Abraço no Escuro - Parte IV

"Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti"

O jantar estava bom e levemente insosso, como todas as outras refeições. Mas Rector cozinhava melhor do que muitos homens que eu conhecia. E com certeza melhor do que Hermione.

Uma onda de culpa se abateu sobre mim após aquela comparação. Meu amigos, o que eles estariam achando? Será que acreditavam que eu estava morto? Eu estava sendo egoísta em permanecer ali, escondido, me recuperando enquanto pessoas queridas se preocupavam comigo lá fora, sem saber se eu estava bem ou não. Aquela brincadeira com Rector precisava acabar. Se tudo desse certo, acabaria ainda naquela noite, quando eu enfim descobrisse quem aquele homem a minha frente era.

- Podemos nos ocupar com a sua barba agora – disse Rectus se levantando da mesa e com um movimento de varinha sumindo com a louça suja.

- Você poderia apenas me emprestar um aparelho, eu sei me cuidar sozinho.

- Estou certo de que pode – respondeu ele com aquele maldito sarcasmo. – Porém prefiro não arriscar ter de curar mais uma ferida desnecessária.

Rector veio na minha direção e eu soube de imediato que ele me seguraria pelo braço e me arrastaria pela casa. Coloquei as mãos na frente do corpo, me protegendo.

- Rector, eu sei andar sozinho – disse quando ele chegou até mim. - Você não precisa ficar me arrastando de um lado para o outro.

A sombra parou ao que eu achei serem poucos centímetros de mim, e permaneceu desse jeito por alguns segundos. Quando eu achei que ele ficaria lá para sempre, simplesmente me contornou e seguiu para a porta.

Me levantei, já com os braços erguidos a frente do corpo e segui Rector pelo caminho, usando sua sombra como referência.

Ao chegar ao banheiro, ele se pôs imediatamente a arrumar algo sobre a pia.

- Aproxime-se.

Sem saber exatamente o que me aguardava, obedeci, ficando ao lado dele. Rector me segurou pelos ombros e me empurrou contra a pia, fazendo com que me sentisse oprimido. Mais por instinto do que qualquer coisa, tentei me livrar de seu aperto. Aquela posição me incomodava.

- Fique quieto ou não poderei fazer a sua barba – disse ele parecendo não notar meu incômodo.

Respirei fundo. Já havia decidido que confiaria inteiramente naquele homem. Mesmo que ele gostasse de ser sádico às vezes, não me faria mal, e afinal, era só um barbear, não havia motivo para pânico.

Logo algo espumoso e refrescante atingiu meu rosto. Era estranho ter alguém fazendo minha barba, desde que começara a ter pelos no rosto era eu mesmo que cuidava daquilo. Ter alguém fazendo a minha barba parecia mais algo de uma celebridade, ou uma pessoa mimada no geral.

- Não fique com esse sorriso impertinente no rosto. Assim que sua visão melhorar você fará isso sozinho.

Continuei sorrindo só para irritá-lo. Aquele comentário fora totalmente sem sentido, eu mesmo queria fazer minha própria barba, ele estava me obrigando àquilo.

Como forma de vingança e sabendo que aquilo me incomodaria, ele chegou mais perto, sua perna fazendo contato com a minha. Meu corpo inteiro se tencionou, mas ele não desfez o contato. Passou a mão pelo meu rosto vagarosamente. Tenho certeza de que ele estava sorrindo. Engoli meu pânico pressionando os lábios com força. Não daria a ele o gosto de me tratar como um doente.

Ao se aproximar, do meu rosto com o seu, como se precisasse enxergar tão perto alguma coisa na hora de me barbear, senti seu calor emanando até mim e junto um cheiro sobrepujando o da loção de barbear. O cheiro de Rector. Era um cheiro de coisas antigas, tão característico... Mas não era um cheiro ruim, era apenas muito típico. Eu não sabia se vinha dele ou da roupa que usava, pois pelo que eu havia percebido até ali, Rector não poderia ser tão velho assim, mesmo com seu humor ranzinza.

Gostei do cheiro, e me concentrando nele, esqueci da perna na minha. Fechei os olhos e deixei seu calor se transferir para mim, sua mão passeando livre por minha face. Aos poucos a imagem de um rosto foi se montando em minha mente, como se eu conseguisse enxergar o homem a minha frente perfeitamente bem por de trás das pálpebras. Fiquei tenso e, sem perceber, enrosquei minha perna na dele, num movimento inconsciente que o impediria de fugir. Isso quebrou alguma coisa entre nós.

Rector se afastou bruscamente, parecendo quase assustado, eu diria. Não disse nada, e logo eu pude perceber que ele fora até a banheira e ligara a água.

Eu estava ainda entorpecido, a segundos de saber quem era aquele homem. Seu cheiro lembrava... a minha infância. Estava carregado de rancor e ainda assim, trazia consigo grandes memórias, aventuras, dúvidas. Gratidão. Minha infância.

Rector voltou a se aproximar, dessa vez muito cuidadoso em manter uma distância aceitável enquanto eu tentava arranjar uma maneira de me reaproximar. Inclinei-me em sua direção diversas vezes, mas ele sempre fugia. Foi então que eu percebi algo singular, algo que parecia já estar dentro da minha mente desde sempre, eu que ignorara aquele tempo todo: a melhor forma de me defender daquele homem era atacando-o. Eu sabia disso, sabia há muito tempo, desde um dia longínquo quando eu... quando...

- Relaxe o rosto antes que eu acabe te cortando – disse Rector com sua voz cortante me desconcentrando.

- Quê...? – perguntei abobalhado.

- Apenas relaxe o rosto, Potter.

E eu relaxei. Olhei para frente, para onde acreditava que estariam os olhos de Rector. Queria atacá-lo, incomodá-lo. Meu momento de epifania me dizia que a melhor forma era encarando-o direto nos olhos. Não que eu soubesse aonde exatamente estavam os olhos dele, mas olhei diretamente para onde calculava estarem.

No começo pareceu que não funcionaria, então passei a perceber que suas mãos eficientes não estavam mais tão seguras assim. Insisti em olhá-lo até que ele mesmo não agüentou mais.

- O que você está encarando, Potter? – me perguntou irritado e abalado.

- Você se esquece de que não posso ver mais do que luz e sombras – respondi ironizando-o, a arma contra o próprio mestre.

- Então olhe para outro lado – disse arrogante, passando a lâmina com um pouco mais de força do que o necessário pelo meu maxilar.

Não respondi nada, apenas continuei a encará-lo. A cada momento que passava, Rector ficava mais incomodado, a mão cometendo erros que antes eu acharia impossíveis. Agora ele estava com pressa em terminar o serviço, nada de jogos.

- Te incomoda ter os olhos de um cego sobre si? O que eu veria se enxergasse?

- Devo lembrar que você não está cego. E não há nada aqui para ver que seja do seu interesse.

- Ah, devo discordar. Posso afirmar que é do meu mais puro interesse.

- Terminei com você, Sr. Potter – disse ele após uma rápida passada de lâmina por debaixo do meu queixo.

- Tem loção pós-barba? – perguntei ainda encarando-o aonde acreditava serem seus olhos.

Rector fez um som irônico, como se eu o tivesse perguntado por algo ridiculamente fútil. Sabendo que isso significava um não, me desencostei da pia e meu corpo quase se encontrou com o dele. Aquele cheiro invadindo as minhas narinas novamente. O cheiro dele. Senti que se me inclinasse um pouco mais para frente nossos narizes se tocariam. Rector recuou, eu sorri.

Aquela batalha, eu vencera.

- Obrigado, Rector – disse pronunciando o codinome de forma exagerada. – Durma bem.

Para ficar de acordo com o que acabara de fazer, me virei e segui pela porta como se enxergasse. Por sorte lembrei que havia um desnível entre o banheiro e o corredor, senão teria desfeito toda a minha pose. Quando cheguei ao corredor, usei a mão como apoio para me guiar. Escuro como estava, eu nem ao menos conseguia enxergar luz e sombra, tudo era praticamente preto.

Entrei no meu quarto e aguardei, precisava que a noite avançasse.

xXx

Eu não saberia precisar quanto tempo se passara, apenas que eu dormira, acordara e dormira novamente. Mas tinha certeza que não fora nem por pouco, nem por muito tempo. Deveríamos estar no meio da madrugada. Era agora ou nunca.

Silencioso, me levantei da cama. Arranquei as fronhas dos meus dois travesseiros e amarrei uma em cada pé. Teria de ser a abordagem mais silenciosa que eu já fizera enquanto civil. Usaria as minhas técnicas de auror para algo que não envolvia a segurança mundial. Me sentia meio criminoso, mas era algo que precisava ser feito.

Tendo já decorado que parte do corredor era menos barulhenta, segui por ela até a porta do quarto de Rector. Fazia parte do meu plano a previsão de que a porta não estaria trancada magicamente. Primeiro porque estando ele dentro do quarto, não teria medo deste ser invadido, segundo, pois calculava que se ele tivesse de se levantar no meio da noite para me atender, seria muito fácil já estar com a porta aberta.

Sem erro, quando cheguei lá, bastou empurrar a porta que o quarto se desvelou para mim. Não fazia muita diferença do resto da casa, que naquele horário era apenas um mar de breu. Mesmo que ali dentro o escuro de alguma forma parecesse mais opressor. Talvez fosse a adrenalina do risco de ser pego.

Entrei o mais devagar possível, aquele era um cômodo que eu ainda não explorara, não sabia onde se encontravam seus móveis ou no que eu poderia esbarrar. Precisava de muito cuidado.

O destino parecia estar a meu favor, pois eu escolhi andar em frente (tanto para não me perder, quanto para ter certeza de dar na parede) e o que encontrei excedeu minhas expectativas, pois a primeira coisa na qual minha perna bateu foi a cama. Passei a mão por sua borda macia, tentando descobrir até onde seria a cabeceira, ao chegar ao lado oposto ao que eu estava, senti uma respiração quente e ritmada brincar nos pelos da minha mão.

Tateei lentamente mais a frente, procurando o rosto, quando encontrei primeiro fios lisos e escorridos, segui por eles até encontrar uma orelha, logo depois uma bochecha. A outra mão se juntou à busca e o mais delicadamente possível apalpei todo o seu rosto, até chegar a um nariz protuberante e curvado e aos lábios finos, típicos de pessoas ríspidas.

Foi no instante que juntei a imagem do nariz com aquela boca que uma mão segurou meu pulso. Eu levei um susto, ao mesmo tempo pelo movimento inesperado e pela luz que se fez em minha mente.

- O que você está fazendo? – perguntou ele sibilante. Não havia atordoamento em sua voz, apenas fúria.

Livrei-me do aperto no pulso e levei a mão de volta para seu rosto, ignorando a contorção e a tentativa de se afastar. Eu tinha que apalpá-lo novamente, certificando-me de estar realmente certo. Lá estava, aquele nariz, aquela boca, aquele cabelos... Céus, como não o reconheci antes?

- S-Severus... – sussurrei sem reparar que chamara-o pelo primeiro nome e que meu rosto estava a centímetros do dele.

Minha cabeça parecia que iria explodir ou pifar a qualquer instante com a onda de informações que se abateram sobre mim, as peças do quebra-cabeça se encaixando morbidamente. O tempo congelou. Snape continuava a segurar meu pulso e eu continuava inclinado sobre ele de olhos arregalados, sem saber como aquilo seria possível e tentando achar a lógica em tudo.

Não havia percebido o quão próximo eu estava dele até que algo aconteceu. Snape me puxou pelo pulso. Eu caí sobre ele. Nossas bocas se uniram. Meu mundo girou.

De repente tudo fez tanto sentido. Meu cárcere, minha salvação, meu salvador, meu redentor. Sentia-me ardendo por dentro. Alguma comichão nas pontas dos dedos (ou seria no fundo da alma?), me dizia que aquilo era o certo, que aquele beijo poderia acertar as contas do passado e arranjar o futuro. Era por isso que o universo esperara aquele tempo todo.

Inclinei-me na direção dele, ávido, embrenhei minhas mãos em seus cabelos, o puxei para mais perto. Snape arfou e eu acreditei que aquele era o som que eu sempre quisera ouvir. Sentei sobre Snape, feliz em perceber que nos encaixávamos, seu colo magro era-me confortável, senti-lo era confortável. Não haveria amanhã, o desespero, a dor, os sentimentos, tudo, uma onda, me afogando, me consumindo. Mas aqueles lábios me traziam ar, me traziam esperança e a promessa de que sempre estariam lá para me maltratar, para me ridicularizar e para provar que eu continuava vivo, que eu deveria nadar contra tudo e todos e provar meu valor.

Minha mão, tomada de uma vida além da consciência, se enveredou por dentro da roupa de Snape, levantando suas vestes, sentindo sua pele quente sobre minha mão fria.

- Harry, não, não!

Ele me chamou pelo nome e eu quase chorei. Sem motivo, sem necessidade. Poderia ter atendido a qualquer pedido dele naquele momento. Pela primeira vez eu não me sentia descendente do meu pai ou filho da minha mãe. Sentia apenas eu na presença daquele homem. Ele estava me enxergando.

- Severus... – sussurrei, ele estremeceu.

- O que... o que você está fazendo? – perguntou tentando se recompor. Eu sorri para o escuro. Não precisava enxergar para saber que presenciava um daqueles momentos que só ocorrem de décadas em décadas, Snape corava embaixo de mim.

- Não sei – respondi sincero, me levantei de seu colo. Realmente, não sabia o que havia acontecido comigo. Fora como uma febre, uma onda de calor voluptuosa. Não era eu, eram apenas meus instintos se deixando levar. Depois de tanto tempo, me sentir amado e desejado de uma forma não brutal era de fazer perder a cabeça. O quanto eu precisava de consentimento, de desejo mútuo...?

Ouvi o som de molas velhas chiando. Snape se pondo de sentado. Uma mão voltou a segurar meu pulso.

- Você gosta de me prender a você – eu disse ainda extasiado pelo que acabara de acontecer. A verdade, as peças que se encaixadas, as atitudes que eu presenciara, a sombra e o cheiro que eu conhecia. Era ele, o mestre de poções.

Sua mão soltou meu pulso como se tivesse sentido um choque elétrico. A verdade o esbofeteara.

O silêncio se impôs no quarto enquanto meu cérebro trabalhava frenético, imagens voavam na minha cabeça. A morte tão simples e fácil através da cobra, ele sobrevivera. Como? O Sr. Weasley demorara tanto para sarar... Eu acreditara que...

- Potter...

- ...Não! – exclamei furioso, como ele ousava me chamar assim? – Eu não sou meu pai, não sou minha mãe, não sou o herói, não sou nada disso. Sou apenas eu, Harry. HARRY! Você não consegue enxergar?

Silêncio.

Não, ele não conseguia enxergar.

Saí de perto dele como um furacão. Me perdi no escuro, bati em móveis, encontrei uma parede, xinguei, machuquei o pé, descobri um armário e por fim, a porta. Saí pelo corredor quase correndo, encontrei meu quarto e entrei batendo a porta, me joguei na cama com a cabeça rodando.

Aquela foi uma das piores noites da minha vida. Tudo doía. E não eram só os machucados cobertos de ataduras. Eu acreditara tão fortemente que havia encontrado alguém que me entendia por inteiro que quando descobri se tratar de Snape, pareceu por vagos instantes – quando ele me puxou para perto - que aquela era a pessoa certa. Mas então, quando eu me empolgara, quando avancei um passo a mais, quando ousei, parece que voltei a ser o filho maldito de James Potter, prova viva da rejeição de Lily Evans. Não era mais Harry, e apenas Harry, acertando as contas do passado, de repente amando Severus Prince Snape como minha mãe jamais conseguira, consertando os sentimentos de ódio que a imagem do meu pai trazia, pois agora era a imagem de Harry que era mais importante.

Mas aquele velho ranzinza não estava pronto para esquecer tudo e recomeçar de novo, aquele velho ranzinza ainda me via como um garoto parecido demais com seu inimigo de infância para conseguir esquecer e simplesmente... ser correspondido.

O que eu queria? Que ele deixasse de pensar no passado? Acreditei que ele estava mudado, a forma como vinha me tratando... Não. Eu mudara. Os anos desde a adolescência, os dias (semanas? meses?) no cativeiro, eu havia seguido em frente. Severus Snape continuava o mesmo, preso a mim apenas pela promessa sobre o túmulo de minha mãe, me desprezando pela semelhança física com meu pai, me afastando por ser como o homem que jamais cheguei a conhecer.

Senti uma dor tão profunda e cheia de revolta que percebi: meu coração havia se partido. Pela primeira vez em minha vida. E aquilo doía muito mais do que as feridas cobertas de ataduras por todo o meu corpo. Eu jamais seria apenas eu na presença de Severus Snape. E isso surpreendentemente importava muito.

Fiquei horas pensando, confuso, zangado, ofendido e destroçado. A claridade começava a entrar pela janela do quarto quando eu comecei a adormecer a contragosto em um sono agitado e inquieto. Quando estava no torpor entre o adormecido e o acordado, tive a impressão de ouvir uma porta rangendo. Essa foi a última coisa que captei do mundo exterior.


N/A: Desculṕem a demora para postar, meus finais de semana andam tensos. Como esse agora. Desculpe não responder aos reviews fofos que vocês mandam, mas prometo que no próximo capítulo respondo tudo certinho. Por isso, não deixem de comentar, eu adoro e sinto que dá mais vontade de seguir em frente quando recebo comentários!