de olhos. Ele já havia visto o que Draco Malfoy fazia com um homem, mas isso, por algum motivo, não o amedrontava.
Agora sim, havia aparecido alguém que realmente estava o irritando. É verdade que, no começo, queria a cabeça do funcionário na sua parede, mas a coisa havia se tornado toda muito divertida e ele ficou com pena do coitado. Já aquele secretário? Não, ele era uma história completamente diferente. Ele realmente havia conseguido tirá-lo do sério. Não somente uma vez, mas duas, e Draco não deixaria haver uma terceira. E ele era um bruxo, por Merlin! Malfoy até entendia que um muggle fosse ter os nervos para confrontá-lo, mas um bruxo era inaceitável, ponto. Se tivesse feito seu trabalho direito e posto um fim em Dumbledore, tinha certeza que aquele rapaz linguarudo não teria sequer entrado no mesmo cômodo que Malfoy. Quase que se arrependeu de não tê-lo feito. Suas orbes acinzentadas se voltaram para ele em um milésimo de segundo, o suficiente para que o empregado na cadeira conseguisse escapar e saísse correndo na velocidade da luz para fora da sala.
"Eu não sei quem você é, cão, mas posso dizer o que você não vai ser se me desafiar: um homem vivo. Achou que eu fosse matar aquele muggle? E manchar meu carpete com sangue sujo?" Draco percorreu com indicador o comprimento da sua varinha." Ele, não. Mas você... Você é um bruxo. Um bruxo tolo, e eu tenho tanta influência aqui quando no Ministério da Magia. Então, se você não reconhece esse símbolo e o que ele significa" Draco levantou a manga do paletó e mostrou a tão temida tatuagem. Viu que, imediatamente, a boca do secretário se abriu em surpresa. "é melhor que saiba que ele significa que eu sou capaz de tudo. Estamos entendidos?" Draco ameaçou, entredentes, e as veias saltadas em seu pescoço indicavam que ele não estava brincando.
Ele balançou a cabeça, completamente amedrontado, e Zabini anotou algo em sua ficha. Aquele cara iria se demitir no instante em que saísse daquele escritório. Não esperava outra coisa.
"Agora se manda." Draco fez um gesto com a mão para que ele desse o fora dali e ele não questionou. Quando ele finalmente bateu a porta, Malfoy voltou a sentar-se atrás de sua mesa e Zabini tomou o lugar onde o outro homem havia sido... torturado. Ele suspirou e pôs os pés no tampo da mesa, apoiando-se apenas nas pernas traseiras da sua cadeira. Cruzou as mãos no peito e olhou para o seu secretário.
"O velho truque da tatuagem. Muito eficiente." constatou Zabini, sorrindo.
"Quase deixa de ser só um truque. Seu assistente é bastante indiscreto."
"Ele é da nova geração. Só viu comensais da morte em livros de história."
Draco mostrou indiferença e pôs-se a girar o anel do seu anelar, entediado.
"Que bom que eu vou entrar no diário dele. É uma honra." brincou. Draco sentou-se na cadeira corretamente e repousou os braços na mesa. "Assuntos sérios agora. Encontrou alguém para me acompanhar para a América? É bom que tenha, porque o seu prazo termina em dois dias."
Blaise mordeu o lábio.
"Na verdade, Malfoy, eu achei, mas você acabou de traumatizá-lo pelo resto da vida."
Draco mostrou dúvida nas feições bonitas e abriu a boca quando entendeu. Apontou para a porta e riu.
"Ele? Francamente, Zabini, a morte me parece muito mais agradável do que ter aquela lesma trabalhando pra mim. E em outro continente, ainda mais!"
"Acho que eu, a Parkinson, Goyle e Crabbe formamos uma equipe suficiente, Malfoy." Zabini comentou como quem não quer nada e cruzou as pernas.
Draco ergueu uma sobrancelha.
"Seus 'achos' não valem nada." retrucou Malfoy e ele mostrou uma leve irritação. O presidente percebeu que era melhor explicar. Zabini não era apenas um subordinado, afinal. "Nenhum de vocês é formado em direito. Eu preciso de um parceiro, e, de preferência, um parceiro bruxo. Não temos nenhum advogado bruxo aqui? Por Merlin, não me diga que eu estou rodeado de muggles!"
"Poucos são os bruxos se propõem a trabalhar com você, e menos ainda são os qualificados. No final, o jeito foi contratar muggles." disse Zabini, e realmente era verdade. Havia procurado horrores por alguém que fosse competente e bruxo, mas não conseguiu.
"Então ele não era um idiota qualquer?"
"Era um doutor."
"Por isso ele vivia no meu pé?" e Draco lembrou de como ele o acompanhava, sem convite, a todos os tribunais que ia e mexia nos processos que Malfoy tinha deixado bem claro a todos ser estritamente proibido sequer respirar perto. Como num clique, as peças se montaram em um quebra-cabeça e por pouco não se sentiu mal em não ter tratado o pobre homem como um parceiro, que era o que ele havia sido contratado para ser. Olhando para trás, ele até que tinha feito um bom trabalho organizado seus arquivos, e Malfoy percebeu que ele fazia comentários muito inteligentes quando mostrava não se lembrar de um aspecto ou outro de um caso, o que mostrava que havia estudado muito antes de efetivamente segui-lo para cima e para baixo. E Draco ficou puto, porque foi um absoluto idiota. Ele queria se demitir porque Draco o havia tratado como um nada!
"Ele achava que era seu sócio, afinal."
O loiro rangeu os dentes e parecia fumegar.
"Me deixa ver se eu entendi," ele se inclinou na mesa e uniu as pontas dos dedos de uma mão com as pontas dos dedos da outra. "Eu tinha um parceiro esse tempo todo e fui o ultimo a saber? Eu, o presidente dessa porra toda? E ainda acabei de fazer papel de palhaço!"
"Ele não lhe falou? Eu deixei bem claro qu-"
"E desde quando eu bato papo com empregados? Zabini, eu esperava isso da Pansy, mas você chegou no nível dela. Meus parabéns!" Draco bateu duas palmas e, para concluir, jogou as listras de papéis da sua máquina de corte na direção do secretário. A chuva de confetes caiu demorada em seu colo e nos seus ombros, e ele tirou pacientemente uma por uma.
"Vou encontrar outro advogado."
"Tenho certeza que vai. E não me decepcione. E diga a Pansy que me traga um uísque. Puro, sem gelo." Draco chacoalhou a mão e Zabini entendeu que estava sendo dispensado. Balançou a cabeça em concordância e foi embora. Logo, Malfoy estava só na sua sala. Aborrecido, pôs-se a mexer em seu celular, e agora não era mais ele e seus pensamentos.
Naquele momento, era ele e Potter, invadindo a sua mente e lhe fazendo perguntar as coisas mais estúpidas. No que Harry estaria pensando agora? O que estaria fazendo? Com quem? Não fazia a mínima ideia. Harry era adulto agora, certamente que as coisas haviam mudado, e Draco sentiu um gosto amargo na boca. Podia dizer com precisão onde e com quem Potter estava há alguns anos atrás, mas agora era quase como se, à parte de Malfoy já ter visto aquele corpo em todos os ângulos possíveis, fossem completos desconhecidos. Era assim que Harry Potter o tratava, pelo menos, e Malfoy não quis pensar nisso, porque chegava a doer um pouquinho. Mas a vida realmente, realmente dava voltas, e agora Potter estava nas mãos de Draco e era esse o lugar exato em que o loiro queria que estivesse e que nunca sequer tivesse saído. O que possivelmente faria com o bruxo moreno? Não tinha nada que pudesse pedir que não fosse soar estranho. Tudo o que queria era que tudo voltasse a ser como era antes, mas não era só chegar nele e dizer que tinha saudades de abraçá-lo, de tocá-lo, de fazer barbaridades com aquele corpo. Draco teria que reconquistá-lo, mas não conseguia nem se lembrar de como que havia feito Harry se apaixonar por ele em primeiro lugar, e, como Shakespeare dizia e Draco concordava, não se apaixona duas vezes pela mesma pessoa. E Draco não havia mudado absolutamente nada, então estava fodido. Mas ele tinha uns favores a cobrar, e conhecia uns bons restaurantes, e possuía uma boa lábia que ainda haveria de lhe deixar na mão, então não era como se não tivesse nenhuma chance. Era só a oportunidade chegar que Harry seria engolido pelo furacão Malfoy.
E ficou pensando ainda mais, o que era perigoso. Rapidamente, procurou pelo contato do bruxo e se viu olhando para a cara de pateta de Potter, surpreso pela foto, e se achou o maior dos bobos quando seu indicador por vontade própria acariciou o visor do celular. Imediatamente, jogou o aparelho no sofá e esfregou o rosto com as mãos. Harry Potter havia reaparecido na sua vida há menos de um dia e já estava se comportando como uma menina de colegial apaixonada. Como a Pansy Parkinson. Draco sentiu um calafrio na espinha com o pensamento. Era humilhante demais a visão. Já quando a sua imaginação estava a mil, Pansy, com seu timing perfeito, entrou na sua sala, carregando uma pequena bandeja.
"Pansy, Zabini é um completo inútil. Você cuida da papelada dos internos, certo?"
"Aham." ela deixou a bandeja na mesa de Malfoy e cruzou as mãos atrás das costas.
"Então seja uma boa menina e me diga se há algum advogado bruxo que eu possa levar para a América comigo. Vasculhe nessa sua cabecinha oca os nomes do Ministério também, deve haver alguém lá que sirva."
Pansy ponderou por uns bons minutos. Draco se perguntou se ela podia ser mais lerda que isso, mas não verbalizou nada.
"Não conheço ninguém que o senhor vá querer."
"Então há alguém."
Pansy balançou a cabeça com veemência.
"Neville Longbottom. O que o senhor acha?"
Draco penteou os cabelos descoloridos com os dedos.
"Que você é absolutamente louca! Eu não estou tão desesperado assim, Pansy! Diga outros."
"Certo, temos... Cedrico Diggory, aquela menina ridícula que já namorou o Potter, Luna Lovegood... Mas eles todos trabalham no Ministério. E nenhum deles é necessariamente fã do senhor."
Draco cogitou o nome de Cedrico Diggory. Pelo que se lembrava, tinha posto seus olhos em Diggory e teria muito bem jogado um charme no rapaz se não fosse por seu amor incondicional por Potter antes e por seu amor incondicional por Potter agora. Não fosse esse pequeno detalhe, já teria dito a Pansy que o chamasse naquele minuto, para satisfazer seus desejos antigos do colegial. Sua esposa nunca saberia, porque nenhum dos dois ia contar, e ainda faria algo que há muitos anos não tinha feito. Draco não era o que se pode se considerar passivo, mas quando havia um corpo que ele não conseguisse resistir, ele abria exceções... e abria outras coisas também. E Diggory tinha esse corpo.
Mas isso era passado e teve que descartar a ideia.
"Não, nenhum deles serve. Não há mais ninguém? Ninguém mesmo?" a voz de Draco era quase implorativa.
"Bem, se o senhor não quis os que eu já falei, o último que sobra é o Potter. Mas o Pot-"
"O próprio Potter? Harry Potter? Você está dizendo que Harry James Potter é advogado?! Como isso foi acontecer?" Draco abriu a boca, incrédulo, e o sorriso que se abriu em seu rosto não tinha tamanhos. Ele repousou novamente o rosto na mão e mordiscou a tampa da caneta que segurava, perdido em seus pensamentos. Pansy deu de ombros.
"Acontecendo. E ele é criminalista também. Sempre querendo competir com o senhor!" Pansy estalou a língua olhou para o chefe. "Draquinho? Senhor?"
"Pansy, meu bem, eu quero que você chame Potter para uma visitinha. Se ele não aceitar, diga que eu estarei ocupado em um especifico dia em que ele vai me querer disponível. Me diga como foi, sim? Pode sair." e ele falou com tanta suavidade que Pansy estranhou, mas preferiu não arruinar aquele bom humor.
"Eu preciso do número dele. Descul-"
Draco se levantou e pôs o seu celular no bolso do paletó da mocinha. Pôs uma mecha dos cabelos escuros atrás da orelha dela e ela se tremeu toda.
"Eu tenho. Vá logo e volte mais rápido ainda."
Quando ela foi, Draco sentiu um cheiro esquisito no ar. Ah, sim! Era o cheiro de oportunidade.
Woo woo!
