Livro de Tawny Weber. Adaptado por JehSanti para o grupo Adattare. Todos os personagens são de Masashi Kishimoto.
Boa leitura!
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Capítulo Seis
– Saúde, amigo! – exclamou Sai, batendo o copo de cerveja de leve de encontro ao de Sasuke na festa de aposentadoria do Hokage. O tilintar do vidro se perdeu no mar de vozes bem moduladas, de música entediante de câmara e do ruído quase inaudível do ar-condicionado da mansão. – Deve ser dito, o velho tem estilo.
Sasuke deu de ombros. Havia crescido como rico o bastante para saber apreciar o fato de que, ao usarem copos ali na festa em vez da habitual e vulgar garrafa de cerveja, o sujeito do bufê incumbido de lavar a louça não ficava sem serviço e sem seu meio de sustento. Para além disso, no entanto, a opulência mais o confundia do que impressionava. E de que adiantava? Os ricos se preocupavam mais em ostentar sua fortuna do que os caras fortes em ostentar os seus... Músculos.
Nem sonharia em dizer isso a Sai, naturalmente. Em comparação aos Uchihas, a família dele, o Hokage Haruno não vivia num lugar muito melhor que o distrito onde Sasuke crescera.
– O que acha que ele vai fazer agora que está aposentado? – perguntou Sai num tom corriqueiro, enquanto olhava ao redor, observando a multidão de convidados. – Colocar uma daquelas camisas floridas e ficar cuidando do jardim?
– Espero que alguém tire fotos. – Sasuke riu. Depois de mais um gole de cerveja, deu de ombros. – Ele mencionou que vai dar consultoria em Sunagakure e talvez iniciar alguns programas aqui na base ANBU.
Ali estava algo excelente em Sai. Não se importava com o fato do Hokage e Sasuke terem uma relação um pouco mais próxima. Por outro lado, o tio de Sai era comandante da ANBU Raíz e o pai possuía metade do norte de Konoha, o que lhe assegurava seus próprios contatos influentes.
– Para que se aposentar, então? – indagou ele. – A aposentadoria foi feita para uma pessoa relaxar, certo? Não é como estar de licença remunerada diariamente?
Sasuke fez uma careta. Aquilo era relaxar demais a seu modo de ver. Como aquela festa. Esse tipo de evento não era do seu feitio. Olhou ao redor, à procura de um garçom e outro copo de cerveja.
Ao contrário dos pobres civis que se viram obrigados a usar quimonos, ele e Sai, juntamente com outros shinobis, tiveram permissão para usar os uniformes brancos de gala. Não eram como o uniforme de missão, mas semelhantes o bastante para fazê-lo sentir-se confortável.
– Senhor. – O garçom fez uma ligeira mesura enquanto trocou o copo vazio dele por um repleto de cerveja gelada.
Sasuke moveu os ombros contra o tecido folgado do uniforme. Ao menos, costumara se sentir confortável antes. Pela primeira vez, era como se a vestimenta não lhe caísse bem.
– O que está havendo? – perguntou Sai, trocando o próprio copo. – Você está inquieto como nunca desde que chegamos.
– Quero apenas ir embora assim que possível. Este tipo de festa não faz o meu estilo.
– Amigo, você tem que festejar onde houver música tocando. – O sorriso de Sai desapareceu tão logo as palavras saíram da sua boca. Essa havia sido a frase favorita de Naruto.
Sasuke olhou para o próprio copo de cerveja. Haviam sido treinados para isso. Haviam embarcado em toda e qualquer missão cientes de que havia não apenas a possibilidade, mas a probabilidade, de que, cedo ou tarde, um deles não voltasse. Então, qual a razão do drama emocional? Por que não diminuía, passava?
– Sasuke, Sai, fico contente que tenham vindo. – declarou o Hokage num tom alto, social e caloroso. Em contraste à voz autoritária e seca que costumava usar para vociferar ordens. Não havia muita diferença, na verdade, a não ser pelo sorriso largo no rosto.
– Parabéns por sua aposentadoria, senhor. – disse Sai. – Konoha não será a mesma sem o senhor.
Ele, de fato, tinha traquejo social, e o Hokage se deixou convencer.
– Dei o melhor de mim para deixar uma marca forte. – declarou ele antes de dirigir a Sasuke um olhar indulgente que o deixou com a pulga atrás da orelha. – E gosto de pensar que estou deixando para trás um legado. Que a minha influência continuará, se entendem o que quero dizer.
– A marca de um grande líder é o impacto que deixa em suas tropas. – concordou Sai.
Sasuke não teve que olhá-lo para saber que, sob aquele tom condescendente, o amigo estava rindo consigo mesmo.
– E, falando em legados – prosseguiu o Hokage, voltando a adquirir aquele sorriso social –, Uchiha, há alguém que quero lhe apresentar.
– Senhor? – Droga. Ele não queria conhecer ninguém.
– Minha filha. Uma jovem adorável. Articulada, brilhante e ocupando um excelente cargo. É descomprometida, tem um sólido portfólio e, sendo minha filha, é bem versada nos requisitos necessários para apoiar o lar de um militar.
Era evidente que Kizashi não estava acostumado a bancar o cupido. E Sasuke desejou fervorosamente que não estivesse fazendo isso no momento. Não era obtuso. Sabia o jogo que o Hokage estava fazendo. O velho gostava da história dele. Clã Uchiha, linguista, shinobi condecorado que havia triunfado depois de uma infância ruim. A palavra "genro" estava praticamente escrita na sua testa.
O único detalhe era que não tinha a menor intenção de se casar.
– Lamento, senhor – disse logo –, será ótimo conhecer sua filha, mas não vou convidá-la para sair. Estou saindo com outra pessoa.
Foi somente quando viu o choque no rosto de seu superior que Sasuke se deu conta de que era a primeira vez que dizia não. Retesou os ombros automaticamente. Não era como se tivesse recusado uma ordem, disse a si mesmo. Tudo o que fez foi contornar a honra duvidosa de concordar com um encontro às cegas com a filha do Hokage.
– Kizashi, querido – falou a sra. Haruno, dirigindo um sorriso de desculpas a Sasuke antes de ignorá-lo com um aceno de cabeça. – É a hora do brinde.
– Excelente. – O Hokage arqueou as sobrancelhas liláses para Sasuke. – Você vai esperar, é claro. Eu gostaria de terminar esta conversa.
O hábito quase levou Sasuke a fazer uma continência.
– Sou um ninja, não um capacho. – resmungou irritado por entre dentes tão logo o Hokage se afastou o bastante para não ouvi-lo.
– E qual é o problema? Você pode conhecer a filha dele, bancar o gentil e, em seguida, voltar para o seu ninho de paixão com aquela rosada sexy outra vez.
Sasuke franziu as sobrancelhas.
– O quê? Não acha que consegui deduzir por que você está com esse ar desejoso a noite inteira? – Sai deu risada. – A verdade está praticamente estampada na sua cara. Fico surpreso que esteja conseguindo tomar a cerveja com um anzol tão fincado na sua boca.
Seria tão inútil negar quanto tentar alimentar um chacal para salvar a pele. Além do mais, pensou Sasuke com grande desconforto, nem sequer sabia se não havia sido mesmo "fisgado" de certa forma.
Foi poupado de ter que pensar numa resposta adequada graças ao som alegre de um sininho.
Foi a primeira vez que se sentia grato pela iminência de um discurso. Sua gratidão durou cerca de cinco minutos.
– Odeio política. – falou por entre dentes. – Se você quer chegar a algum lugar, conseguir com que alguma coisa seja feita, tem de fazer o jogo. – Sai deu de ombros como se isso não tivesse importância. Mas torceu os lábios, uma indicação amarga de que também achava o jogo lastimável.
Sasuke ignorou as aclamações monótonas ao microfone e deixou que os pensamentos voltassem a girar em torno de Sakura. Tão logo esse brinde tivesse terminado, a despeito de quem o Hokage quisesse que conhecesse, iria embora dali. Queria vê-la. Conversar com ela. Provar-lhe o gosto doce dos lábios e da pele mais uma vez, tocá-la, tê-la em seus braços por inteiro.
Não era de surpreender, uma vez que não conseguira tirá-la dos pensamentos. Exceto a parte em relação a querer conversar. E isso era provavelmente de causar choque, não apenas surpresa.
Todavia, por mais que as coisas tivessem sido escaldantes entre ambos, sabia que ela não ficaria mais satisfeita com apenas sexo por muito mais tempo. Já arriscara algumas perguntas, dando a entender que queria conhecê-lo melhor. Lembrava da irritação nos olhos dela naquela manhã. Era evidente que esperava mais. E, se ele a queria, teria de oferecer mais.
Mudou o peso do corpo de um pé para o outro, inquieto, com a sensação de que o haori o aprisionava de repente. Falar sobre seu passado não era, nem nunca fora problema. Mas, naquelas circunstâncias, contar sobre o que fazia? Precisaria de uma grande dose de charme para conseguir fazê-la se despir outra vez depois que revelasse que não apenas era um shinobi, mas um ANBU.
Mas ao menos tinha a certeza de que já omitira a verdade por tempo demais. Não conseguia mais prosseguir desse jeito.
– Bem, e agora... – murmurou Sai com um sorriso malicioso. Sasuke acompanhou-lhe o olhar. Reconheceu o homem primeiro. Cabelo loiro avermelhado, num corte moderno, um haori com lapelas prateadas, indicando que era customizado e um anel de rubi no dedo mínimo que faiscou quando ele acenou amistosamente para a multidão.
Hideki? O que estava fazendo ali? Trabalharia com eventos e estava ali com parte do entretenimento? Sasuke perguntou-se o que teria deixado de notar naquele primeiro dia na praia quando ficara embasbacado por Sakura.
Observou enquanto o homem loiro se virava para ajudar alguém a subir até o pequeno palanque. Seus dedos se fecharam em torno de mãos delicadas. Ficou claro que precisou dar um puxão em quem quer que estivesse do outro lado para que a pessoa se movesse. Apesar de intrigado, Sasuke não pôde deixar de sorrir, intimamente divertido. Havia alguém ali que não gostava das luzes dos holofotes.
Então, enquanto as pessoas aguardavam, ele, enfim, viu quem Hideki estava tentado fazer subir no palanque ao fundo da sala.
O cabelo dela era de um tom rosa claro e cascateava livremente na forma de cachos soltos por sobre um ombro nu, onde se via a tatuagem de uma rosa. Uma elegante yukata longa vermelha realçava-lhe as curvas esculturais do corpo de estatura mediana. O tecido dava a ilusão de que o modelo da vestimenta era solto, mas a envolvia de uma maneira que atraiu os olhos dele para os contornos tentadores dos seios arredondados e da cintura fina.
Seios que o haviam deliciado ainda naquele dia pela manhã. Uma cintura que segurara inúmeras vezes para puxá-la para si e estreitá-la no calor dos seus braços, observando-lhe o ritmo maravilhoso de vaivém do corpo ao longo de sua ereção.
Sakura. A sua sexy tentação. Desviou os olhos dela para o homenageado da noite, subitamente notando a semelhança no formato do rosto, no arco das sobrancelhas.
O arrepio na nuca que costumava se manifestar como um sinal de alerta fez com que os pelos ficassem eriçados.
Sakura era a filha do Hokage? Droga.
Ficando subitamente no centro de todos os olhares, Sakura manteve a expressão neutra e os ombros retos. Odiava essas coisas. Sua mãe era tão inclinada a sociabilizar quanto seu pai era mandão, o que significava que tivera de comparecer a vários eventos sociais por ano.
Uma vez que Haruno Mebuki nascera em berço de ouro, sempre frequentara as altas rodas, organizando ou comparecendo a eventos dos mais entediantes. O único lado bom havia sido que, exceto por garantir que os filhos comparecessem e se comportassem adequadamente, o Hokage e a esposa sempre tinham vivido ocupados demais para fazer alguma coisa exceto ignorá-los a noite inteira.
Em se tratando dos pais, se acostumara a achar que era melhor ser ignorado. Mas havia esquecido como tudo isso era enfadonho.
– Esconda o tédio. – sussurrou Hideki. Graças às sandálias dela, o irmão teve apenas que se inclinar de leve em sua direção, de modo que seu comentário não foi notado por ninguém mais. O que foi providencial, pois a mãe de ambos fazia questão de seguir o protocolo, as normas da etiqueta impecável.
– Estou morrendo de tédio. – sussurrou Sakura de volta, com os lábios mal se movendo por trás do sorriso congelado.
Na verdade, o que mais a dominava era expectativa. Lançou um olhar ao relógio de pé ornamentado num canto à esquerda do pequeno palanque montado na imensa sala de estar dos pais e suspirou discretamente. Faltava apenas uma hora para a meia-noite. Isso se traduziria em alguns discursos entediantes, mais aclamações ostentosas ao brilhantismo do seu pai e a habitual resposta pomposa dele para encerrar as celebrações, qualquer que fosse dessa vez. Então, ela estaria livre.
Para voltar para o seu apartamento e esperar Sasuke. Havia ficado tão agitada depois que ele saíra pela manhã que resolvera, enfim, abrir as suas caixas de mudança. Admitia que abrira a primeira à procura do seu babydoll favorito, uma peça sensual de renda preta e cetim vermelho. Mas, depois de algumas horas, havia transformado o quarto quase vazio e impessoal num oásis confortável. Um oásis que ficaria feliz em partilhar durante mais dois dias de êxtase sexual.
A imagem de Sasuke surgiu em sua mente, os olhos pretos intensos, o corpo esplêndido acima do dela. Tão incrível...
Tornou a suspirar, mas, dessa vez, uma onda suave de calor sensual envolveu-a como sempre acontecia quando pensava em ambos juntos, no prazer absoluto que encontravam um nos braços do outro.
Mal podia esperar para tocá-lo outra vez. Para sentir o corpo dele fazendo parte do seu, ambos ondulando na mesma cadência erótica, febril. Para desfrutar o deleite de seus beijos ardorosos. Mas primeiro, antes de se permitir tudo isso, os dois se sentariam para uma conversa.
Embora as coisas fossem maravilhosas entre eles, não faria mais sexo com um estranho. Àquela altura, conhecia o corpo de Sasuke tão bem quanto o seu próprio, mas não sabia de mais nada a seu respeito. Fatos eram fatos. Em termos emocionais, ele lhe era um completo desconhecido.
– Por que o dr. Perolado não está aqui para distrair você?
Uma enxurrada de culpa, profunda e cortante, atravessou a névoa sexual em que Sakura estivera pairando. Não tinha motivos para se sentir mal. Não havia compromisso algum entre ela e Tokuma, nem concreto, nem tampouco implícito. Era tolice sentir culpa. Apenas porque passara as duas noites anteriores praticamente numa maratona sexual com o homem mais passional e incrível que já conhecera em vez de telefonar para aquele que queria torná-la sua amada?
Contraiu o rosto. Não. Não havia razão para culpa. A cotovelada leve e quase imperceptível de Hideki lembrou-a de que aguardava uma resposta. Como não se encontrava exatamente no momento propício para falar sobre sua confusão emocional, Sakura deu de ombros e recorreu ao senso de humor.
– Está brincando? Trazer um acompanhante para um evento de família? – sussurrou em zombeteiro horror. – Isso jamais é uma boa ideia.
– Mas ajudaria você a decidir se quer ter um relacionamento com ele ou não. – apontou o irmão. – Que outro jeito melhor de ver como o sujeito é de verdade do que fazê-lo enfrentar o nosso velho? Caso se intimide, você verá que é um fraco. Se fizer logo amizade, é um panaca.
Ela deu de ombros. O único parâmetro que queria em relação a seu pai era o de que o homem com quem se envolvesse não fosse em nada parecido com aquele que a gerara. Exceto por isso, não se importava nem um pouco com seu comportamento diante do Hokage.
Estava prestes a pedir ao irmão que lhe desse cobertura, tão logo o brinde terminasse, a fim de poder ir embora, quando notou o gélido ar de reprovação no olhar da mãe. Cutucou Hideki sutilmente, que endireitou os ombros de imediato, e ambos dirigiram os sorrisos falsos até o centro do palanque. O pai começou o discurso.
Sakura resolveu não pensar em mais nada por ora e sentiu parte da tensão se dissipar. Concentrou-se nas palavras, ouvindo o pai agradecer a uma lista de dignitários, oficiais e amigos políticos por seu apoio durante a carreira dele ao longo das quatro décadas anteriores.
Inclinou-se na direção de Hideki.
– Acha que vai nos incluir? – sussurrou.
– Não – murmurou o irmão de volta. – A única maneira de sermos citados num discurso será se ele falar sobre as lutas e desafios que teve de enfrentar.
– Tão logo isto acabar, irei embora.
– Não tão depressa. Lembre que fazemos parte da fila de recebimento dos cumprimentos. Terá de esperar e sorrir até que todos tenham feito sua veneração, ou seja, cumprimentado o nosso pai. Além do mais, acho que deve mesmo ficar – acrescentou Hideki com um sorriso maroto. – Aposto que isso deixará a sua noite ainda melhor.
– Tenho certeza de que ficará.
Tão logo saísse dali e pudesse ver Sasuke. Olhou sorrateiramente para o relógio de pé, vendo que já eram onze e meia.
Por que o pai não poderia ter feito um brinde derradeiro a toda sua glória passada num horário mais razoável, em vez de prolongar a festa ao máximo e obrigar todos a ficar ali até tão tarde? Ela olhou ao redor. Os convidados eram idosos, na maioria. Era provável que quisessem leite morno e a cama em vez de um discurso tedioso e champanhe.
Observando a multidão, seu olhar passou rapidamente por um rosto em particular. Então, um alerta disparou em sua mente e seu olhar voltou tão depressa na mesma direção que ela deve ter perdido alguns cílios.
Sasuke? Com a testa franzida, sacudiu a cabeça em negação. O que ele estava fazendo ali? Então, seu foco aumentou. Uma onda de horror a dominou, gelando-a por inteiro. Não!
Seu olhar se alternou abruptamente entre o haori e as medalhas que faiscavam no peito dele e, então, observou-lhe o rosto e os homens à sua volta. Shinobis.
O grupo de elite de Konoha. O homem que a enlouquecera de prazer, que a fizera até acalentar pensamentos sobre permanência e ansiar por um relacionamento, que a levara a querer brincar de casinha – nua – era a única coisa proibida a seu ver para ter um envolvimento com alguém. Ele era um ninja... Um ninja de elite que, até então, estivera sob o comando do pai dela.
Como era possível que não tivesse enxergado os sinais? Por que Sasuke não lhe contara? E quando, afinal, esses discursos terminariam para que pudesse sair correndo dali?
Sasuke acompanhou cada expressão que passou pelo rosto de Sakura. Choque. Depois, incredulidade. E logo fúria. Então, adquiriu um ar frio e distante, neutro, como se tivesse se fechado em si mesma.
Droga. Por mais que quisesse evitar quaisquer ideias casamenteiras do Hokage em relação à filha e a ele, estava igualmente determinado a continuar desfrutando a paixão avassaladora que só encontrava nos braços de Sakura.
Depressa!, pensou, olhando na direção do Hokage, que ia prolongando o discurso. Quanto mais tempo Sakura tivesse para mergulhar em sua evidente mágoa, mais difícil seria convencê-la a lhe dar ouvidos.
Enfim, o oficial agora aposentado ergueu sua taça de champanhe num último agradecimento. Sasuke acompanhou distraidamente o restante dos convidados, também erguendo a sua. Mas seus olhos não deixaram Sakura. O que foi bom, pois logo a multidão começou a se mover, ela desapareceu no meio das pessoas. Era evidente que o fato de ter crescido sob a influência militar lhe ensinara uma coisa ou duas.
Por sua vez, Sasuke tinha um longo treinamento a seu favor. Notou a direção que ela tomou e, contornando a multidão pela lateral, interceptou-a antes que chegasse à principal saída.
Pousou a mão em seu ombro com apenas pressão o bastante para não deixá-la escapar. Sakura soltou um som sibilante por entre dentes que se assemelhou ao ruído de água fria sendo atirada em labaredas.
Sasuke afastou a mão.
– Surpresa. – disse num tom comedido, lembrando subitamente que estavam cercados pela família dela e os seus próprios superiores. E não precisava que ninguém soubesse de detalhes sobre o relacionamento de ambos. – Eu não fazia ideia de que você era filha do Hokage.
– E eu não fazia ideia de que importava a você quem era o meu pai. – A frieza na voz dela espelhou a do olhar. Ele jamais teria imaginado que uma mulher tão ardente pudesse se mostrar tão gélida.
– E não importa. – declarou, saltando fora da armadilha. Em alerta, sabendo que havia mais por vir, escolheu as palavras com cuidado. – Não me dei conta de que tínhamos interesses em comum.
Sakura lhe lançou um olhar especulativo que o fez desejar estar com equipamento de combate.
– Eu também não. Essa é uma daquelas coisas que geralmente surge durante uma conversa. Outra coisa que nunca tivemos.
Sasuke se moveu para tornar a lhe bloquear a saída.
– Aonde você vai?
– Estou indo embora.
Sasuke já nadara em plenas águas gélidas de Ame uma vez e jurava que não estivera tão gelado quanto o tom dela. Arqueando as sobrancelhas, fez um gesto na direção das portas-janelas abertas que havia à esquerda de ambos.
– Por que não vamos por ali? – sugeriu. – Podemos conversar.
– Não. – Com os lábios tão apertados que estavam brancos, ela respirou fundo e, então, soltou o ar devagar. – Não, obrigada. Prefiro não sair para o pátio. Prefiro não conversar. Quero ir para casa.
– Vou com você.
– Prefiro ir sozinha.
Antes que Sasuke pudesse argumentar, foram interrompidos.
– Uchiha. – O Hokage saudou-o com o sorriso mais largo que Sasuke já vira estampado em seu rosto. A taça de champanhe vazia que segurava podia explicar parte da euforia, mas o fato de estar aposentado também devia contribuir.
– Senhor. – Ele colocou-se um pouco de lado para que o Hokage pudesse conversar com a filha. Mas, em vez de palavras, o sorriso de Kizashi diminuiu e tudo que dirigiu à filha foi um meneio de cabeça.
Então, provando que uma dúzia ou mais de brindes não haviam afetado sua percepção, alternou o olhar entre ambos.
– Vocês já se conhecem?
Sasuke aguardou que Sakura respondesse.
– Trocamos um olá na cachoeira há alguns dias. – respondeu ela, enfim, ao pai.
– E então?
– E então, nada. – disse Sakura num tom tão seco quanto a fisionomia.
Sasuke não compreendeu a razão da evidente tensão entre pai e filha. Sakura era, sem dúvida, a mulher mais inteligente que já conhecera. Além disso, era dona de uma vivacidade incrível, de pura energia. E com suas madeixas vibrantes, rosto expressivo e entusiasmo, ela resplandecia.
Até agora. Seu lado vivaz continuava intacto. O cabelo era o mesmo, e os expressivos olhos verdes também. O sorriso, emoldurado por lábios cheios pintados de rosa-claro, não se modificou. Mas era como se alguém ativesse apertado um botão e a desativado. E isso era a última coisa que devia acontecer a uma mulher daquelas.
Mesmo furiosa com ele, ela ainda soltava poucas faíscas. Como uma mulher geniosa que aprendera a controlar seu temperamento. Mas agora? Sasuke alternou um olhar entre ela e o Hokage. O que, afinal, estava acontecendo entre os dois?
– Falei a você para ficar pelo menos durante uma hora após as celebrações para cumprir alguns deveres sociais específicos que solicitei – disse Kizashi à filha, alternando o olhar entre seu rosto e sua bolsa, que ela segurava com tanta força de encontro a si que os nós dos dedos estavam esbranquiçados.
– E eu falei que viria comemorar a sua aposentadoria, como a minha mãe pediu. E que eu teria que ir embora tão logo o evento tivesse terminado.
Sasuke começava a ter a impressão de que aquele não era um relacionamento amoroso entre pai e filha.
– Eu lhe dei uma ordem, mocinha. Espero que seja obedecida. – O Hokage fez um gesto para Sasuke. – Felizmente, vocês dois já quebraram o gelo. O tenente Uchiha é um dos meus protegidos. Gostaria que vocês passassem algum tempo juntos para se conhecerem melhor.
E ali estava a óbvia tensão, pensou Sasuke, ainda perplexo. Deu um passo à frente, colocando-se sorrateiramente entre pai e filha. Antes de poder abrandar a situação, Sakura abriu um sorriso glacial e sacudiu a cabeça.
– Lamento. Já passamos tempo o bastante juntos, nos conhecendo melhor, e descobrimos que somos incompatíveis. Agora, se me derem licença...
O sorriso frio englobou a ambos antes que ela girasse nos calcanhares e se afastasse.
Deixou logo a sala. Era difícil dizer quem estava mais chocado. Sasuke, ou o pai dela. Kizashi ficou com o ar de quem não tinha tanto charme quanto acreditava.
– Com licença – disse ele num tom tenso antes de ir atrás da filha. Sasuke achou mais sensato permanecer onde estava. Nenhum dos dois acharia a sua presença bem-vinda àquela altura.
Mas não a deixaria ir. Sasuke olhou ao redor atentamente. Pronto. Adiantou-se pela grande sala de estar até um pequeno grupo de pessoas.
– Desculpe – disse sem se importar com o protocolo, ou com boas maneiras até então. – Hideki, preciso conversar com você.
O irmão de Sakura arregalou os olhos ao se dar conta de quem Sasuke era. Olhou-o de alto a baixo, notando o uniforme e, então, sacudiu a cabeça devagar.
– Sim, precisamos conversar. - Ele desculpou-se jovialmente com o casal em sua companhia e, então, fez um gesto na direção das portas-janelas que davam para o pátio da mansão. O mesmo lugar aonde Sakura se recusara a ir para conversarem. Pelo menos, um dos irmãos Haruno estava disposto a ouvi-lo.
– Eu não sabia que você era da ANBU. – disse Hideki tão logo passaram pelas portas-janelas. Com um aceno elegante, indicou que se sentassem no balanço largo.
– Faz diferença? – perguntou Sasuke, sem querer sentar, porque via aquilo mais como um interrogatório do que um bate-papo amistoso.
Recostando-se confortavelmente no encosto de madeira do balanço, com um pé dobrado sobre o joelho, Hideki pareceu não se importar.
– Para mim, não.
– Mas faz diferença para Sakura – deduziu Sasuke. – Por que ela não disse nada logo de início?
– Bem, vocês não tiveram exatamente uma conversa aprofundada lá na cachoeira. – Hideki estudou-o atentamente, arqueou as sobrancelhas e, então, acrescentou: – A não ser que vocês tenham tido um pequeno tetê-à-tête depois daquele primeiro encontro... Foi isso?
Ninjas de elite não se deixavam dobrar tão facilmente. E obviamente, uma negação ou confirmação não se fez necessária. Hideki tirou prontamente as suas próprias conclusões.
– Oh, isso é interessante. Onde vocês se encontraram outra vez? E acabaram se... Entendendo? Pelo visto, sim. Não foi à toa que ela esteve com aquele olhar sonhador a noite inteira. Deve ser por isso, então, que não quis trazer o dr. Perolado à festa.
– Quem?
– Apenas um cara. – Hideki sacudiu a mão no ar, descartando o assunto. – Não tem a menor importância. O que importa é saber dos detalhes. Quando vocês ficaram juntos? Onde estiveram e quais são as suas intenções? Essas são as perguntas que precisam de resposta.
– Que cara? – persistiu Sasuke, mudando o peso do corpo de um pé para o outro de modo que adquiriu uma posição um tanto intimidante. – Qual é o tipo de relacionamento dele com Sakura? Estão envolvidos? É alguém de quem ela gosta de uma maneira especial?
– Se fosse o caso, ele estaria aqui. - Por sua vez, ponderou Sasuke, estava ali, mas não com Sakura. Havia uma mensagem em alguma parte daquilo.
– Por que ela não gosta de shinobis?
– Bem, você conheceu nosso pai. – Pela primeira vez, a fachada descontraída de Hideki desmoronou, mostrando uma camada de dor e amargura abaixo. Sasuke vira essa mesma expressão nos olhos de Sakura no bar, quando falara sobre militares. Parecia que o Hokage não era um dos pais mais legais do mundo.
– Desculpe. – Hideki recobrou o habitual charme e levantou-se. – De verdade. Acho que você seria bom para Sakura.
– Então, por que está pedindo desculpas?
– Porque ela não vai falar mais com você. Lamento – repetiu Hideki. Mas Sasuke não aceitava aquilo. E o que não aceitava mudava. – Ouça, você é um ótimo sujeito – explicou Hideki. – E Sakura merece alguém assim, sem dúvida. Mas ela jamais vai ter um relacionamento com um ninja. – Hesitou, como se estivesse preocupado com a reação de Sasuke. – Lamento.
Sasuke sentou-se no balanço, observando o outro homem afastar-se. Até três semanas antes, havia adorado seu trabalho. Treinara para o que fazia, abraçava e vivia para isso. Nunca questionara o fato de ser um shinobi. Nem nunca quisera outra coisa.
Mas no espaço de duas semanas, o mesmo trabalho que adorava, com o qual se identificava, havia lhe tirado duas coisas das quais não quisera desistir.
Seu amigo. E a mulher mais fascinante que já conhecera. Não podia fazer absolutamente nada em relação a Naruto. Mas a Sakura, sim. Tudo de que precisava era um plano, uma pequena estratégia e um meio de atraí-la de novo. Ele a teria de volta.
Oh, teria, sim.
CONTINUA
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Olá galerinha! O que posso fazer pra agradecer os comentários de vocês? Sério, vocês são incríveis! Muito obrigada mesmo!
Eu queria ter postado esse capítulo antes, mas eu estava muito ocupada atualizando outras fics que essa acabou ficando por último, por ser mais fácil de escrever.
Espero que tenham gostado e continuem comentando com a mesma vivacidade! Só isso pra não me fazer desistir daqui!
O próximo capítulo deve vir na primeira semana de março, aguardem!
Beijos!
#JehSanti
