Abby olha a menina que está com o rostinho banhado em lágrimas. Ainda bem que ela chorou... Ela pensa enquanto acalenta Sarah. Eu sabia que isso não ia dar certo. Essa situação está família demais pro meu gosto. Ele está tocado...

Luka continua na sala. Seu olhar fixa o vazio. Ele pensa no que aconteceu. Não devia ter feito isso. Pensa. Mas não pude resistir... Ele olha Abby que desce com Sarah nos braços.

Ela fica andando pela sala com o bebê no colo. Eles evitam encarar-se.

Luka quebra o silêncio– Você tem razão. Só peço mais alguns dias. Se até o final da semana não encontrarem nada nós a levamos para um abrigo.

Abby – Tudo bem... Só mais alguns dias.

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Passam-se dois dias. Abby e Luka revesam-se cuidando de Sarah. Ela praticamente se mudou para a casa dele.

Luka conversou com Sam e eles fizeram as pazes. Mas ela sente que ela ainda anda cismada uma vez que eles tem se encontrado muito pouco fora do trabalho.

Ele acabou de chegar do hospital e percebe que a casa está vazia. Abby deixou um bilhete dizendo que foi dar uma volta com a garotinha. Ela também se apegou a esta criança pensa sorrindo.

A campainha toca. Ela esqueceu a chave pensa ele

Atônito vê Sam na sua porta. Ele fica parado sem saber o que dizer. Esquece de convidá-la pra entrar

Sam – Nossa que recepção! Atrapalho?

Luka (mais desconcertado que nunca) – Não imagine... Entre. Eu não sabia que você vinha

Ela entra – O que está acontecendo? Você está muito estranho. Faz dias que não me procura. É outra pessoa? Você conheceu alguem...

Luka – Não... Não como você está pensando. Estou com alguns problemas, mas já estou resolvendo.

Sam – Não é o que eu estou pensando. E como eu não posso pensar nisso! Ainda mais vendo isto!

Ela pega um agasalho feminino que Abby deixou em cima do sofá. Luka olha e não fala nada

Sai deixando Luka sem saber o que falar

Cinco minutos depois Abby retorna

Abby – Aconteceu alguma coisa...

Luka – A Sam... Ela apareceu sem avisar. Eu fiquei sem ação.

Abby – Ela viu alguma coisa?

Luka – Da Sarah não... Mas viu seu casaco... E eu fiquei sem jeito (senta-se) droga! Ela ficou pensando besteiras. Entendeu tudo errado!

Abby – Claro! O que você queria que ela pensasse! Essa situação está se complicando a cada dia...

Antes que Luka possa dizer alguma coisa o telefone toca

Ele permanece em silêncio por alguns minutos. Desliga o telefone

Luka – É da polícia. Parece que encontraram a mãe da Sarah

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NA DELEGACIA

Luka entra apreensivo. Seu coração está disparado. Ele convenceu Abby a esperar no apartamento até que verificasse os fatos. O que será que aconteceu com a mãe dela? Será que ela não a quer? Como alguém pode fazer isso? Seu coração falha uma batida ao imaginar a pequena em um abrigo. Ele sabe que ela será bem tratada, que irão limpá-la e alimentá-la. Mas quem vai amá-la? Quem vai pegá-la no colo quando ela quiser apenas um carinho?

Luka ouve um policial chamando-o...

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CASA DO LUKA

Abby segura a menina dos braços. Ela está agitada. Parece que está sentindo que algo vai acontecer. Pensa.

Ela coloca a garotinha no carrinho a menina brinca com o próprio pé. Abby sorri enternecida.

Abby anda de um lado pro outro

Senta-se

Levanta-se

Vai até a janela

Senta-se novamente

Já faz horas que o Luka saiu. Porque ele não dá notícias?

A porta se abre

Luka entra acompanhado de um policial e uma jovem que não parece ter mais que vinte anos. É evidente o sofrimento nos olhos dela

A mulher olha pra Abby e pra menina. Há lágrimas em seus olhos. Ela abraça a garotinha e murmura algumas palavras em espanhol

Abby olha pra ela. Seu olhar pede explicações.

A mulher encara o casal e o policial – Eu... Queria agradecer por vocês terem cuidado da Victória. Acho que vocês precisam saber o que aconteceu. Vocês devem estar achando que eu sou uma péssima mãe. Talvez eu seja, eu não sei... Mas o que eu fiz foi pensando no melhor pra ela. Pensando em salvá-la.

Abby fica em silêncio a mulher continua – Meu nome é Consuelo... Eu vim da Guatemala há dois anos pra trabalhar. Não conhecia ninguém... Sentia falta da minha família. Seis meses depois que cheguei conheci o Ramon. (olha para o casal) o pai dela...

Uma lágrima cai dos seus olhos, ela respira fundo e continua – Eu estava sozinha num país estranho, não tinha amigos. Ele aos poucos foi me conquistando. Quando eu percebi quem ele era realmente já havia deixado meus patrões. Estava grávida e morando com ele. Agora eu percebo o quanto eu fui ingênua. Aqueles homens estranhos. As armas... Um dia eu estava arrumando a casa e achei vários pacotes de droga. Eu fui falar com ele e ele me ameaçou. Faltavam poucos dias pra ela nascer.

Abby – Você não procurou a polícia?

Consuelo – Não... Eu fiquei apavorada. Estava prestes a ter um bebê... E se ele não fosse preso? E se ele saísse? Com certeza me mataria. Quando a Victória nasceu as coisas só pioraram. Ele chegava bêbado e drogado. Me batia, ameaçava matar a menina...

Abby – Você devia ter pedido ajuda

Consuelo – Eu sei... Mas estava sozinha e apavorada. Até que um dia, ele chegou pior do que todos os outros. Me bateu muito e depois caiu bêbado... Eu fiquei com medo que ele nos matasse, peguei a Victória e fugi. Quando eu cheguei na rua ouvi o grito dele. Ele estava furioso. Fora de si... Eu corri com ela nos braços e pude perceber que ele estava vindo atrás. Já era tarde da noite e não encontrei ninguém a quem pedir ajuda. Até que parei sem fôlego e me encostei em um carro.

Luka – O meu carro...

Consuelo – Eu não sei o que deu em mim... Sabia que se Ramon a encontrasse provavelmente a mataria, ele estava louco... Eu vi que o carro estava aberto, coloquei a Victória lá e sai correndo em outra direção. Procurei me afastar do carro pra que o Ramon não a encontrasse. Só eu sei o quanto foi difícil

O policial interrompe – Você se arriscou muito.

Consuelo – Eu sei... Mas não tive escolha. Logo ele me encontrou. Quando viu que eu me recusava a dizer onde estava a Victória meu inferno começou...

Luka e Abby entreolham-se. Ela continua – Ele me trancou em casa. Me deixava sem comer. Me batia. Dizia que tinha matado a Victória... Se drogava cada vez mais... Até que ontem a polícia bateu no apartamento e eu finalmente tive coragem de contar tudo.

O policial interrompe novamente – O Ramon foi morto em um confronto entre traficantes, ele já era procurado há alguns meses. Quando seu corpo foi encontrado, as investigações levaram ao apartamento onde ele estava vivendo com Consuelo. Nós a levamos para a delegacia onde ela contou o que estava vivendo e o que fez pra proteger a filha. Ficou sabendo que a menina foi encontrada, mas não estava num abrigo, que um casal havia se oferecido pra ficar com a menina ate que a situação se resolvesse.

Consuelo – Eu fiquei aliviada. Mas também fiquei com medo... Medo de não ter minha filhinha de volta (olha pra Abby desconfiada) vocês vão me devolver o bebê, não vão?

Abby – Você vai ter condições de cuidar dela?

Consuelo – Vou voltar pra Guatemala. Minha família está lá, eles me ajudarão. Não somos ricos, mas podemos cuidar de uma criança. (Olha pra Abby com olhar desesperado e aperta o bebê nos braços.)

Abby e Luka etreolham-se

Abby – Claro... Vou pegar as coisas dela.

Abby retira-se e volta trazendo o carrinho, várias roupas e alguns brinquedos.

Consuelo olha desconcertada – Eu... Não tenho como pagar por isso...

Luka – Encare como um presente pra Sarah... Quer dizer, pra Victória.

Consuelo sorri – Como eu posso agradecer o que fizeram?

Luka – É só cuidar bem dela.

Consuelo e o policial saem. Abby evita olhar pra Sarah. Luka olha pra ela. Será o brilho de uma lágrima que vi em seus olhos?

A porta se fecha levando com ela a pequena Sarah.

Luka – Que história maluca... Por sorte acabou tudo bem.

Abby – Você me mete em cada uma... Eu não sei por que eu ainda acabo fazendo tudo que você me pede...

Luka (sorrindo) – Você me ama...

Abby o encara, o riso de Luka morre. Ambos ficam desconcertados.

Luka – Você... Quer conversar?

Abby – Não. Acho que me recupero destes dias em família... E da próxima vez que você resolver brincar de casinha escolha outra pessoa

Luka – Estou falando sobre o outro dia, sobre o. (olha para o chão desconcertado) beijo.

Abby (também desconcertada) – Não... A situação levou a acontecer. Você tem a Sam. Eu tenho o Jake. Foi força das circunstâncias

Luka – É verdade...

Abby – Se você quiser que eu converse com a Sam... Ela vai entender. Mesmo que fique um pouco chateada...

Luka – Não precisa. Eu resolvo isso.

Abby – Sou obrigada a admitir... Foi uma experiência interessante. Ela até que era bonitinha.

Luka sorri – Você vai sentir falta dela

Abby – Nem tanto

Luka – Admita!

Abby – Não... (Olha pra ele e vê que Luka está sorrindo) Ta bom. Eu vou. Satisfeito!

Abby larga-se no sofá. Ela ouve um barulho de apito e vê que sentou em cima de algo. Ela se levanta e vê um pequeno sapinho verde. – Ela esqueceu... Era o favorito.

Luka pega o sapinho. Ambos encaram-se

Abby – Você quer guardar...

Luka – Não... Pode ficar pra você (entrega o sapinho a Abby)

Abby esboça um sorriso e pega o sapinho – Bem... Acho que devo ir...

Ela pega a bolsa e dirige-se pra porta

Luka – Ei... Abby!

Ela para e olha pra ele. Luka continua – Obrigado por tudo...

Abby – Imagine...

Luka – Um dia você ainda será uma excelente mãe.

Abby dá um sorrisinho descrente – Eu! Até parece

Luka – Pode escrever o que eu estou dizendo...

Abby esboça um leve sorriso. Luka observa a porta fechar-se. Um dia você ainda será uma excelente mãe... O tempo dirá o quanto as palavras dele seriam verdadeiras...

FIM


NOTA DA AUTORA - Não me matem! Eu sei que ela foi embora, eu sei que não teve cenas fofas Lubbys, mas esse final já estava na minha cabeça desde que comecei a escrever a fic. Minha intenção foi fazer uma espécie de "situação premonitória" do que viria a acontecer após algum tempo... Espero que tenham gostado.