Regulus o fitava com ferocidade. Remus sentia seu olhar pesar nele, preferiu não encará-lo, apenas passou mais uma página do livro que estava lendo, na verdade fingindo ler, só tinha que esperar Sirius voltar para poder sair daquela biblioteca. Regulus estava ali há dez minutos, encarando-o. Arrependeu-se por não ter ido procurar pelo livro no lugar de Sirius.

Virou mais uma página.

O rapaz não sabia exatamente o motivo da raiva de Regulus. Ou ele descobrira que ele era o culpado pelos ferimentos de Marlene ou que os dois estavam se envolvendo. Essa era a melhor das hipóteses. Na pior, Regulus já saberia das duas coisas.

Remus ouviu passos apressados e quando olhou para o outro canto da biblioteca, vira Sirius andando até ele não só com um, mas no mínimo cinco livros grossos. O amigo fingiu não ter visto o irmão e colocou os livros sobre a mesa em que Remus estava.

- Foi mal a demora, peguei esses aqui para o Peter, a dificuldade que ele tem em poções vai acabar de uma vez agora. – Sirius sorriu.

- Entendi. Vamos logo, sim? – Remus levantou, colocou a mochila nas costas e pegou alguns livros da pilha que Sirius trouxera.

Antes que Sirius terminasse de pegar os livros, Regulus falou num tom de deboche:

- Péssima escolha você tem para amigos, irmão.

- Vamos embora, ignore isso. – Pediu Remus baixo.

Sirius olhou para o irmão e então para Remus, respirou fundo e pegou o último livro que faltava. Os dois começaram a andar. Remus um tanto aliviado.

- Mamãe ficará tão desgostosa ao saber o tipo de gente com quem você anda. – Disse Regulus com a voz arrastada, cheia de rancor.

Antes mesmo que Remus pudesse pedir para que Sirius ignorasse mais uma vez, o amigo pegou o livro que estava no topo, virou-se rapidamente e o jogo contra o irmão. Regulus claramente não esperava por aquilo, o livro atingiu o rapaz no peito, o baque foi surdo quando o livro atingiu o chão.

Sirius foi até o irmão, enfurecido, muito mais do que Regulus estava com Remus. Ele não o culpou quando viu Regulus dar alguns passos para trás, Sirius estava assustador. Ele encarou o irmão por alguns segundos, abaixou-se para pegar o livro e falou baixo, de modo que Remus escutara com dificuldade.

- Fique longe dele, não fale nada contra ele. Se eu souber que você andou espalhando boatos por aí – Sirius fez uma pausa. – Acho que não tenho que continuar a frase, não é mesmo?

- Vamos, Sirius. – Chamou Remus, calmamente.

Com a hesitação de Sirius, o rapaz andou até ele e colocou a mão em seu ombro, olhando seriamente para Regulus.

- Vamos. – Repetiu.

E eles foram. Andaram calmamente até a saída da biblioteca, em silêncio. Remus sentia que o outro estava muito aborrecido e sabia que quando ele estava assim não adiantava falar nada. Antes de adentrarem o Salão Comunal Sirius o segurou pelo braço como um sinal para que ele parasse.

- Me desculpe, pelo o que ele disse. – Ele parecia extremamente envergonhado e Remus sabia que não era pelo pedido de desculpas e sim pelo o que o irmão fizera. – Se eu pudesse escolher a minha família...

- Tudo bem, Sirius. – Interrompeu Remus. – Sério. Esquece isso.

- Está certo. – Falou ele. – Vamos encontrar com a Marlene agora? Ela já deve estar maluca atrás de você.

Remus apenas riu e juntos, eles foram para o Salão Comunal. Ele não percebera o quanto estava sentindo falta de Marlene até o momento em que estivera que esperar por ela. Encontraram com James e Peter. Sirius contara rapidamente o que acontecera na biblioteca, e Remus agradecera mentalmente por James não estar lá também, pois a reação dele fora exatamente igual à de Sirius. Após alguns minutos Mary aparecera para dizer que a amiga logo estaria descendo e que era para ele esperá-la.

Quando menos esperou, ela apareceu descendo pelas escadas.

O abraço que dera nela foi tão forte que a tirou do chão, mas logo lembrou-se dos ferimentos da garota, soltou-a devagar. E sorriu. E ela sorriu de volta. Foram interrompidos por seus amigos, lembrando-os que ambos precisavam comer e todas aquelas coisas. Ele segurou a mão dela pelas pontas dos dedos, discretamente. Mary e Emmeline desceram com os dois e os amigos. Remus e Marlene desciam em silêncio enquanto os amigos conversavam sobre qualquer coisa.

Quando Remus iria abrir a boca para falar com ela, mais uma vez Regulus aparecera à sua frente. Ele sentira Marlene apertar sua mão, olhou de relance para Sirius e vira sua mão ir para o bolso da calça em que ele guardava a varinha, em questão de segundos Regulus estava gritando e Marlene respondia da mesma forma. James e Sirius estavam prestes à atacar quando Regulus investiu contra Remus.

A confusão já não podia ser evitada.

Remus tentava se desvencilhar de Regulus, mas Marlene estava perto demais e ele não queria fazer qualquer movimento que a machucasse. Por fim, Black o soltou depois de Marlene gritar que ele a estava machucando. Mais rápido do que qualquer um, mais rápido e eficaz que um feitiço, James socou Regulus.

E ele caiu inconsciente.

Definitivamente aquele não era o dia de Regulus. Atingido pela segunda vez de surpresa, o rapaz caíra no chão. Remus queria poder tê-lo socado também, afinal não era tão complacente quanto parecia. Marlene abaixou-se para ajudá-lo. Ele queria puxá-la dali, queria dizer que ele não merecia nenhuma preocupação dela. Mas apenas observou.

- James! – Repreendeu Marlene.

- O quê? – Perguntou ele. – Esse verme mereceu, ainda mais depois do que aconteceu mais cedo...

- Mais cedo? – Perguntou Mary.

- Esquece. – Falou Remus.

Ela não insistiu para saber naquele momento, mas com certeza mais tarde iria querer saber. Marlene chamava por Regulus e ele por um tempo permaneceu inconsciente.

- Quem sabe com mais um ele não acorde? – Falou James, sorrindo com o canto dos lábios.

- Eu vou sair daqui, senão eu mesmo dou o que ele merece. – Falou Sirius e voltou por aonde veio.

Marlene e Regulus trocaram algumas palavras, Remus estava tão atordoado que não prestara atenção na conversa, sentia-se exausto, ainda não estava totalmente recuperado de sua última lua cheia.

- Eu não acredito que me trocou por esse cara. – Regulus disse ainda caído no chão.

E Marlene respondera que ele já tivera a chance dele e que já conversaram sobre aquilo, colocando um ponto final naquela conversa. Lupin não entendera bem o que aquilo queria dizer, não achava certo estar ouvindo aquela conversa, apenas desviou o olhar e viu que os amigos não sabiam também, se ficavam ali ou não. Apenas quando Marlene levantou e foi embora que eles se entreolharam.

- Eu vou atrás dela. – Falou Remus.

- Não Lupin, deixa que eu vou... Acho melhor. – Emmeline falou. E então seguiu pelo caminho que a amiga fizera.

- Bem, vamos comer cara. – Falou James, ignorando Regulus.

Os garotos e Mary seguiram sem trocar muitas palavras até o Grande Salão. Lupin mal conseguia colocar algo para dentro, a comida não tinha gosto de nada e o que os amigos diziam não faziam sentido porque não os ouvia de verdade. Estava pensando em Marlene e em como em um minuto tudo parecia bem e em outro, ele já não sabia mais de nada. Achava que deveria ir atrás dela, era necessário que os dois conversassem, queria ouvir de Marlene tudo o que ela estava sentindo.

Quando Emmeline apareceu dizendo que Marlene não quis conversar com ela, ele resolvera que tinha de ir atrás dela. Mesmo que ela o mandasse ir embora, ele tinha que tentar. Saiu andando sem saber exatamente para onde ir. Onde iria encontrá-la naquele castelo imenso.

Mas seus passos sabiam exatamente por onde andar. Estava perto do lugar favorito de Marlene e só agora percebera, estava chegando à Torre de Astronomia. Ele parou uns instantes, pensando no que falaria para ela, em como se comportaria. Ela tinha o direito de querer ficar sozinha, mas ele não conseguia fazer isso. A preocupação era maior.

Chegou mais perto e notou que a porta da sala estava entreaberta, achou estranho, mas continuou andando, sem fazer barulho algum enquanto caminhava até lá. Parou perto da porta, antes de entrar por completo, deu uma olhada pela sala. E o que viu fez seu estômago revirar.

O seus olhos deveriam estar enganados. Aquela cena não era real. Piscou algumas vezes, mas para seu azar, a cena não sumiu. Eles dois continuavam ali, seus lábios agora estavam separados e conversavam sobre alguma coisa, ele sorria, como se estivesse satisfeito com algo.

Remus não aguentou mais ver aquela cena, saiu de lá silenciosamente. Completamente confuso. Não sabia o que pensar sobre Marlene McKinnon, não entendia o porquê daquela situação. Eles não tinham nada oficialmente, não namoravam, nem sequer conversaram sobre os beijos trocados. Mas ele sentia-se traído, afinal, ela confessara que gostava dele, lá naquele pátio... Onde ele a consolara, onde deram o primeiro beijo.

O rapaz agora corria pelos corredores desertos de Hogwarts. Seus pensamentos à mil. Ela não poderia ser mentirosa daquela forma... Mas por que diabos ela estava beijando Regulus Black na sala de Astronomia? Ele jamais iria saber, porque jamais iria perguntar. Sentia-se extremamente idiota por estar daquele jeito. Eles não tinham nada! Ele deveria parar de agir como se estivessem juntos. Eles não estavam e nunca iriam ficar juntos.

Lupin estava decidido.

Se ela estava tão indecisa, ele escolheria por ela. Deixaria o caminho livre de uma vez para Regulus e seguiria a sua vida. É melhor assim – dizia para si mesmo – Seria loucura se envolver com alguém, sendo o que era. Quando entrou no seu dormitório encontrou seus três amigos, à sua espera. Sabia que teria que contar a eles. Então, resolvera fazer logo.

Ao fim da história não falaram nada.

Não acreditaram no que ouviram. Lupin deu de ombros e falou que precisava dormir, o que não era mentira, mas sabia que não iria dormir tão cedo naquela noite. Os amigos apenas o deixaram se afundar na cama.

E então ele deitou e esperou que o cansaço vencesse os seus pensamentos.