Disclamer: Saint Seiya não me pertence, nem seus personagens, o que é uma pena realmente XD
Esta é uma fic yaoi, ou seja contém relacionamento homossexual entre homens.
Capítulo 6
Camus POV
Alguma vez vocês já se sentiram como se tivessem ido parar dentro de um filme de Luis Buñuel (1)? Ou como em um daqueles sonhos malucos, sabe? Em que sua avó falecida divide a mesa do seu apartamento com seu irmão que está fora do país e aquele seu amigo de infância que você já não vê há séculos e nem sabe porque acabou sonhando com ele?
Bem, pois foi exatamente essa a sensação que eu tive ao entrar naquele restaurante e dar de cara com ele. Milo Scorpion, é claro. Sentado muito tranquilamente em uma mesa com os gêmeos do teatro, o Shaka e um outro cara de cabelo lilás (Sério, o cabelo do cara era lilás! Eu definitivamente não consigo entender o que leva uma pessoa que teve a felicidade de nascer com adoráveis tons de louro ou castanho a colorir o cabelo desse jeito. De verdade).
Então como exatamente vocês queriam que eu reagisse? Quer dizer, não é todo dia que você encontra seu amigo dividindo uma mesa com o ator mais badalado do momento que também tinha transado coma sua noiva e enfiado a língua na sua garganta. Não mesmo.
E o Shaka era meu amigo há anos. Ele era da turma de Direito do Dite na faculdade (pode não parecer mas o Dite é formado em Direito e tem até uma sala lá na empresa. Mesmo que ele nunca apareça pra trabalhar) e nós três moramos juntos em Oxford.
Então como eu nunca soube que ele conhecia o Milo Scorpion? Quer dizer, esse não é exatamente o tipo de coisa de que as pessoas costumem guardar segredo, não é? Mesmo em se tratando do Shaka.
E certo, talvez eu não estivesse realmente lindando muito bem com a coisa toda. E eu sei que ter simplesmente fingido que não conhecia o cara foi um pouco mal educado e tudo. Tá, foi bem mal educado. Só que eu também não tinha muita alternativa, tinha?
Porque quando você diz que já conhece alguém que, em tese, você não deveria conhecer, as pessoas esperam que você conte como vocês se conheceram, não é? Quer dizer, é o normal. E o que eu iria falar então? Que eu tinha flagrado ele transando com a minha noiva e agora ele estava me dando aulas de sedução pra me ajudar a reconquistá-la? Claro, e talvez eu devesse aproveitar pra mencionar sobre a língua dele enfiada na minha boca.
Além disso, não é como se eu tivesse fingido deliberadamente que não o conhecia, sabe. Quer dizer, eu só fiquei ali parado, sem saber muito bem o que fazer. Meio que esperando que o mundo se dissolvesse a minha volta e eu acordasse, eu acho. Enquanto o Shaka fazia todas as apresentações.
Então não se pode realmente me culpar por isso, não é? Por ficar ali, sem fazer nada, cumprimentando-o como se eu nunca tivesse visto ele na vida, eu digo. Quer dizer, considerando-se a situação toda e tudo.
E é por isso que eu realmente acho que ele estava exagerando, sabe. Por ter feito aquela cara quando me viu chegando, eu quero dizer. Ainda que eu fosse a última pessoa no mundo que ele quisesse ver no momento. O que, considerando-se os últimos acontecimentos, era o mais provável.
Além disso, se alguém deveria estar bravo ali, esse alguém era eu, não era? Porque nós tínhamos um acordo, sabe. Um acordo que muito expressamente incluía uma cláusula. Uma cláusula que dizia que não haveria toque. E ele havia violado esta cláusula! Bom, com o meu consentimento, é claro. Mas mesmo assim.
Quer dizer, eu tinha beijado o cara, pelo amor de Deus! Eu tinha beijado Milo Scorpion! O homem que todo país (que todo o mundo praticamente) queria ter. O cara que tinha transado com a minha noiva!
E não era só o fato de ser o Milo Scorpion, o que já era bastante ruim. Eu havia beijado outra pessoa. Uma pessoa de quem eu não estava noivo. Eu havia beijado outro homem. E havia gostado. Mon Dieu, qual era o problema comigo?
E tudo bem que há pouco mais de uma semana eu tinha visto minha noiva fazendo muito mais do simplesmente beijar outra pessoa, mas mesmo assim. Porque isso não tinha realmente a ver com ela. Bom, pelo menos não diretamente. Tinha a ver a comigo mesmo. Comigo e com um cara com quem eu havia feito uma troca. Uma troca onde supostamente não haveria toque.
Então é claro que qualquer um iria concordar que eu tinha todos os motivos do mundo pra estar puto com ele, não é?
Só que estranhamente eu não estava.
Porque pela primeira vez eu me sentia algo além de um dicionário ambulante, sabe. Um cérebro flutuante. Igual naquele episódio de Jornada nas estrelas, lembram? Onde o capitão Kirk e sua equipe encontram uma raça de alienígenas que são tão evoluídos que nem precisam mais de corpos: são cérebros que flutuam em redomas de vidro. Que é como eu venho me sentindo a maior parte da minha vida, diga-se de passagem.
E não que fosse realmente ruim, na verdade. Me sentir assim, eu digo. Quer dizer, pelo menos eu não tinha que me incomodar com desejos e vontades.
Até a três dias atrás, é claro. Porque a três dias atrás teve, vocês sabem, aquela coisa toda do beijo e eu finalmente me lembrei que eu tinha sim um corpo, e que havia um objetivo real pra ele além de abrigar um cérebro. E, por mais incrível que pudesse parece, fora Milo Scorpion quem me fizera lembrar isso. Quem me fizera sentir inteiro novamente. Então não dava realmente pra eu ficar bravo com ele, dava? Mesmo ele tendo quebrado as regras e tudo o mais.
De qualquer forma, já tinha passado. Acontecera, e eu estava feliz porque aquele beijo provara que eu não estava morto por dentro como eu já estava começando a temer. E agora tinha acabado. Era um problema a menos. O que quer que tivesse me levado a permitir aquilo havia acabado e nós podíamos enfim voltar a ser os estranhos que éramos antes.
Já estava resolvido. Não ia acontecer de novo. Pronto, acabou.
–Camus? Ei, Camus?
Era a voz do Dite.
– Oui? – Eu fiz, piscando os olhos pra focalizá-los na mão que era balançada diante deles, enquanto eu era subitamente arrancado dos meus pensamentos.
– Você está bem? – ele continuou, baixando a mão.
Eu estava bem. Bom, a não ser pelo fato de ter que dividir a mesa com um cara cuja língua esteve enfiada na minha garganta, é claro.
E era exatamente isso que eu ia dizer pro Dite (obviamente que omitindo a última parte). Só que eu não tive oportunidade de falar nada.
Porque de alguma forma assim que eu levantei meus olhos eles simplesmente se fixaram no Milo Scorpion a minha frente, mais precisamente nos lábios dele, e estranhamente não conseguiam mais se desgrudar de lá.
– Camus? – O Dite chamou de novo, agora chacoalhando o meu braço.
– Ãh... eu? – eu respondi um tanto atordoado
– É, você. Você está bem? – ele perguntou - Você não disse uma palavra nos últimos 30 minutos! Isso é demais até pra você. Sério.
– Ah... sim. Eu estou bem. – eu respondi ainda um tanto desnorteado.
– Ótimo. - ele continuou – Então é melhor você começar a comer logo que o seu prato está esfriando.
Prato? Como assim prato? Eu não tinha pedido nenhum prato ainda, tinha?
Só que de fato, reparando melhor agora, havia realmente um belo filé ao curry esfriando bem abaixo do meu nariz. Quando exatamente a garçonete tinha me trazido aquilo?
– Eu pedi por você. – O Dite explicou. Provavelmente por causa da cara estúpida que eu devia estar fazendo. –Eu não sei se você sabe – ele continuou, enquanto eu provava o filé, que estava delicioso por sinal – mas o ser humano infelizmente ainda não é capaz de sobreviver a base de torrada e café preto, sabe. E você nem almoçou hoje, não foi?
Era verdade, eu não tinha almoçado. Só que se era esse o caso, de quem exatamente ele supunha que fosse a culpa? Porque se ele não tivesse ficado enrolando vinte minutos (vinte minutos, fala sério!) pra pentear o cabelo eu não teria chegado mais de uma hora atrasado na empresa e não precisaria ficar adiantando aquele monte de coisa, e certamente teria conseguido encontrar algum tempo livre pro almoço.
Realmente, desde que o meu carro resolveu simplesmente parar de funcionar na Segunda e eu me vi subitamente a mercê da boa vontade do Dite que vem sendo um suplício manter qualquer horário. Foram 25 minutos de atraso na Terça, 40 minutos e 3 segundos na Quarta, e o recorde: uma hora, 17 minutos e 50 segundos hoje. Totalizando a incrível marca de 2 horas, 35 minutos, e 53 segundos de atraso na semana. E isso só no trabalho, é claro. Sem contar os outros compromissos. Sinceramente, se algum dia vocês precisarem contar com a pontualidade do Afrodite, bem... simplesmente não contem.
– Lembrei! – Um dos gêmeos, o tal Kanon se eu não estava enganado, que vinha permanecendo em silencio até então, de repente exclamou alto, atraindo a atenção de todos na mesa.
– Eu sabia que já tinha visto seu nome em algum lugar! – ele disse olhando entusiasticamente pra mim. Que apenas o encarei de volta assustado.
Porque imaginem vocês, a sua sorte já não anda das melhores: seu irmão levou um tiro, sua noiva te traiu, seu carro quebrou, e você é obrigado a dividir a mesa com a última pessoa no mundo que você gostaria de ver. E então de repente um policial grita, do nada, que já viu seu nome em algum lugar. Você vai pensar o quê?
Bom, digamos apenas que 'páginas policiais' é uma idéia que não passou muito distante.
– Camus Lefevre Chevalier, é claro. – ele continuou entusiasmado. – Tinha uma reportagem sobre você na revista Money o mês passado, não tinha?
É, de fato, tinha sim. Por causa de uns fundos quaisquer que eu andei aplicando lá na empresa, e, bom, pelo fato de eu ser vice-presidente aos 25 anos de idade, é claro. Mas isso, como vocês sabem, não era realmente grande coisa, considerando-se que o meu pai era um dos donos e tudo.
– Sério? – O Milo falou surpreso, enquanto o Dite sorria esfuziantemente ao meu lado.
Sabe-se lá porque, ele realmente se orgulhava daquilo, sabe. Do fato de eu ter aparecido na Money, eu digo. E não adiantava eu tentar explicar pra ele como a coisa funcionava, porque ele simplesmente se recusava a assimilar. Aparentemente pra ele o que saía nas revistas era muito mais importante do que a veracidade dos fatos. Já que, segundo ele, era nela que as pessoas iriam acreditar. Bom, era uma lógica um tanto distorcida, com certeza, mas não totalmente errada se vocês forem parar pra pensar.
– Aliás, por que não tinha uma foto sua lá? – o Kanon continuou ainda se dirigindo a mim. – Se tivesse uma foto eu certamente teria te reconhecido bem mais rápido. E eles sempre colocam uma foto dos caras nesses casos, não colocam?
– É que eu não gosto muito de fotos. – eu respondi sinceramente.
Realmente, pra que fotos? Já não me bastavam os espelhos e o fato de eu ter de olhar pra eles três vezes por dia quando ia escovar os dentes? Pra que eu ia querer fotos também? E expostas em uma revista, ainda por cima.
De qualquer forma, por que exatamente um cara que tem Milo Scorpion como irmão ficaria surpreso por alguém ter aparecido em uma reportagem? Sinceramente, não fazia muito sentido, fazia?
É. Só que aparentemente ninguém ali se importava muito com o fato das coisas fazerem ou não um sentido. Porque quando eu fiz essa pergunta, o tal Kanon simplesmente me saiu com um:
– Você é fã do Milo, por acaso?
O quê obviamente me surpreendeu, é claro.
Quer dizer, 'fã do Milo'? Como assim 'fã do Milo'? De onde exatamente havia saído aquilo? Sério, qual era exatamente o problema com o raciocínio linear daquelas pessoas?
Então eu só tratei de responder bem enfaticamente:
– Não! Claro que não!
Porque eu também não ia querer que todos ficassem pensando que aquilo era mesmo verdade, não é? Que eu era mesmo fã do Milo, eu digo. Quer dizer, era só o que me faltava, o cara ficar achando que eu era fã dele agora, por favor!
Só que infelizmente parece que o Milo não gostou muito desse meu comentário, porque ele se virou na mesma hora pra mim, bastante indignado, dizendo:
– Como assim, 'claro que não'?
Tá, talvez eu tivesse sido um pouco enfático demais, admito. De qualquer forma eu tentei consertar:
– Ah... não é que você seja realmente ruim, - eu comecei - é só que eu não ligo muito pra filmes, sabe. E eu prefiro o cinema francês, de qualquer jeito. – O que não deixava de ser verdade.
– 'Realmente ruim'?– Ele ecoou com uma careta.
Tá, talvez aquilo também não tivesse soado muito bem.
– É, eu também sempre achei ele um pouco canastrão mesmo. – O Shaka entrou no assunto.
– Como é que é? – Ele exclamou ainda mais indignado, agora se dirigindo ao Shaka. Que não pareceu nem um pouco incomodado.
– É a verdade, oras. – Ele respondeu simplesmente dando de ombros.
– Pro seu governo – o Milo foi dizendo - eu fui indicado ao Óscar no ano passado, sabia?
– É. Mas não ganhou. – foi a vez do Saga se manifestar.
– Eu não acredito! Até você, Saga? – Ele se queixou, fazendo um biquinho absolutamente adorável, que fez com que todos na mesa explodissem em gargalhadas. Eu sorri, pensando que realmente gostava daquele lado dele, sabe. Era meio que... não sei, meigo, eu acho.
Deus meu, agora eu estava achando ele meigo. Eu estava realmente achando Milo Scorpion, meigo! Eu precisava de ajuda. Sério.
– Mas deve ser bom isso de poder realizar um sonho, não é? – O cara de cabelo lilás, que eu descobri chamar Mú (é, super esquisito, eu sei, mas parece que ele era tibetano, então, sei lá, talvez esse nome fosse comum no Tibet) e que era o tal namorado do Shaka, disse.
– Quer dizer, tanta gente que sonha em ser ator e não consegue. – ele continuou - Então eu fico imaginando que deve ser muito bom mesmo você poder viver do seu sonho, sabe. Mesmo que você não seja lá grande coisa no que escolheu.
– Ei, isso era pra ser um elogio? – O Milo comentou frustrado, e eu tive que me segurar pra não rir.
– Ah... mas ser ator não é o sonho dele. – O Kanon interveio.
– Não? – Eu perguntei
– Hum, hum... – o Milo respondeu, balançando a cabeça. - meu sonho é ter um restaurante.
– Um restaurante? – O Dite questionou, aparentemente bastante surpreso com a possibilidade de alguém ter sonhos que não envolvessem as capas das revistas.
Eu também estava surpreso, é claro. Só que diferente do Dite minha surpresa vinha do fato de que aquilo era completamente diferente da idéia que eu fazia dele, sabe. Bom, da idéia de qualquer pessoa, na verdade. Porque, fala sério, aquilo simplesmente ia contra todo o senso comum! Quer dizer, eu com certeza poderia listar dezenas de cozinheiros que sonhavam em ser um ator de sucesso, mas essa era certamente a primeira vez em que eu ouvia falar de uma ator de sucesso que queria ser cozinheiro.
– É. Um restaurante grego. – Ele respondeu, simplesmente, com o sorriso mais doce e lindo que eu já tinha visto.
O que, claro, acabou inevitavelmente atraindo minha atenção novamente para a boca dele. Aquela boca risonha, irritante, perfeita. Que eu queria bem longe da minha, por favor!
– Eu não sabia que você cozinhava. – o Shaka comentou.
– Claro que cozinho. – ele afirmou, pra minha desgraça, ainda sorrindo – Eu tive que aprender a me virar na cozinha desde cedo, sabe. Eu era chato pra comer quando criança, e se você não comia o que a minha mãe fazia... – ele encolheu os ombros. – Bem, as regras lá em casa eram: Se você não gostasse do que era servido, deveria cozinhar sua própria comida. Então aprendi a cozinhar.
Se antes eu estava surpreso, agora eu estava seriamente admirado. De verdade. Porque aquilo não era muito diferente de como as coisas funcionavam em casa, sabe. Quer dizer, se você não comesse o que o cozinheiro preparava, teria com certeza que arranjar sua própria comida. E mesmo assim todo meu conhecimento culinário se resumia às torradas e ao sanduíche de ovo que eu às vezes fazia quando tinha que trabalhar de madrugada
Realmente, se não fossem os serviços delivery, eu, o Dite e o Hyoga teríamos morrido de fome antes que algum de nós pensasse em pegar uma panela e ferver água pra fazer um macarrão.
E foi então que eu me dei conta de que tirando o fato do Milo ser um ator famoso e tudo o mais, eu realmente não sabia nada sobre ele.
– Camus? – O Dite chamou.
– Heim? - Eu respondi, olhando pra ele.
– O Carlo acabou de me mandar uma mensagem, - ele falou - parece que eu vou ter que ir buscar ele no aeroporto, tudo bem?
Carlo era o nome do Máscara. Carlo Di Angelis pra ser mais exato. Mas acho que só o Dite e a mãe dele chamavam ele assim. E como a gente estava perto do Natal, parece que ele tinha ido passar uns dias com a família na Itália ou algo assim, e estava voltando hoje. Aliás, era por isso que eu e o Dite tínhamos saído sozinhos dessa vez (a Saori desde a semana passada que estava no Japão por conta de uns problemas com a Fundação).
– Sem problema, Di, eu pego um táxi. – Eu respondi.
Porque o carro do Dite era um daqueles tipo esporte, sabe. Em que só tem lugar pra duas pessoas (eu realmente nunca compreendi muito bem por que eles fazem um carro tão caro é só colocam dois assentos, sério!). E como a gente morava fora de Manhattan, graças à fobia inexplicável do meu pai por apartamentos, não dava pra eu simplesmente dizer pro Dite me levar primeiro, antes de ir buscar o Máscara.
– Eu posso te dar uma carona, se você quiser. – O Shaka, que tinha escutado a conversa, ofereceu.
Só que o Shaka morava em East Village e nós estávamos no Soho. Era totalmente ridículo eu fazer ele me levar até Long Island pra depois ter que voltar tudo de novo. Então eu só disse:
– Tudo bem, Shaka, eu posso pegar um táxi. Sério.
Na verdade, tirando o fato de que eu provavelmente levaria umas duas horas pra conseguir um táxi com aquele tempo (é praticamente impossível conseguir um táxi em New York quando neva) eu até preferia assim. Porque então eu não precisaria ficar dependendo de ninguém, sabe. E poderia simplesmente inventar um compromisso qualquer nos próximos cinco minutos e ir embora. Que era o que eu vinha querendo fazer já há um bom tempo, diga-se de passagem. Desde que eu entrei ali e dei de cara com o Milo Scorpion pra ser mais exato.
Só que infelizmente ele não parecia estar tão desconfortável com a minha presença quanto eu com a dele (e por que ele estaria? Beijar era praticamente a profissão dele), porque pro meu completo desespero ele simplesmente se virou pro Shaka e disse:
– Tudo bem. Eu levo ele.
E foi assim que, após vários protestos veementes da minha parte, esmagadoramente rechaçados por todos os presentes, eu acabei vindo a me encontrar no banco do passageiro do carro de Milo Scorpion. Contra a minha vontade, é claro.
Então eu apenas prendi meu cinto de segurança, e prometi firmemente não pensar demais sobre aquilo, sabe. Sobre o fato do corpo dele estar apenas a uns 20, talvez 15, centímetros de distância do meu, e eu poder sentir nitidamente o calor que vinha dele. Ou sobre o cheiro de shampoo e perfume que se desprendia dele. O mesmo que eu senti na pele dele na Segunda Feira, diga-se de passagem.
Realmente, qual era o problema comigo? Por que eu não conseguia parar de pensar naquilo?
E, qual era a dificuldade de passar 30 minutos dentro de um carro com o Milo Scorpion, afinal? A maioria das pessoas no meu lugar estaria adorando a idéia, não estaria?
Bom, é claro que a maioria das pessoas também não tinha sido beijada por ele na Segunda Feira.
De qualquer forma, eu devia estar agradecido, não devia? Quer dizer, o cara estava saindo totalmente do caminho dele só pra me levar em casa. Eu não ia precisar enfrentar o metrô nem lutar com a má vontade patológica dos taxistas nova iorquinos. Eu estava alimentado e aquecido e havia uma banheira deliciosa pronta pra ser cheia com água quentinha, e quem sabe um pouco de espuma, me esperando a menos de 30 minutos de distância. O que mais uma pessoa podia querer?
Bem, um pouco de dignidade, talvez?
Porque depois daquele show no escritório dele na Segunda eu tinha certeza de que eu já não possuía mais dignidade alguma. Mon Dieu, eu havia beijado o cara com a mesma vontade de... de uma fã! Não era a toa que ele me tinha me olhado daquele jeito quando me viu entrando no restaurante. Ele devia estar com medo que eu atacasse ele de novo.
– Está tudo bem? – ele perguntou de repente - Você não disse uma palavra desde que entramos no carro.
Eu olhei pra ele. E pisquei incrédulo. Não deu pra evitar. Ele havia tirado o casaco e suas formas estavam bem definidas e evidentes por baixo do suéter de cashemere cinza e do jeans justo que ele estava usando.
Mesmo no final da noite e com os cabelos amassados pelo gorro de inverno, o cara ainda conseguia ser bonito. O que mais eu podia fazer?
– Ah... sim, está tudo bem. Você... está me levando pra minha casa? – Eu me vi respondendo estupidamente.
Foi a única coisa que eu consegui pensar em falar. E ainda assim em um tom meio ridículo.
– É claro que eu estou te levando pra sua casa. Pra onde mais eu estaria te levando?
É. Com certeza não pro apartamento dele pra tentar me seduzir como sempre acontecia com os heróis dos filmes dele, é claro. (Deus meu, no que eu estava pensando?)
De qualquer forma, eu também não era muito parecido com um herói de filme. Quer dizer, heróis de filmes nunca teriam noivas que traíssem eles com atores famosos, não é? E se tivessem certamente não iam sair por aí pedindo a estranhos que lhes ensinassem a seduzir pra que pudessem reconquistá-las. Não mesmo. Em vez disso tudo sempre acabava sendo um terrível mal entendido, e todo mundo vivia feliz pra sempre.
Bom, eu duvidava muito que eu tivesse entendido mal o que vi naquela festa Sábado passado.
– Olha, me desculpa, tá legal? – ele falou mais uma vez.
– Heim?... pelo quê? – eu perguntei, confuso.
Porque, sério, eu não fazia nem idéia do por que ele estava se desculpando. Certamente que não era por parecer tão bem em um jeans justo, era?
– Você sabe... aquilo, na Segunda. É por isso que você está com essa cara, não é?
– Ah... Por me manipular e humilhar? É isso que você está dizendo? - Eu lancei.
Porque, tudo bem, então eu tinha gostado do beijo e tudo, mas ele não precisava realmente saber disso, precisava? E ele tinha me manipulado mesmo, afinal.
– Ei, Não vamos tão longe. - exasperou-se ele. - Afinal, foi apenas um beijo, não foi?
Certo. Tinha sido. Ou pelo menos era isso que eu não parava de repetir pra mim mesmo desde aquele dia.
– Caramba! É sempre assim que você reage quando alguém te beija, é? – ele continuou - Deve ter sido difícil pras suas namoradas.
– Não sei, – eu comentei distraidamente. Porque nessa hora ele resolveu se inclinar pra aumentar o aquecimento do carro e eu tive uma visão privilegiada do contorno dos seus ombros sob o suéter - eu só tive uma.
– Uma o quê? Pessoa que te roubou um beijo? – Ele perguntou.
– Não, uma namorada. – Eu respondi, ainda tentando me concentrar em alguma outra coisa que não fosse a forma como a roupa dele se ajustava espetacularmente em algumas partes do seu corpo.
– O quê? – Ele exclamou espantado, pisando instintivamente no freio. E eu agradeci mentalmente por ter me lembrado de prender o cinto. - Aquela sua noiva? A sua noiva foi a sua única namorada? A vida toda?
– Bem... – eu respondi depois de ter me recuperado do tranco - é claro que eu já saí com outras pessoas antes, mas ela foi a única com quem eu... bem... você sabe.
– Espera aí, - ele me encarou parecendo verdadeiramente assustado - você está me dizendo que você só dormiu com uma única pessoa? Durante toda a sua vida?
Realmente, para um homem que tivera a quantidade de parceiros que Milo Scorpion tivera (e isso contando apenas desde quando havia ficado famoso) o meu total de amantes devia ser mesmo uma coisa assustadora.
Bom, mas e daí se ele estava assustado? Quer dizer, eu não queria ter nada com ele mesmo, queria? Eu estava noivo, lembram? E mesmo que eu não estivesse. Nunca que eu iria me envolver com alguém como o Milo Scorpion. O maior galinha de Hollywood. O cara que trocava de amantes como quem troca de roupa. O Sr. 'É Apenas Um Beijo, Qual O Problema?'. De jeito nenhum. Se eu tivesse que pensar em entrar em algum outro relacionamento seria com alguém que tivesse uma vida normal, sabe. Como um Advogado ou um contador.
Então eu só o encarei de volta e falei:
– É, exatamente isso. Uma única pessoa durante toda a minha vida
Realmente, como é que as coisas foram acabar desse jeito? Por que é que de repente eu estava ali, as 23:17 horas de uma Quinta Feira, discutindo a minha vida sexual com Milo Scorpion?
– Meu Deus! – ele exclamou, incrédulo - Só uma mulher a vida toda? Você é praticamente... – ele interrompeu subitamente a fala.
– Praticamente o quê? – Eu quis saber.
– Nada. – Ele falou, voltando a se concentrar na estrada. -Olha, parece que nós já estamos chegando.
– Praticamente o quê, Sr. Scorpion? – Eu repeti, agora mais firmemente.
– Bom, - ele disse, encolhendo os ombros com ar de constrangimento –praticamente virgem.
Nota:
1 - Luis Buñuel – Diretor considerado o mestre do Surrealismo, famoso por filmes como 'Esse Obscuro Objeto do Desejo' (Cet obscur objet du désir) (1977), 'A Bela da Tarde' (Belle de Jour) (1967), entre outros.
Oie,
Eis eu aqui de novo. Desculpem pela super demora dessa vez, é que eu estive viajando em Outubro (por mais de 20 dias, diga-se de passagem) e quando voltei estava com tudo acumulado na faculdade, trabalhos pra entregar, duas provas que eu tinha perdido pra fazer, enfim uma bagunça de vida pra organizar que me consumiu mais quase um mês.
De qualquer forma, aqui está um novo ch ^^, que era pra ser maior ainda mas eu olhei pro número de pg no word, que já estava em 10, e resolvi deixar o resto pro próximo ch u.u... que, claro, será na visão do Milo. Pelo menos no começo XD.
Na verdade, era pra eu ter feito um POV do Camus seguido por um do Milo já aqui, mas o Camus simplesmente me absorveu tanto que eu não consegui mais largar dele (acho que foi porque eu estive na França e acabei pensando muito no ruivinho o mês passado XD). Então fica pro ch que vem mesmo a visão do Milo, tá? ^^
E finalmente descobrimos as repostas pras perguntas que não queriam calar: 'Por onde anda a Saori?' e 'Por que o Camus anda se atrasando pra todos os compromissos?' Na verdade, as respostas sempre estiveram na minha cabeça, mas só agora eu consegui um gancho pra encaixá-las XD.
Então é isso aí, a Saori está no Japão, gente, e o Dite é o responsável pelo atrasos do Camus. Nada mais justo XD (ah, mas pro apartamento do Milo, não foi o Dite que levou não, ele foi de táxi mesmo. Infelizmente, táxis em NY são realmente dificílimos de se conseguir. Na verdade existem bastante deles, o problema é que eles nunca param pra vc entrar. Então é claro que o Camus tb levou um tempinho pra conseguir um e acabou se atrasando XDD)
E não estranhem, todo mundo sempre retrata o Milo como um zero a esquerda na cozinha e o Camus como o Sr Perfeito. Bem, eu quis mudar um pouco XD. Afinal os Gregos tb dão muita importância à uma boa mesa. E o Camus sempre me pareceu o tipo Workaholic que nunca tem tempo pra pisar em uma cozinha.
Ah, e quanto ao Camus chutar a Saori logo, como todo mundo vêm pedindo... bom, acho que ainda vai demorar um pouquinho. Afinal todas sabemos que ele é um serzinho muito consciente das suas responsabilidades, não é? E cabeça dura, é claro. XD
Por fim eu gostaria muito que vcs me dissessem o que acharam deste ch, e se ainda tem alguém aí lendo depois de tanto tempo. E desde já brigadão a todos aqueles que me deixaram Reviews o ch passado: Axly, Kamy Jaganshi, Maga do 4, Fernanda, Aila-chan, Aline Cristina, Lunnafianna, renatinha, medeia7, Hoshinechan e Vengeresse Lolita.
Muito obrigada meninas, eu fiquei tão feliz com a quantidade de reviews dessa vez. Sério mesmo. Continuem escrevendo sempre que possível ^^
Bjos
PS1: Respondendo as reviews que ainda não foram respondidas:
Fernanda: Ah, que bom que vc tá gostando tanto! Eu fico super feliz. De verdade. Brigadão pela força e por todos os elogios. E eu realmente me inspirei no filme "Casamento Grego" pra fazer a família do Milo, que legal que vc percebeu, é bem desse jeito mesmo ^^.
Quanto ao Saga e ao Kanon, bom, é claro que todo mundo sabe que eu gosto deles juntos, mas como essa fic não tem disclamer de incesto, não seria nem justo eu colocá-los como um casal declarado aqui, não é? Então eu vou simplesmente deixar a coisa em aberto pra dar liberdade de cada um poder pensar o que quiser. Quem entender que eles estão juntos, ótimo. Quem preferir achar que eles tem uma namorada que não foi mencionada, ou que eles ainda não conheceram, bom tb.
E, bom, eu fico super feliz de vc ter gostado tanto da fic que está até pensando em ler a outra, é claro. Super feliz mesmo. Mas pra não correr o risco de te decepcionar eu já advirto que os estilos das fics são beem diferentes. Essa é tipo uma comédia romântica moderna, aquela está mais pra um drama épico. E nela os gêmeos são um casal mesmo.
E aí está sua resposta de 'por onde anda a Saori?' não é? Acho que muita gente estava se perguntando isso, mas eu simplesmente ainda não tinha conseguido encontrar um gancho pra dar a informação. Bom, até que enfim eu consegui um ^^
Por fim, brigadão mais uma vez pela review, e continue escrevendo sempre, vc não 'enche o saco' de jeito nenhum ^^
Bjos
Aline Cristina: Puxa, que bom que vc está gostando, e, lógico, que bom que vc me escreveu pra contar isso também. Fiquei muito feliz em saber que mais gente lê e gosta dessa história ^^. E aí está mais um ch, espero que vc continue gostando tanto quanto dos outros e, se puder, que continue mandando reviews pra dizer o que está achando ^^
Bjos
Renatinha: Oba, mais uma review nova! Que bom, que bom mesmo q eu vc está gostando tanto. Espero que continue acompanhando e, se puder, me mande mais vezes sua opinião sobre a história ^^
Bjos
PS2: O nome Carlo Di Angelis, é de autoria da Pipe. Pipe, eu não te conheço mas desde já te parabenizo pela excelente criação, eu prometo usá-la com cuidado, respeito e carinho. Bjos
PS3: Créditos devidos: À Pipe e à Meg Cabot mais uma vez. Acho que essa história tá virando um mix dos dois livros XD
PS4: Estou entrando em provas finais na semana que vem, então o próximo ch só nas férias (que no meu caso começam só no dia 16), tá? Aliás, eu prometo compensar as leitoras das minhas duas fics nesse período ^^
