WONDERFUL LIFE

Cap. 6 - Solidão

Yuu dá espaço para que o loiro entre no apartamento, fechando a porta atrás de si, preparando-se para a explosão de ressentimento que virá, pois Uruha nada dissera no carro desde que saíram do estúdio. Ficara em silêncio durante toda a briga, querendo conversar com ele sobre isso em particular, mas Ruki precipitara tudo e a situação se tornara complicada. No máximo conseguiu segurá-lo, temendo que aquilo ficasse pior, e agora é sua vez de 'apanhar'.

- Você também ficou do lado dele, não é? – Kouyou diz de chofre, voltando-se mais depressa do que esperava. – Acha que eu não tenho razão pra ficar assim.

- Espera... Não é bem assim! – Shiroyama quer que ele entenda que o ama demais para vê-lo assim, se autodestruindo, mas... Como colocar isso em palavras que ele não entenderá de outra forma? - Eu só... Você tem que admitir que...

- Eu esperei que você me apoiasse... Que me defendesse... Mas... Ficou ali calado... – Nos olhos chocolate há todo o brilho da mágoa. – A única coisa da qual você foi capaz... Foi me segurar... Você me impediu de tirar a limpo as ofensas daquele... Daquele... Nanico!

- E você acha que o grupo continuaria a existir se os dois saíssem no tapa? – Essa é uma realidade que talvez seja impossível de evitar depois de tudo que aconteceu.

- O grupo... É só com isso que você se importa? – Uma dor profunda se apossa de seu coração, questionando se Yuu o ama de verdade.

- Eu não disse isso! – Shiroyama tenta se aproximar, tocá-lo a fim de mostrar como está trêmulo diante da possibilidade de perdê-lo, mas sente quando este se esquiva. – Eu sei que você ama o grupo e... Depois que... A mágoa passar...

- Não é apenas mágoa! Eu não mereço o que estão fazendo comigo. E vocês não se importam. – Sente-se abandonado pela pessoa que mais amou nessa vida. – VOCÊ não se importa! Não sou ninguém mesmo... Um lixo inútil...

- Para de falar assim! Se você não bebesse tanto... Entenderia que... – Nunca o viu assim e se sente perdido, sem saber o que dizer ou como agir.

- Chega! Já entendi tudo o que precisava. – Caminha até a mesinha da sala e pega a chave de sua moto que deixou lá na noite anterior, pois foi cego o bastante para achar que Aoi o amava o suficiente para querer passar o natal com ele. – Não vou mais ser o namorado bêbado e inconveniente que te incomoda.

Sai sem dar qualquer chance do outro responder, a voz presa na garganta de Aoi, paralisado pelas palavras duras e sem sentido de Uruha, motivadas por uma decepção nítida nos olhos que antes eram apenas amor. Sabe que o loiro esperava mais dele, mas... Não pode mais vê-lo se destruindo assim. O que deve fazer? Corre atrás dele, porém é tarde demais, divisando apenas a moto se afastando apressada no dia gelado, a sua respiração ofegante e triste se condensando e virando fumaça... Assim como tudo que ele e Kouyou viveram juntos nos últimos tempos.

Os olhos chocolate observam o prédio antigo do lado de fora, sem coragem de entrar e procurar Aoi. Teme vê-lo feliz com outra pessoa, mas ao mesmo tempo pensa que encontrar o amor da sua vida muito mal... Talvez seja bem pior.

- Não vamos entrar? – Angel sabe muito bem os sentimentos conflitantes que povoam a mente do guitarrista, mas esta é sua função... Precisa mostrar a ele a realidade do mundo sem Kouyou Takashima. – Ele está em casa... Isso eu sei.

- Mas e se... – Como justificar para qualquer pessoa esse medo que o assombra, seus olhos percorrendo a fachada decadente e a vizinhança pouco amigável. – Não sei se estou preparado para vê-lo. Nos separamos de forma tão... Nem sei se ele me ama mesmo.

- Mas estamos aqui para ver como ele estaria se nunca tivesse te conhecido. – O anjo trêmulo de frio se coloca diante dele, encarando o rosto bonito. – Portanto não vai haver qualquer hostilidade... Ele nunca te viu... Nunca namoraram...

- E o que você sabe dele? – Deseja muito alguma informação para poder se preparar.

- Quer mesmo saber por mim? – Não sabe por que, mas também não gostaria de encarar essa última parte da missão.

- Quero... – Finalmente passa a encarar o rapazinho que está a sua frente. – Ele está com alguém?

Angel hesita em falar, pois a realidade é pior do que Uruha imagina, sua falta talvez tendo sido sentida com muito mais intensidade por ele. O cara tímido e solitário, que mudou por causa do loiro, que abriu a guarda para alguém e deixou de ser tão cauteloso uma vez na vida.

- Ele chegou a montar a banda com o Yune, como você já sabe... Mas quando ela terminou o Aoi acabou desistindo do mundo da música. Não conheceu você e os outros membros da banda... – Tenta não falar tudo de uma vez, sentindo como cada palavra tem um efeito negativo em Takashima. - Foi o fim pra ele, pois sempre precisou de alguém que o incentivasse a correr atrás das coisas que desejava.

- Mas no início mal nos falávamos... Ele tinha vergonha de mim. –Lembra-se do garoto estranho de cabelo loiro, que vestia aquele suéter vermelho com o desenho de uma rena, e que tinha um emprego de meio período... Na verdade o único deles que tinha uma fonte de renda e vivia pagando comida para os amigos. – Mesmo com o tempo ele se sentia intimidado comigo por alguma razão... E eu acabei me mantendo meio distante, até... O dia em que o beijei no show. Foi um impulso e... Sofri muito com a reação negativa dele. Mas com o tempo criou coragem de se aproximar e me disse o que sentia.

- Mas pense... No início da banda vocês todos não tinham nada, mas eram uma família. Uns cuidavam dos outros. Você o intimou a tocar de verdade nos shows, o forçou a encarar essa carreira com seriedade. – Teme tudo que tem a dizer, então começa a pesar o que é melhor para Takashima ver pessoalmente. – Sem vocês... Quando a banda acabou Yuu se viu sozinho em Tóquio... Um cara do interior, extremamente tímido. O emprego de meio período numa loja de conveniência se tornou definitivo... E por lá ficou.

- Ele... Largou a música de vez? – Volta novamente a vislumbrar o prédio, alguns curiosos surgindo nas janelas, preocupados com o loiro suspeito observando tudo. - Mas ele aprendeu com o irmão... Sem técnica nem nada... Apenas amava tocar! Sua música vinha do coração, por isso sempre incentivei que tocasse os solos principais. Eu... Que... O incentivava...

A realidade caindo impiedosamente sobre seu íntimo, um nó se forma em sua garganta, a respiração pesada ao perceber o seu verdadeiro papel sobre a vida de Yuu.

- Sim! Entendeu agora. – O aprendiz de anjo se sente triste com o destino do guitarrista moreno, sabendo o quanto isso vai atingir Kouyou. – Ele até pensou em voltar a tocar. Economizou por um bom tempo, comprou uma boa guitarra e um amplificador, mas... Nem sempre as coisas correm como planejamos.

Uruha se move inquieto indo na direção da porta do prédio, saindo da noite fria para a escuridão do hall de entrada. Precisa ver por si mesmo como ele está, o que aconteceu com o seu Yuu que provocou uma expressão tão pesada do anjinho. Aproxima-se do elevador, mas fica frustrado ao ver que está quebrado, subindo depressa as escadas para chegar ao sétimo andar, onde Aoi mora... Provavelmente sozinho. Pelo menos é no que acredita.

Subir correndo foi um impulso, como todos aqueles que Uruha costuma seguir e nem sempre se dá bem, mas é diferente chegar diante da porta e pensar no que dizer, como agir para falar com um homem que lhe é tão caro, mas que não o conhece. Respira fundo, apenas então percebendo que Angel não o acompanhou, deixando o momento apenas para os dois. Toca a porta criando coragem para o próximo passo e então bate... Primeiro devagar, depois de forma mais insistente.

- Quem é que... – Um Aoi extremamente magro e pálido abre a porta, barba por fazer, vestido com uma camiseta e moletom largos demais. – Pois não?

A visão dele naquele estado é um golpe maior do que Kouyou podia imaginar. Fica sem jeito, as palavras perdidas em sua mente tentando processar tudo que ouviu de Angel, com o que vê e o que sente em relação a isso. Sente os olhos marejarem, mas segura o ímpeto de chorar, pois não é o momento. Está ali por Aoi e precisa saber tudo que aconteceu, mesmo que a verdade seja dolorosa demais.

- Você é Yuu Shiroyama? – Pergunta com a voz fraca, ainda lidando com o nó em sua garganta. – Que tocava em uma banda com o Yune? Acho que o chamavam de Aoi...

- Sou eu sim. – O moreno presta mais atenção no rapaz magro, bonito e de expressão triste. - Apesar de não me chamarem assim há um bom tempo.

- Ele me disse que você é um ótimo guitarrista e... – Precisa pensar rápido, pois não tinha pensado em uma desculpa para essa abordagem. – Sou Kouyou Takashima... Estou montando uma banda... E precisamos de alguém que toque a guitarra com emoção.

- Veio ao lugar errado, amigo. – Volta-se ligeiramente para dentro do apartamento, expressão frustrada, fazendo menção de que vai fechar a porta sem muitos rodeios. – Eu não toco mais... Nunca mais.

Aquilo tem um tom tão definitivo, tão profundamente doloroso que Uruha não pode deixar que as coisas terminem assim. Precisa saber o que está acontecendo para que Aoi tenha essa certeza absoluta.

- Mas por quê? – Não pretendia que essa pergunta saísse assim, tão explícita, só que sua aflição ganha a corrida com a razão e sente que precisa demais saber a verdade. – Ouvi algumas demos e... Você é...

- Só não posso mais, ok? – Por mais que conversar com alguém depois de tanto tempo isolado seja até bom, falar sobre isso o entristece ainda mais.

- Deixa eu entrar... – Fala com a voz manhosa que sempre fazia Yuu ceder. – Parece que você anda precisando de um amigo.

Por mais que não queira admitir ele tem razão, pois quando resolveu se afastar do mundo perdeu contato com todos. Nos últimos meses evitava até os telefonemas dos pais e dos irmãos, enviando emails animados falando de como estava trabalhando muito, fato que o deixava fora de casa quase o dia todo. Não quer que ouçam a sua voz, pois o conhecem bem e notariam o estado em que está. A última coisa que deseja é voltar como um coitadinho fracassado para a casa dos pais, mesmo que os ame demais.

- Tudo bem... Pode entrar. – Não sabe por que permite, mas aquele tom de voz... É como se fosse incapaz de dizer 'não'. – Não repara, mas... Não tenho recebido muitas visitas.

É impossível não reparar no apartamento limpo, mas com aparência de abandono. Potes de lamen instantâneo se amontoam sobre o balcão denotando a idéia nítida de que Aoi estocou aquilo para não ter que sair. A guitarra está jogada em um canto da sala, coberta de pó, assim como o pequeno amplificador. As cobertas sobre o pequeno sofá revelam que o minúsculo quarto não vem sendo usado... Sem aparelho de TV, nem rádio... Nada que revele como o moreno vem passando os dias, apenas que se trancou ali por alguma razão e... É então que vê os frascos de remédio amontoados ao lado do cobertor, um deles ainda aberto, as cápsulas coloridas teimando em cair.

- Você não tem saído muito. – Tenta não imprimir um tom que o coloque na defensiva, mas percebe que soa como uma reprovação, não como uma simples constatação. – Desculpa... Não devo me intrometer na sua vida.

- Ora... Não saio mesmo. – Ele diz, dando de ombros, como se pouco importasse. Joga-se sobre o sofá, indicando uma cadeira próxima para o loiro sentar. – Pra que sair? Não tem nada lá fora pra mim.

- Mas... E a música? – Tenta voltar ao assunto, percebendo como a depressão parece ter tomado conta do espírito do seu moreno. – O Yune me disse que você tinha se afastado do meio, mas que queria retornar.

- Ele não me encontra há meses... Não sabe nada sobre a minha vida. – Sente-se mal por falar assim, pois conhece Yune e sabe que suas intenções são as melhores. – Muita coisa aconteceu desde que nos falamos da última vez.

Uruha instintivamente se inclina em sua direção, desejando estar mais próximo dele, sedento por tocá-lo, mas contendo essa necessidade com todas as suas forças.

- O-o que...? – Não quer intrometer-se na vida de alguém que acredita que se conheceram agora... Mas como ficar calado diante do estado em que o encontrou?

- Quer saber o que houve? – Sua expressão é vazia, desprovida da luz que Kouyou se acostumara a ver todas as manhãs, observando-o acordar. – Normal ficar curioso... Nem ligo mais. Mas não vou ficar me lamentando... Não faz meu estilo.

Seus orbes escuros percorrem o cômodo, mas vislumbram apenas o tempo, as jogadas do destino que nos encaminham para o caminho errado. E como se não houvesse ninguém ali com ele, suspira profundamente, segurando o frasco de comprimidos aberto e brinca insistentemente com seu conteúdo.

- Depois de sair da banda eu percebi que talvez não fosse dar certo, mas assim mesmo arranjei um emprego de meio período numa loja de conveniência... Pelo menos pagava a comida, um lugar pra dormir e... Queria comprar uma guitarra melhor pra praticar. – Pela primeira vez olha direto nos olhos interessados do loiro, pois já não estava mais acostumado com alguém o ouvindo. – Sabe... Meu irmão que me ensinou a tocar. Ele era muito bom, muito melhor que eu, mas não conhecia a técnica direito... Me ensinou a tocar com o coração. Mas assim mesmo, a prática traz a perfeição.

- Com certeza. – Sorri ao ouvi-lo dizer isso, pois não havia alguém mais viciado na prática e no trabalho do que Aoi.

- Você também toca guitarra, não é? – Percebe nele aquele brilho, aquilo que surge apenas quando se ama muito o que se faz... E estão falando de como é bom tocar. – Eu estava fazendo uns contatos... Toquei com outra banda, mas ainda procurava os caras certos... Aqueles com quem eu me encontrasse. Não sei se me entende.

- Perfeitamente. – O dia em que se viram pela primeira vez ainda está impresso na sua memória, pois parecia que Aoi havia encontrado o caminho para casa e somente agora consegue compreender aquela expressão.

- Pois é... Mas as coisas não saíram como eu esperava e... – Impossível não se deter diante da encruzilhada, daquele momento em que seus planos se modificam sem controle e você se torna mais uma presa das leis do destino. – Uns colegiais... Invocaram com meu visual, com as minhas roupas... Coisa de garoto idiota mesmo... E pra me provocar eles começaram a mexer em tudo na loja. Quando dei por mim estava correndo pra tentar impedir que um armário de metal caísse... Quebrei a mão, em três lugares, com lesão no tendão... Coisa besta pra um balconista, só uns dias de folga, mas o fim pra um guitarrista.

A tensão faz com que Takashima prenda a respiração procurando esconder suas emoções que afloram de forma instantânea. Percebe que se Aoi tivesse encontrado 'os caras certos', teria por um bom tempo dividido seu parco salário comprando Nikuman para os amigos famintos, mas agora estaria fazendo o que amava, não servindo de divertimento para adolescentes que não tinham mais nada o que fazer.

- Eu sinto tanto... – Não sabe o que dizer diante da pura frustração que se apossa do homem bonito, apesar de tão maltratado pela solidão. – Mas não dá mesmo?

- Simplesmente não consigo. – Separa três cápsulas do frasco e procura o copo de água que havia deixado ali para ajudar a engoli-las.

- Você vai tomar isso? – Não deseja soar autoritário, mas sabe como às vezes Shiroyama precisa disso para não fazer besteira. – E quando foi a última vez que comeu?

Normalmente a resposta de Yuu seria imediata, colocando esse desconhecido em seu lugar com palavras duras e mandando que fosse embora, mas... Fica calado. Não consegue entender o efeito do lindo loiro sobre ele, a voz presa na garganta, aceitando aquilo sem nada dizer apenas com um olhar entristecido e culpado.

- Essas coisas podem esperar. Primeiro precisa comer. –Uruha levanta sem hesitar, tira o casaco enquanto caminha até a pequena cozinha e abre os armários em busca de algo além de macarrão instantâneo, mas em vão. – Caramba! No seu armário tem até teia de aranha... Cadê a comida?

- É isso que está vendo. – Indicando com a mão as embalagens de lamen, mas notando o olhar reprovador que tem em resposta. – Deve ter alguma coisa na geladeira.

Abrir a porta dela é uma experiência única, pois Uruha é engolfado por uma mistura de odores nada agradáveis, de coisas mais do que vencidas, comida abandonada, além de frutas que parecem ter sido descobertas no túmulo de algum faraó egípcio. Prende a respiração para evitar a náusea, pegando um saco de lixo e fazendo uma varredura em busca de algo ainda comível.

- Ah! Um ovo... Talvez ainda não podre! – Tira o solitário ovinho com cuidado, ostentando-o como uma descoberta arqueológica, depositando com cuidado sobre a pia. – Vamos procurar e ver se tem mais alguma coisa que se salva.

Aoi até se diverte vendo o alto e esguio guitarrista loiro inclinado para dentro de sua geladeira, soltando ruídos enojados a cada nova surpresa que encontra. Sente um calor gostoso dentro si por ver alguém se preocupando tanto com ele a ponto de esquecer as barreiras do socialmente aceitável no Japão e se intrometendo na vida de um desconhecido dessa forma.

- E qual o veredicto? – Relaxa, brincando de uma forma da qual nem se lembrava mais. – Achou mais algum sobrevivente?

- Meia lata de atum... Torcendo pra não ter botulismo... Acho que é seguro comer. – Kouyou se afasta e fecha a geladeira, trazendo consigo uma lata aberta e um enorme saco cheio de coisas para botar no lixo. – Bom... Eu não sou um cozinheiro razoável... Na verdade sou péssimo... Mas vou tentar invocar o Kai aqui e ver se sai algo.

- Kai? – Por mais que tente lembrar dos deuses que conhece, não consegue se lembrar desse. – É algum padroeiro dos cozinheiros?

- Não. – Sorri ao apenas imaginar o Yutaka vestido de santo. - Mas se ele estivesse aqui, não teria que comer a porcaria que eu cozinho.

- Ah... Não esquenta. – Aoi se levanta devagar e senta no banco diante do balcão. – Estou acostumado com lamen puro.

- Por isso está pele e osso! – Arrepende-se do que disse, pois dá a impressão de que já o vira de forma diferente. – Não é bom tomar remédio sem comer nada.

- Ok... Não precisa ficar bravo. – Não diz isso como reclamação, pois um sorriso espontâneo lhe empresta aquela aparência do Aoi brincalhão que Uruha tanto gosta. – Não estou acostumado com alguém cuidando de mim... Só a minha mãe... Mas ela é mandona... E você é mais bonito.

Por mais que não queira o loiro não consegue impedir que seu rosto fique totalmente vermelho. Aquele jeito de falar do seu moreno sempre o desconcerta, deixando suas mãos trêmulas e as pernas bambas, mas ele se mantém firme, preparando o que vai usar.

A reação física inevitável e espontânea do loiro não passa despercebida, fazendo Aoi observá-lo com mais atenção. O rosto de formas perfeitas, a boca bem desenhada, o corpo que se move tão devagar, sem aquela pressa que os japoneses passaram a ter diante da vida moderna. As mãos finas e de dedos longos são ideais para a guitarra, mas não apresentam as marcas que alguns músicos têm por tocarem de forma rústica, revelando que Kouyou é um guitarrista que prima pela técnica, que lida com o instrumento com a delicadeza de quem sabe muito bem o que está fazendo, levando cada nota como se a despertasse naturalmente.

- Você estudou música? – Pergunta com interesse, mesmo que sinta que apenas o faz corar mais... Talvez não pela pergunta... Só não sabe dizer por que... E gosta disso.

- Aprendi sozinho... Mas estudei as técnicas em alguns livros. – Uruha sente o corpo esquentar com o interesse do moreno voltado para ele. – Gosto de observar o estilo de outros guitarristas... Como o Steve Vai... Ele é um virtuose, mesmo tocando rock. Mas foi o Sugizo do Luna Sea que me fez desejar tocar guitarra... E sempre ser melhor.

- Meu forte nunca foi a técnica. Prefiro tocar com o corpo, não com a cabeça. – Teme que o outro interprete como uma crítica, mas logo percebe que um sorriso surge na boca de lábios suculentos, então relaxa quanto a isso. – Eu amo o Metallica... Ouvi tanto que minha mãe ameaçava jogar meus CDs fora.

- Gosto deles também. – Ergue os olhos e vislumbra a paixão que fazia de Aoi um guitarrista tão bom. – Eu ouvi você tocando e... Era como se a guitarra fosse uma amante gemendo.

Os dois se olham, o rosto de Takashima corando ainda mais, somente então percebendo o quanto sua comparação soou estranha e com duplo sentido. Abaixa a cabeça depressa, evitando o contato visual que apenas o desconcerta, concentrando-se no ovo que já bateu até demais numa pequena tigela de vidro.

Passa o atum na frigideira quente pra tentar matar qualquer coisa que tenha se instalado na lataria pré-histórica e joga em seguida o ovo batido com um pouco de sal. Em segundos teria uma omelete, mas com a falta de habilidade ela rapidamente se torna...

- Voilá! – Lembra dos momentos de gênio da cozinha que Kai tinha e seu palavreado de 'chef'. – Ovos mexidos com atum!

- Oba! – Diz vendo o macarrão servido no prato e os ovos acompanhando. – E foi super rápido.

- Nem queimei! – Uruha dá a volta no balcão e se senta no banco alto ao lado de Yuu. – Espero que não esteja muito ruim.

A primeira porção levada à boca com o hashi é a mais insegura, sendo seguida com mais segurança, apenas um pouco mais de sal e o guitarrista devora aquilo em poucos minutos, surpreendendo o loiro. Ele o observa enquanto come, os braços finos demais, a face levemente encovada, os olhos fundos. Sente uma dor profunda por vê-lo assim e se pega com uma sensação de culpa, pois desejou tanto que ele não estivesse com outra pessoa que nem imaginou que o veria desse jeito.

- Vi que toma analgésicos fortes. – Observa a mão ainda com as marcas de uma cirurgia, a esquerda, que para um guitarrista destro significa a incapacidade de tirar notas das cordas do instrumento.

- Eu tomo... Nem voltei mais no médico. – Ergue a mão e olha entristecido, lembrando em como o cirurgião lhe disse que talvez a operação não lhe devolvesse todos os movimentos. – Confesso que estou meio viciado neles.

- Você me deixa ver? – Toca de leve a mão ferida, a fim de passar o calor de alguém que daria tudo para vê-lo novamente bem, mas percebendo o receio dele, puxando de leve vez ou outra, nitidamente com medo. Passa a ponta do dedo sobre a cicatriz, percebendo como esse toque arrepia o braço de Yuu, provocando efeito similar em si mesmo. - Você ainda sente muita dor?

- Nã-não... – Mas é nítido o temor nos olhos escuros, o medo estampado em cada pequeno movimento, sempre evitando o toque mais forte, a flexão do tendão mais brusca. – Reconstruíram os tendões e ligamentos, mas... Isso nunca volta a ser o mesmo.

- Mas... – Faz uma massagem suave na mão ferida, movendo os dedos bem devagar, percebendo que não há dor, mais o receio. – Já vi isso em outros músicos e... Acho que com fisioterapia você poderia voltar a tocar.

- Você acha que... Será? – Depois de tanto tempo sem esperança, vivendo da pequena indenização do seu antigo empregador, tendo desistido de seu sonho, aquele vislumbre de esperança parece tão irreal.

- Vem aqui comigo. – Puxa-o pela mão, tomando todo o cuidado para não machucá-lo e ambos se sentam no tapete, ao lado da guitarra. – Tenho uma música em que acho que seu estilo ficaria ótimo.

Segura a guitarra com cuidado, verificando que mesmo sem muito dinheiro Aoi escolheu um instrumento de boa qualidade... Boa forma, peso, acústica e com cordas de aço. Usa seu cachecol para limpá-la, mas sorri ao perceber que está menos suja do que imaginaria, se levasse em conta que Aoi não toca há meses. Pode até visualizar o moreno lutando contra o desejo de tocar, segurando-a no colo e dedilhando devagar, mas sendo vencido pelo medo e desânimo. Shiroyama sempre foi o profissional que se dedica de corpo e alma ao que faz, mas desanima depressa, então sempre precisou de alguém que o ajudasse a manter o foco de qual meta queria alcançar. E assim como qualquer um, ele sem foco sente-se perdido e desorientado.

- Muito bem. Vou tocar o solo que eu acho que tem asua cara. – Pensa em Cassis, talvez o mais lindo solo de Aoi, mesmo que seja difícil demais escolher diante de um talento tão natural. – Se eu fechar os olhos até consigo te ver tocando ele... O início em um violão... Depois passando pra guitarra.

Aoi o observa, sentado na posição de lótus, os olhos se fechando, enquanto segura a guitarra com carinho, as mãos procurando instintivamente a posição correta nas cordas para iniciar. Nada já lhe pareceu tão bonito, a luz do pôr-do-sol entrando pela janela e banhando-os com os matizes de laranja que conseguem fugir da barreira dos prédios em volta. Suspira ansioso, desejando como nunca ouvir os sons produzidos por esse corpo...

"Tocando a guitarra... Nisso que eu pensei... O corpo tocando a guitarra!" – Repreende-se, pois o loiro está ali para ajudá-lo e já o fez corar com esse seu jeito.

As notas suaves saem do instrumento, sentidas, representando toda a dor de ver o amor da sua vida assim, desejando reproduzir sem sucesso toda a emoção que o moreno sempre imprime a elas. Mas Uruha já sabia que não conseguiria, pois por mais que se observe e estude, é o coração do músico que produz a magia, ele quem faz de cada som único.

Ouviu aquela introdução tantas vezes... Enquanto preparavam o arranjo dessa balada, quando Aoi fez desse solo um reflexo de sua alma... Assim mesmo nos shows não podia deixar de observá-lo no instante em que o tocava, tentado a dizer a ele que sempre estariam juntos e jamais se sentiria sozinho. Que nunca mais sentiria a solidão que revelou naquela entrevista que o loiro leu às escondidas, tendo de disfarçar a tristeza que quase o deixara sem fala... Havia se afastado de Aoi sem notar, levado pelo cansaço e pelo medo de revelar seus sentimentos.

"Como eu quis, naquele dia, te consolar e dizer o quanto te amava!" – Os olhos cerrados de Uruha se abrem, marejados e tomados por essa torrente de sentimentos que lhe vem à mente.

Os orbes se encontram com os dele, carregados de brilho intenso, que até então acompanharam cada movimento das mãos delicadas dedilhando as cordas, a forma como os braços longos se apegavam ao instrumento, no corpo gingando lentamente, sentindo as notas como se saíssem do mais profundo de sua alma. Daria tudo para saber o que pensava a criatura bonita e radiosa, que entrou em sua vida sem pedir licença e está diante dele com essa expressão tão melancólica.

- Lindo demais! – Aoi não consegue evitar que essas palavras saiam em alto e bom som, fascinado tanto com a melodia carregada de emoção, quanto com o homem etéreo que a toca.

- Sei que você faria diferente. – Estende os braços, entregando o instrumento para o moreno, que reluta em aceitar. – Tenta... Me mostra o que pensou em fazer diferente.

- Não posso... Te falei que não consigo. – Shiroyama segura a guitarra, mas seus olhos evitam os chocolates, concentrando-se no verniz brilhante. – Lamento te decepcionar, mas... Já não sou mais um guitarrista.

- Ah... – Kouyou se levanta, movimentando-se o suficiente para se colocar atrás do moreno e sentar, suas pernas compridas se colocando ao lado das pernas de Aoi. – Me deixa te ajudar...Vamos tentar juntos.

O corpo maior se coloca mais próximo, sentindo o calor gostoso e o perfume suave da pele do moreno, os cabelos escuros tocando de leve seu rosto. Cerra mais uma vez os olhos, concentrando-se no momento e não nas lembranças deliciosas evocadas por essa aproximação... De toques e gemidos... Além de toda a paixão que se apossava dos dois... Respira fundo, prendendo o fôlego que teima em deixar escapar um gemidinho de prazer ao se encostar totalmente as suas costas.

Também para Yuu esse contato não passa despercebido, arrepiando-se quando as mãos finas passam por seus braços e se colocam sobre as suas, posicionando seus dedos e movendo-os como se fossem fantoches. O som sai lento, o calor perturbador do corpo colado ao seu e o temor da dor, mesclados na sua expressão, seus olhos também se fechando e se deixando levar. O perfume embriagante o desconcentra, sentindo o ritmo da respiração ofegante no peito colado a ele.

- Agora... – Uruha sussurra no ouvido de Aoi, intoxicado com a sensação de tocá-lo, como se fosse a primeira vez. – Me mostra o que modificaria nesses acordes.

Motivado por tal pedido, tão sensualmente provocante que se sente incapaz de negar, move seus dedos com leveza. Imprime às mesmas notas um tom diferente, sua emoção e sentimentos marcados na forma suave e delicada de iniciar a melodia carregada de amor.

- Eu sabia que você ia conseguir. – Mais um sussurro encontrando eco na carência de ambos.

A impulsividade que o comanda mais uma vez faz com que siga seus instintos, esquecendo-se por completo que esse não é o Aoi que o conhece, deixando-se levar pelo contato da pele e pelo aroma que sempre o excita. As mãos delicadas deixam as do moreno, seus braços se fechando em um abraço firme, enlaçando o tórax ofegante, seus lábios soltando um suspiro dengoso antes de tocarem o pescoço alvo em um beijo suave, mas carregado de sensualidade.

"O que eu estou fazendo!" – Takashima se surpreende com a própria atitude, se dando conta de que este não é o seu moreno, que ele não o conhece e... Está fragilizado demais.

- De-desculpa! – Kouyou se afasta um pouco do corpo adorado, lentamente de início porque tenta processar em sua mente o que fez.

Quando percebe o erro que cometeu, como confundiu as coisas e mais uma vez se entregou à impulsividade que costumava o colocar sempre em apuros, levanta de um pulo. Caminha ainda meio entorpecido e excitado, apoiando-se no balcão da pequena cozinha, evitando o olhar do outro. Teme dizer qualquer coisa, pois desconhece a reação desse Aoi, o que ele pensa e como vai reagir... Tomado pela insegurança resolve afastar-se e manter-se o mais longe possível.

Yuu permanece paralisado, as mãos sobre a guitarra, sem conseguir esboçar qualquer reação, ainda atordoado demais com o ato em si. Um pouco por causa dos remédios, mas principalmente por perceber como aquilo mexe com sua libido, um calor diferente que lhe sobe pelo baixo ventre, chegando ao coração solitário e lhe trazendo conforto. Mas nada consegue dizer, calado como se acostumou a ficar diante da vida, mesmo que queira dizer ao loiro que gostou de ser beijado dessa forma tão doce e... O quanto gostaria de retribuir.

- Acho melhor eu ir embora. – Takashima teme as conseqüências do seu ato, fazendo com esse Aoi o que queria fazer com aquele que ama e se sente profundamente culpado. Precisa sair dali rápido, uma agitação tomando conta, com seu lado racional disparando todos os alarmes de perigo.

- Kouyou... – Deseja que ele fique, mas não sabe o que dizer diante de algo tão inesperado. – Não me deixa sozinho...

Shiroyama sente-se perdido, querendo entender mais o que está sentindo do que aquilo que aconteceu. É óbvio que estando ambos tão próximos e carentes, pelo menos sabe o quanto ele próprio está, tal reação do loiro era bem esperada... E não pode negar que gostou e se sentiu excitado.

Teme que Takashima parta dessa forma, deixando-o novamente sozinho, pois depois dessa atenção e carinho que o loiro dedicou a ele nesses poucos instantes que estão juntos, não sabe mais se consegue voltar a ficar completamente só. Quando os olhos chocolate cruzaram com os seus ao atender a porta, não podia nem sequer imaginar que com ele entraria na sua vida mais uma vez a esperança, a qual havia esquecido, e aquela vontade de tocar que tornava sua existência completa.

- O que eu fiz... Foi errado. – Deseja se justificar, não querendo que Yuu o julgue mal. – Estraguei o momento...

- Por me fazer perceber que alguém me enxerga... Que alguém se importa comigo? – Shiroyama coloca a guitarra de lado e se levanta devagar. – Há muito tempo eu me sentia vazio... Sem qualquer propósito.

- Mas não podia... – Uruha se empertiga ao notar que o moreno se aproxima devagar. – Você não é...

- Eu sempre me questionei quanto a isso. Sempre colocando tantos obstáculos e exigências para me envolver com as garotas... Mas sempre achando que era minha timidez ou por ser cauteloso demais. – Há certa relutância em Shiroyama para falar sobre esse assunto. – Mas nunca me senti atraído nem por nenhum cara... Então só podia ser isso. Só que hoje... Ao te ver parado diante da minha porta... Algo dentro de mim mudou... Eu queria que você entrasse... Que você...

- Não... Pior ainda... Eu não tinha o direito! – Os olhos chocolate denotam a surpresa por ele não ter se assumido ainda. – Isso tinha que ser natural... Eu não podia forçar.

- Kou-chan... – Sente a necessidade de tocá-lo, de tentar acalmar toda aquela perturbação culpada que parece se apossar dele. – Você não forçou nada... Eu já... Bom... Engraçado dizer isso pra um desconhecido... Eu estava excitado quando você me beijou.

Por mais que aquelas palavras calem fundo em seu coração, agora Uruha está consciente da situação e respira fundo para não se deixar levar pelos olhos negros e a voz macia do seu guitarrista. Afinal, é ele ali, tão carente e fragilizado, tratando-o como sempre fez... Até aquela briga em que se questionou sobre a realidade do amor dele. A proximidade vai se tornando incômoda, a mão do moreno quase tocando a sua e então percebe que precisa fazer algo antes que se deixe levar novamente e ponha tudo a perder.

- Vamos dar uma volta. – Move-se na direção da porta e veste o casaco. – Você precisa ver o lado de fora...

- Mas... – Aoi não vê o propósito de sair, quando ali dentro é tão mais seguro.

- O mundo lá fora tem muita coisa pra você. – Conhece muito bem essa tendência do moreno de se isolar em casa, lembrando que antes de começarem a namorar Yuu não era muito de sair. – Vamos ver a neve.

Não há nenhuma animação no rosto emagrecido do seu amado, há sim aquela expressão igual a de quando o loiro se justificava por não ter ido na casa de Aoi com os outros... Coisa que fazia com freqüência, pois temia a si mesmo. Aquela decepção mesclada com a incapacidade de expor o que realmente sente.

- Ah... Yuuuuu... Vamos... – Imprime à voz o tom dengoso de quando queria alguma coisa, sempre infalível e que talvez funcione agora. – Vai me deixar andar sozinho por aí à noite?

- Ok, ok... – Como sentiu antes, é incapaz de dizer não e dessa vez isso não o surpreende, apenas o excita. – Deixa eu pegar o meu casaco.

"O longo casaco peludo cheio de buracos!" - O loiro se lembra dele e de como era uma espécie de farda nos tempos de dureza.

Aoi sempre o vestia ou aquele outro cinza, também peludo, mas este era o favorito, apesar de sempre passar frio. Ele dizia que o casaco era estiloso e que combinava com seu visual... Uruha o achava horroroso, mas a visão dele evoca lembranças doces, apesar das rudezas daquele tempo. Todos eles eram tão inocentes... Agora as agruras do sucesso parecem muito mais difíceis de enfrentar e às vezes percebe como isso afeta os outros... E a ele mesmo. Muitas vezes se pegam falando do tempo em que tudo era mais simples... Em que ainda tinham tempo de brincar e sorrir... Mas no fim... Foi por esse sucesso que tanto lutaram, então seria hipocrisia se lamentar.

- Gostei do casacão. – Diz com um tom levemente irônico, que o moreno parece notar instantaneamente.

- Ah vai... Você está doido pra me perguntar onde comprei. – Os dois riem sonoramente, da forma que sempre faziam quando estavam juntos.

Descem as escadas em silêncio, constrangidos com a intimidade mágica que se estabelece entre eles no primeiro encontro e lidando com o medo natural de Aoi por sair do prédio depois de tanto tempo trancado. E ao saírem, são engolfados pelo ar frio da noite que se inicia, observando como tudo se tinge de branco após a nevasca da noite anterior.

- A neve sempre me faz lembrar da minha infância. – Aoi fecha os olhos, respirando fundo, deixando a umidade do exterior penetrar em seus pulmões e percebendo como sentia falta de tudo isso. – Fazíamos fabulosas guerras de bolas de neve... Até o meu irmão entrava... Mas as dele eram covardia, pois era mais velho e elas eram bem maiores... Um dia me nocauteou. Acho que eu tinha uns oito anos e fiquei lá, caído no meio da neve, com a minha mãe dando a maior bronca nele. Hehe...

Um sorriso triste surge no rosto do loiro, pois nunca tinha conversado com Aoi sobre essas coisas, sempre havia o trabalho... E isso acabava ocupando boa parte das conversas dos dois. Instintivamente segura de leve na mão dele enquanto caminham, meio sem notar o que faz, apenas querendo estar mais próximo dele. Nunca imaginou que sentiria tanta falta de alguém...

- Eu gosto da neve... Mas prefiro o verão. – Seu pensamento se perde de tal forma no passado distante que nem percebe o efeito perturbador que sua mão tocando a do moreno pode ter causado. – Nunca gostei de usar casacos e roupa pesada... Muito menos nas pernas. Minha mãe brigava comigo porque usava short o dia inteiro... Acho que por isso fui aprender futebol. E... Só odiava os meninos me atormentando por que a minha perna era grossa.

A risada dele é espontânea, como se relembrar essas coisas o fizesse voltar para casa e sentir o conforto seguro do lar paterno. Pode dizer que foi uma criança feliz, apesar de um pouco distraído, sempre cercado dos mimos da mãe e das irmãs. E isso o acabou aproximando de Reita no futebol, pois o garoto não podia dizer o mesmo, apesar de sua avó ser mais do que uma mãe para ele. Mas a separação dos pais... Na época aquilo ainda parecia muito doloroso. Então Kouyou o adotou... Tratando-o muitas vezes como o irmão que nunca teve.

- Kou-chan... – Aoi diz, ainda com a mão trêmula pelo toque quase automático do outro, os dedos entrelaçados de forma carinhosa.

Takashima vê-se de volta das recordações e caindo novamente na rua fria, iluminada pelas lâmpadas que reagem ao fim da luz do dia e vão se acendendo uma após a outra. Somente neste momento repara no seu ato, a mão fina segurando firme a do moreno, seu rosto se tingindo de vermelho quando liberta os dedos que estavam cativos pelos seus, seguindo a caminhada totalmente sem graça e evitando o olhar interrogativo do outro.

- Eu... Des... – Não consegue nem formular a palavra que fica presa em sua garganta, pois mais uma vez deixou-se levar pelos seus profundos sentimentos com relação ao outro Aoi.

E um silêncio se instala entre eles, pois Shiroyama nota o desconforto do loiro e começa a refletir na razão disso... Talvez já exista outro alguém. Assim o melhor a fazer é ficar calado curtindo o vento apesar de frio, e a neve que volta a cair devagar. Concentra-se no ruído dos passos de ambos sobre o manto branco e o da respiração levemente ofegante de Kouyou. Observa a cabeça loira abaixada, os fios dourados refletindo a iluminação da rua, os olhos chocolate parecendo tão tristes...

- Yuu... – Esquece que o prudente seria chamá-lo pelo sobrenome... Um desconhecido não seria tão íntimo. – Você acredita em destino?

- Claro... - Aoi sorri da forma linda que Uruha tanto ama. – Somente ele para te fazer bater na minha porta!

Mais uma vez o rosto lindo cora e o loiro fica completamente sem graça, procurando focar no que deseja dizer, mas preocupado que o nervosismo o impeça e acabe dizendo a coisa errada. E... Isso que o levou a essa situação.

- Estou falando sério. – Precisa mudar o rumo da conversa, pois percebe que Aoi está encarando como uma piada e seu maior objetivo é ver o amor da sua vida bem. – Você acredita que estamos destinados a algo e... Uma única peça faltando pode nos tirar do caminho?

- Não sei dizer se já acreditei nisso... – Tenta ser o mais sincero possível, pois algo naquele homem que caminha ao lado dele lhe transmite segurança. – Talvez seja algo que perdi ao longo desse caminho... Quando percebi que nunca mais poderia tocar.

O corpo esguio para de repente, colocando-se à frente do moreno e o encarando diretamente nos olhos.

- Mas você tocou hoje, não tocou? – Segura-o pelos ombros, forçando Aoi a encará-lo também. – Se você conseguiu, mesmo que tenha sido apenas um pouco, quem sabe destino e milagres possam existir de verdade.

- Onde você quer chegar com esse assunto? – Shiroyama desvencilha-se das mãos fortes do outro e continua a caminhar, o rosto voltado para cima recebendo o toque suave dos flocos de neve. – Milagres não existem. Por isso a gente tem que viver com o que temos... A esperança é muito perigosa.

Só que Takashima não passou por tudo até agora para deixar-se abater pela desilusão que tomou conta da vida do moreno. Precisa provar para ele que pode ser feliz, pois apenas imaginar que ele possa se afundar na depressão faz seu coração se apertar. Então Kouyou resolve ser insistente acompanhando Aoi, mas andando de costas, recuando cada passo concentrado apenas nos olhos negros que parecem tão desprovidos de expectativas.

- Eu também não acreditava... – Parece que foi ontem que também se viu assim, tão cheio de medo de viver que preferia acabar com tudo. - Mas algo aconteceu... Algo que me fez repensar tudo na minha vida... E no meu papel na vida das pessoas que me cercam.

- Não acha que essa conversa está ficando um pouco estranha... – Diz um tanto amargo, mas sorrindo do ar quase infantil do loiro belíssimo andando a sua frente daquela forma.

- E se eu fosse um anjo e... Tivesse vindo até você pra... Sei lá... – O que dizer para não parecer um maluco recém-fugido do hospício. – Te mostrar que há esperança... Um caminho novo a seguir... Um motivo para não desistir...

- Do que você... – Mas antes que ele possa expressar toda a confusão que essas palavras provocam em seu íntimo, percebe que o loiro deixa a calçada ainda de costas, um carro perigosamente se aproximando em alta velocidade. – Não!

Tudo acontece rápido demais, com o tempo parecendo parar em torno deles, o loiro de traços finos se afastando sem notar o perigo e o veículo se aproximando apressado. Num impulso, Aoi segura Uruha pela mão puxando-o com firmeza para si, braços em torno de sua cintura, afundando o rosto no pescoço alvo e o coração a mil, sentindo a pulsação acelerada... Tanto sua quanto dele.

- Não... Me assusta... Meu anjo... – Fala com dificuldade, apertando o corpo mais alto, a voz preocupada.

A compreensão do que tinha acontecido naqueles segundos só vem segundos depois, quando Uruha se sente envolto pelos braços de Aoi, ouvindo a respiração dele, sentindo o perfume... Percebe que quase foi atropelado e que só está sem ferimentos e vivo graças ao moreno. Treme ao ouvir a voz dele baixa, rouca, em seu ouvido e o abraça com mais força.

- Y-Yuu... Des-Desculpa... - Pede enrouquecido, sentindo-o apertá-lo contra si e respira fundo, tentando se acalmar do susto, mas sabe que precisa tranquilizá-lo também. - Está tudo bem... Está tudo bem, agora...

- Você veio me trazer esperança... – O moreno fala de encontro à pele que imediatamente se arrepia. – O que seria de mim... Se eu te perdesse desse jeito.

Beija o pescoço delicadamente, o calor que se acende dentro de seu peito fazendo com que o mundo suma e se torne apenas os dois, esquecendo as poucas pessoas que se aventuram na rua com o frio que se torna mais intenso.

- Nã-Não vai me perder... - Sussurra Uruha sentindo o corpo tremer ao sentir o hálito quente, o perfume dele nublando seus sentidos.

Sente tanta falta do seu moreno... De seus toques, do calor do corpo dele contra o seu, daquelas mãos apertando carinhosamente suas costas. Fecha os olhos, erguendo de leve a cabeça, estremecendo e se arrepiando mais quando aqueles lábios tocam seu pescoço mais uma vez, dissipando uma quentura gostosa por cada pedacinho de seu ser...

- Hum... Yuu... - Seus pensamentos se dissolvem e Uruha abraça Aoi, puxando-o mais para si, afundando o rosto na curva do pescoço dele beijando o local e mordiscando, como se com este gesto pudesse impedir o romper do dique de emoções em seu interior...

- Como eu te quero. – Shiroyama se afasta um pouco, encarando os olhos chocolate que o observam famintos. – Desde o instante em que te vi parado diante da minha porta.

Kouyou sente quando ele se afasta e o olha nos olhos, estremecendo com as esferas negras flamejantes sobre si. Aquilo é o suficiente para dissipar fogo por suas veias, aquecendo todo o seu corpo, expondo sua carência... Inflamando-o de desejo. Uruha não consegue se libertar daqueles orbes tão hipnóticos... E não quer na verdade.

O moreno então se aproxima devagar, tocando os lábios suculentos devagar, saboreando cada centímetro daquela boca levemente trêmula... De frio e expectativa. A ânsia que se apossa dele, possuído por um desejo que o surpreende, pois jamais pensara que se sentiria assim por outro homem, somente faz o beijo se tornar mais intenso, sedento de afeto e repleto de um prazer quase insano.

Aquele toque suave arranca um ofego dos lábios do loiro, rompendo todas as barreiras que erguera a fim de se proteger naquela nova realidade, cedendo ao desejo forte de Aoi, sentindo como este se mistura a sua própria ânsia e vontade de se entregar... Sente tanta falta desses braços ao seu redor... Tanta falta dessa atenção e carinho... Dessa proteção.

- Hummmmmm... - Geme dentro do beijo, correspondendo na mesma intensidade de paixão e amor, se agarrando ao moreno como se sua vida dependesse disso.

As pessoas que transitam pela rua se assustam ao ver os dois rapazes se beijando daquela forma. Cochichos podem ser ouvidos, mas não são o suficiente para afastar os dois amantes, que estão presos em seu próprio universo, entregues à paixão que os consome.

- Uhmm... Ahh, Yuu... - Ronrona o loiro, quando se afasta a procura de ar, mas não consegue pensar direito, apenas empurra o corpo menor, percebendo um beco à frente... Só quer fugir dos expectadores e se entregar, sem pensar nas consequências. - Eu preciso tanto de você... Me beija mais...

Aoi sente o movimento do loiro, que o empurra para trás, as palavras de aceitação do loiro relutante excitando-o ainda mais. Assume então a ação, apertando o corpo esguio mais para junto do seu e o guiando pela rua pouco iluminada que leva ao beco. Logo sente que uma parede limita o seu avanço, abrindo o casaco pesado do loiro, invadindo-o com as mãos e enlaçando-o, tocando sua pele ao passar por baixo da camisa.

Ao sentir-se puxado com mais empenho, Uruha se deixa levar pelo moreno, gemendo languidamente ao ser imprensado contra a parede, sentindo o corpo delicioso pressionando o seu de modo excitante e enlouquecedor! E o toque em sua pele... Ah, isso apenas arranca mais gemidos e arquejos seus, obrigando-o a se agarrar a Aoi como se fosse sua âncora.

- Aahmmmm... Yuu, Isso! - Uruha joga a cabeça para trás, arqueando, arranhando as costas do moreno sobre o velho casaco.

A boca carnuda do moreno procura o pescoço esguio com ansiedade, devorando e provando o sabor de luxúria que tem aquela pele, uma das mãos descendo e tocando a coxa roliça e... Pensando de forma divertida em como os idiotinhas que caçoavam dessas pernas nunca tiveram o prazer de prová-las.

- Hum... Você é delicioso! – Sua coxa se coloca entre as dele, prensando-o ainda mais contra a parede fria.

Em mais um ato inconsequente, Uruha ergue a perna, enlaçando a cintura de Aoi, ondulando o quadril contra o dele, gemendo ao sentir como a coxa do moreno pressiona seu membro rijo, deixando-o mais enlouquecido. Aquilo é tão bom!

- Oh, Deus, Yuu! Eu te amo tanto! - As palavras saem sem ele nem perceber e levado pelo amor que sente, Kouyou puxa Yuu para si, beijando-o intensamente, apertando mais a perna ao redor da cintura dele.

- O que você... – A surpresa de algo assim tão inesperado o faz parar por alguns instantes, afastando-se ligeiramente e observando os olhos chocolate a procura de respostas, mas sente-se tão... Carente... Confuso... E pela primeira vez a atração é verdadeira...

Uruha o olha, confuso, piscando algumas vezes ao ver como o moreno está aturdido e então começa a pensar no que disse e sente um frio na barriga, seus músculos se enrijecendo e uma onda de pânico ameaça percorrer todo o seu corpo. Foi precipitado mais uma vez, quando prometera a si mesmo que se manteria firme no propósito de ajudá-lo e não de perturbar Aoi ainda mais. Ele entreabre os lábios tentando falar algo, explicando o que disse.

Antes que Uruha possa retirar suas palavras, temendo ter se precipitado ou fugir, como a expressão do loiro denuncia que pode acontecer, Aoi o puxa para si novamente, beijando-o com ainda mais ânsia.

Qualquer frase que Kouyou tenta formular em sua mente se dissipa ao ter os lábios tomados em um beijo tão intenso... E ele só pode gemer, engolido pela aura de sedução, amor e ânsia de Yuu, deixando-se levar por ele até que suas bocas se separam. Sem fôlego, Takashima o fita ofegante e com as pernas bambas, zonzo de prazer.

- Você me salvou... – O moreno ataca o pescoço mais uma vez, tentando retê-lo e perpetuar esse momento único em sua vida.

Uma das mãos escorrega pela coxa em sua cintura e a outra se coloca sobre sua nádega, encaixando-se melhor ao quadril, deixando-o sentir como também está excitado, esfregando-se de leve para derreter ainda mais a barreira que possa ainda existir entre eles. Jamais foi assim impulsivo, seu lado racional impedindo-o sempre de se entregar às coisas dessa forma, mas... Com esse homem... Sente-se uma outra pessoa...

- Yuu... Ahmmmm... - Uruha tenta colocar a mente em ordem, mas ter aquela boca em seu pescoço mais uma vez, as mãos dele percorrendo seu corpo lhe rouba toda a força... E o desejo de se entregar fala mais alto, obrigando-o a se agarrar ao moreno, deliciado por tê-lo tão excitado junto a si.

Um barulho alto de buzina seguido de um carro freando, porém, assusta o loiro, que se afasta um pouco, dando-se conta de onde estão, percebendo que algumas pessoas olham para dentro do beco, curiosas com os ruídos cada vez mais altos e isso o alarma.

- Yuu... Es-Espera... Temos... Que sair daqui... - Fala abaixando a perna, ainda sentindo seus corpos se roçarem, o que lhe arranca mais um gemido baixo e rouco, mas respira fundo, segurando o rosto do moreno e recostando a testa na dele. - As pessoas podem nos ver aqui e... Humm... Não é um bom local pra fazer amor...

- Eu não ligo para os outros... Você liga? - Resolve definitivamente que pouco se importa com o mundo ao seu redor.

Uruha o olha profundamente, vendo que para Aoi aquele momento é importante... E decide que será tudo o que ele precisar, se isso salvará seu coração melancólico. Ama Shiroyama, seja em qual realidade se encontre e não pode decepcioná-lo. Não pode e... Não quer... Decepcionar esse Aoi que precisa tanto dele!

- Não... Eu não me importo. - Diz resoluto, acariciando seu rosto.

Nessa realidade não são famosos, não têm o que temer. Só quer proteger o coração daquele que tanto ama! Por isso se entrega de forma declarada, retribuindo os toques e as carícias com certa angústia... Como se pudesse perdê-lo a qualquer instante. Tomando a boca farta e deliciando-se com a textura, com a forma, com o sabor... Tudo nele sempre é delicioso.

- Quem é você... – A loucura se apossa dos olhos negros, as mãos frenéticas buscando mais intimidade, tocando o loiro de uma forma que deveria ser estranha pra ele, mas que parece tão natural... Tão espontânea. – Que... Virou minha vida do avesso?

- Eu... – Sentir os dedos fortes massageando seu membro por cima da calça tira qualquer noção de perigo ou cautela que ainda possa ter.

- URUHA! – A voz de Angel soa firme, ecoando pelo beco e chegando até eles como se fosse parte de um sonho. – EU VIM TE BUSCAR!

Os corpos se afastam aturdidos, a surpresa daquela voz ainda reverberando em seus ouvidos, como se o laço tivesse sido rompido com violência. O loiro tenta controlar a raiva que sente, mas ao mesmo tempo começa a voltar à consciência de que é errado o que está fazendo, tanto com relação ao Aoi quanto para si mesmo. Volta seus olhos de um para o outro ainda perdido e confuso, uma idéia tamborilando em sua mente e se formando uma visão ideal do que essa missão pode lhe proporcionar.

- Quem é esse garoto? – A voz do moreno sai baixa, carregada de ressentimento e decepção, pois sente como se o chão se abrisse e o tragasse. – Era bom demais mesmo...

- Calma... Espera um instante! – Kouyou percebe o que se passa na mente de Yuu, o ciúme estampado no rosto de traços marcantes. – Não é o que você está pensando!

- Mas também... O que eu esperava... Me agarrando com um cara que nem conheço? – Ele se separa de vez daquele que a pouco temia perder, agora incomodado com a excitação ainda presente. – Sou um idiota!

- Não... Me deixa... – Nota agora como é difícil tentar explicar algo a alguém que não está disposto a ouvir... Como fez com Aoi. – Angel... Cai fora! Eu já vou.

Yuu não consegue disfarçar como isso o afeta, pois a vida inteira foi cauteloso com relação às pessoas que deixava se aproximarem tanto a ponto de envolver-se e, da vez em que se permitiu essa liberdade de deixar-se levar pelo coração... Há realmente outro alguém. Sente-se enganado... Como a vida tem feito com ele por tanto tempo. Movimenta-se agora em silêncio, saindo do beco e ganhando a rua quando sente sua caminhada impedida pela mão fina que lhe segura o braço.

- Espera... Só peço que me ouça... Mas me ouça de verdade. – Não consegue tirar da mente aquela última discussão em que nem se esforçou para escutar o que o moreno desesperadamente tentava lhe dizer. – Depois pode partir se desejar.

- Pode falar. – Volta-se ressentido, mas de forma incontrolável não consegue negar qualquer pedido do loiro. – Mas não brinque com os meus sentimentos...

- Aquele garoto é o Angel... Meu protegido. – O ruivinho continua presente, mas agora afastado o suficiente para lhe dar certa privacidade. – Apenas isso. E ele está querendo me proteger... Por isso está aqui.

- Então, não é... – Não disfarça o alívio que isso lhe provoca, aproximando-se de Uruha e segurando-lhe a mão. – Eu pensei que... Quando não estamos acostumados que coisas boas aconteçam na nossa vida...

Por mais que seu lado racional o avise do contrário, Takashima sente necessidade de abraçá-lo, fazendo-o sentir que às vezes acontecem coisas boas e... Que são de verdade.

- Sempre pensei que coisas como destino e encontrar a alma gêmea acontecessem apenas pras outras pessoas... – Shiroyama fecha os olhos, perdendo-se no aroma suave de flores que vêm do cabelo loiro e sedoso. – Mas o vazio parece que desapareceu no instante em que te vi... Como se fôssemos feitos um para o outro.

- É tão bom te ouvir falar assim. – Mesmo que sua memória denuncie as inúmeras vezes em que o seu Aoi disse o mesmo, mas com outras palavras. – É uma idéia tão romântica pensar em alguém criado para ser nosso!

- Eu estou falando sério! – O moreno se afasta ligeiramente, a fim de poder encará-lo. – Minha vida era uma eterna solidão... Até você entrar nela, brilhando como o sol.

- Yuu... – As lágrimas brotam dos olhos chocolate, jamais pensando que pudesse ter esse significado na vida de alguém. – Sem você a minha vida não tem sentido... Nunca teve e nunca terá.

- URUHA... – Novamente a voz calma, mas decidida de Angel ecoa na rua, ameaçando se aproximar e tirá-lo dali. A expressão angelical está séria, trazendo o loiro de volta de seu sonho romântico.

- Preciso ir... – Não quer se separar dele, mas a presença do anjinho o avisa de que é necessário.

- Não! Fica comigo! – Shiroyama agarra-se a ele ainda mais. - Temo nunca mais te ver.

- Eu volto! – Segura-o com força, sentindo-se tentado... Afinal... Alguém precisa muito dele. – Juro que não vou mais te deixar sozinho.

Os orbes se cruzam, vendo a total sinceridade contida em suas profundezas. Mais uma vez os lábios se tocam de forma delicada, o ritmo das respirações se acelerando conforme o coração bate apressado. A gama de sentimentos que os envolve é poderosa, como se nada pudesse se interpor entre eles.

- Preciso acertar umas coisas com ele... – Aponta para Angel com um movimento de cabeça. – Depois poderemos ficar juntos... Para sempre.

- Certo. – Eles se separam meio sem vontade, as mãos ainda se tocando. – Agora são oito horas... Estarei a sua espera aqui nesse local as nove. Pode ser?

- Me aguarda... Eu volto logo. – Os dedos relutantemente se separam e Kouyou segue em frente pela rua.

Quando se aproxima de Angel sua expressão muda, irritado com a impaciência do anjinho, que até agora só aprontou e de repente está tão apressado.

- De uma hora pra outra o adolescente rebelde ficou sério? – Diz sem qualquer tato, querendo atingir o ruivinho.

- Você não podia ficar ali... – Finge não ter entendido a direta. – Se tornaria muito mais difícil para você partir se...

- Eu não vou voltar. – Nunca Takashima pareceu tão decidido desde que se conheceram. – Vou ficar com esse Aoi.

- Como assim? – A incredulidade é clara nos olhos cor de avelã. – Não pode fazer isso!

- Você disse que a decisão era minha... E eu a tomei. – Tenta se convencer também, mesmo que olhar para trás e ver os orbes negros o seguindo são o maior incentivo. – Ele precisa de mim... O outro já não se importa mais!

- Kouyou Takashima... Não existem dois Aois. – Angel sabia que isso poderia acontecer, mas teme não conseguir lidar com o problema da forma certa. - Esse guitarrista deprimido é o mesmo que tentou falar com você sobre o que sentia e foi completamente ignorado... Apenas não te conheceu antes.

- Mas na outra realidade... – Sabe que merece as palavras duras, mas está resoluto. – Não quero voltar... E a decisão é minha.

- Ok... É sua... – Apesar de conhecer os motivos que prendem o loiro ali, percebe que precisa ser absolutamente sincero com ele. - Mesmo sendo egoísta demais, não posso te obrigar a voltar.

- Não estou sendo egoísta! – Uruha pára, ficando de frente para o garoto.

- Como não! Mesmo depois de ver o que a sua falta causou aos seus amigos... E no seu amado... – O aprendiz de anjo está indignado. – Assim mesmo prefere ficar... Pois é o mais cômodo e fácil pra você.

- Não é verdade! – Dói para Takashima ouvir essas acusações, muito mais do que todas as calúnias que o levaram a tudo isso. – Eu os conheci... Posso juntá-los e formar a banda.

- Kouyou... Isso nunca vai acontecer. – Angel sabe muito bem o que está falando. – O GazettE surgiu de um momento... Aquele em que vocês decidiram trilhar essa estrada juntos. Agora... Esse instante passou e... Não há como recuperá-lo...

Os olhos tristes miram a neve que se acumula no seu sapato, os cabelos loiros caindo como uma cascata sobre o rosto bonito. Não deseja voltar, quando o Aoi está ali tão carente e entregue... Na sua realidade teria que...

- Você está com medo de ter que assumir que foi um idiota... – Fala calmo, procurando entender toda a fragilidade das emoções humanas. – De encarar como falhou com a pessoa que mais te amou em toda a sua vida.

- Fica quieto! – Kouyou sente uma dor no peito que ameaça lhe cegar a racionalidade, temendo fazer a escolha errada, seja ela qual for. – Preciso de tempo.

Angel sabe que o tempo está se esgotando, pois sua missão era pré-determinada e está no fim... Coisa que deveria ter dito logo de uma vez para Uruha, mas acabou se esquecendo desse detalhe em meio a tantas tentações que encontrou no caminho.

- Sinto... Mas... – Teme a reação do loiro. - Você só tem até meia-noite de hoje.

- Como assim? – Uma sensação terrível surge no mais fundo da alma de Takashima, pois aquele anjinho safado nunca lhe disse isso. – Tem tempo marcado pra eu me decidir?

- Infelizmente... Eu... – A expressão de Uruha denuncia que pode ter suas asas depenadas assim que as ganhar. – Desculpa...

- E você poderia ter me dito, mas preferiu ficar enchendo a cara e dando por aí! – A raiva dele é genuína. – Se você se tornar um anjo... Juro que apresento uma reclamação... Arranjo um jeito de te ferrar... Seu... Seu putinho!

- Calma... Desculpa... Não quis... – Percebe que há um perigo real e imediato na sua permanência. – Vou te deixar decidir... Te aguardo na ponte onde nos conhecemos... Espero até meia-noite.

- Ahm? – E antes que Kouyou possa dizer qualquer coisa, vê o anjinho sumindo diante dos seus olhos. – Aquele desgraçado! E como eu vou encontrar ele se o maldito está com o dinheiro?

Percebe então que está sozinho na rua, com a decisão mais complicada que já teve que tomar. Caminha cabisbaixo alheio a tudo que o cerca, apenas pensando nos amigos e... Em Aoi. Apesar de ser um miserável bastardinho, Angel tem razão. Depois de tudo que viu, da falta que fez nas vidas de todos eles... Como pode pensar em ficar? Mas tem o Yuu... Não tem certeza que realmente são a mesma pessoa... Como pode trair a confiança dele e o abandonar? O outro tem a fama, a carreira, a guitarra... Esse não tem nada! Esse precisa realmente dele... E muito. O outro... Mas e se forem a mesma pessoa... E lhe negar a oportunidade de alcançar seus sonhos? Como poderia viver com isso?

Segue pela rua deserta e gelada sem saber o que fazer, perdido na escuridão de seus próprios sentimentos... Muitos deles estranhos demais para o seu íntimo... Como egoísmo e orgulho, que nota em si mesmo pela primeira vez e por isso se sente envergonhado. Sabe também ser motivado por amor e uma necessidade quase insana de proteger aquele homem moreno que está tão carente de alguém que o compreenda.

"Mas..." - Essa palavrinha começa a incomodá-lo, pois relembra, há todo momento, como a sua decisão está sobre o fio de navalha e... Se errar, jamais irá se perdoar.

Ergue então os olhos instintivamente e nota onde está. Aoi está parado naquele mesmo local onde se abraçavam um pouco antes... Olha o relógio e vê que se perdeu em suas divagações, pois já são nove e meia, o moreno andando de um lado para o outro, provavelmente ansioso com seu atraso.

Fica alguns minutos parado na esquina oculto pela escuridão, observando o guitarrista, mas sem coragem de chegar perto. Fica imaginando como pode saber se este também é o Aoi por quem se apaixonou na vida real. É então que algo nele chama sua atenção... Aquela expressão de solidão profunda no rosto... Não a do homem carente e sem esperança que encontrou no apartamento... Mas a que sempre estava presente nos lives durante as primeiras músicas, como se aquele momento fosse o mais solitário de toda a vida de Shiroyama. E mesmo sem ter todo o sucesso que Yuu lutou para alcançar, esse Aoi também demonstra que esse sentimento obscuro é algo muito pessoal, algo que ele mesmo não nota, mas está lá escondido no âmago de seu ser.

- Yuu... Então é você mesmo... – Não sabe se sente alívio ou tristeza, pois corre olhar o relógio e percebe que tem pouquíssimo tempo para chegar à maldita ponte. – Não! Eu preciso voltar.

Afasta-se apressado, decidido a caminhar até o lugar, mesmo sabendo como é distante dessa parte de Tóquio. Procura ser discreto, apesar do desespero, pois a última coisa que deseja é que Aoi o veja. Por mais que saiba que está fazendo o melhor para ele, não suportaria a tristeza naquele rosto. Segue em meio à neve que insiste em cair, agora com mais intensidade.

- ANGEL! ONDE VOCÊ ESTÁ, FEDELHO DOS INFERNOS! – Pára no meio da rua, a respiração ofegante pelo nervosismo, vendo os minutos correrem pelo relógio, com o tempo inclemente passando apressado demais. – Quero voltar... Não posso perder... A vida que eu tinha... E eles... Precisam de mim.

Ouve então um ruído conhecido. Uma moto enorme se aproxima, passando por ele devagar e pára diante de um prédio, com um casal sobre ela, todo paramentado com roupas de couro e muito agasalho.

- Quem é maluco pra sair num tempo desses de moto? – Pensa nas circunstâncias de seu pequeno acidente e ri da ironia. – Só eu mesmo!

Observa-os descendo do veículo com cuidado, ambos abrigando-se sob a marquise do edifício, sob a luz da entrada, trocando beijos tórridos de despedida. Recorda que ele e Aoi já fizeram loucuras desse tipo, como ficarem se agarrando na chuva, por exemplo. Esse pensamento lhe traz conforto, pois sua relação com Aoi sempre foi insanamente deliciosa, até que... Percebe então que tudo mudou quando preferiu ter pena de si mesmo e deixou de encarar Yuu como seu parceiro... Em tudo. E o seu moreno teria arrancado o couro daquele crítico se pedisse... Diplomaticamente é claro.

- Eu fui uma besta mesmo! – Bate na própria cabeça. – Eles todos queriam me ajudar, como fiz com eles, mas... Só vi como eu era um bêbado coitado.

Essa situação desesperada também exige medidas desesperadas, então lança um olhar tentador para a moto parada, quase esquecida, enquanto o piloto agarra todas as partes disponíveis da garota que o acompanha. Uruha caminha com um ar inocente ao lado da máquina e nota que a chave está no contato...

- Que os patrões do Angel me perdoem por isso, mas... – Olha mais uma vez para o chaveiro da Hello Kitty balançando com o vento. – Se eu conseguir voltar... Jamais terei feito isso.

Pula apressado sobre a máquina, passando a perna por sobre ela com a agilidade que usa nos shows e dando partida, disparando tão rápido que o rapaz atônito só pode se voltar, tirando a mão de um dos peitos da moça e a levar à cabeça. Kouyou nada vê, tendo em mente apenas a pressa em chegar ao local de encontro.

"Aquele anjinho ficou colado no meu pé todo esse tempo e na hora H me faz correr atrás dele." – Pensa, vendo no relógio da moto que o tempo voa mais depressa do que essa possante moto. - "Eu mato esse garoto!"

Percorre locais da cidade em que jamais esteve, mas que sabe que o levam até a ponte um pouco mais depressa. Corre pelas ruas escorregadias, deslizando bastante, mas controlando a máquina com habilidade. Precisa chegar a tempo e para isso desvia de carros, passa por cima de calçadas e atravessa sinais fechados. Até sente uma ponta de satisfação por uma vez na vida se sentir um transgressor... Apesar de meio que ele e os amigos terem feito isso quando decidiram deixar de lado o que se espera de um jovem japonês... Rebeldia na adolescência e o padrão aceitável depois disso. Eles fizeram o seu próprio destino, transgredindo o socialmente aceitável.

Vislumbra finalmente a ponte ao longe, vendo que o relógio bate a meia-noite, desesperando-se com a urgência, mas sabendo que não há tempo nem para pensar muito. Atravessa uma demolição, passando por cima de entulhos e saindo por alguns instantes da segurança do chão, avançando o mais depressa que consegue. Ao ver-se diante da construção antiga de metal, construída para ligar as duas margens do rio caudaloso, larga a moto de qualquer jeito no chão e corre apressado até o centro dela.

- ANGEL! EU QUERO VOLTAR... POR FAVOR! – Olha o relógio e vê que já se passam cinco minutos do horário marcado. – NÃO! VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO COMIGO! ME LEVA DE VOLTA! Eu... Preciso do meu Aoi...

Continua...

ooOoo

Acredito que muitos leitores dessa fic já tinham desistido de esperar uma atualização, pensando que eu desistira de vez, mas juro que não tenho intenção nenhuma de abandonar minhas fics. Não seria justo com os leitores e com os personagens. Então, aqui está mais um capítulo, na verdade o penúltimo.

Este capítulo 6, com o tão esperado encontro de Uruha com Aoi, estava pronto há mais de 2 meses. Tudo bem, podem me apedrejar. Mas como a vida segue caminhos que nós mesmos não desejamos, tanto eu como minha beta nos encontramos impossibilitadas de colocar esse capítulo no ponto para ser postado. Agradeço de coração ao grande esforço da minha querida amiga Schei-chan... Essa fic é sua!

Agradeço a ajuda das minhas amigas, Yume Vy, Eri-chan, Schei-chan, Tomoe Shinozaki e Samantha Tiger.

Esse capítulo foi um desafio, pois era preciso analisar bem a personalidade do nosso guitarrista moreno e pensar como seria a vida dele sem o Uruha e o Gazette. A timidez e a reserva com relacionamentos são coisas que ele mesmo disse sobre si mesmo e a 'famosa' entrevista polêmica em que ele lamenta o afastamento do loiro... Tudo isso se tornou perfeito como material de pesquisa.

E por que me preocupei tanto em analisar entrevistas para confeccionar essa fic? Se há algo que eu respeite mais do que tudo é a personalidade dos personagens e sempre tento ser o mais fiel possível ao original... Ainda mais quando se tratam de pessoas reais. Respeito quem prefere imprimir a 'sua visão própria' dos personagens, pois cada um pensa da forma que quiser... Eu não gosto disso e não considero muito respeitoso com eles. Mas é MINHA opinião.

Agradeço de coração a todos os leitores que se interessaram pela história. Aos queridos leitores QueenRJ, Desiree Hasting, LHC, Akne-chan, a_k_i, Lara Boger e Kah_ty (bem vindos leitores novos!)... Dedico a vocês um agradecimento em especial por tirarem alguns minutos do seu tempo escasso para deixarem um review.

Espero que gostem e COMENTEM!

01 de Outubro de 2010

02:00 PM

Lady Anubis