Apaixonadamente Mary Ann

Toda sua métrica, sua impecável organização, seu impecável senso de compromisso, até mesmo as feições sérias que treinou a vida toda, tudo. Estava sentindo absolutamente tudo se quebrar instante a instante, como um castelo de cartas desabando com um sopro suave do vento. Ainda era a primeira a chegar, ainda organizava as pílulas por cor e função, ainda era a enfermeira mais eficiente com menos tempo de casa. Mas algo havia se perdido.

Não era algo lá fora. Não era na sua aparência. Todos os seus fios castanhos se mantinham no lugar, presos no coque como os parafusos em um foguete espacial. Era algo mais profundo, na essência do que era ser Mary Ann. Por anos a fio, tudo o que demonstrara aos outros era exatamente o que sentia em seu interior e, por isso, era a pessoa mais honesta que conhecia. Mas agora enquanto era sua mãe para todo mundo, sentia-se seu pai com suas distrações e minutos que gastava pensando na vida, refletindo tristemente sobre as dúvidas existenciais do mundo.

O que mais a incomodava era como Remus estava sempre em suas reflexões. Seu rosto cheio de compreensão e ternura dançava diante de seus olhos quando ela tentava dormir, e nos momentos que se aborrecia por um motivo qualquer, lembrar da voz de Remus lhe fazia se sentir mais calma. Como aquilo acontecera?

— Bom dia, Mary Ann – cumprimentou Lupin quando ela chegou, com seu carrinho, para os remédios da manhã – como vai?

— Bem – Mary Ann sentou-se no banco, ao lado de Sirius que roía as unhas, o olhar fixo na parede branca à sua frente. – bom dia, senhor Black. Vamos tomar os seus remédios?

Sirius não respondeu. Apenas continuou encarando a parede fixamente, as feições tensas, seus dedos batendo repetidamente no banco. Às vezes acontecia isso, e nada do que Mary Ann fizesse adiantaria qualquer coisa. Eram esses pequenos momentos que ela gostava de apenas parar e observar Remus se aproximar sorrateiramente, com sua voz mansa, cheio de cuidados. Sirius continuava encarando a parede, tão tenso, tão frágil, tão marcado por todas as vezes que fora torturado barbaramente durante a primeira e segunda guerra, além dos seus longos treze anos que fora aprisionado sendo inocente. Mary Ann nunca conseguiria sequer chegar perto de imaginar toda a dor e horror que aqueles amigos vivenciaram, e sabia disso tão bem quanto sabia que o céu era azul.

— Padfoot – Remus chamou calmamente, e Sirius olhou para baixo, parecendo confuso.

— Moony – Sirius encarou os próprios dedos, marcados pelo tempo e tortura – sabe que aquele maldito nos traiu? Ele nos traiu.

Remus olhou bondosamente para o amigo, já situando a época em que Sirius estava. Mary Ann conseguia recordar os especiais que a BBC fazia, sobre os bastidores da Primeira Guerra, sobre como James e Lilly Potter morreram tragicamente, e sobre como Peter Pettigrew traiu aqueles que lhe tinham sido amigos por toda a vida. Lembrava-se, quando criança, de ver essas matérias e as histórias que seus pais contavam, sobre o triste período no qual todos precisavam de um herói e até mesmo Harry Potter queria um herói para chamar de seu. Agora via os destroços das guerras entre aquelas paredes brancas e estéreis, onde antigos soldados tentavam se recompor depois de terem sido tão quebrados e torturados. Estavam todos feridos, essa era a verdade, e por mais que o lugar transparecesse uma constante ordem que nunca era quebrada, nada iria adiantar. Não se podia consertar almas partidas em pedaços.

— Padfoot, Peter não existe mais – murmurou Remus abraçando o amigo – nada disso existe mais. Mas Harry está vivo, Padfoot, e é isso que importa.

— Mas, Moony...

— Padfoot – Remus prosseguiu o mais gentilmente que conseguia, mas era visível apenas pela sua voz o quão cansado ele estava de tudo aquilo – está tudo bem. Ok? Está tudo bem.

Sirius olhou vagamente para o amigo, como se ainda estivesse em outro lugar, outra época. Então encostou a cabeça no ombro de Remus, envolvendo o corpo do amigo com seus braços e começou a chorar. Mary Ann apenas observou seu carrinho, lamentando-se por não conseguir ser mais energética, por não conseguir fazer com que Sirius Black percebesse sua presença com apenas uma frase. Sua mãe conseguiria. Sentiu a frustração subindo pela garganta, observando Sirius soluçar no colo de Remus, tendo em Remus como o único refúgio da vida dourada que ambos cultivaram na época da escola. Eu queria ter Remus assim também. Apertou os punhos, quase que arranhando a própria pele com suas unhas cuidadosamente esmaltadas. Eu queria ter alguém para poder errar. Sua mãe morrera e seu pai também, e nenhum dos seus amigos tinha se tornado alguém para onde pudesse correr e chorar. Todos apenas viam a senhorita Abbot, o rosto da eficiência.

E quase, quase sentiu inveja de Sirius que tinha alguém para acalmá-la todas as noites, em seus piores pesadelos, e alguém a lhe fazer companhia não importasse o que acontecesse.

— Senhor Black – Mary Ann disse, sua voz quebrada, sem a menor sombra de firmeza que lhe era tão característica – os seus remédios.

— Eu não quero tomar remédio nenhum!

Sirius não quis afastar o rosto, escondendo-o no ombro do amigo, provavelmente molhando a sua camisa branca e bem-passada. Remus deu um olhar compreensivo para Mary Ann, e voltou a acalentar Sirius, envolvendo-o em seus braços.

— Padfoot, você sabe que sem os remédios você não melhora – disse – o doutor Jim não disse isso? Ele não disse que de seis meses a um ano, você poderia sair daqui? Se tomasse todos os remédios direitinho?

— Mas, Moony-

— É para o seu bem. Deixe Mary Ann lhe dar os remédios. Você vai ficar melhor.

Mary Ann – fungou Sirius – já está íntimo assim da enfermeirazinha. Daqui a pouco vocês se casam e me abandonam, é isso que vai acontecer.

— Mary Ann é sua amiga também, Padfoot – Remus suspirou cansado – apenas siga as ordens do médico.

Ainda soluçando, Sirius se afastou visivelmente amuado, aceitando obedientemente os remédios que Mary Ann depositou em sua língua. Engoliu-os e aceitou a água, os olhos inchados de choro, o nariz avermelhado. Remus preferiu tomar os remédios sozinho, mas não fez diferença para Mary Ann: ela sabia que ele não os tomava realmente. Ele não era louco. As razões de ele estar lá lhe fugiam à compreensão, mas estava tudo bem. Ele estava perto, sendo seu paciente todos os dias, conversando com ela em todos os momentos vagos, sendo a voz da tranquilidade que ela não sabia, até então, do quanto precisava ter perto de si. Alguém para chamar de lar, alguém para chamar de paz.

— É triste – sussurrou Mary Ann observando Sirius cair no sono, se deixando desabar em cima do colo de Remus – sabe que Alice chamou Neville Longbottom de "meu filho" na última visita? Eu acho que nunca vi aquele homem tão feliz.

— Alice foi uma ótima guerreira – Remus contou e esse era o momento que Mary Ann gostava, quando Remus contava histórias da guerra que ela não viveu – o marido dela morreu, não foi? Faz poucos anos.

— Sim – Mary Ann se ajeitou no banco – mas ele morreu em paz. Depois da guerra e tudo o mais. Alice também morrerá em paz.

— Esperemos que sim – Remus sorriu – eu estou contando os dias para sair daqui. Mas eu vou sentir sua falta.

— Me mande cartões de Natal – Mary Ann lembrou – isso não é o suficiente?

— Sirius quer morar no campo – Remus murmurou melancolicamente – achamos que será melhor do que viver na cidade, com todas as pessoas... o campo é bonito. Podemos até mesmo criar alguns animais, ter uma horta, algo assim. É o tipo de vida ideal para se ter antes de morrer.

— O ar do campo é puro – Mary Ann pensou, com tristeza, sobre o dia que não teria mais nem Sirius nem Remus para ministrar remédios, verificar se estavam bem ou mesmo conversar distraidamente. Teria apenas James White que acreditava em tubarões gigantes que o visitavam exatamente às onze e quarenta e quatro da noite e Alice Longbottom que acordava às quatro da manhã gritando de dor, dor essa que só ela sentia, só das lembranças ao recordar-se das agulhas e choques, manivelas giradas em máquinas de tortura, toda uma sorte de equipamentos que a levou para o limite entre a loucura e a sanidade. Todas as noites de Alice eram uma constante batalha com o próprio passado. Todos os dias de James eram loucas experiências com fantasias criadas dentro de sua cabeça. Mas todos os dias com Remus eram dias de paz e calma, uma ilha no meio do mar do caos que era aquele hospital psiquiátrico.

Sirius era apenas o cachorro furioso que morava na ilha, um ser que rosnava eventualmente e tinha sido muito machucado, então era compreensível todo o seu ódio e desconfiança. E apenas Remus poderia controla-lo e amá-lo assim, dessa maneira. Mary Ann queria amar Sirius assim também e conseguir compreender Remus um pouco mais, mas era impossível.

— Espero que vocês consigam isso. – Mary Ann se levantou, lembrando de todas as coisas que ainda precisava fazer. Levar Alice para passear no jardim. Encaminhar os relatórios. Organizar sua coleção de cartões postais pela décima vez somente naquela manhã. Quanto mais Remus a distraía, mais empenhada ficava em manter um mínimo de ordem e simetria. Quanto mais fora do sério ficava por dentro, mais obcecada pelo alinhamento perfeito das pílulas ficava. Quanto mais caos Mary Ann se tornava, mais as enfermeiras a detestavam pelo exagero.

Naquele dia almoçou solitária, como em todos os outros dias recentes, o arroz e a carne que empilhava cuidadosamente um ao lado do outro. Cortava a carne em pedaços azuis, e comia em porções parecidas. O garfo à direita, a faca à esquerda, o copo com suco no canto superior da mesa, sempre à direita, sempre o copo de plástico transparente, para poder ver o seu conteúdo perfeitamente.

Você é só uma enfermeira, Mary Ann. A voz de sua mãe suspirou, como que lamentasse todos os traços que a filha herdara do pai: a capacidade de imaginar coisas além do necessário, toda a falta de praticidade quando precisava decidir assuntos do coração. Apaixonar-se é um fardo, Mary Ann. Podia visualizar sua mãe sentada à sua frente, comendo exatamente da mesma forma que ela, meneando a cabeça negativamente, desapontada com a filha. Seu pai diria que estava tudo bem. Que as coisas eram assim mesmo. Nem tudo é tão certo assim, minha querida. Ele tinha aquele olhar sonhador, de eterno artista, e falaria em voz mansa, tal qual Remus. Por algum motivo, deduzia que era seu jeito lento e pouco prático que mais encantava sua mãe, que ele era tudo o que ela precisava quando não era a própria máquina. Talvez eu seja mais parecida com minha mãe do que eu pensei.

Respirou fundo ao terminar do almoço, sabendo que era constantemente observada pelas outras enfermeiras, enciumadas ou invejosas. Ou talvez apenas com olhares tortos para cima de todo seu amor pelo perfeccionismo. Talvez estivesse exagerando.

Guardou seu almoço, embalando as sobras em plástico filme, lavando o copo no banheiro, tudo ordenado dentro da bolsa, tudo de volta aos seus lugares. Mas era preciso essa ordem e era o que seus colegas de trabalho não entendiam. Todos jogavam as pílulas de qualquer jeito no carrinho e não se preocupavam com muita coisa, e riam alto, e quando elas estivessem quebradas? Seria o caos dentro e fora? Como elas saberiam organizar as coisas para que tudo voltasse ao seu lugar? Como elas poderiam entender Mary Ann com seus anos sendo a melhor aluna da sala, a melhor filha do mundo, a melhor fiel da igreja? Como elas poderiam entender que Mary Ann era uma bagunça e não conseguia conviver com isso?

Nenhuma delas poderia entender Mary Ann. Nenhuma delas conhecia Remus Lupin como ela, nenhuma conhecia os bastidores da profunda e enigmática relação que se estabelecera entre o paciente e a enfermeira e de como Remus conseguira vencer as barreiras tão facilmente e fazê-la falar qualquer coisa sobre sua vida. Ele a conhecia inteiramente, ele que não a condenava nem pelos erros mais idiotas da adolescência. Ele lhe deixava vulnerável e contente por se sentir tão vulnerável, mas nenhuma das funcionárias de lá entenderia isso. Nenhuma delas tinha alguém que as fizesse se sentir assim.

Não era paixão.

Não estava apaixonada.

Era pior.

Estava amando alguém.