Mudanças

--Capitulo 4--

Quem quer que olhasse realmente não perceberia que algo nem mesmo minimamente houvesse mudado na vida do espectro conhecido por ser tão frio como o Cocyte que guardava. Apenas quem conseguisse decifrar o olhar misterioso perceberia certo brilho, antes inexistente, no fundo dos verdes olhos do ruivo.

Apesar de obcecado pelo passado, Harpia costumava pensar que por certo ponto de vista era bom não ter uma vida anterior, pois assim não teria nada do que se arrepender, nenhum sentimento de ódio, amor, que o movesse a algum objetivo claramente auto destrutivo. Achava que era bom não se lembrar, evitava que ficasse triste ou se arrependesse profundamente, mas, agora, ao ter a memória reposta, percebeu que não sentia arrependimento, nem a tristeza destrutiva.

Mas havia um sentimento um tanto estranho... Decepção talvez, por saber agora que o único homem que fora sua família o odiara e não sentira nada além disso por ele. E sua aversão ao contato humano realmente se fez justificada então. Afinal, como uma criança, que nunca recebeu nenhum toque humano ao não ser bruto, para machucar, não tem como aceitar novos toques. Uma criança que não conheceu o carinho não se permitiria tê-lo por quem quer que fosse.

No momento, o ruivo em questão havia mais uma vez deixado o cocyte. Caminhando um pouco por aquele árido local, revestido de terra seca, inútil e pedregosa. Trajado com sua sapuris, segurando o elmo com as mãos, encontrava-se sentado à beira de um precipício. Um dos muitos encontrados naquele local. Abaixo de si também só havia pedras, pelo que sabia, pois na verdade só podia ver aquele vazio negro e sem sentido abaixo de si. Estava distraído, e ao sentir um cosmo aparecendo ali, de repente perigosamente próximo, se assustou. Esquecendo de onde estava, tentou levantar, mas seus pés encontraram apenas o nada e ele pôde sentir-se caindo no escuro. Mas não o sentiu por muito tempo, sua mão foi segurada por alguém e seu corpo ficou balançando ali, sem reação, hesitante em fazer algo que acabasse resultando em uma queda. Valentine estremeceu quando ouviu uma voz poderosa ressoando.

"Segure-se."

Ao ouvir aquilo, prendeu mais sua mão à daquela pessoa e sentiu um puxão forte, que acabou levando-o a cair, porem, em cima de seu salvador, que se desequilibrara e caíra para trás. Ao abrir os olhos, incerto, encontrou uma face impassível e até um tanto irritada naquele abaixo de si. Ao perceber finalmente o quanto o corpo abaixo de si estava em contato consigo o ruivo levantou-se rapidamente. Estava ofegante pela quase queda. Confuso por alguém o ter salvado e estranhando a demora na própria reação inconsciente. E também, sem pensar duas vezes, estendeu a mão para o outro que ainda estava no chão. O kyoto ergueu uma sobrancelha, pronto a ignorá-lo e levantar sozinho. Mas aquele gesto de gentileza por parte do outro espectro era tão atípico que o fez pensar melhor e aceitar a ajuda. Aquela, em si, era uma situação irreal, e a sensação aumentou quando o ruivo ouviu o loiro perguntar, seriamente.

"Está tudo bem?"

Valentine olhou o outro, estranhando a pergunta, mas concordou com um meneio de cabeça. Se o outro não o tivesse salvo, teria, no mínimo, se machucado seriamente. Sentiu o rosto arder e o tocou com as pontas dos dedos. Olhou os dedos um tanto manchados de sangue, devia ter se cortado nas pedras quando escorregara. O kyoto percebeu o movimento e se virou novamente, vendo então o pequeno corte próximo a orelha do ruivo. Sem pensar no que estava fazendo, Radamanthys passou a mão de leve sobre o ferimento, descendo um pouco pelo rosto, num toque estranhamente... Carinhoso?

Assim que sentiu a pele quente sob seus dedos, o inglês pareceu dar-se de conta de que estava tocando-o e afastou a mão, esperando a mesma reação de sempre quando acontecia aquilo. O outro dar um passo para trás, gaguejar ou dizer para não tocá-lo. Mas o ruivo apenas ficou olhando-o e então Radamanthys percebeu que algo estava diferente. O olhar dele não era mais vítreo, não era mais embaçado, e podia ver tantas coisas naqueles olhos verdes... Medo, serenidade, melancolia, confusão, hesitação, uma mistura sem fim de sentimentos que nem conseguia nomear. Sem mais uma palavra virou-se e foi embora, deixando o espectro perdido em conjecturas e perguntas sem sentido, questionando-se internamente, embora não quisesse admitir isso, o que havia mudado com o outro?

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De volta em seu rico quarto no castelo de Hades, o kyoto pensava. Talvez... Depois de algum tempo chegou à conclusão que a mudança no outro poderia ter ocorrido pelo que acontecera na biblioteca. Havia visto que naquela hora, além da reação, o corpo dele convulsionava e a expressão dele, vidrada e confusa, deixava perceber que ele parecia estar recebendo informações demais ao mesmo tempo. Por um segundo, um sentimento estranho e até mesmo... bom... apossou-se dele. O motivo? Imaginar que, ainda indiretamente, era a causa daquela mudança nele. Os olhos dele agora, por mais que continuassem sérios, pareciam conter mais sentimentos que, mesmo sendo indecifráveis, não o incomodavam como o verde embaçado anteriormente fazia...

Devia estar enlouquecendo mesmo... E o que fora aquilo depois? Por que acariciara o rosto dele? Sabia que não era de gentilezas, nunca fizera questão de ser 'bom' com ninguém... Nunca quisera... E também não era homem de ter duvidas, como estava sendo... Bufou, querendo esquecer aquela situação e levantou-se, saindo, iria treinar um pouco e esquecer o episódio, havia um campo de treinamento próximo ao castelo, na fronteira do Cocyte, a àquela hora deveria estar vazio.

Aquilo fora carinho? Enquanto andava, no Cocyte, o ruivo pensava... Aquele toque... Estranhava não ter reagido a ele... Não achava que fora por que se lembrava agora, o motivo da falta de reação era outro, parecia ser outro, tinha quase certeza de que era... O toque... Era a primeira vez que o toque advindo de outra pessoa não o deixava receoso... As únicas pessoas que sequer tocaram-no sempre o machucaram, e aquilo... Podia ser o que chamavam de carinho? Mas... Vindo de quem viera? Ele nunca tinha, e provavelmente nenhuma outra pessoa também, sequer visto o kyoto tendo um gesto ao menos gentil...

Mas... Por que ele o tocara daquela forma? Suspirou, e ainda pensando, começou a refazer o caminho até sua casa, tinha bastante o que andar... Certamente só queria analisar o ferimento. Só isso.

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Sua casa era um tanto afastada da fronteira do Cocyte com Giudecca, próxima de um campo de treinamento usado pelos espectros que 'trabalhavam' no castelo de Hades. Enquanto caminhava, Valentine pensava quanto à questão de tocar as pessoas. Fora de lutas, um pequeno toque já ativava algo dentro de si, imediatamente, mas quando Wyvern tocara seu ferimento, a reação demorara um tanto mais e, ao mesmo tempo, estranhara o olhar dele. Vira um brilho diferente nos orbes dourados. Toque... Provavelmente algo de bom poderia vir disso mas... Estava receoso. Os passos no chão de gelo e neve e o vento eram as únicas coisas que ouvia por ali, o que o ajudava a pensar, mas ao mesmo tempo o inquietava.

Chegou à pequena construção mais ou menos vinte minutos depois, suspirando, a caminhada fora um tanto longa e queria descansar um tanto antes de ir treinar. Estava abrindo a porta quando um estrondo se fez ouvir um pouco ao longe... Perto... Perto do castelo de Hades? Alertou-se. Podia ser algum ataque? Suspirou, deixando a decisão anterior pra trás e, ainda com a sapuris, correu para o lugar. Estranho... Não via ninguém por perto... Mais espectros deviam ter ouvido aquilo, não?

Logo chegou até o local de onde aparentemente o som havia vindo. Mas não encontrou nenhum invasor...

"O que você está fazendo aqui?"

"Eu... er... bem..."

O ruivo ouviu aquela voz soar e tentou responder, a sua frente estava o kyoto Wyvern, sem a sapuris, sem camisa, apenas com uma calça de treinamento, claramente... O som que havia ouvido viera do 'treinamento'

"O que?"

Os olhos sérios fixavam-se nele, exigindo resposta, e suspirou, recompondo-se. Ver o outro daquele jeito tinha... Bem.. Melhor não pensar nisso.

"Ouvi um barulho bastante alto vindo daqui. Pensei que fosse algum... problema... e vim verificar..."

Radamanthys ergueu uma sobrancelha quando o viu gaguejar, e ainda mais, ficar um tanto... Ruborizado. Ele era realmente... Estranho. E estava claramente o olhando. O brilho diferente naqueles orbes o fez imaginar uma coisa, por um momento, mas logo aquilo sumiu e o espectro se recompôs, respondendo a pergunta que fora feita. Balançou a cabeça, respondendo.

"Fez certo em vir averiguar, mas eu estava apenas treinando..."

Por quê? ... Por que aquela face consternada e perceptivelmente com vergonha do engano o... Atraia? Por que o fazia ter vontade de... De dizer que não havia problema em ter errado? Não costumava ser gentil, o inglês não costumava ser simpático com ninguém então... Por que aquilo? Não.. Melhor deixar aqueles pensamentos de lado e se acalmar... Ainda mais por ter a adrenalina correndo em seu sangue daquela forma... A adrenalina lhe dava... Luxúria, e isso, junto com os pensamentos que estava tendo, não resultaria em algo bom... Pelo menos algo que o outro achasse bom... Pois sabia que ele tinha receio de tocar alguém e... Distraiu-se desses pensamentos ao ouvir um murmurado 'me desculpe' e ver a pessoa na qual pensava virando as costas e indo embora.

Era estranho... Desde que o encontrara em uma das prisões, quando houvera aquela pequena ventania, e havia visto os olhos do cipriota, sentia-se inquieto quando, sem querer, seus pensamentos se voltavam à ele. Era estranho admitir a si mesmo que, de alguma forma, aquele ruivo de olhos verdes, aquele espectro tão diferente... Chamava sua atenção, mais do que seria aceitável. Queria descobrir o que havia acontecido com ele para que, como percebera, não gostasse de contato humano... Queria saber no que aquilo tivera relação com o que acontecera na biblioteca do castelo de Lord Hades... E... por alguns momentos, agora, tivera vontade de seguir Valentine, e perguntar, saber, se aquela pequena mudança que via no olhar dele, era mesmo real... Se aqueles olhos tão opacos haviam realmente adquirido vida, ou se fora sua impressão.

Praguejou baixo, dera pra pensar aquele tipo de coisa de repente... Reassumiu o porte combativo e continuou o treinamento interrompido, cessando com a estranha vontade que lhe viera à mente... Aproximar-se do espectro...

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O ruivo estava cansado. Passara o dia inteiro concentrado numa missão que recebera... Verificar um grupo de demônios, os que também cuidavam das prisões, que pareciam querer rebelar-se contras as ordens de Hades. Estava desde a manhã na sexta prisão, uma das maiores, que tinha seus vários fossos, cada um com muitas almas, e guardado por pelo menos uma dúzia de demônios. Tentara conversar, mas... Desde quando diplomacia funcionava com aqueles seres sem consciência? Resultado, de momentos em momentos eles tentavam arranjar briga, já tinha exterminado quase dez, e aos poucos conseguia conte-los. Trajava sua sapuris o que evitava ferimentos piores, mas tinha alguns arranhões e cortes que precisariam de tratamento.

Por fim, conseguiu fazê-los retroceder e encerrou o assunto. Saia da sexta prisão, dirigindo-se para a sétima. Tinha agora de voltar para o Cocyte. Passou por alguns espectros, que se conservavam em grupos, conversando, ou treinando. Os viu olhar um momento para si, como que o avaliando, e então voltando para a própria conversa, um tanto que rindo. Suspirou, continuando seu caminho, não lhe interessavam as pilhérias feitas sobre si. Continuou a caminhar, tirando o elmo, que lhe dificultava a visão, e chegando próximo da oitava prisão. Estranhou ao sentir um cosmo conhecido por lá. Sylphid? Mas o que ele estava fazendo naquele lugar?"

"Val?"

"Sylphid..."

Viu o loiro parado a sua frente, trajando a sapuris, mas também livre do elmo, os cabelos ao vento. Percebeu os olhos fixos aos seus e, naqueles orbes azuis cor de tempestade, certa duvida.

"Você está... diferente..."

Agora ele vinha com perguntas? Tentando retomar a amizade? Não seria rude com ele, mas também não achava ter nada para falar com o Basilisco no momento.

"Desculpe Syl... tenho que ir agora... Os ferimentos..."

Fez alusão aos poucos cortes e hematomas que apareciam pela armadura e acenou para ele, antes de continuar a caminhar, os passos ecoando estranhamente por aquele local praticamente inóspito, exceto pela presença do Belga, que ficou a olhá-lo, perguntando-se por um momento o que teria acontecido e então dando de ombros, tomando o caminho oposto, dirigindo-se à sexta prisão, resolvendo que era melhor pensar no que aconteceria em seguida... Na casa de um certo Queen de Mandrágora, aquele moreno lhe tirava a atenção de qualquer coisa...

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O kyoto inglês já desistira de pensar. A adrenalina corria pelo seu corpo, resultado do treinamento forte, mas... Não era só isso. Não era de seu feitio pensar em qualquer coisa que não seus deveres para com Hades, mas... Algo o impedia de não se concentrar em.. Valentine. Caminhava rápido, ainda com a roupa do treino, nem um pouco preocupado com quem quer que pudesse vir. O local onde treinava era próximo do Cocyte e, como kyoto, aquele frio não o atingia.

Logo chegou ás fronteiras da nona prisão, e localizou rapidamente a energia de Harpy. Não pensara no que diria a ele, não pensara em nada. Apenas queria acabar com aquilo que o consumia, queria saber o que era... E em relação á este assunto, não achava que o espectro iria discordar. Sabia que ele recusava imediatamente qualquer toque, mas... desde que encontrara-o na biblioteca, aquelas reações estavam cada vez mais fracas.

Queria-o. Admitia para si mesmo isso. Desejo... Sentia desejo por aquele corpo forte e magro, ágil. Queria encarar aqueles olhos verdes que não pareciam mais tão... Virificados...

Logo o vento do lugar gelado o atingiu, tornando rebeldes os cabelos loiros, os fios curtos dançando por seu rosto, os olhos dourados brilhando perigosos, decididos, mãos cerradas. Os orbes corriam de um lado a outro. Sentia a presença de Valentine, mas ainda não o avistara... O cosmo dele então ficou mais próximo e virou-se um tanto para a direita, sorrindo de forma estranha.

O ruivo estava andando pelo cocyte, mais uma vez vigiando aquele deserto gelado, e, como últimamente, um tanto distraído... Distraído demais para notar o forte cosmo que se aproximava. Pensava em seu passado, um tanto perdido, e então lembrava do que o levara a recuperar aquelas memórias. Do que acontecera após... Da situação... Os pensamentos indo sem que percebesse na direção de Radamanthys... Não entendera por que o kyoto fora tão... brando... consigo, quando o encontrara na biblioteca. Segundo as proibições, poderia ter recebido um castigo bem maior... E quando o inglês o salvara de cair de um dos precipicios? O toque dele em seu rosto naquela ocasião, não lhe parecera apenas uma analise do ferimento que tivera. No silêncio quase absoluto do local, seus pensamentos foram cortados ao ouvir claramente passos rápidos vindo em sua direção, sentindo então a elevada cosmo energia do loiro, como se tivesse se materializado ali, devido a seus pensamentos. Virou-se para ele, a expressão um tanto surpresa, mas Wyvern não disse nada, apenas avançou e, antes que o espectro de Harpia percebesse... Corpos próximos, rostos colados, a respiração quente contra sua pele, mãos segurando-o pelos ombros... Lábios colados aos seus num beijo forte e inesperado, antes que pudesse esboçar qualquer tipo de reação.

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Sim... é verdade... depois de... exatamente...muito tempo sem colocar um capitulo sequer... aqui está ele... Mil perdões pela demora... Metade dele estava pronto há um bom tempo mas... O resto não saía de forma alguma... Mas acho que agora retomo o ritmo normal...

A.M.