No último capítulo…
Heero e Relena vão ao cinema e passam uma noite muito agradável. Cada minuto que passam juntos só aumenta e solidifica mais sua paixão, tornando-os relutantes sempre que devem se separar. Durante a madrugada, há uma explosão em contêineres no porto que mobiliza os corpos de bombeiros da cidade inteira. Um dos soldados morre nessa explosão e após o funeral, Heero admite o quanto Relena está se tornando importante para si.
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4
"Não consigo parar de pensar em você" –Relena digitou no escuro e ficou debatendo mentalmente se enviava. O dedo flutuava sobre o botão mandar. Será que conseguiria dormir depois que mandasse a mensagem?
Provavelmente ficaria aguardando uma resposta.
Será que tinha direito de monopolizá-lo assim?
Suspirou, sem graça. Deixou a mensagem escrita e bloqueou o celular.
Ficou lembrando-se do contorno dele ao seu lado, no escuro do cinema. De vez em quando, ele segurava sua mão, sem tirar a atenção do filme. Encostou a cabeça no ombro dele, acompanhando a história confortavelmente, era como se estivessem sozinhos.
Ficou pensando no calor, na delicadeza, no interesse que ele demonstrava quando fingiu que estava cansado para tirar ela da confusão do shopping, quando disse que a queria ver dançar, quando disse que a amava. Ah, mas esse último ele só falava com os olhos.
Como chegaram até ali tão rápido?
Será que era para ser?
Era para ser.
Suspirou, enlevada. Assentiu para si mesma e virou-se para o outro lado, cerrando os olhos.
Quando acordou, ainda sentia-se cansada. Enrolou na cama o quanto aguentou. Cochilou duas vezes, olhou as horas, sentiu calor. E então Tint ligou o liquidificador para fazer sua vitamina de frutas matinal. Definitivamente era momento de levantar.
Arrastou-se até o banheiro e depois até a cozinha, de camisola mesmo. Debruçou no balcão e ficou assistindo Tint terminar de bater as frutas. Trocaram um sorriso e enfim o ruído desesperador da máquina foi interrompido.
_Aqui está o seu. –e Tint serviu um copo para Relena. –Estou vendo que vai matar a academia hoje.
_É… –e bebeu, ficando com bigode de espuma. –Quem sabe vou mais tarde.
_Vai nada. –e Tint tomou um longo gole. Guardou o que sobrou em uma jarra e passou uma água no seu copo. –Deixa para lá…
_Pode deixar que eu lavo… –Relena limpou o bigode com a mão e riu.
_Está bem. Então, estou indo.
Relena assentiu, e assim que Tint saiu, foi até a pia cuidar da louça, suspirando de vez em quando. Depois, foi ver televisão. Ao ligar o aparelho, este já estava no canal de notícias.
Não estava com vontade de prestar atenção, já ia mudar o canal quando viu a apresentadora do jornal anunciar que daria atualizações sobre o incêndio no porto.
A reportagem foi toda retrospectiva e a legenda "explosão em contêiner causa morte de bombeiro e interdita o porto" deixou Relena nauseada. A acidez da vitamina caiu-lhe mal e ela sentou rápido, mordendo o lábio, já querendo chorar.
Parecia que demorou eras até a reportagem identificar o bombeiro. Durante esse tempo torturante, seu coração se retorceu e sua mente a acusou de ter tido um pressentimento na noite anterior. Era por isso que não queria se separar dele. Era um aviso. Ela devia tê-lo feito ficar, oferecido um café, inventado uma desculpa mentirosa mesmo, qualquer coisa. Por outro lado, quis se contradizer. De todos os soldados da cidade, qual a chance de ser ele? É certo que um bombeiro havia morrido, mas tinha de ser justo ele?
Ao ver enfim o rosto nobre, corado e sereno do rapaz na foto que a televisão exibia acusatória, levou uma mão até a testa gelada, coberta de suor, desabando em um choro de alívio. Não era Heero, não era. Era alguém, sim, com família, com amigos, com amores, mas graças a Deus não era Heero. Ela escondeu o rosto com as mãos, esquecendo-se de assistir o final da reportagem. Nada mais interessava, só precisava se acalmar.
Resumindo suas lágrimas em soluços fracos, ela descobriu o rosto e olhou para a TV novamente, tentando encontrar outra coisa em que se concentrar além do medo.
Toda ferida deixa uma cicatriz e o susto daquela notícia lhe rendeu o pior dos medos, um proibido. O medo de perdê-lo.
O próximo assunto do jornal era banal e ela encarava a tela diante da previsão do tempo para a semana.
Meneou a cabeça, perplexa. Se o telefone não tivesse tocado, ela não sabia aonde seus pensamentos a teriam levado.
Apressou-se até o quarto e conseguiu atender o celular a tempo.
_Bom dia, Relena. Aqui é a Akane.
Relena franziu as sobrancelhas, enigmada. Assentiu e respondeu qualquer coisa:
_Oi…
Depois de um silêncio anormal da parte de Akane, ela tentou abordar o assunto que a fizera telefonar o mais delicadamente o possível:
_Como você está? Por acaso já ligou a TV essa manhã?
Relena fungou.
_É… liguei.
_Certo. E está tudo bem?
Relena franziu a sobrancelha com mais força. Por que ela insistia tanto? Queria fazê-la chorar de novo?
Como Relena não retornava, Akane explicou:
_Olha, eu resolvi ligar porque sei como Heero é… ele se entretém no trabalho de um jeito e esquece que tem outras coisas importantes.
_Ah…
_Ele está bem. Não precisa ficar preocupada.
_Ele te ligou?
_Não. –e deu uma risadinha sem graça. –Duo me ligou. Meu namorado. Eles trabalham juntos.
Relena respirou fundo e tentou relaxar o corpo.
_Eu nunca passei tanto desespero na vida. –ela confessou, bruscamente.
_Agora? Ai, desculpa, juro que não queria te assustar. –então Akane se deu conta de quanto seu telefonema podia ter sobressaltado Relena.
_Não. Quando eu vi a notícia. Eu não sei por que, mas eu jurava que tinha sido ele. Era só o que me vinha à cabeça.
_Eu sei como é.
_Você sentiu a mesma coisa?
_Hm… eu fiquei preocupada sim, mas… bem…
_Não sentiu medo? Nenhum?
_Com o tempo a gente acaba se acostumando… por mais absurdo que pareça.
_Não acredito. Como pode?
O que Akane podia responder? Era horrível tratar aquilo por telefone. Não sabia fazer aquilo.
_Como pode ser assim? –Relena prosseguiu, alienada. –Você o beija uma noite e no dia seguinte, ele está morto. –e parecia envolvida demais naquela ideia, o que não parecia saudável.
_Relena…
_Como faz para se conviver com isso? –a pergunta vazou sufocada.
_Não é fácil, eu confesso. –suspirou, sentindo-se começar a lacrimejar. Era extremamente difícil, na verdade. –Só que todo mundo está sujeito, bombeiro ou não. Ninguém sabe o que vai acontecer de verdade. Eu só tenho uma única certeza na vida: de que estou aqui agora. O próximo minuto não me pertence. –e interrompeu-se para meditar, pesar e medir o que estava dizendo. Temeu estar sendo severa demais. Suspirou, desgastada. –É que quando a gente lida com riscos muito de perto, a perspectiva muda.
_É… –e uma lágrima escorreu de cada olho de Relena. Era uma verdade amarga percebida de uma forma abrupta demais.
_Quer que eu vá aí?
_Não precisa. –e fungou, tentando fazer o nariz parar de escorrer.
_Quer ir ao funeral? Podemos ir juntas.
Relena empalideceu.
_Pode ser que te ajude. –Akane comentou, tentando adivinhar quais expressões Relena fazia. Estava dando nos nervos não estar lá com ela. Só que precisava respeitá-la. –Você quem sabe.
_Eu não vou. Desculpa, mas não consigo.
_Não tem porque se desculpar. Está tudo bem. Tem certeza que não quer que eu vá aí?
_É, tenho sim.
_Bem, agora você tem meu telefone. Pode ligar qualquer hora que quiser, está bem?
_Obrigada. –resmungou. Aquele interesse de Akane por algum motivo conseguia serená-la.
_De nada, imagina. Conte comigo. –e soava tão positiva e calorosa que Relena sorriu e assentiu infantil. Entretanto, aquele bem-estar não conseguiria durar muito mais.
Pensou na proposta que lhe foi feita. Seu coração retorceu-se mais uma vez. Ir ao enterro significava admitir a realidade, experimentá-la, enfrentá-la, nem que de segunda-mão. Era aterrorizante. Não que ela já não estivesse apavorada. Ouvir Akane foi de algum consolo, senti-la tão descabidamente calma e fria lhe dava esperanças de que ela também conseguiria se habituar. Um dia, outro dia, por que por enquanto tudo o que conseguia era tremer e soluçar.
Fechou os olhos, procurando-se lá dentro. Precisava se recuperar, precisava encontrar forças.
De repente entendia quão pesada era a noção de que o show tinha que continuar.
Engoliu em seco e deitou encolhida na cama. Não tinha ânimo para mais nada.
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Tint voltou para casa o mais rápido que pôde. Mal tinha começado a pedalar a bicicleta quando viu a notícia na televisão da academia. Um dos instrutores decidiu que ia mudar o canal para algo mais agradável que o jornal, mas ela deu um berro, impedindo-o.
Pensou logo em Relena. Seu telefone tocou praticamente no mesmo instante e ouviu Akane perguntar por Relena.
_Eu estou na academia. Liga no celular dela, te mando o número. Acha que preciso ir para lá agora?
_Hm, não sei…
_Ah, dane-se, não vou conseguir me concentrar mais. Fala com ela, estou indo para lá.
_Está bem.
Tint desceu da bicicleta e todo mundo acompanhava o comportamento dela, assustado e intrigado. Ela meneou a cabeça, desprezando a todos, e saiu, sem se despedir.
Ainda bem que Relena não tinha ido. Seria muito mais cruel ela receber a notícia lá com toda aquela gente curiosa.
_Lena? –entrou no apartamento gritando.
_Estou aqui. –a voz veio do quarto, chorosa e fraca.
_Lena… –Tint prolongou o "a" final e pulou na cama. –Calma, já passou. Ele está bem.
_Eu sei, eu sei, mas… –e recomeçou a chorar.
_Shhhh… tudo bem.
_Foi você que deu meu telefone para Akane? –murmurou, fanhosa.
_Foi sim.
Relena assentiu. Tint passou as mãos repetidas vezes no cabelo da amiga, incomodada com o sofrimento que via no rosto dela.
Lá na sala, onde ela largara a bolsa, seu celular começara a tocar.
_Deve ser o Daniil. –Tint resmungou.
_Ai, não… –Relena se aborreceu. Se tivesse que ouvi-lo consolá-la também, nunca pararia de chorar.
Tint sorriu. Daniil tinha tanto carinho por Relena, não sabia como não sentia ciúmes. Talvez porque conhecia os dois muito bem.
_Deixa tocar, me explico com ele mais tarde.
_Não… é capaz de ele vir aqui. Atende.
Tint bufou. Relena tinha razão. Com relutância, deixou a amiga para ir ver o que Daniil queria.
Verificou a chamada e resolveu falar em russo:
_Essa não é uma boa hora.
_Exatamente por isso estou ligando.
Tint estalou a língua.
_Como ela está?
_Péssima. Até parece que foi Heero que morreu.
_Ah, Tint. –a sinceridade dela feria-o, sempre tão primorosamente polido e assisado.
_Oras, normal. Ela tomou um baita susto.
_Eu sei. Tint, ele era russo.
_Pois é. Você o conhecia?
_Não.
Fizeram um silêncio chato.
_Coitado. –Tint pronunciou em conclusão.
Daniil respirou fundo.
_Bem, me ligue mais tarde. –e pediu, já que atrapalhava.
_OK.
_Te amo. –Daniil despediu-se. Tint amava o jeito melancólico que ele pronunciava aquelas palavras.
_Te amo. –e devolveu.
Fazia sentido trocarem suas juras, visitados de raspão pela morte. Até eles ficaram abalados.
Tint voltou para o quarto de Relena:
_Pronto.
_O que ele falou?
_Perguntou se você estava bem.
_Ai…
_Não se preocupe, ele entende bem.
_É, eu sei. –ela fungou.
Tint voltou para junto dela na cama.
_Eu estou me sentindo horrível. –Relena reclamou, consternada.
_Calma, eu sei. E o que a Ane disse?
_Que Heero está bem e que deve estar ocupado.
_Ah, será que ele está lá no porto?
_É, pode ser. –e aquela noção distraiu-a um pouco. Depois, comentou baixo: –Tint, precisava ver como Akane estava calma.
_Sério?
_Ela disse que está acostumada. Eu não consigo entender.
_Bem, ela precisa viver também. Você sabe que é assim. Quem vê nossos pés completamente arrebentados talvez não entenda também como conseguimos fazer isso, nos acostumar.
_Mas…
Tint deu de ombros. Não tinha "mas", ela e Akane estavam certas.
Relena careteou e mudou a vista de direção, seguindo uma rachadura no teto.
_Você ama muito ele, né? –Tint observou, solidária.
_Parece até loucura, mas amo sim. É como se eu tivesse passado a vida toda esperando por ele. –lágrimas gordas correram pelo seu rosto de repente, indesejadas.
_Então não esquece de falar isso para ele quando se virem de novo. –com esse conselho, Tint sorriu e se sentou na cama.
_Tint, meu estômago está doendo. –e gemeu, embora tudo não passasse de tensão.
_Está certo, vou buscar um antiácido. –e pulou para fora da cama, deslizando com as meias pelo chão.
E depois que ela tomou o copo de sal de frutas achou que se sentiu melhor.
_Por que não toma um banho e dorme um pouco? Qualquer coisa, te chamo.
_Tá.
Se conseguisse cochilar seria uma boa ideia. Queria esquecer-se de tudo aquilo por um tempo. Talvez fosse covardia, mas precisava descansar.
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Acordou mais tarde com Tint chamando na porta.
_Eu comprei o almoço, venha comer.
Relena sorriu, esfregando os olhos. Demorou-se deitada um pouco, até se habituar à transição, e checou as horas. Duas e dez.
_E aí, como você está? –Tint estava sentada na banqueta alta do outro lado do balcão, cortando o peito de frango grelhado na tampa de papel da marmitex, mastigando ainda.
Relena sorriu com palidez em muda resposta. Tint respondeu com outro sorriso, desengonçado, franzindo o nariz.
_Vai com calma, flor. –e sugeriu.
Não conversaram muito enquanto comeram. Eram clientes de uma senhora que morava virando a esquina que fazia marmitas fitness e sempre montava duas para elas para o fim de semana, especialmente. Era prático para elas. Durante a semana, elas comiam nos restaurantes perto do conservatório, que tinham suas seleções lights e vegetarianas justamente para servir os bailarinos.
_Eu estou com dor de cabeça. –e depois de brincar um tempo com a comida, indisposta, Relena suspirou.
_Como faz tempo que você não aguenta um baque, está perdoada. –Tint provocou, revirando os olhos. Depois riu, enchendo o copo de Relena com refrigerante.
Relena tentou rir, mas sentia o rosto rijo e os olhos doridos de chorar. Estava mesmo indisposta. Ficou sentada amontoada sobre sua banqueta, apoiando o cotovelo no balcão e o rosto nas mãos, inexpressiva, olhando Tint tirar o lixo, limpar o tampo, lavar os talheres e os copos.
_Ah, eu comprei sobremesa! –e ela foi até a geladeira, da onde tirou dois potinhos de sorvete de pêssego. –O seu favorito. –e piscou um dos olhos.
_O meu favorito tem amêndoas. –Relena desdenhou, se esforçando em brincar.
_Sério? Então eu tomo os dois… –Tint passou um dos potes na frente dos olhos dela, com o rótulo virado em destaque, onde estava escrito "pêssego com amêndoas".
_Hey! –Relena caiu na risada, tentando capturar sua sobremesa. Após escapar-lhe algumas vezes, Tint rendeu-se e deixou o pote no balcão. Já havia uma colher ali para Relena usar.
_Mimada… –e lambeu a colher.
Relena deu de ombros, de repente mais alegre.
Enquanto Tint foi para o sofá tomar o sorvete, Relena ficou na bancada. Quando Relena desceu do banco, Tint franziu o rosto:
_Ai, Lena, olha seus shorts.
_O que? –e olhou para baixo, tentando entender. Então viu a mancha de sangue. –E essa agora. –bufou, sentindo imediatamente uma pontada de cólica.
_Adiantou?
_Deve ter sido o stress. Droga.
Tint continuava careteando. Estava sendo um dia difícil.
Relena jogou a colher na pia, emburrada, e saiu para ir se trocar. Teve vontade de chorar de novo, mas dessa vez esta veio com impulso de chutar portas.
Ficou um tempo no banheiro, tentando se acalmar. Não podia deixar se abater. Estava tudo bem, não tinha porque cair na armadilha dos seus nervos mais. Heero estava bem e se não ligou era porque não podia. E se seus hormônios estavam meio bagunçados até podia significar que estava saudável. Respirou fundo e secou umas lágrimas que escorreram mesmo assim. Procurou um analgésico no armarinho do espelho e bufou.
_Lena, o Daniil vai vir para cá, ok? –Tint parou descalça com o celular na mão da outro lado da porta do banheiro.
_Sim, tudo bem. –a voz dela ficou abafada pela porta.
De fato, Daniil chegou meia hora depois com uma caixa retangular debaixo do braço.
_O que é isso? Um presente?
_Não, um tabuleiro. Vamos jogar Monopoly?
Tint explodiu numa gargalhada escandalosa.
_Danny, você não existe!
Sentaram no tapete e Relena desligou a TV. Daniil lançou-lhe um cavalheiresco sorriso, querendo certificar-se de que ela melhorara. O riso que ela exibiu em retorno o satisfez. Embora a face estivesse um pouco abatida, os olhos dela pareciam sinceros em sua animação moderada.
O único aborrecimento de Relena foi acabar falindo, endividada com o banco.
_Que azar, Lena! Hoje está tudo contra você…
_Cynthia, que indelicadeza. –as sobrancelhas negras de Daniil fizeram arcos cruéis. Tint desdenhou.
Relena não estava chateada. Riu um pouco e pegou seu celular de cima do sofá e verificou as mensagens. Nada. Suspirou, não querendo parecer exasperada, vendo que já passava das quatro horas. Que horas seria o enterro? Será que deveria ter ido? Talvez Heero gostasse disso… ela nem sabia se o rapaz era amigo dele… entretanto, ele não ligou e ela não conseguia se imaginar naquela cena. Mordeu o lábio inferior, agitada.
Tint e Daniil trocaram olhares.
_Vamos de novo?
_Vamos sim. –Relena respondeu, excessivamente de pronto.
Tint foi buscar copos e a garrafa de refrigerante e começaram outra partida. Eles não estavam mais tão interessados no jogo, fazendo longos comentários sobre o espetáculo e o que achavam que ia acontecer. Já era a sexta vez que eles passavam por uma montagem juntos e a quarta na qual todos eram bailarinos principais. Começaram juntos no conservatório e as lembranças que os unia ainda davam muito que falar.
Riam e aleatoriamente recordavam-se de jogar, sem ter certeza de quem era a vez.
Três batidas firmes na porta assustaram os três, sem que eles pudessem explicar por que. Trocaram olhares preocupados, apercebendo-se que em qualquer lugar disfarçado do peito, continuavam tensos. Relena encolheu-se, com repulsa de mais notícias ruins. Tint resolveu tomar alguma ação.
_Daniil, vá ver quem é.
Ele pareceu exageradamente incomodado com a ordem, atento ao modo como os olhos azuis de Tint o coagiam. Nunca conseguia resistir.
Daniil respirou fundo e abriu a porta, no seu rosto apenas a sombra de um temor que se mesclava em sua sempre melancólica aparência.
_Pois não? –e já tinha terminado de falar quando se deu de conta de que Heero estava parado ali.
Heero olhou o rapaz com um misterioso escrutínio, em silêncio. Daniil deixou as sobrancelhas tensas enquanto seus lábios ficavam indecisos entre falar ou sorrir. Suspirou, cedendo ao óbvio:
_Entre.
As meninas lá atrás esticavam o pescoço, tentadas a roubar um relance do personagem desconhecido, até que Daniil veio de encontro a elas, seguido de Heero. Curiosamente, foi Tint que pareceu mais abalada, seu queixo cedendo pateticamente.
Quanto mais prolongasse o silêncio, mais difícil seria desmanchá-lo e não podia ser educado da parte de Heero comportar-se assim. Ele olhou para as mãos que brincavam com o quepe, não tinha notado tê-lo trazido e o colocou debaixo do braço direito, assumindo uma postura absurdamente elegante:
_Boa-tarde.
Relena não se moveu até escutar a voz dele, feito precisasse daquela ignição. Levantou-se devagar, a perna formigava de leve, e encheu o peito de ar, procurando no rosto estoico dele uma resposta para suas inseguranças.
Heero sentia-se deslocado, olhou para baixo, umedeceu os lábios.
_Daniil, a gente precisava fazer umas compras… vem comigo? Eu não vou dar conta de trazer todas as sacolas. –Tint se pôs de pé como se fosse elástica, e avançou no namorado, segurando as mãos dele e o puxando.
_Hã? É claro… –e aturdido, ele observava a cena e seguia as instruções da garota, inerte. Havia algo comovente preenchendo a atmosfera da sala e Daniil tinha um fraco para essas belezas.
Tint se impacientava com a falta de noção dele, arrastando-o para a saída.
_A gente vai demorar, viu? –ela fez questão de mencionar.
Relena deu uma risada baixa, saindo do transe. Acabou ficando sem graça, cruzando os braços na frente do corpo, um pé pisando no outro, o cabelo caindo no rosto.
Heero fez um diagnóstico do que via e encurtou a distância:
_Você está bem? –a voz dele derramou-se sobre ela como um bálsamo refrescante, precioso, despertando-a.
Ao erguer os olhos, ela viu-o diante de si, e espalmou a mão em seu peito, alisando e remexendo na gola e brincando com os botões do paletó, dando atenção aos distintivos, sentindo-se sob a doce vigia dele.
Não se importava nem um pouco com o silêncio dela. Aquele era o melhor ruído que existia para ele. Colocou o quepe nela, surpreendendo-a, fazendo a sorrir, e a abraçou, querendo lhe fazer bem, quando na verdade era ele que ansiava por aquele contato. Agarrá-la ali o consolaria quanto àquilo que ele experimentava sem entender.
A verdade era que ele não entendera a seriedade dos riscos. Ele podia fazê-la sofrer e ele não estaria com ela para ajudá-la a se conformar nem para pedir perdão pelas lágrimas que a faria chorar. Respirou fundo, de olhos bem abertos, paralisado justamente por aquela única coisa que era proibido sentir. Até sua mente sussurrava: medo.
As mãos que tinha levado ao chapéu por surpresa ela escorregou pelos ombros dele e enlaçou seu pescoço, sentindo-se esmagada por ele, agradecida por ser esmagada por ele. Estava exatamente onde desejou estar o dia todo. O agarre dele obliterava todos seus pensamentos, dando o aconchego que necessitava.
_Heero… –ela murmurou abafado nas roupas dele, as lágrimas empoçando em seus olhos fechados.
Ele separou-se dela, segurando seu rosto gentilmente com as duas mãos e secou o choro que escorreu pela bochecha dela quando abriu os olhos.
_Eu pensei que eu tinha te perdido… –murmurou baixinho, sentindo-o alisar seu rosto. –Foi horrível. –e respirou com dificuldade, querendo desviar o olhar, mas presa pelo fito dele.
Ele assentiu e correu os dedos pelos cabelos dela, tirando uma mecha de seu ombro, atento ao próprio movimento.
_Sinto muito.
Ela franziu a testa, incerta sobre o que aquilo significava. Sacudiu a cabeça e se soltou dele, dando-lhe as costas, levando uma mão a testa, incapaz de organizar a enxurrada de pensamentos que voltara a correr, prometendo arrastá-la. Tirou o quepe e encarou o emblema dourado, enxergando seu reflexo deformado na cruz de São Floriano decorada com escadas e clarins. Alisou delicadamente o contorno dos desenhos, e quando virou de novo para ele, encontrou-o com as mãos nos bolsos, os lábios uma linha séria e tesa, os olhos, cristais de gelo.
_É difícil. –ela confessou limitadamente, descendo os olhos para o quepe.
Ele tirou o quepe das mãos dela e o atirou no sofá, assaltando-a com a energia de sua atitude. Tomou suas duas mãos e inclinou-se como pôde para nivelar seus olhos com os dela:
_Eu sei. Eu sei. Não adianta eu falar de estatísticas para você, porque não é o que você precisa. E para falar a verdade, elas não importam. –suavemente, ele foi produzindo as palavras de seu solilóquio da melhor forma que podia. Nunca fora bom com palavras. Pior ainda com sentimentos. –A única coisa que importa é minha única certeza: que estamos juntos aqui agora. Não preciso de mais nada. É isso que me faz feliz.
Relena soluçou, chorando mais, desta vez de comoção, assistindo os olhos dele derreteram em um sorriso angelical enquanto seus lábios ficavam inseguros, ansiosos. Assentindo, ela riu, o arco-íris entre a chuva, e avançou sobre ele, abraçando-o de novo, sentindo-o embalá-la.
_Promete que vai se cuidar? –ela balbuciou, agarrada a gola dele ainda depois do abraço.
Ele a respondeu com um beijo generoso, puxando-a contra si, debruçando-se sobre ela. Indubitavelmente, dizia sim. De que outro modo poderia beijá-la assim pela eternidade?
De início ela permitiu-se ser beijada algumas vezes, fazendo pouco para retribuir. Dessa vez ele decidiu ser doce e cuidadoso, e além de provar seus lábios, beijou seu rosto, seus olhos e sua franja.
_Eu precisava disso. –ela corou, segredista, e o ouviu rir.
_Eu também. –ele acompanhou. –Chega de chorar, está bem? –e murmurou, preocupado.
Ela limpou a umidade do rosto e respirou fundo, avançando para uma nova rodada de beijos. Será que era imprudente esquecer o medo e entregar-se a paixão? Será que estarem ali juntos poderia curar a insegurança? Já tinham gastado muito tempo pensando nessas questões. Agora, eles sentiam agir do modo certo um com o outro e com seus corações. Como humanos, era fácil concentrarem-se somente no agora e reconfortante também. O próximo minuto não nos pertence.
O fervor do amor cobrava seu preço e eles ficavam ofegantes admirando-se, ainda sem conhecer a saciedade.
_Eu só pensei em mim… nem perguntei como você está. –ela retomou o assunto, pensativa.
Mudando de expressão, introspectivo em um instante, ele bufou:
_Foi um dia exaustivo. –e empurrou o quepe para se sentar. Amontoou-se sobre os joelhos, apoiado nos cotovelos.
_Ele… não era da sua companhia, era? –cuidadosamente escolhia o que dizer, tentando não consterná-lo.
Ele negou com um aceno de cabeça. Os olhos dele se tornaram lamuriosos, profundos, mas vazios.
_Eu o conhecia de vista, fizemos um curso juntos. –explicou rápido, querendo evitar lembranças. Esticou o torso e correu a mão pela franja.
_Eu sinto muito.
Heero assentiu e deu de ombros. O silêncio era a opção mais fácil.
_Ele era jovem, não é? Eu… Akane perguntou se eu queria ir ao funeral, mas… me desculpa, eu não consegui.
_Tudo bem.
_Eu nunca fui a um funeral de gente jovem… –a voz falhou um pouco, revelando embaraço e pânico. –Além do mais, eu não ia aguentar. Minha mente ia viajar longe… já viajou só de Akane me convidar…
_Não precisa se explicar. Está tudo bem. Temos de ser sinceros, de agir de acordo com nossos sentimentos. –ele respondeu, ponderado.
_Não quero que pense que não dou importância. –e recuperando domínio sobre si, reforçou.
_Certo. Sente aqui comigo. –e o exasperava vê-la mudando os passos daqui para ali, quase se distanciando.
_Eu tenho que ir ao banheiro. –e se retirou.
Encostando-se de vez no sofá, Heero procurou o celular no bolso.
"Você ligou para Relena?" –tirou as luvas antes de digitar.
"Sim. Pra acalmar ela. A primeira vez é difícil, sabe?" –levou poucos segundos para Akane aparecer online e responder.
"Sei. Obrigado."
"Tenta lembrar de ligar na próxima vez." E pontuou sua frase com um emoticon preocupado, para não parecer que estava apontando alguma falha.
"Ok."
Ela mandou um coraçãozinho.
"Amanhã não vou poder te buscar. Fui escalado para emendar o turno."
"Tá bem. Arranjo uma carona. Se cuida e bom trabalho."
Olhando em redor, Heero viu o tabuleiro no chão com mais atenção. Quantos anos fazia que não jogava Monopoly? Deixou uma risada boba escapar. No quartel, por mais que o capitão detestasse, era só baralho. Distraiu-se, mexendo com as casinhas de plástico e estudando as pecinhas prateadas. Foi assim que Relena o encontrou. Ela abaixou-se perto dele e depois sentou, devagar, pegando a garrafa de refrigerante e enchendo seu copo.
_Você sempre queria o carrinho de corrida? –e por cima do ombro, ele ouviu-a sorridente.
_Não, eu gostava do navio. Qual é o seu aqui?
_O carrinho de mão. –e respondeu quase dentro do copo.
Ele assentiu e brincou:
_Modesto.
_Eu gosto do cachorrinho, mas o Daniil perdeu. Coitado, ele não se conforma. –e sacudiu a cabeça, abstraída, sabendo que havia coisas mais importantes.
_Você está se sentindo bem? –e notando-a pálida ainda, Heero indagou.
_Mais ou menos.
_Tem certeza?
_Ah, é só uma cólica. –ela explicou. –Mas já tomei um remédio.
Heero observou-a se levantar e a imitou. Deixou-a escolher o lugar do sofá e depois sentou ao lado dela. Relena se reclinou sobre seu ombro, fazendo escapar um longo suspiro.
_Você está tão bonito assim… –achou as luvas esquecidas em cima do sofá e entregou-lhe. –De luva branca e tudo… parece um príncipe.
_Oras… –ele franziu a testa, despreparado para tudo aquilo, esperando não ter corado demais porque se sentia queimando. Limpou a garganta e afrouxou o nó da gravata. Colocou as luvas em cima do quepe e a envolveu com um braço.
_Amanhã eu vou estar o dia todo no porto. –e se lembrou de avisar.
Ela assentiu, entendendo o que aquilo significava. Agora que não havia mais riscos, a ideia não a alarmava.
_Te ligo quando chegar em casa. –e começou a brincar com o cabelo dela, suavemente.
_Eu vou esperar.
Ficaram muito tempo ali, em silêncio, permitindo-se descansar. Tinha sido um dia conturbado, desgastante, provador. Estarem ali, imersos no calor um do outro era a recompensa a que se davam direito, que chamavam de devida. E a ciência de que tinham se enredado demais não os oprimia. Depois desse dia, eles jamais seriam os mesmos.
Bom-dia!
A recapitulação continua dificílima de escrever. Se alguém quiser fazer alguma contribuição para ela, fique à vontade.
Com certeza, o estilo de texto está mudando em relação ao primeiro capítulo. Claro que não era minha intenção, mas eu não consigo evitar. Me desculpe a verbosidade.
De novo, não levem alguns pormenores muito a sério, por favor.
Espero do fundo do coração que estejam gostando.
Agradeço demais a quem está acompanhando!
Deixem também suas reviews.
Beijos!
08.02.2016
