Thórin subia a colina ainda com o sorriso da noite anterior nos lábios. Seu corpo tinha se recuperado após haver completado o ciclo de cura. Retornava agora ao topo onde aguardaria pelo próximo chamado para que uma nova jornada fosse iniciada. Ele pensou em quando iria conseguir vê-la novamente. O último encontro havia exigido um preço muito alto. Mal conseguiram aproveitar o tempo que passaram juntos. Ele havia atravessado o espaço e o tempo a fim de encontrá-la. Não conseguira aguardar a próxima abertura do portal. Sorriu para si mesmo, confiante de que o faria novamente se a bendita echarpe teimasse em se manter fechada.

Ele ergueu os olhos em direção ao topo da colina ao perceber que, ao contrário de todas as outras vezes, havia alguém esperando por ele. Estreitou os olhos, tentando descobrir quem era, sem, contudo, conseguir lograr êxito. Acelerou o passo, impelido pela curiosidade, parando em choque, vendo a figura divina se erguer.

- Mahal! – ele murmurou, ajoelhando-se.

- Levante-se, meu filho. – disse o Vala. – Aproxime-se.

Thórin caminhou lentamente em direção ao seu criador. Aule cruzou os braços quando o anão já estava diante dele.

- O que, em nome do Único, meu filho, você andou fazendo?

Ele engoliu seco. Sabia em seu íntimo que a pequena transgressão que havia impetrado não passaria em branco aos olhos dos guardiões da Terra Média, contudo não esperava que sua pequena fuga fosse chegar aos ouvidos dos Senhores do Oeste.

Procurava pelas palavras exatas, quando outra figura conhecida surgiu de trás de uma rocha.

- Responda, Thórin, Escudo de Carvalho, – disse o Peregrino Cinzento – e nem pense em ocultar o menor detalhe que seja!

O anão permaneceu mudo. Um Vala e um Istari o inquiriam. Parecia que ele estava em maus lençóis.

- Creio que ele não poderá nos contar todos os detalhes, Mithrandir. – comentou Galadriel, subindo a colina antes de surpreender Thórin pelas costas.

A elfa passou por ele, dirigindo um olhar de simpatia, sem, contudo, sorrir diretamente. Elfos e anões não trocavam gentilezas tão facilmente.

Thórin olhou em volta.

- Não se preocupe, meu filho – disse Aule – não serão necessários mais reforços. Cremos que nós três juntos somos capazes de fazer frente a Thórin Escudo de Carvalho.

- E então? – Gandalf retomou a palavra – Vai nos dizer que desatino você cometeu?

Thórin estreitou os olhos ao se perceber acuado.

- Pelo que tenho diante dos meus olhos – ele principiou – creio que já sabem melhor do que eu sobre meus próprios atos.

- Sabemos, sim, até mais do que você, Thórin – disse Aule – mas precisamos saber até que ponto tem consciência de seus deles.

- Eu... – ele abriu os braços – ora, meu pai, não foi tão grave assim! – ele se justificou ao perceber a severidade no olhar do Vala.

- Infelizmente devemos discordar de você, Thórin. – Aule prosseguiu. – Você forçou uma passagem entre o nosso mundo e o mundo dos homens. Se tivesse simplesmente atravessado um portal aberto previamente, não haveria repercussões. No entanto, seu ato de violência causou um abalo em todo o nosso mundo. Não houve um ser em Arda ou mesmo em Valinor que tivesse ficado indiferente a ele.

Thórin entreabriu a boca, sem conseguir encontrar palavras para se justificar.

- Toda Arda? – foi só o que conseguiu dizer.

Aule assentiu.

- Então todos sabem? – ele indagou com voz baixa, mirando o chão.

- Não, Thórin – respondeu Gandalf, atraindo o olhar do anão para si – pelo menos não ainda. Conseguimos manter segredo sobre a origem do abalo. Apenas os Valar estão sabendo e os Senhores do Oeste – ele olhou para Aule – concordaram em manter segredo caso pudéssemos garantir que não haveria mais o menor risco de recorrência.

Thórin fechou os olhos. Galadriel observava o anão. Deveria ter previsto que a natureza rebelde dos Filhos de Dúrin não se dobraria aos caprichos de uma echarpe. Sem comentar que o sentimento que começara a surgir entre ele e a humana parecia bem mais forte do que ela podia haver imaginado.

- O que o levou a violar o espaço-tempo, Thórin Escudo de Carvalho? – ela indagou.

O anão a olhou. A antipatia tão latente entre as raças se insinuando.

- Responda à Senhora Galadriel, meu filho – interviu Aule – assim como nós, ela está aqui para ajudá-lo.

Thórin não olhou para a dama, mas respondeu ao seu criador.

- Eu queria vê-la, meu pai. A echarpe estava demorando muito a... – parou diante da expressão austera de Aule.

- Está me dizendo, Escudo de Carvalho, que agiu como um adolescente tolo que, não conseguindo controlar os próprios impulsos, foge para encontrar uma... – Aule perdeu a paciência, dando as costas ao anão. O Vala balançou a cabeça em uma negativa severa.

Thórin se sentiu humilhado pela verdade que seu criador havia exposto.

- Seu ato foi totalmente injustificado e infelizmente eu não poderei fazer nada por você.

- O que quer dizer com isso, Mahal? – o anão indagou inquieto.

- Que vocês não poderão continuar se encontrando.

Thórin viu o chão sumir sob seus pés, chegando a sentir um ligeiro desequilíbrio. Meneou a cabeça em uma negativa, sem conseguir acreditar nas palavras que ouvia.

- Eu sinto muito, Thórin. – disse Gandalf ao ver a expressão de consternação do anão – Poderá ter alguns minutos com ela, para que possam se despedir, contudo será a última vez que se verão e deverá ser breve. Eu os alertei sobre os perigos que essa aventura poderia acarretar.

O corpo do anão desabou, fazendo com que ele se sentasse no gramado com a cabeça entre as mãos. Os Valar havia visto seu deslize e se incomodaram bem mais do que ele sonharia que pudessem se incomodar. E o que os Poderes de Arda decidiam, jamais poderia ser contestado. Alguns bem mais poderosos do que ele já haviam tentado sem nada conseguir.

Thórin se viu sem esperança alguma, até que um pensamento sombrio passou pela sua mente. E tão espessas eram as trevas que tomaram o coração do anão que Aule pode senti-las.

- No que está pensando, Thórin? – Indagou Aule.

- Eu não posso ficar sem ela, Mahal.

- Sim, pode. Viveu sozinho a maior parte de sua existência até hoje. Poderá continuar assim até que esses poucos momentos que passaram juntos se tornem apenas um ponto no escuro.

- Não, não posso. – afirmou, erguendo-se novamente. – Pois ela jamais ficará no passado. Mesmo agora eu a trago dentro de mim e sinto como se ela sempre houvesse feito parte da minha vida.

- Suas palavras são fortes, Escudo de Carvalho – Gandalf interviu - e sei que seu sentimento é verdadeiro, porém deve se conformar com a realidade. Há coisas que simplesmente não podem ser.

- Então me dê uma nova chance! – ele ofereceu uma trégua – E juro pela minha honra que jamais repetirei o que fiz.

Aule suspirou.

- Pensa que não disse isso no grande conselho, Thórin? Eu o defendi! Yavanna intercedeu por você. Até mesmo Tulkas, que ficou bastante impressionado com sua coragem, disse palavras em seu favor. Varda chegou a sussurrar nos ouvidos de Manwe sobre uma segunda oportunidade, porém a maioria entendeu que o risco seria grande demais.

- Sou um descendente de Dúrin! Minha palavra vale tão pouco assim, Mahal?

- Não, meu filho, sua palavra vale muito, porém olhe para você! Está tão cego de paixão que não percebe a gravidade de seus próprios atos. Não há quem não saiba o quanto os anões são guiados pela obstinação. Sendo assim, a palavra de um anão apaixonado... infelizmente é bastante questionável.

Thórin baixou a cabeça, reconhecendo a verdade em todas as palavras de Aule. Contudo, não poderia desistir. Não se renderia assim tão fácil.

- Poderia pelo menos me dizer, meu pai, o que meu ato teve de tão grave? Quais seriam as consequências concretas que ele poderia ter acarretado?

Aule sorriu com o canto dos lábios. Thórin não se renderia facilmente.

- Você quase não conseguiu se curar, meu filho. Uma coisa é morrer durante a jornada para Erebor e, em seguida, reiniciar a história. Outra completamente diferente é morrer fora dela. Isso causaria um colapso no espaço-tempo que desequilibraria tudo.

- Tudo o quê? – ele insistiu.

- Toda a Terra Média, Valinor e o próprio abismo sofreriam. Estamos todos conectados de alguma forma. Rompendo essa corrente, não há como prever exatamente o que aconteceria. A única certeza é de que seria terrível.

- E me seria possível romper novamente essa barreira? – indagou Thórin – Pela gravidade da situação, creio que já devem quer colocado um guarda em cada abertura possível.

- Não é assim que funciona, Thórin. – Explicou Galadriel – É a sua vontade que rompe a barreira espaço-tempo. E quis seu criador que a vontade do khazâd fosse quase inquebrantável!

- Em outras palavras, se eu morrer fora da história, é o fim de tudo.

A Dama assentiu.

- Está decidido, então. Será o que farei. – o anão os desafiou. Eles mal podiam acreditar no que ouviam.

- Você não teria coragem?

- Teria e tenho, SE me for negado o direito de continuar a vê-la. Terão que me amarrar e me deixar inconsciente para que eu desista.

Uma nuvem ocultou o sol e a sombra pairou na colina verde. Os olhos de Aule se tornaram sombrios. O vento correu gelado entre eles e as aves param seu canto e seu voo.

- Está desafiando os Poderes de Arda, os Senhores da Terra Média e até mesmo o próprio Ilúvatar, seu temerário?

- Desafiando não. – prosseguiu Thórin – Estou propondo um acordo. Eu me comprometo a não mais romper a barreira espaço-tempo a não ser através do portal e vocês deixam que eu viva o que precisa ser vivido.

Aule ergueu a mão.

- Chega! Até mesmo a teimosia dos anões deve ter um limite!

Thórin se sentiu imobilizado da cabeça aos pés, como se uma grossa corrente estivesse ao redor de todo o seu corpo.

- Não pode me impedir de sentir o que sinto. – gritou Thórin.

- Morreria por ela? – Aule indagou – E levaria todo o nosso mundo à ruína?

- Pode apostar que sim! – disse entre os dentes. – Sem ela meu mundo já não passa de ruínas!

O Vala baixou a mão, liberando Thórin. O anão ainda respirava de forma acelerada e com dificuldade, quando ouviu o decreto de Aule.

- Se é a morte que deseja, eu não poderia privá-la dela. – ele sentenciou – Porém posso privá-lo de sua preciosa colina e da lembrança de sua amada. Não haverá mais existência fora da história para você. Não haverá mais descanso. Retornará ao ponto de partida logo que o ar cesse de encher seus pulmões. De agora em diante ela não passará de imagens sem nexo em seus sonhos, como tantas outras. Perderá suas preciosas lembranças. E quanto a humana, por ter negado a ela o direito a uma explicação, ela passará o resto da vida pensando que você a abandonou. É isso que quer?

- Ela não é como as outras, meu pai! – Thórin gritou em desespero. – Não pode tirá-la de mim!

Aule ergueu a mão a fim de concretizar sua sentença para que Thórin não tivesse tempo de cumprir com sua ameaça.

- E você – o dedo de Aule apontava para a face do anão – não pode desprezar o seu criador e seu mundo da forma que fez! Está completamente fora de si Thórin! Não se importa com o fim de todos nós? Eu te concedi um último encontro e a permissão para que ela o seguisse como uma lembrança. Você rejeitou e na sua arrogância se julgou capaz de ameaçar os Valar! Faz ideia do destino daqueles que no passado cometeram tamanha infâmia?

A voz de Aule soava como um trovão. Thórin fechou os olhos e tapou os ouvidos com as mãos. Nunca em sua vida se sentira tão acuado. O orgulho queimava em seu peito, dizendo-lhe que não deveria voltar atrás no que havia dito. Enquanto o amor que ardia em cada parte de seu corpo mostrava o caminho que deveria seguir, trazendo-o de volta a razão. Onde estava com a cabeça quando ameaçara os Senhores do Oeste? Agora se arriscava a perder tudo a menos que...

Ele caiu de joelhos. E Aule sabia o quanto aquele ato deveria estar estraçalhando sua alma.

- Sei que fui temerário, meu criador e pai. E em meu desespero disse palavras que agora renego. Estou disposto a aceitar o que me foi oferecido. Eu apenas...- Thórin baixou a cabeça e pensou em Soi – eu apenas não poderia desistir dela sem lutar.

Aule fez um sinal para que ele se erguesse.

- Sei que falo pelos Poderes quando digo que nossa proposta continua de pé e que seu retorno ao bom senso é um sinal de sabedoria de sua parte.

Thórin soltou o ar que estava preso em seus pulmões.

- Será que eu poderia... – ele principiou, sem olhá-lo – fazer apenas um pedido?

Aule o olhou de cima a baixo, sem saber se chamava aquilo de coragem ou de estupidez.

- Eu havia prometido tanto a ela... e estava disposto a tudo... não foram só palavras...

O Vala começou a intuir o que Thórin estava prestes a pedir.

- Eu peço um dia – o anão prosseguiu – apenas um dia junto a ela.

Aule meneou a cabeça em uma negativa.

- Por que não? – Thórin indagou com voz rouca.

- O que faria em um dia Thórin? De que adiantaria? Contaria no início para que passassem cada hora seguinte entre lágrimas? Ou a faria feliz enquanto o sol estivesse presente e lhe diria adeus logo que a escuridão chegasse?

Thórin detestava admitir, mas seu criador estava certo. Não adiantaria nada prolongar aquela agonia. Seu espírito começou a se convencer de que o fim já era fato consumado. A tristeza o atingiu impiedosa e fulminante.

- Que seja – ele disse quase sem forças. – Mas quero que se lembrem de uma coisa: nosso mundo ainda corre um grande perigo, pois não posso garantir que não morrerei fora da história. Sempre que vier para cá, será a lembrança dela que permeará meus pensamentos. Descobriremos se os elfos são os únicos que podem definhar de tristeza. – concluiu, dando as costas e começando a descer a colina.

O olhar de Galadriel seguiu o anão, surpresa com a intensidade do sentimento dele, e uma interrogação fez morada em sua mente.

- Eu providenciarei o último encontro deles – disse a elfa.

- Por favor, senhora Galadriel – disse Gandalf – sem surpresas dessa vez.

A elfa olhou o mago com o canto dos olhos, antes de dizer o que ela estava pensando.

- E agora, senhores, precisamos conversar.

Gandalf e Aule se entreolharam e Galadirel sorriu.