Capítulo 4 – Medo

Ele não abriu os olhos ao acordar; não queria abrir os olhos e descobrir que havia sonhado novamente. Mas algo lhe dizia que era tudo muito real. Sentia o chão duro sob as costas e sentia um corpo macio ao lado do dele. Era real, não havia como não ser. Remus respirou profundamente; cheiro de jasmins. Havia algo sobre o seu braço. Algo quente e suave; o corpo dela. Havia algo apoiado em seu ombro; a cabeça dela.

Finalmente abriu os olhos. Os raios de sol tentavam passar pelas cortinas. Não se lembrava de tê-las fechado. Assim como não se lembrava de ter dormido sob o macio edredom que o cobria. A única coisa de que se lembrava com perfeição era dela, da mulher em seus braços, dos momentos em que a tivera apenas para si. Apoiando-se no braço em que ela dormia, Remus ergueu um pouco o tronco, para admirá-la. Passou os dedos pelos cabelos bagunçados dela – bagunçados por ele. Nunca a havia visto dormindo daquela maneira, tão tranqüila, tão mulher.

Lily mexeu-se suavemente e os seus lábios moveram-se num sorriso; e os seus olhos abriram-se, lentamente. Ao ver Remus fitando-a, o seu sorriso abriu-se um pouco mais.

— Desculpe... – ele sussurrou, o olhar prisioneiro dos olhos semicerrados dela. – Não queria acordá-la.

Ela moveu a cabeça suavemente, para dizer que não havia problema e estendeu as mãos para tocar o rosto de Remus. Ele se curvou e depositou-lhe nos lábios um beijo terno e preguiçoso, sentindo o gosto do sono ainda presente na boca de Lily. Separou os lábios apenas alguns milímetros dos dela, os olhares fixos um no outro. Remus acariciou-lhe a bochecha amassada, sorrindo como havia muito tempo não sorria.

— Sempre sonhei com isso. – confessou, a voz baixa e cúmplice. – Quase todas as noites, antes de dormir, eu sonhava que acordaria ao seu lado.

Remus não queria uma resposta à declaração dele, por isso beijou-a novamente. Tinha medo do que poderia ouvir dela. Era um grande medroso. Lily estava ali, nos seus braços, beijando-o vagarosa e sonolentamente e Remus ainda sentia medo do que ela poderia pensar dele, do que ela poderia lhe dizer. Seus lábios separaram-se aos poucos, com selinhos leves e gentis; ele encostou sua testa a dela, os olhos fechados, sentindo sua respiração voltar a misturar-se com a dele, um profundo arrepio percorrendo-lhe espinha de cima a baixo.

— Lily...

Um choro baixo mas promissor ecoou, vindo do quarto. Remus suspirou e afastou-se de Lily, deitando-se de costas no chão. A ruiva deu-lhe mais um beijo rápido nos lábios e saiu do chão, esplêndida em sua nudez, saltando por cima do corpo de Remus e correndo para o quarto de onde Harry chamava-a.

Foi o choro de Harry que o fez voltar completamente à realidade, foi aquele choro que o fez pela primeira vez esquecer a madrugada maravilhosa. Foi o chamado de Harry que o fez lembrar-se de James. Sentou-se no chão e segurou a cabeça entre as mãos, o coração palpitando a mil por hora. O que havia feito?!

Levantou-se do chão e enrolou o cobertor no corpo, caminhando para o seu quarto. Precisava conversar com Lily, explicar-se, fazer o que quer que fosse para fazê-la entender o que haviam feito, que era errado, proibido. Mas ao colocar os pés no quarto, vê-la sentada sobre a sua cama, amamentado o seu bebê, foi uma cena bela demais para que ele fizesse qualquer coisa para destruí-la. Procurando ser o mais silencioso possível, Remus caminhou alguns passos para trás e trancou-se no banheiro, batendo com a testa fortemente na madeira da porta trancada.

Maldito absinto, foi a primeira coisa que conseguiu culpar. Nunca mais beberia na vida! Nunca! E isso era definitivamente uma promessa. Deixou o edredom cair no chão e ligou a torneira, esperando que a banheira enchesse-se de água. O que eu fiz? A culpa estava atingindo-o de maneira avassaladora naquele momento. Ele havia feio amor com a mulher do seu melhor amigo. Jamais se perdoaria por isso. Havia sido um completo e terrível engano. Um erro e apenas isso.

Então por que eu não me sinto arrependido?

Quando a banheira já estava cheia, Remus entrou na água quente e mergulhou, encolhendo-se, até que todo o seu corpo estivesse coberto pela água. Por que não conseguia se arrepender do que tinha feito? Havia pecado. Havia traído. Já era mais do que o suficiente para sentir-se arrependido e culpado. De fato, a culpa enchia o seu peito. Mas não sentia o menor arrependimento. A lembrança das mãos de Lily sobre o seu corpo e do prazer que sentira não o fazia arrepender-se. Fora a melhor noite de sua vida, a noite com o qual sempre sonhara. E finalmente a tivera. Nunca se arrependeria. Mas isso não o fazia deixar de sentir culpa.

Ou medo.

Remus emergiu rapidamente do fundo da banheira, ofegante, sentindo-se repentinamente apavorado. James e Sirius nunca poderiam saber do que havia acontecido. Se eles descobrissem Remus estaria morto. Em todos os sentidos da palavra.

Passou a mão pelos olhos e suspirou. Havia arruinado a sua vida com aquele capricho. Perderia os amigos. E não apenas eles. Lily certamente já estava arrependida e jamais se atreveria a olhar para Remus novamente. E os integrantes da Ordem, todos o veriam com olhos de censura. Ficaria mais solitário do que nunca. Estava completamente perdido.

Submergiu novamente, mantendo os olhos bem abertos e fixos no teto. Tinha de fazer alguma coisa. Tomar alguma atitude. Mas o que quer que fizesse, alguém sairia perdendo, alguém se feriria. Isso era um fato. Depois de ter Lily em seus braços era quase impossível não querê-la mais. Nunca mais ter Lily estava fora de questão. Assim como estava completamente fora de questão fazer James sofrer. O que fazer?

Ficou durante vários minutos dentro da banheira, até sentir que a água começava a ficar gelada. E nem durante todos esses minutos ele conseguiu chegar a qualquer idéia que fosse. Talvez se conversasse com Lily ela poderia lhe dizer o que fazer. Estava completamente disposto a aceitar o que quer que ela decidisse; ele não queria tomar decisão qualquer.

Lily não estava mais no quarto quando ele entrou para trocar-se, nem o berço de Harry estava mais ali. Apenas o pequeno Sam continuava no quarto, deitado no meio da cama, olhando para Remus com olhos assustados.

— É, Sam... Você sabe mesmo o que eu sinto. – Remus comentou, entrando no closet, demorando o mais que pôde para se vestir. Ainda assim, não conseguiu fazer com que a sua mente pensasse em nada que não fosse o receio pelo seu erro.

Sam seguiu os passos de Remus quando este caminhou para procurar Lily. O leve cheiro de café no ar dizia-lhe que ela estava na cozinha, e era exatamente de lá que também vinha o som da risada animada de Harry. Deveria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas nem isso conseguia formular. Todos os seus pensamentos eram apenas imagens de como seria se James soubesse de sua traição.

— Lily, nós... – ele começou, assim que colocou os pés na cozinha. Mas perdeu a voz, perdeu a cor do rosto e sentiu até que perdia o coração com o que viu.

— FELIZ 1981, MOONY!!! – o grito veio bem de sua direita e ele sentiu que alguém pulava em cima dele e bagunçava-lhe os cabelos molhados.

Mas Remus não deu a mínima para a recepção dada por Sirius Black. Os seus olhos estavam realmente vidrados e presos a James Potter, que estava sentando à mesa, segurando Harry nos braços.

— Ja-James. – gaguejou.

— Feliz Ano Novo, Moony. – James disse, sem desviar os olhos do filho.

Sirius passou um dos braços pelos ombros de Remus e ele finalmente tirou os olhos de James. O que eles estavam fazendo ali? Oh, meu Merlin, eles sabem! Lembrou-se das roupas que havia deixado espalhadas por toda a sala e temeu, temeu pelas muitas perguntas que eles fariam e em como explicar o seu pecado. Merlin! Eles viram Lily nua! Estou perdido.

— Café, Remus? – Lily estendeu uma caneca com líquido escuro e fumegante dentro. Remus encontrou os olhos com os dela. Ela agia como se nada houvesse acontecido, estava completamente vestida e perfeita, como na noite anterior, quando chegara.

Sentindo que as suas pernas podiam ceder a qualquer minuto, Remus livrou-se do braço de Sirius e puxou uma cadeira, sentando-se e pegando a caneca de café que Lily entregava-lhe, trocando com ela um olhar penetrante e amedrontado. Sam enrodilhou-se aos pés de Remus e ganiu baixinho.

— Lily estava contando que o obrigou a dormir na sala. – James falou, levantando os olhos para Remus, sorrindo. – Desculpe por isso, amigo. Não sabia que ela era tão folgada assim quando me casei com ela!

Lily deu um tapa inconformado na nuca de James, que ria, mas Remus continuava apático, apavorado, mínimo. Eles não sabiam.Ainda. Eles iriam descobrir. Remus sentia como se, do nada, um enorme letreiro em neon fosse surgir em sua testa revelando a sua traição. Mas isso não aconteceu. Apenas o seu rosto continuava tão branco como uma folha de papel.

— Você está bem, Remus? – James arqueava uma sobrancelha ao perguntar.

Levou um belo susto com a pergunta de James. Sirius, agora encostado à pia, estava de braços cruzados e observava Remus com as sobrancelhas quase unidas. Será que ele podia sentir o cheiro do erro de Remus? Abriu a boca para responder, mas não encontrou a voz, só conseguindo suspirar.

— Remus está de ressaca. – Lily veio em sua salvação, atuando perfeitamente. – Quando eu cheguei, ele estava se afogando em uma garrafa de absinto!

— O que?! – James e Sirius exclamaram em uníssono, começando a rir logo em seguida.

— Nunca na vida eu achei que fosse ver Remus Lupin de ressaca! – James ria, balançando a cabeça. – E ainda por cima com absinto?! Moony, você sempre me surpreende!

Remus tomou um longo gole de café quente, sentindo-o queimar a garganta. Mas aquela dor foi boa, quase o trouxe de volta à normalidade. Se bem que, analisando melhor, depois daquela noite Remus nunca mais voltaria ao normal.

— Como está ficando a famosa pintura de Lily? – dessa vez Sirius fez a pergunta. Ele ainda olhava para Remus, com a expressão bastante desconfiada.

Mais uma vez Remus viu-se sem voz. Abriu a boca por várias vezes, balançando as mãos, mas por fim desistiu, deitando a cabeça sobre os braços, vencido.

— Nossa, mas essa ressaca tá mesmo forte! – James voltou a rir.

— A pintura vai indo bem, Six. – Lily, mais uma vez, salvou-o. – Fizemos um grande progresso ontem à noite.

— Nosso bebum é mesmo um artista... – Sirius disse, solenemente, dando tapinhas nos ombros de Remus, que não se atreveu a erguer a cabeça.

A mente de Remus começou a viajar e dispersar-se. Viu um futuro sombrio em sua frente, sem os amigos, sem Lily, completamente rejeitado. Porque, nos próximos segundo, Remus não agüentaria mais a culpa em seu peito e confessaria a James o seu erro, por mais que isso fosse duro e que causasse a mais profunda decepção em todos.

— Vamos, Lil? – a frase de James trouxe Remus de volta à realidade. – Estou desesperadamente precisado de um banho e de uma longa manhã de sono.

A ruiva aquiesceu com a cabeça e Remus quase gritou para James que não fossem, que havia algo que ele precisava saber. Mas Lily piscou para ele e Remus não teve mais coragem – ou loucura, o que fosse – para dizer-lhe o que realmente havia acontecido naquela noite.

— Também vou. – Sirius declarou, espreguiçando-se. – Tô morto de cansaço, cara.

Imóvel, Remus viu James e Sirius levantando-se da mesa e despedindo-se dele. Ainda não havia recuperado a voz e viu-os sair, sem nada dizer. Então se viu sozinho na cozinha com Lily. Ela deixou um pano de prato sobre a pia e caminhou até Remus, curvando-se às costas dele e colando a boca ao seu ouvido.

— "Adeus; calca-me a dor com tanto afã, que boa-noite eu diria até amanhã.¹" Te vejo amanhã.

Com isto, ela deu um suave beijo no lóbulo da orelha de Remus e partiu, deixando-o para trás, tendo como companhia apenas Sam e os seus sentimentos completamente discrepantes. Mais uma vez Remus passou a mão pelo rosto, suspirando, pensativo. Seus olhos baixaram-se para a caneca de café em suas mãos e lembrou-se de uma frase que Lily havia dito na noite anterior. O inevitável sempre acontece... Pois é... O inevitável sempre acontece. E era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, James descobrisse a traição. O inevitável sempre acontece.

× —

Mas realmente nada aconteceu nos dias que se seguiram. Desta vez Lily havia cumprido o prometido e apareceu à porta de Remus na metade da manhã do segundo dia do ano, um grande sorriso estampado no rosto e um longo beijo guardado para ele nos lábios, que lhe foi dado tão logo a porta foi fechada. Parecia ter havido um consenso mudo entre eles de que não deveriam falar nada a respeito de James, pois ele quase nunca foi mencionado entre os dois. A cada vez que Lily aparecia à casa de Remus, ela o recebia com um beijo, ele a desenhava por alguns minutos e os dois amavam-se, clandestina, pecaminosamente.

Mesmo com essa aparente calmaria e paixão, não houve um dia sequer que Remus não temesse que James ou Sirius ou quem quer que fosse aparecesse à sua porta e flagrasse-os juntos. O que tornou Remus muito mais assustadiço do que o costumeiro. Quando estava na presença de Lily, qualquer latido de Sam fazia-o saltar da poltrona, um simples espirro de Harry havia feito-o soltar um grito uma vez. Lily tentava acalmá-lo, mas a culpa que Remus sentia em seu peito não permitia que ele deixasse de temer.

Ele sentia, a cada vez que ficava sozinho, que precisava conversar com Lily. Remus não queria manter a situação em que os dois estavam. A clandestinidade apavorava-o. Alguma decisão precisava ser tomada. As poucas vezes que ele lhe ensaiou dizer algo sobre James, Lily sempre desconversava o assunto, e ele logo se esquecia. Precisavam decidir qual seria o próximo passo deles. A única coisa que Remus não queria era continuar a enganar James da maneira que estavam fazendo.

Entretanto, o caso entre os dois continuou dessa maneira durante os quatro primeiros meses do ano. Foram quatro meses maravilhosos e aterrorizantes para Remus. Ele finalmente tinha o amor de Lily, tinha-a em seus braços. Mas também tinha o receio, o medo da descoberta. Foi então, em uma reunião da Ordem da Fênix que ocorria na casa de Remus, que ele decidiu por finalmente exigir de Lily algo. Uma resposta.

Não se importava com todas aquelas pessoas em sua casa, conversando a altos brados. Desde que todos haviam chegado, Remus não havia desgrudado os olhos de Lily, que estava ao lado de Alice Longbottom e o seu filho o tempo todo. Em algum momento Remus puxaria Lily para algum canto e conversaria com ela. Cada célula de seu corpo estava distribuindo coragem para o seu corpo para que ele fizesse aquilo.

Quando Dumbledore declarou a todo pulmões que havia um traidor entre eles, a balbúrdia instalou-se na sala de estar. Remus viu esse como sendo o momento perfeito para retirar-se sem que ninguém percebesse. Fez um gesto com a cabeça para Lily e levantou-se, indo direto para o seu estúdio, fechando a porta atrás de si. A pintura de Lily ainda estava incompleta, ainda apoiada ao cavalete no centro do aposento. Na semana anterior Remus começara a dar as primeiras pinceladas com a tinta. Mas os momentos entre Lily e ele sempre o impediam de adiantar o seu trabalho. Não que ele estivesse reclamando...

A porta do estúdio abriu-se e Remus virou-se para encarar Lily. Ela passava a chave pela porta e sorria marota; esticou os braços na direção dele e Remus foi em direção a ela, abraçando-a e beijando-a com sofreguidão e paixão. Obrigou-se a afastar-se, segurando o seu rosto entre as mãos; estava se arriscando demais a beijando naquele dia, ali.

— Podem entrar... – ele disse, quando Lily tentou beijá-lo novamente.

— Eu tranquei a porta. – sussurrou, beijando-o mais uma vez.

— Até parece que não há bruxos aqui. – Remus respondeu, quando os seus lábios separaram-se novamente.

Ele a segurou pelos braços, afastando-a um pouco ao mesmo tempo em que afastava a tentação de continuar a beijá-la. Suspirou e olhou bem dentro dos olhos verdes de Lily, suaves e penetrantes. Quase se esqueceu do que ia dizer. Mas balançou a cabeça e afastou o poder que ela tinha de envolvê-lo.

— Lily. – murmurou, a expressão tornando-se profundamente séria naquele instante. – Preciso ser sincero com você. Eu... Eu não agüento mais enganar James. – Lily baixou os olhos e soltou-se das mãos de Remus, dando-lhe as costas. – Ele é meu melhor amigo, Lily... E-eu não sei se posso continuar com isso.

— Também não gosto de enganá-lo. – ela respondeu, abraçando-se. – Apesar de tudo o que eu estou fazendo, eu realmente amo James. Não da maneira como uma esposa deve amar o marido – ela acrescentou rapidamente, – mas ele não merece. – os dois permaneceram em silêncio, até Lily voltar a falar. – Isso quer dizer... que quer terminar tudo entre nós?

O coração de Remus perdeu um compasso ao ouvir aquilo. Perder Lily, nunca... Ele jamais suportaria não tê-la mais. Jamais... Ele atravessou a curta distância que os separava e abraçou-a por trás fortemente, sentindo os seus olhos marejaram diante do medo de perdê-la.

— Nunca... Jamais! – sua voz soava o baixo o suficiente para que apenas ela o ouvisse. – Eu jamais suportaria.

Lily sorriu, acariciando os braços de Remus com leveza.

— Vou falar com James. – ela declarou, agora séria. – Ele vai sofrer, Remus. E é provável que nos odeie. Mas ele vai entender. Teremos que ser fortes.

Remus fechou os olhos e respirou profundamente. O perfume de Lily entrou por suas narinas como um calmante, relaxando-lhe os músculos tensos.

— Qualquer coisa para tê-la. – enfim ele disse. – E-eu... eu amo você, Lily.

Ela se virou nos braços dele e os seus lábios encontraram-se mais uma vez, num beijo mais forte e desesperado. Tudo ficaria bem... Havia esperança.

× —

Mas havia algo que os dois sequer suspeitavam, jamais sonhariam. Algo que os destruiria para sempre. Pois, no exato momento em que Remus Lupin dizia as suas últimas palavras, havia alguém passando pela porta do estúdio, alguém que ouviu perfeitamente o que Remus havia dito. E esse alguém viu aquilo como a sua salvação, algo que livraria o seu pescoço de vez. Ora... Afinal, todos podiam achá-lo um burro, mas Peter Pettigrew sabia ser esperto quando a sua vida dependia disso.

Com esse precioso tesouro nas mãos, Peter foi correndo até James e Sirius, puxando-os para fora da casa de Remus e contando-lhes toda a história. Peter sabia quem era o traidor sobre quem Dumbledore falara! Havia acabado de descobrir! Remus Lupin, o lobisomem, era quem estava passando todas as informações para Lord Voldemort. Que idiotice está falando, Peter?! O idiota do Sirius era sempre o que nunca acreditava nele. Mas desta vez Peter tinha toda a história perfeitamente arquitetada.

Afinal, Remus Lupin estava apaixonado por Lily Potter, quem diria! Você está doido, Pete!, James zombou. Mas Peter continuou-lhes afirmando, e contou-lhes tudo o que havia escutado atrás da porta. Remus faria qualquer coisa para tê-la! Inclusive aliar-se a Voldemort, para que este matasse James Potter e deixasse o caminho livre para ele, o lobo traidor e traiçoeiro. E, por fim, depois de vários minutos discutindo, James Potter e Sirius Black, os dois alunos mais brilhantes de Hogwarts, dois gênios!, haviam caído na ladainha de Peter Pettigrew, haviam acreditado na culpa de Remus.

O verdadeiro traidor havia livrado o seu pescoço...

× —

Remus acordou naquela madrugada com o tocar desesperado da campainha e batidas violentas na porta. Sam saltou da cama primeiro que ele e, assustado, foi logo se esconder no closet. Remus ainda ficou alguns segundos sentado no colchão até perceber que não se tratava de um sonho. Olhou para o despertador. Eram três da manhã. Pegou a sua varinha na mesa de cabeceira e foi até a sala, pé ante pé. Quando chegava à porta, ouviu que, além de tocar a campainha e bater a porta, o seu notívago visitante também o chamava incessantemente. E ele conhecia aquela voz como nenhuma outra.

Lily.

Abriu a porta no mesmo instante e a ruiva entrou como um furacão, passando direto por ele, só parando no meio da sala. Remus fechou a porta, as sobrancelhas contraídas. O que ela faria ali tão tarde?

— Lily? O que foi? Aconteceu alguma coisa? Por que está aqui tão...

— Remus, você é o espião?

— O quê?!

Lily desabou sobre o sofá e começou a contar. Disse que quando James e ela chegaram em casa, ele havia lhe dito que Remus era o traidor de que Dumbledore havia falado; Peter havia descoberto. Também havia dito que Remus estava fazendo isso porque era apaixonado por ela e que ela não deveria voltar a vê-lo.

— Ele disse que não vai dizer nada a Dumbledore, pela amizade de vocês. – ela concluindo, as lágrimas escorrendo por seu rosto. – Ah, Remus! Diga que não é você!

— Claro que não sou eu, Lily! – ele exclamou, ajoelhando-se à frente dela, segurando-lhe as mãos. – Você esteve comigo em todos os momentos desses últimos meses! Alguma vez me viu com um Comensal?

Ela se calou, enxugando um dos olhos com a ponta dos dedos, o queixo delicado tremendo, tentando não chorar. Lily olhava direto pela janela escura e Remus não sabia o que dizer. Estava tudo correndo pior do que ele esperava. James sabia do seu amor por Lily e achava que ele queria a sua morte. Não pôde crer que James conhecia-o tão pouco a ponto de realmente acreditar nessa mentira.

— Há algo que não te contei, Remus. – Lily falou, a voz mais baixa e séria. Remus não moveu um músculo sequer. Pensara que não havia mais segredos entre ele e Lily. Estava enganado novamente. – Lembra-se de quando eu lhe disse que havia coisas acontecendo, há alguns meses? – Remus aquiesceu com a cabeça e Lily continuou. – Voldemort está atrás de Harry, Remus.

— O quê?!

Lily voltou a chorar, com mais intensidade dessa vez. Ela cobriu os olhos com uma das mãos e soluçou, tentando recuperar as palavras.

— Por conta de uma profecia idiota! – continuou. – Voldemort está atrás do meu Harry para matá-lo, Remus. Por isso James tem trabalhado tanto pela Ordem. Por isso temos brigado tanto. Por isso estou sempre aqui, para que me proteja. – Remus sentiu o seu coração apertasse e ele se afastou de Lily, sentando-se na poltrona. – Estamos fugindo já há meses, escondendo-nos. Desculpe não ter te contado, Dumbledore pediu...

— É por isso também que fez amor comigo, Lily? – ele disse, amargurado.

— Não! – ela gritou, ajoelhando-se aos pés de Remus. – Claro que não, Remus! Que besteira!

Remus curvou a cabeça para trás, suspirando. A vida realmente não era justa. Os olhos baixaram-se para olhar os de Lily, brilhantes por causa das lágrimas. Ela apoiava o queixo nos joelhos de Remus, desolada. Ao ver o rosto perdido e desesperado de Lily, ele cedeu à dor da mulher que amava. Ajoelhou-se de frente para ela e abraçou-a com toda a força, deixando que ela chorasse em seu ombro.

— Eu não acredito que isso esteja acontecendo! – ele falou, acariciando os cabelos dela e afastando-a um pouco de seu corpo, secando-lhe as lágrimas com os dedos. – O que vamos fazer, Lily?

— Vamos destruir Voldemort. – ela respondeu. Agora Remus sentia que toda a fibra dentro do peito de Lily estava dedicada àquela missão. – Ele não colocará os dedos imundos no meu filho, Remus.

— E eu farei tudo o que for possível para ajudar-te nisso. – Remus estreitou-a entre os braços.

Em silêncio, Lily sentou-se entre as pernas de Remus, deitando a cabeça em seu ombro. Remus beijou-lhe a testa e abraçou-a com mais força.

— Não vamos nos ver por um bom tempo. – Lily disse. Remus sabia que era verdade.

— Não sei se serei capaz de deixar de vê-la.

— Shakespeare uma vez disse: "Nisto é que consiste a monstruosidade do amor: em ser infinita a vontade e limitada a execução; em serem ilimitados os desejos, e o ato, escravo do limite"². – ela se virou um pouco para encarar Remus. – São as exigências do amor.

— Eu detesto Shakespeare. Quase todos os romances dele terminam em tragédias.

— Ainda bem que ele não é o autor do nosso romance.

Um beijo uniu os lábios dos dois, triste, intenso e desesperado. Poderia ser o último em muito tempo. E nem Remus, nem Lily queriam ficar afastados um do outro sem uma última lembrança para levar na mente e no corpo.

× —

Foi o período mais angustiante de sua vida. Depois de saber da acusação de traição feita contra ele, Remus preferiu afastar-se de todo o convívio com as pessoas da Ordem; podiam tomar isso como uma declaração de culpa, mas ele optou por não mais olhar nos olhos dos seus amigos, que não acreditavam mais em sua lealdade. Em conseqüência desse afastamento, Remus viu-se completamente isolado de tudo e todos e, o pior: sem notícia alguma de Lily. Ou do que quer que fosse.

Todos os dias, quando acordava – isso quando dormia, pois o sono parecia ter sumido de sua vida, assim como Lily –, enchia-se de medo até o Profeta Diário chegar. E continuava assim, até Remus ler o jornal todo e não encontrar qualquer notícia sobre os Potter. Aliviava-se momentaneamente e então se amedrontava novamente. Poderia ter acontecido algo naquele mesmo instante ou então o jornal estava ocultando informações.

Sam era um reflexo dos sentimentos de Remus. Sempre que ele olhava para o filhote (que crescia rapidamente), via a tristeza nos olhos do animalzinho, e quando Remus estava à beira das lágrimas de desespero, Sam gania e encostava a cabeça nas pernas de seu dono.

Remus chegou a uma conclusão depois de mais de dois meses de solidão. Não havia sentimento pior do que o medo. A dor que este tão sagaz e traiçoeiro sentimento causava era maior do que a dor que Remus sentia durante as suas transformações. De fato, Remus começou a ansiar cada vez mais por suas transformações. Assim, teria uma madrugada inteira sem pensamentos e temores. Mas bastava voltar ao normal para ele deixar de sentir as dores do corpo e sentir as dores a alma.

Por várias vezes Remus chegou a sair de casa e aparatar em Godric's Hollow. Mas era apenas ver a cidadela – calma e sem atritos – e ver a cabana dos Potter, no alto da colina, que toda a sua coragem desaparecia como num passe de mágica, e ele voltava para a sua solidão, com o rabo entre as pernas.

A garrafa de absinto que havia começado a tomar na noite em que Lily e ele se amaram pela primeira vez já havia sido completamente esvaziada e uma nova havia sido comprada – a sua promessa de nunca mais beber fora completamente esquecida. Como não podia se transformar em lobisomem todas as vezes que queria para esquecer os medos, que os esquecesse afogando-se em bebida. Mas isso não funcionou como Remus esperava, pois logo após os primeiros goles ele sentia o seu medo ainda maior (mesmo com a ausência de pensamentos) e começava a chorar como jamais na vida.

Talvez eu enlouqueça, era um pensamento constante que Remus tinha. E ele via essa possibilidade como um prêmio. Se fosse internado no St. Mungus, talvez fosse dopado com sedativos e deixado em permanente estado de letargia. Talvez assim ele perdesse todos os sentimentos.

Mas, sem qualquer sombra de dúvidas, as piores coisas durante esse longo e tortuoso período eram os seus pesadelos. Quando ele finalmente conseguia dormir, a mente de Remus era assolada pelos mais diversos pesadelos. A maioria deles com Lily. A maioria deles com amorte de Lily. E eram esses os pesadelos que o faziam acordar com o temor duplicado em seu peito. E eram esses os pesadelos que o faziam querer desistir de seu exílio e ir vê-la no mesmo instante.

Naquela noite não foi diferente. Remus havia colocado uma gota de poção sonífera em seu suco para tentar dormir sem sonhos. Merlin sabia como ele estava precisado de uma noite de descanso total.

A única gota de poção não foi o suficiente. O pesadelo veio novamente. Mas, desta vez, o pesadelo era diferente dos demais...

Na maioria dos pesadelos, Remus via Lily viva e feliz, divertindo-se com o bebê Harry. Era quando aparecia um ser sem rosto que os atacava e Lily, para defender o seu filho, protegia-o com o corpo, sendo morta em seguida. Aquela vez foi diferente. Daquela vez, Remus viu-se em seu quarto, dormindo, ressonando levemente. Mas havia algo de anormal ali. Um espectro de luz brilhava ao lado da cama, um espectro de luz tão forte e poderosa que poderia cegar qualquer um que olhasse diretamente para ele. O espectro estendeu o seu braço sobre o rosto de Remus e tocou-lhe o rosto com a ponta de seus dedos iluminados e etéreos; uma voz bastante familiar dizia, ao mesmo tempo virava para a janela e desaparecia: "Adeus..."

O susto pelo som da voz de Lily foi tamanho que Remus despencou da cama, ofegante, completamente suado. Permaneceu no chão, tentando se recuperar do incrível susto que tomara com aquele novo pesadelo. Mas foi quase impossível. O pesadelo havia sido vívido demais. Realista demais.

Remus sentou-se e olhou para a janela onde o espectro havia desaparecido; a janela estava aberta. Tocou o rosto, bem onde em seu pesadelo o espectro havia tocado; sua pele estava fria. Ele passou a mão pelos olhos e respirou profundamente. Precisava parar de beber. Precisava tomar uma nova dose de poção do sono.

No momento em que se levantou do chão, no intento de servir-se da miraculosa poção para dormir, alguém bateu com força à porta. Remus olhou o relógio. Era quase meia noite. Ninguém o visitaria tão tarde. Ninguém a não ser...

A possibilidade – mesmo que remota – de ser Lily quem vinha vê-lo fê-lo correr para a sala o mais rápido possível. Destrancou a porta e escancarou-a, seus lábios prontos para dizer o nome dela. Mas não era Lily.

— Sirius?

A aparência do amigo era deplorável. Os seus cabelos estavam completamente desgrenhados e o seu rosto estava manchado de lágrimas. Remus assustou-se e passou pela porta, parando ao lado do amigo. Ele não tinha certeza da reação que Sirius teria; ainda não o achava um traidor? Seria a hora do acerto de contas?

— Eu... – Sirius começou, a voz embargada. - ...eu sinto muito, cara.

Dito isso, Sirius deu as costas a Remus e caminhou até a estradinha, desaparatando no mesmo instante. Remus não entendeu o que Sirius queria dizer. Na verdade não havia entendido nada. Mas algo, algo bem lá no fundo de seu peito dizia-lhe que alguma coisa havia acontecido. Ele entrou em sua casa e fechou a porta, ainda coçando a cabeça, completamente confuso.

Era 31 de Outubro de 1981.


¹: Shakespeare, William - Romeu e Julieta – Ato II Cena II
²: Shakespeare, William – Tróilo e Cressida – Ato III Cena II