Capítulo Quatro

O tempo pareceu congelar enquanto eles se encaravam, Mulder tinha segurado no pulso dela e apertado até o nível da dor, mas ela não se atreveu a dar mais nenhum pio, aos poucos ele foi perdendo o ar sombrio e ela viu quando ele começou a perceber o ambiente ao seu redor.

Dando um passo para trás ele soltou o pulso dela: "Desculpe." O sussurro quase não foi ouvido.

"É melhor você ir."

"Mulder.. Eu.."

"Agora" A voz dele era baixa, mas ela ainda podia ouvir a tensão nele, ele tremia um pouco e ambas as mãos estavam fechadas em punhos ao lado do seu corpo. Sem mais demora ela saiu de lá.

Assim que a porta foi fechada ele soltou o ar dos pulmões, ele ainda podia sentir o vestígio da mente do criminoso em sua própria mente, a raiva do assassino e a vontade de machucar alguém. Ele sabia que a tinha ferido, ele ainda sentia o pulso dela em sua mão, ele tentou desesperadamente esquecer o olhar de medo que ela tinha no rosto. Respirando fundo ele se acalmou e escreveu mais um pouco no bloco.

Ele saiu da sala a procura dela, mas antes passou pela sala de Kenneth e explicou o que tinha descoberto: "Ele vai tentar sair da cidade, mas o mais importante ele vai tentar machucar o bebê. Com a marca, que é o modo dele provar seu valor. Procurem por eles em bairros recatados, ditos como de família."

"Ele estará lá?" Questionou Kenneth curioso.

"Sim." Ele suspirou. "Assim que encontrarem alguma coisa me avisem. Agora preciso encontrar minha parceira."

"Ela foi para o banheiro." Disse ele preocupado. "Ela está bem? Eu achei que ela estava um pouco abatida."

"Ela vai ficar bem, nós nos apegamos muito ao garotão." Falou ele e sorriu lembrado do pequeno trabalho que o bebê tinha lhes dado.

"Bem.. Acredito que todas as pistas estão aqui." Comentou Kenneth o dispensando.

Mulder afirmou com um gesto de cabeça e saiu da sala, ele ia em direção ao banheiro feminino quando uma barulheira se instalou no salão principal.

"O que houve?" Mulder perguntou a um policial

"Encontraram nas imagens um homem com um boné, conseguimos pegar a placa do carro em que ele entrou com o bebê, ele estacionou numa fazenda há 5km daqui." Mulder ficou surpreso em encontrá-la tão rápido, talvez ele tenha subestimado a sabedoria do criminoso. Com o entusiasmo da nova descoberta ele se virou para chamar Scully, mas quase saltou de sua pele quando a encontrou ao seu lado.

"Jezz, Scully. Quer me matar de susto?"

"Desculpe." Ela resmungou e olhou ao redor. "O que descobriram?"

"Encontraram o criminoso, ele está numa fazenda." Ele disse e a encarou, mas ela desviou seu olhar. Suspirando ele se aproximou mais um pouco. "Precisamos conversar."

"Não agora."

"Scully, precisamos resolver isso antes de qualquer coisa."

"O Henry está em perigo, não temos tempo para conversar."

"Eu estou fazendo isso por ele, por favor, vamos conversar." Ela o encarou por poucos segundos antes de sair para a sala deles. Mulder entrou e fechou a porta, respirando fundo ele ficou de frente para ela, mas não invadindo seu espaço.

"Fale logo, Mulder." A frieza na voz dela o deixou desconcertado, ele sabia que mais cedo ou mais tarde ela o iria afastar, porém não pensou que fosse tão cedo.

"Olhe para mim, Scully." Ele pediu, ele queria mostrar a Scully que continuava sendo o Mulder de sempre. Ainda relutante ela o encarou e para total surpresa dele ela soltou o ar aliviada. "Eu sei que te assustei, por isso queria conversar."

"Você me assustou como o inferno, Mulder!" Ela vociferou. "Era como se eu tivesse encarando o criminoso."

"Desculpe, eu não queria que você visse essa parte feia dos perfis."

"Como você conseguiu passar tanto tempo na SCV?"

"Era meu trabalho e quase me destruiu." Contou ele com pesar. "Eu não gosto de fazer isso, de me sentir desse jeito.. Sujo."

Mulder não sabia porque estava contando isso a ela, eles eram melhores amigos, porém isso ficaria estranho em pouco tempo. Ele nunca tinha falado tão abertamente sobre isso com ninguém, na verdade a única pessoa que já o tinha visto assim tinha sido Phoebe, entretanto ela era a pior pessoa para se ter uma opinião sobre o assunto.

"Eu não sei o que dizer, eu realmente fiquei assustada, mas não por mim.. Mulder como você não se machucou? Como não se perdeu nisso tudo?" A preocupação dela era genuína e o mais surpreendente que ela estava preocupada com ele.

"Eu vou ficar bem, Scully." Ele tentou sorrir um pouco, ele estava um pouco mais aliviado que tinha se entendido com ela. "Já que resolvemos isso, vamos encerrar logo esse caso."

Afirmando ela sorriu para ele e ia saindo da sala quando alguma coisa chamou a atenção dele, Scully tinha puxado a manga do blazer para encobrir o pulso, com delicadeza ele puxou o braço dela até a altura de seus olhos, o que ele viu o fez gelar, um hematoma estava começando ali e tinha sido causado por ele.

"Deus, Scully. Eu machuquei você."

"Eu estou bem, Mulder."

"Não.. Olhe o que eu fiz." Ele estava desolado. "Eu poderia ter feito pior. Desculpe." Ainda com pesar ele trouxe o pulso até seus lábios e o beijou como se fosse apagar toda evidência do que tinha acontecido.

"Eu estou bem." Ela o tranquilizou novamente. "Vamos, precisamos acabar com esse caso." Ele ainda estava chateado Scully podia ver em seu rosto, mas afirmou com um aceno de cabeça e a seguiu para fora da delegacia.


Eles chegaram na fazenda quase 20 minutos depois, eles tentaram ser o mais silenciosos possível assim poderiam agir sem que ocorresse uma tragédia. Porém, no caminho Mulder e Scully entraram em uma discursão fervorosa, ela queria acompanhá-lo e proteger sua retaguarda, mas ele insistia que ela ficasse longe:

"Mulder, eu não vou deixar você sozinho."

"Scully, eu vou com três homens em minhas costas, como isso é ir sozinho?" Ele a encarou e tentou não ser intimidado pelo olhar gelado que ela estava direcionando especialmente para ele. "Olhe.." Ele começou. "Eu preciso que você fique de fora por questão de segurança, ele acredita que todas as mulheres devem ser submissa e se ele me ver com você ele vai saber quem manda. E acredite em mim, parceira, não sou eu."

O sorriso que ela deu depois disso valeu a pena qualquer insulto em seu ego e masculinidade. Talvez ele pudesse usar essas armas a seu favor, era bom saber que Scully gostava de ser reconhecida e isso era algo que ele sempre podia fazer. Os outros policiais que estavam no carro com eles tentavam ser invisíveis e sorrirem da conversa confusa deles.

Assim que chegaram perceberam que o campo ao redor da fazenda era grande e tinha altas árvores, ajudando a polícia a se esconder e ao mesmo tempo dificultando para eles caso o bandido fugisse. Kenneth se aproximou dos agentes e com um binóculo tentou avistar a entrada da casa.

"Agentes, eu não tenho uma visão muito clara do interior, mas acredito que ele esteja sozinho, só há um veículo em toda propriedade."

"O plano continuará do mesmo jeito. Cercaremos a casa e assim que eu começar a me aproximar da porta usarei o megafone e tentaremos tirar o Henry de lá sem ninguém sair ferido." Falou Mulder.

Com um aceno de cabeça todos se posicionaram e seguiram em direção a residência. Assim como o planejado Mulder pegou o megafone e correu sua memória fotográfica para lembrar o nome do proprietário da casa.

"Richard Walker, aqui é o agente Fox Mulder do FBI, sabemos que você está com a criança." Ele respirou fundo e esperou por algum barulho, porém nada foi ouvido e ele resolveu continuar. "Não queremos machucá-lo, mas usaremos nossas armas se for necessário."

"Vão embora." A voz abafada do homem veio da casa e todos se entreolharam.

"Richard, eu vou me aproximar da porta, podemos conversar mais um pouco, assim ninguém se machucará."

Sem esperar por ninguém Mulder seguiu, com passos inseguros, até a porta da residência. Scully assistiu, com o coração a mil, seu parceiro se arriscar mais uma vez, ela se levantou mesmo sem perceber e deu dois passos em direção a casa antes de Kenneth a impedir.

"Scully, fique aqui."

"Ele não pode ir sozinho."

"Eu sei, mas temos olhos em todos os lugares. Ele vai ficar bem." Scully tentou acreditar no que ele falava, mas ela estava tendo um daqueles pressentimentos que a deixava assustada.

O tempo passou lentamente enquanto Mulder conversava com o homem por uma fresta na porta. Por um momento Mulder agradeceu por não ter mais ninguém ali com eles, pois para falar com o assassino Mulder precisava ser tão frio quanto ele e, sabendo que levaria uma bronca depois, ele desconectou o microfone que estava em seu colete.

"Ok, é o seguinte." Começou Mulder confiante. "Você está vendo esses homens atrás de mim? Eles querem prender você e só estão esperando minha autorização."

"Você não pode me tocar se ainda estou com a criança."

"Isso é verdade, mas isso não que dizer que eu não posso atirar em você." Suspirando Mulder o encarou um pouco e tentou passar tranquilidade. "Olhe... eu entendo o que você está passando."

"Você não sabe de nada." O homem praticamente rosnou.

"O que eu sei é que você tem uma esposa que está muito acima de você e isso te incomoda." Mulder tentou, mas falhou ao esconder o tom de deboche na voz.

"O que você está insinuando? Que eu não sou homem suficiente para controlar uma mulher?" A fúria cega do bandido o fez afrouxar o aperto no pequeno.

"Bem.. Entenda como quiser. Eu não permito ter minha vida controlada por ninguém."

"E mesmo assim você tem uma parceira." Richard cuspiu as palavras. "Para quem tem tanto controle de sua vida, você sabe obedecer direitinho aquela ruiva."

Mulder escondeu bem a surpresa do que o bandido tinha falado, se ele sabia desse fato ele poderia saber muito mais. Mulder deixou a raiva do assassino tomar contar dele ao perceber que estava sendo observado durante todo esse tempo:

"Acho que me enganei sobre você, Walker." Provocou Mulder. "Não sabia que você apreciava bisbilhotar a vida alheia como aquelas senhoras fofoqueiras que todo bairro tem." Com raiva: "Sua marica."

Mulder observou com um pouco de alívio quando Richard colocou Henry no sofá e deu um passo em sua direção com a arma apontada para ele.

"Eu não sou uma marica." Com isso ele deu um rosnado e puxou o gatilho.


Scully andava inquieta de um lado a outro na frente da van onde estava montado todos os equipamentos tecnológicos. Ele estava um pouco ofegante e ela sabia que era por causa de toda a adrenalina.

De repente ela ouviu um chiado e soube que Mulder havia desconectado o microfone para ninguém ouvir o que ele diria, ela não foi capaz de controlar o arrepio que passou por seu corpo e o aperto no peito.

Todos os agentes estavam silenciosos e quietos, ninguém ousou falar ou até mesmo respirar, a ansiedade era palpável e inconsciente de seu movimento Scully deu alguns passos em direção ao seu parceiro. De repente uma voz foi ouvida pelo rádio:

"Senhor, tenho uma visão do alvo, ele ainda está com a criança.".

"Mantenha a mira, assim que a criança estiver fora de perigo atire.".

Scully olhou para o rádio ansiosa e esperou que alguma coisa acontecesse, ela queria matar Mulder por ele ter desconectado os microfones, talvez eles poderiam ter alguma dica para atacar.

"Droga." O sussurro baixinho de um dos agentes a tirou do devaneio. "Senhor, o alvo soltou a criança, mas se moveu. Não consigo uma visão clara."

"O que ele está fazendo?" Questionou Kenneth.

"Ele está apontando a arma para..."

Eles não chegaram a ouvir o final da frase porque um tiro ecoou por todo o ambiente e bastou isso para que todos os agentes avançassem e um pequeno tiroteio começasse.

Scully ainda tinha dificuldade em lembrar o que aconteceu naquele momento, a única coisa que conseguia descrever era que assim que ouviu o tiro ela assistiu Mulder cair porta afora na varanda, ela gritou o nome dele e correu em sua direção sem estar preocupada com os tiros ao seu redor.

Ela tentava se tranquilizar de que ele estava bem, ele vestia o colete a prova de bala, nada poderia dar errado. Porém, assim que chegou do lado dele, Scully viu uma poça de sangue se formando em sua perna.

Ao mesmo tempo em que tentava descobrir o que estava acontecendo o choro do pequeno Henry entrou em seus ouvidos, ela virou-se e viu um dos agentes segurando o pequeno e tentando acalmá-lo.

"Ei, vá vê-lo, eu vou ficar bem." A voz fraca de Mulder chegou aos seus ouvidos.

"Ele está bem, eu vou cuidar de você agora." Ela sussurrou e sorriu para ele. Ao mesmo tempo em que estancava a ferida na perna dele ela gritou por uma ambulância. Mulder a observava com os olhos turvos e sorriu um pouco por saber que talvez sua última visão em vida seria os olhos azuis dela. "Mulder.. abra seus olhos. Por favor, não me deixe aqui."

O pedido dela era suplicante e lágrimas começaram a se formar em seus olhos, ela sabia que a bala talvez tivesse atingido sua artéria femoral e isso não seria bom. E para completar seu desespero Mulder estava olhando para ela fascinado como se a qualquer momento ele fosse embora e ao ver esse sentimento de despedida nos olhos dele, ela sentiu seu mundo ruir e sussurrou para que ele se mantivesse firme.

Infelizmente, Mulder não resistiu lutar por muito tempo contra a escuridão e de bom grado fechou seus olhos para ela.

Continua...