Capítulo 4: The Last Apartment on the Left
Misha estacionou seu carro no estacionamento da empresa, na vaga do presidente, como fazia toda manhã. Os raios de Sol matinal castigando a sua pele alva. Um bolo de sentimentos conflitantes se formava dentro de sua cabeça.
Ainda estava nervoso com Jensen pela reunião do dia anterior - e como vingança pessoal, até saíra mais cedo do expediente e deixara, ou exigira, que Jensen fechasse sua sala e arrumasse-a para o dia seguinte. Ainda sentia vontade de atirar aquele puto do último andar do arranha-céu da Companhia West. Ainda queria fazê-lo pagar por todos aqueles dias, que pareciam anos, de tortura psicológica. Deuses, sentia que se Jensen continuasse com aquele jogo, não daria muito tempo até a mídia noticiar que o presidente da West Company havia estuprado seu secretário em pleno expediente de serviço.
Jogo. Droga, Jensen estava brincando com ele como uma bolhinha de feno. Como em um jogo de Xadrez, Jensen estava atraindo Misha para uma emboscada, uma tática que já surtira efeito três vezes. Mas não surtiria mais, nunca mais.
Misha tirou o cinto-de-segurança saiu do automóvel, prometendo à si mesmo que daria a volta por cima naquele jogo. Que já estava mais do que na hora dele obter uma tática e atrair Jensen para o bote.
-Bom Dia, Jen!- Misha cumprimentou, animado. Mas o loiro diabólico não estava em sua mesa. Talvez ainda não tivesse chegado ao serviço.
Collins entrou em sua sala da presidência. Já se preparava para afrouxar o colarinho, ligar o ventilador de teto e beber toda a água que tinha direito naquela semana infernal, em todos os sentidos, quando reparou que tinha companhia.
Jensen estava de pé, sem camisa e com as barras das calças na altura dos joelhos, encostado na vidraçaria, convidativamente gélida, detrás da cadeira presidencial. Um ventilador pequeno, que Misha nunca tinha visto em sua sala, estava em cima da sua mesa, provocando brisas refrescantes em um Jensen risonho.
-O quê diabos é isso? – Misha aumentou o tom de voz para ser ouvido, devido ao barulho dos dois ventiladores.
-Ah, olá, chefinho. – Jensen acenou com uma das mãos.
Misha foi até sua mesa e desligou o ventilador portátil.
-Hey! – Reclamou Jensen.
-De novo, o quê diabos é isso?- Misha tinha o semblante de quem se segurava para não se irritar novamente. – E como entrou aqui?
-Você me deixou com as chaves ontem, esqueceu? – O loiro jogou um molho para o moreno. – E, bem, quanto a isso, é... Desculpe, eu... Tava com calor, muito calor, hoje. - Jensen alisou o peito suado com uma das mãos, provocante. - Essa semana está uma loucura, você não acha?
Misha riu. Riu mais de nervosismo do que de qualquer outra coisa.
- Jensen, porque não aproveita e tira toda essa roupa, ao invés de ficar fazendo ceninha? – Misha perguntou, seu baixo ventre já começando a se revirar com aquela visão.
-Oh, está tentando me assediar, Sr. Collins? – Jensen tinha no rosto um misto de espanto e perversidade.
-É, desculpe, eu esqueci o quão santo você era. – Misha caçoou. Pôs sua maleta empresarial em cima da mesa e abriu-a. - Aqui! Use isto.
Jensen pegou a garrafa de água que o moreno jogara.
-Eu não entendi... – O loiro fitou a garrafa curioso.
-Tá esperando o quê? – Misha perguntou. - Ande, jogue água nesse seu puta corpo escultural, fique dizendo obscenidades, tanto faz. Só me provoque duma vez.
Por um momento Misha viu espanto a consternação no rosto de Jensen. Uma risada medonha e sádica explodiu em seu interior. Aquele jogo estava virando para o seu lado, graças aos deuses...
Jensen abriu a garrafa, mas ao invés de fazer o que Misha pedira, bebeu do seu conteúdo. Não muito, um ou dois goles pareciam suficientes para matar a sua sede.
- Hum, gele a água da próxima vez.- Jensen fechou a garrafa e jogou-a para Misha.
O moreno ficou olhando enquanto Jensen simplesmente vestia sua blusa, abaixa as barras da calça, tirava o ventilador pequeno da tomada e se retirava da sala.
- Espere aí! – Misha chamou, quando Jensen já estava quase na porta.
- Sim?
- É... Só isso?- Era a vez de Misha estar espantado com a situação. – Não vai me provocar mais, me deixar louco de tesão, etc.?
Jensen pareceu pensativo por um momento, mas logo em seguida abanou a cabeça.
- Não, não. Tenha um bom dia, Misha.- Jensen abriu a porta.
- Espera! – Misha chamou novamente.
Droga, Jensen sabia mesmo como o tirar do sério. Já estava cogitando, pela enésima vez, agarrar o loiro à força e castigá-lo por ser tão insolente. O jogo virava para o Diabo Loiro novamente. Diabo Loiro! Até que não era um apelido ruim...
- O que é? – Jensen pareceu impaciente.
- O que acha de termos um encontro hoje à noite? – Misha soltou.
- Como é? – Jensen pousou o ventilador no chão e se aproximou do chefe.
- Sabe, não temos muito tempo para ficarmos juntos, aqui no serviço, então eu pensei... Que tal uma noite especial? Um encontro, o nosso primeiro encontro? – Misha propôs. De fato, aquilo já havia vindo à sua mente durante a noite anterior.
Jensen sorriu.
- Ok, eu aceito o seu convite, chefinho. – O loiro se aproximou, segurou os seus ombros e deu-lhe uma bitoca de canto de boca. Quando iria sair da sala novamente, parou. Contemplou um quadro de um bebê moreno e de olhos azuis. – A propósito, quem é ele?
- É meu filho, West.- Misha explicou, todo orgulhoso. – Já tem quase um ano de idade.
- Espere, qual é o nome? – Jensen rachou o bico.
- Yeah, yeah, eu sei o que está pensando... – Misha suspirou fundo. – É o mesmo nome da nossa empresa. Isso porque eu, bem, eu sou meio supersticioso com essas coisas, e acredito que ''West'' foi um nome que deu sorte para a companhia, assim como, se Buda quiser, vai dar sorte para o meu filho. E, sabe, eu até que gosto desse nome: é engraçado e ao mesmo tempo forte, marcante.
- É, é, tanto faz.- Jensen pareceu entediado. Não esperou que Misha inflasse mais o peito para falar do filho, tratando de sair logo da sala.
Misha sentou-se em sua cadeira, folgadamente. Teria que inventar uma desculpa para Victoria, a fim de ter o encontro com Jensen. Chegaria mais tarde em casa, e, se a ''sorte'' estivesse do seu lado, com um fardo eloqüente a menos para carregar.
Abriu a segunda gaveta de sua mesa de serviço, do lado direito. A caixa metálica ainda estava lá, o que era um alívio. Não sabia sobre as reais intenções de Jensen, e o temia por isso.
Fechou a gaveta. Ao menos o loiro não havia vasculhado sua sala enquanto estava com as chaves.
Respirou fundo, cansado. Por um momento sua mente voltou alguns minutos, sobre toda a conversa sobre seu filho, e como se sentia estupidamente feliz e orgulhoso ao falar dele. De fato, amava demais a criança e nunca largaria dela, nem por mil Jensens. Falando em Jensen, era impressão sua ou Jensen olhara para o porta-retratos com uma expressão de...? Bem, era melhor deixar para lá, provavelmente era bobagem de sua cabeça. Mas não era, afinal.
* JENSHA – He Is The Devil *
Jensen voltou para a sua mesa de secretário. Alguns papéis haviam sido empilhados desde que chegara, no intervalo de tempo em que estava na sala de Misha. Mas, o que mais o chamou a atenção dentre todo o amontoado de pedidos e requisições de outros funcionários, era um papel pardo, meio desbotado, preenchido apenas com recortes de jornal que formavam a seguinte frase:
LEMBRE-SE DA ÚLTIMA.
Jensen amassou a folha de papel, moldando-a na forma de uma bola em uma das mãos. Jogou-a na lixeira ao lado da sua cadeira.
Lembrava-se da última, é claro. A carta, também escrita com recortes de revistas e jornais, ameaçava contar para toda a empresa sobre seu caso secreto com o presidente, caso ele não terminasse com aquele relacionamento.
A princípio, Jensen achava que deveria se tratar de alguma piada de mal gosto de algum funcionário, provavelmente inventando um caso com o presidente por pura inveja de como Jensen conseguira um status de confiança na empresa sendo que Misha nem o conhecia direito - pois Jensen podia ler no olhar de muitos funcionários isto. Os dois fatos eram verídicos apenas por mera coincidência.
Ou talvez pudesse ser alguma estratégia barata de Misha para acabar com todos aqueles joguinhos sexuais.
Mas, Misha ficara na sua sala aquele tempo todo junto com Jensen. À menos que o moreno tivesse deixado a carta quando chegou, o que seria arriscado dado ao tempo em que ficara preso com Jensen na sala. E por toda a conversa fiada sobre o filho, Misha não parecia ter agido do tipo que quisesse Jensen longe e encontrando aquela folha o mais rápido possível. Na sua sala, Jensen verificou antes de Misha chegar, não havia sinais de revistas e/ou jornais picotados.
Misha não era, de todo, uma pessoa a qual ele não devesse suspeitar. Porém, seu intuito, muito bom por sinal, alertava-o que Misha não era o mentor daquelas cartas.
Em todo caso, o loiro achava que os bilhetes não fossem passar daquela primeira carta. Mas passara, e ele precisava fazer algo a respeito.
Jensen abriu a sua pasta de trabalho. Guardara uma câmera pequena, do tipo que filma e fotografa, para caso aquela urgência acontecesse. Posicionou-a no meio de uma pilha de livros na vertical, na estante atrás de si, escondendo-a estrategicamente.
Fosse quem fosse aquele desgraçado, Jensen o pegaria de qualquer jeito. E se ele achava que o loiro era um simples rostinho bonito e uma mente ambiciosa e pervertida, estava muito enganado. Jensen acabaria com tudo que a pessoa que ousara entrar em seu caminho tivesse, deixando-lhe apenas com um Inferno de mágoas e dor.
* JENSHA – He Is The Devil *
Misha chegou ao local combinado, mas não na hora combinada.
Era uma lanchonete simples, com algumas mesas espalhadas pela calçada, para aproveitar o calor que acometia a cidade. Fire & Ice, ou algo assim, era o nome que haviam batizado-a. Misha achou o nome incrivelmente estúpido.
O moreno se encaminhou para as mesas do lado de dentro. Não arriscaria ter um encontro com o loiro na calçada, à vista de qualquer um que passasse pela rua. Não sabia o que Jensen aprontaria, então era bom prevenir...
Encontrou o loiro sentado em uma mesa, perto de uma das janelas. Lembrou-se de minutos antes, enquanto vestia seu terno e gravata, mesmo que não fosse o espírito da lanchonete, dando a desculpa à esposa de que sairia para uma reunião. Ainda sentia-se mal por estar botando um par de chifres na mulher, mas esse não era o tipo de assunto no qual gostaria de refletir naquela hora...
- Misha! – Jensen levantou-se, notando sua aproximação.
Por um momento, Misha achou que o outro estaria nu. Não duvidava da audácia do outro para tal, e o calor parecia ser um motivo mais do que convincente para o Diabo Loiro tirar a roupa. Mas ele não estava pelado, afinal. Vestia uma camisa social verde-escura, que destacava seus olhos felinos, e uma calça de couro preta um tanto apertada. Por um momento, Misha pensou ter se lembrado do loiro trajando couro em outra ocasião.
- Jensen. – Misha sorriu, estendendo a mão e cumprimentando-o.
- Pedi um sorvete, com esse calor. – Jensen apontou para duas taças de chocolate em cima da mesa.
Misha sentou-se, sorvendo de uma porção. Imaginava que o loiro fosse pedir uma bebida para lá de forte, como absinto, e fosse embriagá-lo.
- Está bom? – Jensen perguntou, fitando o moreno saborear o sorvete com uma expressão um tanto diferente.
Misha engoliu em seco. Quase pôde ouvir o que o loiro diria em seguida ''me deixa provar um pouco do sorvete na sua boca?''.
- Me... Me fale sobre você. – O moreno emendou, já saindo pela tangente. Não poderia arriscar cair nas garras daquele joguinho sujo de novo.
O loiro franziu o cenho.
- Como assim?
- De onde você veio, pra onde você vai, essas coisas... – Matt ainda não descobrira absolutamente nada do seu novo secretário.
Jensen serviu-se de uma porção de sorvete.
- Me fale primeiro sobre você. – Revidou, apoiando o cotovelo na mesa, e a metade da face na mão, como se estivesse disposto a passar horas ouvindo o moreno falar.
- Perguntei primeiro. – Misha revidou, já criando mil e umas estratégias na cabeça.
O loiro nada respondeu. Misha retomou:
- Me chamo Misha Dmitri Collins. – Começou, sorrindo, de tão estúpido que aquela ''entrevista'' soava. – Nasci em Boston, Mass. Meu pai era John Collins, dono da empresa de arquitetura West. Ele casou com minha mãe, tiveram dois filhos. Se separaram, brigaram, eu e meu irmão ficamos com minha mãe, vivendo para lá e para cá, quase sem rumo. Meu pai, nesse tempo, casou de novo e teve mais duas filhas, minhas meia-irmãs. Depois de um tempo, eles se acertaram. Meu pai morreu faz alguns anos, me deixando a empresa de herança.
- Você casou com Victoria Vantoch, uma donzela que conheceu na juventude, teve um filho, e vive feliz para sempre, certo? – Jensen continuou, parecendo se divertir.
- Como sabe disso? – Misha estreitou o olhar. Jensen parecia saber mais do que dizia e, por alguma razão, Misha teve certeza de que o que dissera sobre sua história de vida já era sabido pelo loiro.
- Fiz minha lição de casa, só isso. – O loiro sorriu, gracejando.
- O que mais você sabe sobre mim? – Misha perguntou, sabendo que andava sobre gelo fino e quebradiço.
- Sei que herdou a arte da carpintaria da empresa de arquitetura do seu pai. Sei que foi graças à esse dom que conseguiu manter seus estudos na faculdade. O resto, bem... Acho que você sabe melhor do que ninguém.
Misha franziu o cenho. Havia momentos, mesmo só conhecendo Jensen fazia poucos dias, que o loiro parecia mesmo ser alguma criatura diabólica. Àquele era um desses momentos.
- Minha vez? – Jensen perguntou, quebrando o silêncio.
- Sim, sim. – Misha se confortou na cadeira.
O loiro sorveu mais uma porção de sorvete, e Misha pôde jurar que ele derramaria o gelado em sua roupa, ou coisa do gênero, só para escapar do interrogatório mais uma vez. Mas não o fez.
- Me chamo Jensen Ross Ackles, nasci em Dallas, Texas. – O loiro comia o sorvete mais depressa, distraído, como se já houvesse decorado àquelas falas um milhão de vezes.
- Texas? – Misha se surpreendeu. – Como alguém de Texas vem parar aqui, em Vancouver ?
- Você é de Boston, e ainda assim está aqui em Vancouver. – Jensen rebateu.
- A empresa do meu pai era daqui, é diferente.
- Tanto faz. – Jensen deu de ombros. – Minha história é longa mesmo...
- Conte-a. – Misha pressionou-o.
Jensen relaxou na cadeira.
- Ok, ok. Não contarei tudo, já esteja avisado. – O loiro desconversou. – Nasci em Dallas, como eu disse, e trabalhei toda a infância num rancho do meu pai. Aos 14 anos saí de casa...
- Por quê? – Misha interrompeu-o. Nem mesmo quando passara necessidade em sua infância chegara a cogitar sair de casa. Jensen parecia ser louco e imprudente, mas não ao ponto de morar sozinho tão cedo.
- Meu pai me pegou no rali-e-rola com um dos seus empregados do rancho. – Jensen comentou, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Como? – Misha engasgou-se.
- O quê? O cara era bonito, devia ter no máximo 25 anos. Eu era meio cabeça-oca quando pequeno, e não sabia direito o que estava fazendo. Quando dei por mim, já estava cavalgando no rapaz e meu pai abria a porta do quarto aos berros. Acho que eu gemi alto demais...
Misha riu. Jensen poderia ser pederasta, mas o moreno não imagina que fosse tanto assim.
- Continue. – O moreno pediu.
- O rapaz sumiu depois disso. Se meu pai deu cabo nele, ou se desapareceu por conta própria, eu nunca saberei. A questão é que, nem uma semana depois, ele chegou no limite e disse que já não conseguia olhar para minha cara direito desde o ocorrido. Me jogou as tralhas e me mandou embora. É lógico que minha mãe teve um surto, e minha irmã Mack também, mas ninguém tinha voz e coragem o suficiente para desacatar uma ordem do meu pai. Em suma, eu saí de casa e fiquei circulado por aí.
- Como assim ''circulando por aí''? – Misha perguntou.
- Estradas Americanas, sabe? O vício de todo bom aventureiro. Cada semana eu dormia em uma cidade diferente, sempre pedindo caronas, sempre prestando favores aqui e ali, fazendo alguns serviços aqui e acolá e ganhando uns trocados para viver.
Misha perguntaria que tipo de serviço Jensen fazia, mas já sabia a resposta.
- Fiquei assim por 4 anos. Até que peguei uma carona diferente, não lembro o nome do motorista agora. Ele tinha um Impala, carro bonito de se ver e bonito de se dirigir, ao menos na época. Eu nunca tinha dirigido um carro, e este foi o primeiro. A primeira volta num volante à gente nunca se esquece, não é?
Misha sorriu, lembrando da vez que ele e o irmão, Sasha, haviam pegado um carro emprestado com um dono de uma mecânica, amigo da sua mãe. Em 10 minutos no volante, Misha já batera numa árvore. A mãe teve que pagar o prejuízo e deixou os dois meses em castigo.
- E o que essa carona tinha demais? – Misha perguntou.
- ''Demais'' não, ''de menos''. Nos hospedamos num hotel em Lawrence, Kansas. Era onde o velho costumava ganhar a vida fazendo sabe-se lá o quê. Uma semana depois de eu já estar hospedado lá, tentei ir embora, e ele me proibiu. A partir daí, tudo virou um Inferno, e o velho passou a me abusar e me bater. Até que, um dia, eu perdi a paciência e, no meio da noite, apertei um travesseiro na fuça dele, matando-o. Peguei as chaves do carro e me mandei dali, antes que a polícia chegasse.
- Você matou um cara? – Misha sussurrou, nervoso, mal acreditando na confissão do loiro. Jensen poderia ser muitas coisas, mas assassino não parecia ser o seu perfil.
- Ele me abusava e me batia! – Repetiu o loiro, e Misha perguntou-se se àquilo era de fato verdade. – O que você queria que eu fizesse? Eu era só um vagabundo nômade, do tipo que a polícia nunca daria ouvidos. Era matar ou ser escravizado. Garanto que, assim como eu, você escolheria a primeira opção.
Misha não pôde deixar de admitir que o loiro estava certo. Mas ainda assim, só o fato de ter empregado um assassino como seu secretário pessoal, torná-lo um amante e estar saindo com ele já provocava arrepios em sua espinha. Um arrepio de mau presságio.
- E depois? – Misha descobriu-se de boca seca. Tomou mais do sorvete, que já começava a derreter.
- Bem, depois...
- Vão pedir mais alguma coisa, senhores? – Um garçom interrompeu, com um caderninho na mão. Misha amaldiçoou-o.
- Não, não. Acho que só os sorvetes. – Misha respondeu, azedo.
- Posso servir a conta? – O garçom já anotava rabiscos no caderno.
- Não, não. A gente não vai pagar. – Brincou Jensen.
O garçom sorriu para o loiro. Misha sentiu uma estranha onda de fúria borbulhar em seu estômago.
O garçom entregou a conta, rasgando uma folha do caderno, e se distanciou.
- Vou pagar a conta. – Jensen disse, já terminara o seu sorvete.
- Eu vou com você. – Misha respondeu. Por algum motivo, achava que o garçom era o motivo da saída súbita do loiro.
Jensen não retrucou, mesmo que o sorvete de Misha ainda estivesse na metade.
* JENSHA – He Is The Devil *
O moreno mal repara na lanchonete quando entrara, mas agora reparava. Era de uma cor marrom-clara, desde as mesas e cadeiras, ao teto, a parede e o balcão. A cor dava um ar de campestre ao local, e julgou ser esse o motivo de Jensen tê-lo escolhido para seu primeiro encontro. Talvez estivesse relembrando suas origens.
A única coisa que destoava do tom agrário do local era as máquinas de refrigerante, sorvete de palito e uma TV de 50' presa ao teto, atrás do balcão.
Misha observou a TV.
- E agora, voltamos com o Lauren & Danneel show. – Uma moça com feições de modelo, cabelo ruivo escuro e pele um pouco bronzeada respondeu.
Conhecia aquele talk show. Nunca havia parado para assistir, mas conhecia. A moça ruiva era a Danneel do título. A outra, Lauren, era outra modelo, esta de cabelos castanhos escuros e olhos claros e penetrantes. Lauren, como Misha notou, não estava apresentando o programa no dia. Lera, certa vez, em uma revista de fofoca que Vicky havia comprado, que as duas eram como gato e rato nos bastidores.
- Senhor, 10 reais. – Um empregado no caixa respondeu, despertando-o, olhando a conta que Misha depositara em cima do balcão.
Misha pagou, sozinho, a conta.
Quando virou-se para o loiro, este estava acompanhando, com olhos ávidos, a moça ruiva entrevistando um convidado qualquer. Mais uma vez, aquela sensação de fúria borbulhante encheu seu interior.
* JENSHA – He Is The Devil *
Pegaram um táxi na porta da lanchonete, 10 minutos depois. Misha não arriscara vir ao encontro com seu próprio carro, julgando que beberia muito.
O motorista era um senhor de idade, uns 60 anos. Cumprimentou-os quando entraram, perguntou o destino dos dois, e não falou mais nada durante todo o percurso.
Jensen começou a fazer carícias na cocha do moreno, parecendo já presumir que qualquer aproximação brusca o assustaria.
- Jensen... – Misha repreendeu.
- Àquilo aconteceu faz anos, Mish. – Jensen sussurrou ao seu ouvido. – Não precisa ficar com medo de mim.
- Jensen. – Misha repreendeu novamente, dessa vez lançando um olhar para o taxista, fazendo com que o loiro entendesse o recado.
- Não se preocupe. É provável que ele nunca mais nos veja mesmo. – Jensen desconversou, despreocupado. Misha não estava tão seguro. Não era nenhum famoso de capa de revista, mais tinha lá uma certa fama no ramo de arquitetura e negócios da cidade. O taxista poderia querer extorqui-lo mais tarde. – Além do mais, nós estamos bêbados, não é?
Misha notou o piscar de olhos do loiro, e sorriu, dando-se por vencido.
Jensen beijou-o como beijara antes, com calma, quase apaixonadamente. Misha sabia que estava sendo usado novamente, que o loiro estava fazendo um joguinho de ''homem romântico e amoroso'' para cima dele. Mas, por alguma razão, não se importava nem um pouco. Não dessa vez. Começara o trabalho, de manhã, já planejando uma virada de jogo em Jensen, mas ali estava ele: rendido novamente. Talvez na próxima as coisas seriam diferentes, talvez na próxima...
- Quer dar uma passada lá no meu apartamento? – Jensen perguntou, convidativo, entre beijos.
- Não acha que é muito cedo para um primeiro encontro? – Misha brincou. – Ou você é do tipo que dorme com estranhos logo na primeira noite?
- O quê você acha? – Jensen perguntou, rindo.
Mais beijos foram trocados.
O medo se fora, e o Diabo Loiro voltava a acorrentá-lo.
* JENSHA – He Is The Devil *
Chegaram ao destino do loiro primeiro. Jensen deu o dinheiro referente à sua parte da corrida até ali ao taxista.
- Você vem ou não? – Jensen chamou, já do lado de fora.
- Pode esperar alguns minutinhos? – Misha pediu ao motorista. – Pode deixar o taxímetro ligado, eu pago.
- Não demore. – O velho resmungou.
Misha saiu do táxi.
- Eu moro virando a esquina. – Contou o loiro. Estavam no meio de uma quadra abarrotada de apartamentos no maior estilo nova-iorquino.
- Porque não pediu para ele parar mais para frente, então? Porque deu o endereço errado? – O moreno já seguia, mal percebendo, a caminhada que o loiro tomava.
- Segurança nunca é demais, não é? Vai que ele me reconhece de algum lugar por aí...? - O loiro brincou.
Misha fechou a cara, mas acompanhou o ritmo. Pôs uma mão na cintura do loiro, mal notando.
Quando chegaram à esquina, Jensen quebrou o silêncio:
- É virando aqui. – Aponto, virando a esquina. A fileira seguinte de apartamentos seguia para a esquerda, terminando na metade da quadra. Complexos de lojinhas pequenas tomavam o restante dela.
Seguiram, ainda em silêncio.
Chegaram ao último apartamento da esquerda, e Misha já se sentia levemente irritado pelo loiro tê-lo feito caminhar até ali. Irritação essa que se dissipou quando o loiro beijou-o.
Pararam em frente à porta, na escadaria de entrada. O loiro num degrau à cima, trocando beijos como o moreno. Pareciam um retrato exato de filmes românticos, quando o casal de pombinhos se beijava, à frente do apartamento, após um encontro.
Misha sabia que àquele deveria ser outro jogo do loiro, tentando entrar na sua mente de homem romântico e usando esta fraqueza para seu benefício. Tentou construir um escudo ao redor disso da melhor maneira que pôde, mas não saberia dizer se foi ou não bem sucedido.
Jensen remexeu no bolso, pegando a chave da porta. Abriu-a, e Misha o seguiu.
O loiro colocou a mão entre os dois, separando-os.
- Sabe, você tinha razão. É muito cedo para um primeiro encontro. – O loiro sorriu, provocando. – E eu não sou do tipo que transa com estranhos na primeira noite, também.
Misha tentou protestar, mas o loiro deu-lhe um beijo francês profundo, as mãos apertadas na sua nuca. Sua língua brincou deliberadamente na sua boca. Era a primeira vez que Jensen o beijava daquele modo.
Quando o beijo terminou, Jensen entrou na porta do hall do apartamento, fechando-a na cara do outro.
Misha ficou ali, em silêncio, na noite escura e quente, se remoendo de raiva pelo loiro, mais uma vez, provocá-lo e correr dele em seguida. Bom, ao menos dessa vez, ele lhe dera um beijo de língua. Quem sabe o que um segundo encontro faria...?
* JENSHA – He Is The Devil *
O taxista viu quando o moreno retornava, sozinho. O homem entrou no carro, sem dizer uma palavra.
O velho tomou partida no veículo.
Pensou em perguntar se os dois homens eram namorados, mas, ao notar que o moreno fitava a janela do carro como se estivesse em outro mundo, achou que sabia a resposta.
Olhou para o lado, para a noite, e viu a Lua, cheia e brilhante, numa coloração prata, erguida no céu. Sua mãe costumava chamar aquela Lua de ''Lua dos Apaixonados''. E, ao notar a expressão do passageiro fitando-a, achou que o nome lhe caía perfeitamente bem.
Nota do Autor: Demorou, muito, mas aí está, novo cap. de He Is The Devil! Primeiro eu tenho que confessar que já havia escrito boa parte do cap. Faz meses, mas não havia terminado-o por simples falta de inspiração (assim como já escrevi parte do cap. final da fic de Halloween, mas ainda não terminei-a). No meio disso, entraram outras séries na minha vida( filophey agora, gostaram? –N), outras shipps, enfim.. Mas vou tentar, na medida do possível, voltar à escrever, aos poucos, essa fanfic. Já avisando que o próximo cap. Dessa fanfic terá uma musiqueta de tema! Façam suas apostas.
Nota do Autor 2: Aos meus leitores e escravos fiéis(-n), eu já recomendo ir vendo alguma coisa da série britânica Sherlock, que a próxima fic, já escrita e nas mãos da CassGirl pra betar, é sobre Sherlock/Watson. E se essa shipp flopar, assim como a fic Jack/Ianto flopou, eu arrebento vcs! U-U -Q
