Cap. 5 – Anno Domini 1429, O Cerco de Orléans

Se os franceses houvessem imaginado que o casamento de Henry II da Inglaterra com Eleanor D'Aquitaine, ainda em 1152, plantaria a semente da guerra entre eles e os ingleses que se iniciou posteriormente em 1337, teriam-na assassinado antes do casamento. Mas certos fatos são impossíveis de se prever. E o destino, às vezes, brinca com os seres humanos. Talvez Deus brincasse de marionete com eles, e por isso fizera com que as linhas sucessórias inglesa e francesa se misturassem de modo que, duzentos anos após o malfadado casamento, o conflito armado fosse a única forma de resolver o problema: quem era o rei de França por direito?

Quase cem anos após o início da guerra, no anno domini de 1429 os ingleses dominavam o norte da França. Nantes, Chartres, Caen, Rouen, Calais, Lille, Reims, Chalons, Vancouleurs, Paris, Orléans... Toda a Champagne, Normandie, Bretagne, Lorraine... As terras ao norte do Loire haviam todas sido tomadas pelos ingleses. Aldeias inteiras haviam sido queimadas, em meio a saques e violência de todo o tipo. O povo sofria, dominado, sem ter para onde fugir. Os campos estalavam em fogo e já não havia pessoa no norte que desconhecesse o frio, a fome e as crueldades da guerra.

O caudaloso rio Loire servia como fronteira entre as forças invasoras ao norte e os franceses ao sul, que resistiam com esperança na crença de que os Valois eram os herdeiros legítimos do trono francês e que, dessa forma, Deus interviria a seu favor. Sobreviviam agarrados à profecia de que Deus todo poderoso enviaria uma donzela para libertar a França de seus opressores. Assim, defenderam-se. Destruíram todas as pontes que ligavam o sul ao norte menos duas: Anjou, formidavelmente defendida pelo Castelo d'Angers; e Orléans, cidade fortificada e defendida por Jean de Dunois, meio irmão do próprio Dauphin Charles VII Valois.

Aos ingleses, portanto, fazia-se necessário tomar uma das duas cidades fortificadas. Aos franceses, defender as pontes era questão de vida ou morte. No ano anterior, mais precisamente em 12 de outubro de 1428, os ingleses iniciaram o cerco a Orléans. Sem água e sem comida, sofrendo de doenças de todos os tipos, a vila estava prestes a capitular. Carentes de suprimentos e perdendo as esperanças, os cidadãos de Orléans rezavam por um milagre.

Em 29 de abril de 1429, Deus atendeu às preces dos desesperados: escoltada por Alençon, La Hire e Gilles de Rais, Jeanne D'Arc adentrou os portões da cidade, portando o estandarte da Fleur de Lis e trazendo mantimentos. E, principalmente, esperança.

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Dois dias depois, Camus de Beauregard avistou Orléans. Vinha viajando desde Agincourt, e cruzou as terras inimigas sem nenhum arranhão. Viera calado, taciturno, e seus olhos azuis pareciam cinzas. Questionava-se o porquê de ter feito o que fez no Torneio, e principalmente, tentava se esquecer do sonho que tivera na noite anterior ao seu fracasso. Terminou de maneira covarde aquilo que nem havia começado. E, pior, havia seguido a Orléans ao invés de ir para Chinon, conforme havia prometido ao Dauphin, por conta do conselho de dois ciganos charlatões.

Era o cair da tarde quando ele e sua pobre comitiva cruzaram a ponte e, protegidos pelos arqueiros, adentraram os portões da cidade. A notícia do cerco já era conhecida por toda parte, mas não se podia dimensionar o desespero daquelas pessoas. Olhos amarelecidos e rostos magros fizeram festa para o garboso cavaleiro de armadura dourada, felizes por contar com mais um combatente a seu favor. Pois os suprimentos trazidos pela Pucelle (1), mais cedo ou mais tarde, iriam terminar. E então, somente a rendição dos ingleses os salvaria.

Camus desmontou de seu corcel branco e retirou o elmo. Seus cabelos ruivos agitaram-se com o vento e seus olhos azuis brilharam com o que viram: correndo a seu encontro, o alegre e jovial Duque D'Alençon acenava com um sorriso no rosto bonito. – Ora mas se não é o Duque D'Aquitaine, La Hire não vai acreditar quando eu contar! – disse Alençon sorrindo enquanto abraçava o amigo. – Como foi em Agincourt?

O ruivo abaixou os olhos e suspirou longamente. – Hyoga, Aldebaran, por gentileza cuidem de tudo, dêem água aos cavalos e arrumem com os homens de Alençon um lugar para ficarmos. – ordenou e seu tom de voz fez o sorriso morrer no rosto do até então alegre anfitrião. Os acompanhantes obedeceram e, assim que sumiram, Camus virou-se para Alençon. – Ah, meu amigo... decepcionei a você, a La Hire, ao Dauphin... enfim, decepcionei a França! Perdi o Torneio, Alençon, e de uma maneira que eu me envergonho tanto... – comentou com os olhos baixos.

Um silêncio caiu sobre eles e a noite avançou mais um pouco. Até que, de repente, Alençon começou a rir. Gargalhou alto, intensamente. De seus olhos apertados saíram pequenas lágrimas. Camus encarou o amigo com o semblante carregado de descrença. Sacudiu a cabeça negativamente. – Alençon, não precisa espezinhar também e... – parou por um segundo, dando-se conta de que não estava em Chinon, para onde deveria ter ido e onde Alençon e os outros deviam estar lhe esperando. Passeou os olhos pelo ambiente: a cidade era imponente, e resistia bravamente a quase seis meses de sítio. – O que você está fazendo aqui, Alençon?

– Eu que deveria te fazer essa pergunta, Camus, mas estou muito feliz por estar aqui! Estamos precisando de você, amigo! – tornou o outro, ainda entre risadas. – E, respondendo à sua afirmação... não estou espezinhando, meu bom Duque D'Aquitaine! Você não decepcionou a França, meu caro... porque a França está aqui! – disse sorrindo. Camus arqueou uma sobrancelha, visivelmente confuso. – Não faça essa cara, Camus... – completou Alençon. – Venha comigo. La Hire vai ficar contente em te ver! – concluiu, passando o braço em torno do pescoço do ruivo, e conduzindo-o pelas ruas da cidade.

A imagem de Mu e Shaka, os ciganos de Agincourt, veio à mente de Camus de Beauregard. Cavalgue para Orléans. É aguardado lá, e não te condenarão pela derrota. "Será que eles estão certos? Então... conseguirei tudo o que meu coração deseja. Com a ressalva de que nem sempre o coração deseja o mesmo que a mente... o que deseja meu coração, afinal?". Entrou na pequena casa de pedra que servia de base de operações para os cavaleiros sem ousar refletir sobre a resposta àquela pergunta.

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Milo de Beauchamps deixara Agincourt na calada da noite. Sentia-se extremamente envergonhado, e não conseguia sequer olhar para Afrodite. Ou mesmo para Aiolia. Ele, que sempre fora disciplinado, um mestre em seguir as regras, simplesmente deixara-se levar por um sentimento que não sabia sequer dizer qual era. Uma vontade estranha de não causar mal algum ao seu rival, ao seu inimigo... talvez fossem os fios de cabelo vermelhos que o tivessem feito perder a concentração. Talvez fosse algum feitiço lançado pelos franceses... eles eram conhecidos como sacrílegos, mestres das artes ocultas. Quem sabe? O fato era que Milo de Beauchamps havia perdido a chance de sua vida e levado consigo a ambição real de Afrodite. Pior, impossível.

Cavalgava calada a comitiva. Milo ia à frente, com as costas arqueadas pelo peso da derrota. Era seguido de perto por Afrodite, altivo até mesmo no desespero, sedutor até mesmo no fracasso. Ao lado do Lancaster vinha Máscara da Morte, olhos crispados e vermelhos, desejosos de sangue. Milo sabia que tinha sido poupado pelo siciliano pois Afrodite nutria algum sentimento por si. Ou então, ele ainda se encaixava em seus planos... não sabia ao certo. Atrás de todos seguia Aiolia, que alternava momentos de alegria e tristeza. A alegria todos sabiam que era por conta do fracasso de Milo... mas a tristeza que pesava em seu coração, os outros a desconheciam.

Iam assim, nessa toada, rumo a Calais, para enfim tomar a embarcação que os levaria de volta à Ilha. Os pensamentos de Milo voavam: da tenra infância na Ilha de Milos até a derrota em Agincourt, passando pela usurpação do irmão, pela morte dos pais e pelo casamento forçado, sua mente viajou. E então, com o peso do mundo nas costas, finalmente, Milo chorou.

Afrodite bufou. – Agora não adianta, Milo, tudo é passado. Vou ter de criar algum outro plano, deve haver uma saída... uma forma de conquistar de vez por toda a confiança dos regentes, uma maneira de me entremear, de me esgueirar, até finalmente tomar o trono de assalto. E ser o rei de Inglaterra e França... não vai ser fácil, admito, mas deve haver uma outra maneira... ganhar um torneio idiota não pode nos condenar ao ostracismo, batal--...

– Quieto, Afrodite! – ordenou o siciliano. Esporeou o cavalo e trotou à frente da comitiva.

– O que foi? – perguntou Aiolia. – O que deu no nosso amigo assassino?

O Lancaster virou para trás, lançando um olhar tão ameaçador para o grego que, se não fosse a falta de iluminação noturna, teria o assustado de verdade. – Calado, estrangeiro de merda.

Milo engoliu em seco. Não muito longe dali, podia-se ouvir o som do trote de vários cavalos. Embora estivessem em terras dominadas pelos ingleses, em uma guerra, todo o cuidado era pouco. E aquelas estradas eram conhecidas pela quantidade de bandoleiros que as freqüentavam. Engoliu o choro, esquecendo-se de suas dores para assumir a posição de mestre-de-armas com a altivez que lhe era característica. Esporeou a montaria e juntou-se a Máscara da Morte, ambos bloqueando o caminho e protegendo os dois homens que seguiam atrás.

Não demorou muito e vultos foram finalmente avistados. Cerca de trinta cavaleiros se aproximavam e a noite não permitia que seus olhos distinguissem se eram amigos ou não. O pequeno destacamento, ao perceber que havia outros cavaleiros na estrada, estancou. – Quem vem lá? – uma voz ecoou, em inglês perfeito, pela calada da noite.

Afrodite fez um movimento e se colocou ao lado de Máscara da Morte. – É Edmound de Beaufort, Duque de Somerset, da real Casa dos Lancaster. E quem vem lá?

Ouviram-se risadas. – Lord de Beaufort, foi Deus quem o enviou. Sou John Talbot, Conde de Shrewbury, e mais outros nobres, irmãos de armas. Estamos voltando de uma caçada. Sou o lugar-tenente do cerco de Orléans. Aproximem-se!

Milo, Máscara da Morte e Afrodite sorriram. Trotaram até a grande comitiva, acompanhados de perto por um ressabiado Aiolia, e cumprimentaram Talbot com um aceno de cabeça. – Lord Talbot, que notícias traz do cerco? – perguntou Afrodite.

– As melhores possíveis. Saímos de lá há cinco dias e nos embrenhamos na mata, a fim de passar um tempo de descanso antes de desferirmos o ataque final. Orléans carece de suprimentos e adoece a cada dia. Vamos empreender o ataque assim que chegarmos, e todo reforço é bem vindo! – afirmou Talbot. – Quem o acompanha?

– Ah, desculpe-me pela falta de trato. Trago o Capitão de minha guarda, conhecido como Máscara da Morte; Milo de Beauchamps, filho de Richard de Beauchamps e Barão de Warwick, e seu escudeiro. – apresentou Afrodite. – Estamos voltando de Agincourt, indo a Calais e de lá, para casa.

– De forma alguma, Somerset! – riu-se Talbot. – Se esse jovem é filho de Richard, com certeza é um grande e valoroso combatente. Convido-os para seguirem comigo até Orléans. Quem sabe, jovem Warwick, não há um destacamento que possa comandar?

Milo sorriu. – Convite mais que aceito, Lord Talbot. Convite mais que aceito...

Juntaram-se os quatro à formação inglesa, rumo a Orléans. "Ah, um novo plano acaba de cair do céu... E agora sem o pavãozinho de Beauregard por perto, tenho certeza de que Milo se sairá muitíssimo bem! Porque eu entendi, Milo, eu entendi perfeitamente. De qualquer forma, mais uma vez, o destino conspira a nosso favor...", pensou Afrodite sorrindo.

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– Ah mas se não é o duquezinho. Alençon, onde você conseguiu esse aí? – perguntou um homem gordo e bonachão, sorrindo e mostrando os dentes amarelecidos. Correu até o recém chegado e o abraçou com força, suspendendo-o do chão. – Que bom que está aqui, Camus! Como nos encontrou?

– La Hire, me solta, não estou conseguindo respirar! – protestou Camus, sacudindo os pés no ar. Foi solto pelo outro em meio a gargalhadas. – Se eu contar como vim parar aqui vocês não vão acreditar... – limitou-se a dizer. – E antes que me perguntem, não ganhei Agincourt. Mas o inglês também não.

Mais uma gargalhada brotou da barriga gorda de La Hire. – E quem se importa com Agincourt quando se tem um milagre, Camus?

O ruivo não conseguiu não sorrir. Escrutinou o ambiente com olhos observadores: uma pequena casa de pedra úmida no centro de Orléans, simples, de pequenos cômodos. Estavam na sala, em cujo centro havia uma mesa coberta por mapas, e ao lado direito um caldeirão crepitava ao fogo. Do outro lado, separado por uma meia parede, havia um quarto simples e uma cama de palha. La Hire, Alençon e Camus não estavam sozinhos: havia mais gente lá. Dois homens altos e de armadura e um rapaz jovem vestido de cota de couro, um arqueiro. E, deitada na cama, uma jovem menina, vestida numa armadura reluzente de prata, dormia pesadamente. – Quem é a moça, La Hire? É... quem estou pensando?

– Aquela, meu amigo... é a França! – respondeu Alençon. – Seu nome é Jeanne, e foi enviada por Deus para salvar-nos a todos!

Camus abriu e fechou os olhos repetidamente. – A profecia... a donzela que veio para libertar a França! Como...? – perguntou, embasbacado.

– Deus tem seus desígnios, jovem, e contra eles nem o exército mais poderoso é páreo! – afirmou um homem alto, de olhos claros e cicatriz na sobrancelha esquerda. – Alençon e La Hire disseram muitas coisas sobre você, Aquitaine! Eu sou Jean de Dunois, meio irmão de Charles Valois... e defensor de Orléans!

Camus fez uma reverência respeitosa. – Seus feitos o precedem, Monsieur!

Um outro homem, de cabelos curtos, negros e cacheados e olhos tão azuis quanto os do próprio Camus, aproximou-se e lhe estendeu a mão. – E eu sou Gilles de Rais, Marechal da França. Ontem tivemos um dia muito difícil... Agora Jeanne dorme, tranqüila. É nosso dever preparar o ataque de amanhã! Aulon! – chamou, estralando os dedos, e o arqueiro, que até então observava a tudo quieto, levantou-se de um pulo. – Traga Raymond aqui para que possamos pensar no ataque de amanhã às forças de Talbot!

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Meio dia de cavalgada e a comitiva de Talbot finalmente chegou ao Fort des Tourelles, base do cerco inglês a Orléans e que ficava ao norte do rio Loire. Entraram sem maiores problemas, e foram recebidos por Thomas, Conde de Salisbury, comandante-em-chefe do cerco inglês. O homem era velho e dono de uma vasta cabeleira ruiva e cacheada, de aspecto sujo e feio. Mas, mesmo assim, a simples visão dos fios vermelhos fez com que Milo se lembrasse de Camus de Beauregard e sentisse raiva, muita raiva. Suspirou, lamentando que nunca mais fosse ver seu adversário, pois não poderia vingar-se da vergonha pela qual havia passado.

– Talbot, fico feliz por ter trazido mais combatentes! – disse Salisbury enquanto subiam os degraus de pedra de Tourelles. Chegaram por fim a uma alta torra de pedra, de onde conseguiam ver perfeitamente a tão almejada ponte sobre o rio Loire. – Não tenho boas notícias, Talbot. Não faz muito tempo uma comitiva conseguiu furar o cerco e entrou em Orléans. E havia uma mulher com eles... você já ouviu falar da profecia, não?

– A profecia! – exclamou Milo. – A profecia sobre a donzela que salvará a França! Meu Deus, então é verdade...?

– Não seja idiota, Milo de Beauchamps, não me faça passar ainda mais vergonha do que já fez! – um grito explodiu da garganta de Afrodite. – Máscara da Morte, você e Aiolia saiam, por favor. Esta é uma reunião de nobres! – ordenou. Os dois fizeram uma reverência polida e saíram calados. – Salisbury, Talbot, Warwick... não é possível que acreditem nisso, é? Então os franceses precisam de uma mulher para lhes livrar a cara? Ora essa! – concluiu com desdém.

– Somerset, nós pouco nos preocupamos com a mulher, mas sim com o ânimo que ela dá às tropas... – explicou Salisbury. – Sabe que os franceses são supersticiosos e fr--...

– SENHOR! – um garoto adentrou o quarto, sem se fazer anunciar. Estava ofegante, e respirava com dificuldade. – Senhor, desculpe-me pela invasão, mas é que os franceses... os franceses, Senhor, eles estão atacando!

– CATAPUUUUUUUUUUUULTA! – uma voz gritou ao lado de fora.

Uma bola de ferro, enorme, voou pelos ares e destruiu a parede meridional da torre em que eles se encontravam. Afrodite sacudiu os cabelos, olhando com nojo para o pó que caía deles e que cobria suas roupas. – Mas será que não é possível manter-se limpo durante a guerra? Francamente!

– Pare de resmungar, Afrodite! – ponderou Milo. – Talbot...?

– Ah sim! – o lugar-tenente parecia ter sido acordado de um sonho. – Venham comigo! – ordenou. Subiram mais uns lances de escada até atingirem o topo da torre. A visão dali era impressionante: o exército francês, vestido de azul, branco e dourado, enfileirava-se lindamente. Traziam dois trebuchets (2) enormes, com os quais lançavam projéteis simplesmente destruidores contra a Tourelles. E, à frente da linha francesa, uma moça cavalgava um corcel branco, carregando um estandarte com a fleur de lis. Ela cavalgou até um pouco mais à frente e, com toda a força de seus pulmões, gritou algumas palavras em francês.

– Meu Deus...! – suspirou Afrodite. – São muitos! Uns quatro mil, eu diria, se ainda sei contar...

– Sabe e muito bem! – tornou Milo. – O que ela disse?

– Pediu para que nos rendamos ou então iremos morrer! – respondeu Salisbury. – Tu veux une reponse? C'est NON! (3) – gritou o velho com um fôlego que ninguém imaginou que teriam. – E eu acabo de responder que não vamos sair daqui! Talbot?

– Sim, Senhor! – o lugar-tenente acenou com a cabeça e correu escada abaixo. Pouco tempo depois ele apareceu em cima das muralhas da Tourelles, organizando as defesas do forte.

Salisbury balançou a cabeça negativamente. – O forte vai cair... Somerset, Warwick, quero que vão até o acampamento, fica a uma milha e meia naquela direção... – apontou para a esquerda. – Preparem o forte para receber os soldados, porque eu creio que, hoje, o Fort de Tourelles cairá!

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O dia havia amanhecido com névoa em Orléans, mas isso não foi interpretado como sinal de mau agouro. Em pouco tempo o exército já entrava em formação. Eles tinham fome e frio, lutavam há muito tempo sem sucesso. Mas, naquele dia, era Jeanne quem lhes afirmava que iriam ganhar. E, se ela dizia, era verdade. Partiram todos em direção a Tourelles, o forte que os franceses haviam construído, e por isso mesmo sabiam quão forte era. Era esse o forte que servia de base para o cerco inglês e, se Tourelles caísse, seria o início da derrota dos invasores.

Camus mal podia acreditar quando o toque de corneta anunciou o ataque. Lado a lado com La Hire e Gilles de Rais, viu Jeanne cavalgar à frente de todos, acompanhada por Alençon, e dizer palavras de encorajamento para os soldados. Sim, Alençon estava certo... aquela ali era a França. E la Pucelle não estava nem um pouco preocupada com o fracasso de sua participação no Torneio D'Agincourt. Sorriu, enchendo-se de um sentimento de alegria maior do que tudo. Sentia-se jubiloso, poderoso, extremamente agraciado por poder ser um dos paladinos de mulher tão abençoada. Divina.

Pouco depois ela cavalgou, sozinha, um pouco mais à frente. Pediu que os ingleses capitulassem para que não sofressem. E, como era de se esperar, não foi ouvida. A fúria de Jeanne conduziu os soldados em batalha. Em meio a gritos de ordem, barulho dos trebuchets, trotes dos cavalos, silvar das flechas, o aríete avançava. Óleo fervente choveu em cima dos soldados, flechas zuniam e matavam sem dó nem piedade. Os homens colocavam escadas nas altas muralhas, as quais eram empurradas para baixo pela defesa inglesa.

O aríete chegou ao portão e, do outro lado, o porco-espinho foi ativado: setas de ferro perpassaram e atingiram os soldados que tentavam invadir. Mas, a despeito das perdas, os franceses continuavam avançando. Não demorou até que o portão cedesse e permitisse a entrada do exército de Jeanne. Camus invadiu a Tourelles junto de Alençon, e com ele avançou. Lutou bravamente, tomado por uma fúria que jamais pensou possuir: não lutava por si, não lutava pela Aquitaine, não lutava pela França... lutava por ela.

Chegou aos fundos da fortificação a tempo de ver um homem, que parecia ser um dos comandantes do cerco, fugir correndo. Pouco depois de cinco horas do início do ataque, tombava o Fort des Tourelles. Desmontou e ajoelhou-se. Tomou com as mãos a cruz que fora de seu pai. – In nomine Patris, et Filis, et Spiritu Santi! Pai, obrigada! – murmurou, olhando para o céu.

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A queda de Tourelles foi o primeiro revés de grande porte que os ingleses sofreram durante o cerco de Orléans. Os orgulhosos descendentes de William the Conqueror jamais imaginaram que sofreriam tamanha derrota. E, ainda por cima, impingida por uma mulher. Ali iniciou o ódio pungente que os habitantes da Ilha cultivaram por Jeanne D'Arc. E o que começa em ódio dificilmente acaba bem.

Milo, Afrodite, Máscara da Morte e Aiolia deixaram o forte antes da invasão, e somente puderam ver de longe a púrpura do fogo que lambia as paredes de rocha úmida. Pedra sobre pedra, erguidas durante séculos pelas mãos daqueles que, agora, destruíam e ateavam fogo, na fúria insana de tomar de volta a terra que era sua. O jovem Barão de Warwick parou por um momento, já distante do forte. Observou com olhos úmidos a destruição: os projéteis de ferro abrindo buracos nas paredes grossas, a fumaça do fogo, o óleo fervente, as flechas, as espadas, o ranger do ferro contra ferro. Gritos. Gargantas inglesas e francesas em uníssono expressando, juntas, o horror da guerra. O moço engoliu em seco, fechou e abriu os olhos repetidamente. – Eu não pensei que fosse assim... – murmurou baixinho, em voz fraca.

A seu lado, o moreno misterioso conhecido como Máscara da Morte sorria. Seus olhos brilhavam, mas era um brilho diferente do causado pelas lágrimas não derramadas de Milo: era brilho de desejo. Encarava a batalha ao longe com cobiça. Ainda sorrindo umedeceu os lábios: luxúria pura. Podia-se ler em seu rosto amargo a doçura com que sentia a luta. Morte. Prazer quase orgástico.

Não muito diferente era a expressão de Afrodite. O Duque de Somerset era, sem sombra de dúvidas, o ser mais belo que já havia pisado sobre aquelas terras. E sabia disso, tinha plena consciência de sua beleza arrebatadora. Para ele, nada no mundo poderia ser mais belo do que ele. Mas havia algo que era tão belo quanto: a guerra. Vista de longe, parecia uma dança milimetricamente coreografada. Homens digladiando-se entre si a fim de conquistar glória, orgulho, riqueza. Deleite praticamente sexual.

E, aos olhos de Máscara da Morte e de Afrodite, nada era mais justo. O vencedor sairia coberto de todas as virtudes, tanto mundanas quanto divinas. O raciocínio era simples: Deus, ou qual fosse a divindade que, brincalhona, regia os homens, não daria a força necessária à vitória para aquele que não fosse justo. Trocaram um olhar cúmplice, unidos pela crueldade bela que viam na morte.

Aiolia, por sua vez, estava aéreo. Não queria ver, não desejava ver. Seu corpo de homem no fundo escondia um coração de menino. Menino assustado que decidira se aventurar longe de casa, numa época cruel em que a frieza dos homens era mais forte que a da neve. Menino brincalhão, atrevido até. Destemido, não se furtava em questionar aquele que se dizia seu senhor. Mas, acima de tudo, e a despeito do que pudessem dizer, Aiolia era leal. E um guerreiro. A história que mais gostava de ouvir era a de Richard the Lionheart. Pois ele não era Ricardo, mas também tinha coração de leão. Apoiou a mão no ombro de Milo. – Vamos, vamos ao acampamento. Há glória na guerra, mas também há crueldade.

Milo sorriu e baixou os olhos. – Vamos. Precisamos nos preparar. Cruel ou não, essa guerra é necessária.

Cavalgaram os quatro tal qual os quatro cavaleiros do Apocalipse, fadados sempre a assistir a destruição.

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Caiu a tarde e dos escombros de Tourelles ainda podia-se ouvir os gritos dos franceses em festa. Havia sido uma vitória rápida e decisiva, e eles sabiam que aquele momento poderia definir uma guerra que já se arrastava por quase cem anos. Alençon, La Hire, Gillles de Rais e Dunois se reuniram para traçar o plano de ataque às linhas inglesas. O acampamento deveria ser destruídos, e os inimigos deveriam ser empurrados de volta á Ilha. Junto dos quatro, outros nobres comandantes-de-armas, entre os quais o jovem e garboso Camus de Beauregard. Pela primeira vez a Aquitaine era representada num conselho de nobres franceses, e Camus não escondeu o orgulho que sentia pelo fato: estufou o peito e permitiu-se sorrir mais do que o normal.

Não muito longe dali, Talbot chegava ao acampamento inglês. Estava ferido, fugira com dificuldade. Reuniu-se com os nobres ingleses, dentre os quais Milo de Beauchamps, o Barão de Warwick, e Edmound de Beaufort, Duque de Somerset. Máscara da Morte aproveitou o tempo para trocar algumas palavras com os soldados acampados, aprendendo a manejar a besta.

E Aiolia estava incomodado. Seu peito doía pela lembrança de uma moça que vira somente uma vez na vida: Marin. Emoldurado por cabelos vermelhos e contornado por olhos negros, o rosto marmóreo da garota não lhe saía da mente. Enfadou-se, não mais queria ficar sentado olhando para os homens agitando-se, preparando-se para a batalha. Sem medo de uma possível punição montou o cavalo de Milo e partiu trotando acampamento afora.

Sorriu com o vento batendo em seu rosto, acariciando seus cabelos desgrenhados. O campo era de um verde forte, e embora fosse o fim da primavera, as flores ainda davam um colorido especial ao lugar. Não havia como negar: era muito bonito. Cavalgou um tempo até que desmontou à beira do rio. Agachou-se ao lado da água e molhou as mãos e logo em seguida a nuca.

– Sr. Aiolia! – ouviu uma voz chamar-lhe, próximo de si, e de um pulo caiu sentado no chão. A voz riu.

– Muito bonito, Hyoga, muito bonito... você adora me assustar, pelo visto! – sorriu e se levantou, estendendo a mão ao rapazote. E somente então deu-se conta de que não era para o moço estar ali. – Hyoga, o que você faz aqui? – perguntou, com a sobrancelha arqueada.

– Meu senhor Camus participou da tomada da Tourelles... agora está lá, junto dos outros. E eu resolvi sair e respirar um pouco, o cheiro de destruição no forte é intenso! – replicou o loiro. – E você?

Aiolia gargalhou. – Acredite ou não, Milo de Beauchamps está no acampamento. Pelo visto, eles vão terminar aqui, em campo aberto, o que não conseguiram terminar na arena do torneio...

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Alençon acendeu o fogo, sempre com um sorriso no rosto bonito. La Hire achegou-se deles com um faisão espetado na ponta da espada, rindo gostosamente. Gilles de Rais olhava para o céu, embevecido, e Camus admirava aqueles que eram para si exemplos de disciplina, honra e glória. Aldebaran, sentado em volta do fogo, dedilhava o alaúde, cantando palavras incompreensíveis em sua língua natal.

– Sabe, Camus... – contou La Hire e deu uma mordida na ave, continuando com a boca cheia. – Sabe o que Raymond trouxe consigo? – perguntou e, diante da negativa do ruivo, sorriu. – O estandarte de St. Dennis!

O Duque D'Aquitaine arregalou os olhos. – Ótimo! Não perderemos portanto! Jamais!

Hyoga chegou correndo, vermelho e com a respiração entrecortada. – Mestre, preciso falar com o senhor!

– Esse menino ainda vai ter uma síncope correndo por aí desse jeito... – murmurou Aldebaran.

Camus e Hyoga saíram juntos e esgueiraram-se pelos corredores de pedra escura. – O que foi? – perguntou o mais velho, interessado.

– Fui dar uma volta há pouco e encontrei o Sr. Aiolia, escudeiro do Barão de Warwick... – começou Hyoga e à simples menção do título Camus titubeou. – Ele está aqui, está no acampamento. Vai lutar amanhã. Achei que o Sr. deveria saber, Mestre!

– Fez bem em me contar, Hyoga... Não saia daqui. – murmurou Camus. Saiu correndo e encontrou Auron, o arqueiro, com quem conseguiu uma folha de papel, pena e tinteiro. Voltou até o aprendiz com um bilhete. – Vá até o acampamento inglês e entregue isso a Milo, Hyoga. É um bilhete que pede para que nos encontremos em uma hora no carvalho da ala exterior setentrional de Tourelles. Vá! – ordenou e ficou observando até que o menino sumisse no horizonte. "Com o estandarte de St. Dennis e a presença da Pucelle, os ingleses não terão a menor chance!", pensou esfregando as mãos nervosamente.

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Hyoga adentrou o acampamento inglês esgueirando-se por entre as tendas. O início da noite ajudou-o a passar desapercebido. Procurou com olhos de lince, talvez de lobo siberiano, o símbolo que havia aprendido a reconhecer: o brasão da família de Beauchamps. Encontrou-o numa tenda um pouco distante das outras, que demonstrava claramente que havia sido montada por último. Parou à entrada da pequena estrutura de madeira e tecido, sem saber como cumprir sua missão.

Sentiu uma mão em seu ombro e seu coração pulou no peito. Assustado, pulou e caiu sentado no chão. – Aaaah, vingança! – exclamou Aiolia. – Finalmente consegui te assustar! Oh maluco, o que faz aqui?

– Meu Mestre pediu para entregar isso ao seu Mestre... – explicou Hyoga, estendendo o papel ao outro com a mão direita, enquanto com a esquerda esfregava as costas doloridas pelo pequeno tombo.

Aiolia, intrigado, observou o papel. – Vamos, venha comigo! – chamou e agarrou a mão do menino, puxando-o para dentro da tenda.

Milo estava deitado no chão, com a cabeça apoiada nos braços. Usava apenas a calça escura e as botas de couro, tendo tirado a camisa e a cota de metal da armadura. Arqueou uma sobrancelha com a presença inusitada. – Mas esse não é o escudeiro de Camus?

– Sim, Milo, Hyoga é o nome dele. – apresentou Aiolia. – Ele traz um recado. – concluiu, entregando-lhe o bilhete.

Milo observou o papel com admiração. – Não creio! ... – balbuciou. Levantou-se de um pulo, levantou os braços e repuxou os dedos, alongando-se completamente. – Mas quer saber? Hyoga, diga a seu Mestre que eu vou! – informou. Assim que Hyoga e Aiolia deixaram a tenda, pegou a espada longa que mais gostava, meteu-a na bainha, saiu, montou e trotou em disparada rumo ao ponto de encontro definido por Camus.

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Camus de Beauregard caminhava de um lado para o outro. A ponte desejada ao longe mostrava-se como o que realmente era: um pedaço de pedra que ligava os dois lados do rio, e nada mais. Suspirou. Mais uma vez não sabia porque estava fazendo aquilo, mas uma vez mais estava decidido. Vestia as calças pretas e justas que eram a veste que os homens usavam embaixo das armaduras, uma camisa azul puída de gola e mangas largas meio aberta no peito, e calçava botas de couro. Os cabelos ruivos e lisos balançavam ao vento, numa dança hipnótica de tons rubros que embeveceu ao recém chegado.

Milo desmontou. O velho carvalho era uma árvore muito alta, visível ao longe, marcante mesmo para quem havia passado tão pouco tempo em Tourelles. Desembainhou a espada e afundou-a na terra úmida. – Vou ter de usá-la? – perguntou ao francês.

– De forma alguma. Como vê, estou desarmado. – respondeu Camus. Sob a luz da lua a pele bronzeada do peito de Milo reluzia e ele instintivamente lembrou-se do sonho que tivera. Baixou os olhos. – Que bom que veio.

– O que você quer, francês? Não basta estarmos novamente prestes a nos enfrentar, você tem que tornar as coisas mais difíceis... – retrucou Warwick com raiva na voz. Aproximou-se de Camus, deixando a espada para trás.

O ruivo suspirou. – Não estou dificultando as coisas, estou tentando facilitá-las, Milo. Quero que fique quieto e ouça, somente ouça. Se quiser falar depois, discutir, brigar, sem problemas. Mas agora quero que me ouça! Você já ouviu falar no estandarte de St. Dennis?

O jovem Barão bufou. – Não, o que é isso?

– É o estandarte que pertenceu a St. Dennis, patrono da França. Quando os franceses carregam essa bandeira, Milo, não deixam o campo de batalha até que estejam mortos ou vitoriosos. Entendeu? Você precisa fugir, ir embora, e levar os seus daqui. Caso contrário, não sobreviverão para ver a lua novamente.

O loiro deu de ombros. – Vocês franceses e suas superstições idiotas. Quer me assustar com uma mulher guerreira e um pedaço de pano, Camus? Não seja idiota!

Aquitaine agitou-se e avançou em Milo. – O idiota aqui é você! Estou tentando te ajudar, será que não percebe? – gritou com faíscas nos olhos azuis. Empurrou Milo até que as costas deste se apoiassem no velho carvalho.

– Me larga, Camus! Estou mandando você me largar!

– Não largo até que você me responda uma pergunta: o que você quis dizer com dificultar as coisas? Eu achei que você ficaria feliz em saber que vamos nos enfrentar amanhã... – murmurou o francês aproximando-se de Milo e apoiando o queixo no ombro desnudo do loiro. – Você não jurou que me mataria com suas próprias mãos?

Milo sentiu a respiração de Camus em seu pescoço e suas pernas bambearam. Involuntariamente seus braços envolveram a cintura do homem à sua frente, trazendo-o para mais junto de si, num abraço morno. – Você sabe que não falei aquilo a sério... – respondeu num sussurro.

Abraçaram-se. Camus apertou o corpo de Milo contra o carvalho. Esfregaram-se. Respiravam com dificuldade, os corações aceleravam no peito. As faces avermelharam-se. Dedos se entremearam nos cabelos um do outro. Até que, por fim, separaram-se. E Milo virou-se de costas para Camus, montou em seu cavalo e sumiu por entre as árvores, desaparecendo na penumbra da noite. Sem dizer palavra. E o francês ficou só, parado, abraçado ao próprio corpo, inebriado com o cheiro que se impregnara em suas vestes. Tendo somente o silêncio como testemunha.

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Milo adentrou o acampamento num trote violento, ventando. Sem pedir licença invadiu a tenda de Afrodite, e não se surpreendeu ao ver Máscara da Morte massageando seus pés: estava simplesmente fora de si. Sentou-se no chão e apoiou a cabeça nas mãos, enfiando os dedos nos cabelos cacheados. – Você não imagina o que aconteceu!

– Não mesmo! – bufou Afrodite com enfado. Afastou as mãos de Máscara da Morte com um suspiro resignado. – Mas é claro que você vai me contar, não é?

– Camus de Beauregard participou da tomada de Tourelles! Eu fui ter com ele, não me pergunte como eu soube! Acredita que ele teve a audácia de me aconselhar a ir embora? Disse algo sobre um estandarte, o estandarte de St. Dennis... ah, faça-me o favor! – contou Milo, indignado.

O siciliano arregalou os olhos castanhos. – Estandarte de St. Dennis, você falou? Afrodite, temos de ir embora daqui!

– Eu sei! – tornou o Duque com firmeza na voz. – Milo, arrume suas coisas, vamos levantar acampamento. Eu vou ter com Talbot, é meu dever avisar-lhe do ocorrido.

– Mas o quê...? – balbuciou Warwick. – Eu não entendo...

Máscara da Morte tomou o braço do jovem Cavaleiro de Ouro. – Muitas coisas eu vi na vida, e nenhuma foi tão assustadora quanto uma batalha que presenciei, em que os franceses carregaram o estandarte de St. Dennis. Eles ficam fora de si. Se o estandarte está aqui, Milo de Beauchamps, amanhã os ingleses serão massacrados!

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O dia seguinte amanheceu com frio e névoa, embora o verão estivesse pouco a pouco se aproximando. Era a manhã do dia 02 de maio de 1429, e aquele seria um dia abençoado. Comandados por Jeanne la Pucelle, os franceses derrotaram os ingleses em mais um front, numa batalha que se estendeu durante toda a tarde. Pouco a pouco, os fortes que defendiam Orléans e que estavam em poder dos ingleses caíram: primeiro Tourelles, depois Saint-Loup.

Jeanne comandou quatro mil homens no ataque às linhas francesas, enquanto Jean de Dunois comandou a defesa da cidade e um ataque decisivo no flanco inimigo. Uma semana depois, no dia 09 de maio de 1429, os ingleses bateram em retirada e la Pucelle adentrou a cidade vitoriosa, sob uma chuva de flores, acompanhada de perto por seus capitães. Era o fim do cerco de Orléans. Era o início da reação francesa.

E Camus sorriu sob a chuva de pétalas, embora seu coração ainda pesasse pela dúvida da ausência.

Naquele anno domini de 1429, a liberdade advinha. E, para dois jovens, a liberdade era uma noite de luar sob o velho carvalho de Tourelles...

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La Pucelle: A Donzela, como Joana D'Arc ficou conhecia em seu tempo.

Trebuchets: espécie de catapulta francesa, uma estrutura enorme que lançava bolas de ferro a uma distância considerável, fazia um estrago e tanto. Para quem assistiu Cruzada com Orlando Bloom, é a arma de cerco que usam em Jerusalém.

Você quer uma resposta? É NÃO!

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A/N: Gente, capítulo longo e cheio de narração. E, pior, cheio de história, história, história... o cerco de Orléans foi mais ou menos isso aí mesmo. Lógico que narrei muuuuuuito superficialmente, senão ia ficar ainda mais chato do que já está!

Escrever com Joana D'Arc me dá medo, parece que estou eu cometendo uma heresia, mas enfim... é com admiração que o faço.

Puxei demais a sardinha pros franceses, né? Desculpa, é mais forte do que eu!

Eu sei que sou uma relapsa que não responde reviwes, peço mil desculpas por isso... ando tão desmotivada, pra dizer a verdade... embora eu ame de paixão escrever essa fic.

De qualquer forma, deixo aqui meu muitíssimo obrigada, beijos, abraços, enfim, gratidão eterna a:

Ilia Verseau: Menina, o bom de começar as coisas do fim é que todo mundo fica com a pulga atrás da orelha... mas muita água vai rolar, ainda! Obrigadaaa!

Gemini Kaoru: Conheceu Niram? Huuuum, será que você adivinhou mesmo? Rsrsrsr, acho que sim. Obrigadaaaa!

Clara: Bom, ta aqui o que diabos Camus veio fazer em Orléans. E quem é a moça abençoada... deu pra perceber, né? Obrigadaaaa!

Elizabeth Bathoury Black: menina, teu nick tem alguma coisa a ver com a rainha húngara lá? Obrigada pelos elogios, fiquei super feliz...Quanto a Niram, bem... sim, é um personagem importante e não é PO. Já é dica bastante, né? Obrigada mesmo por acompanhar!

Mi-chan: Nem vou dizer muita coisa, a não ser obrigada pelo apoio. Sempre!

Enfermeira-chan: Idem, nem vou falar muito... a não ser... eu sei que você demora pra comentar mas lê, rs. Obrigadaaaaa!

A todos os que lêem, façam uma escritora feliz e deixem uma review, pls!