Disclaimer: Os personagens de Yu Yu Hakusho não me pertencem, esta fic é a tradução da original The Crystal Heart em inglês escrita pela Dragonflyr, esta tradução não tem fins lucrativos.
As histórias originais podem ser encontradas aqui:
www . fanfiction . net /s/2121654/1/The_Crystal_Heart
www . fanfiction . net /s/2569689/1/O_Coracao_de_Cristal
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CAPÍTULO 05 – Culpa
"Sim, Hiei definitivamente esteve aqui," Koenma disse mais para si mesmo, sem tirar seus olhos do fogo verde que consumia a floresta em sua TV.
"M-mas, Senhor," balbuciou Jorge, "o fogo produzido por Hiei não é violeta?"
Koenma suspirou, sentando-se em sua poltrona, ainda fitando a tela. "Isto é verdade, Ogro, mas como você já deveria saber, o reiki e o youki estão diretamente conectados ao sentimento das pessoas. Por exemplo, quando os poderes de Yusuke ficaram inacessíveis por um breve período durante o Torneio das Trevas. Algumas vezes, as emoções do indivíduo podem estar tão… poderíamos dizer "fora de sintoma" que os comprimentos de onda são rompidos a ponto de a cor do ataque ou mesmo o ataque em si mudarem drasticamente.
"Então… Hiei está sob algum tipo de stress emocional?" Jorge questionou, incerto se havia compreendido bem a explicação.
"Sim, Ogro, e pelo que parece é bastante severo." Koenma inclinou-se novamente, observando melhor as chamas verdes. "Da forma como os acontecimentos estão se desenvolvendo… eu diria que Hiei está perigosamente perturbado e vivenciando uma profunda depressão."
"Ele está sentindo tudo isso? Por que ele estaria assim?" Jorge perguntou em voz alta.
"Isso é o que todos gostaríamos de saber," Koenma respondeu solenemente.
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Hiei finalmente parou ao chegar a uma caverna ampla. Após incendiar a floresta começou a correr. Não sabia o motivo nem o destino, apenas sentia a urgência de fugir para o mais longe possível. A caverna era espaçosa e parecia abandonada. Hiei permaneceu agachado na entrada da caverna por algum tempo, ofegante. A falta de sono deixara-o quase sem energia, que foi quase toda usada para queimar a floresta. No entanto, o que mais lhe incomodava era a cor do fogo. Por que verde?
Afastando esse pensamento de sua mente, Hiei entrou na caverna assim que um raio de luz cortou o céu escuro do Makai e pesadas gotas de chuva começaram a cair. Ele sentou-se no fundo da caverna, no canto mais escuro. A entrada era apenas um ponto de luz distante. Não se importava, ele podia ver perfeitamente no escuro e, além disso, ele não queria estar em um lugar iluminado. Colocou a mão no bolso do caso, alcançando o coração, retirou-o e ficou admirando sua superfície polida por alguns minutos.
"Por quê?" ele finalmente perguntou. "Esta é a punição por ter te matado? Ser condenado eternamente a ver você nos meus sonhos e te perder quando acordo? Ou isto é um pesadelo e o outro mundo é o real?" Hiei ficou andando pela caverna ainda admirando o coração. Finalmente parou e guardou o coração no bolso. Ele não suportaria vê-lo por mais um minuto. Era uma constante lembrança do amor que ele havia tido em suas mãos e que jogara fora de maneira tão descuidada.
Seus punhos se fecharam enquanto raiva e ódio cresciam em seu interior por ter sido tão estúpido. Ele se colocara naquele lugar. Seu destino de tormentas havia sido construído por ninguém mais além dele. Ele estava pronto para aceitar isso agora. Ele estava pronto para aceitar a culpa, e parar de fingir que Mukuro ou mesmo Kurama era os responsáveis. Ele era Hiei, a Criança Maldita, estúpido demais para reconhecer seus verdadeiros sentimentos antes que fosse tarde demais.
"Baka!" rosnou para si mesmo, levantando-se e acertando um soco na parede da caverna, que afundou no local onde foi atingida pelo golpe, e o sangue começou a gotejar de seus dedos quebrados, mas ele deu mais um golpe com a outra mão, formando outro buraco e espalhando mais sangue.
"Baka! Baka! Baka! Baka! Baka!", ele gritava para si próprio enquanto prosseguia com os golpes na parede sólida, esmagando-a pouco a pouco, seus braços em movimentos tão rápidos que mesmo os olhos treinados de Yusuke teriam dificuldade para segui-los.
"BAKA!" Com um grito final ele desferiu um último golpe contra a parede, e continuou parado ali, ofegante. Tudo ficou quieto por um instante, o único som na caverna vinha da respiração laboriosa de Hiei. Então houve um estrondo sobre ele, fazendo-o olhar para cima. Ele imediatamente entendeu o que acontecera, mas suas energias estavam esgotadas que ele não teve forças para evitar a tragédia. Seu ataque à parede enfraqueceu o suporte à base da caverna e ele tinha apenas segundos antes que as pedras ruíssem sobre ele. Mas ele não conseguia se mover. Havia perdido muita energia, primeiro com o fogo na floresta, então com a corrida até a caverna e finalmente destruindo a parede. Ele não tinha energia para dar um simples passo humano, muito menos para invocar sua velocidade normal e sair dali.
Com um suspiro resignado, ele baixou a cabeça e fechou os olhos, uma das mãos alcançando o Coração de Cristal em seu bolso. "Kurama…" ele sussurrou enquanto o teto da caverna desabava sobre ele e em instantes tudo se apagou.
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"Hiei!" Hiei foi trazido novamente à consciência pela voz chamando seu nome e pelo seu braço sendo sacudido de maneira brusca.
"Hiei, por favor acorde! Hiei!" O coração de Hiei pulou para sua garganta. Ele reconheceu aquela voz.
Seus olhos se abriram e ele sentou-se de súbito, quase colidindo com a face preocupada do kitsune que estava acima dele. Por sorte, Kurama desviou seu rosto a tempo de evitar que suas frontes se chocassem.
"Hiei!" Kurama chorou em alívio, sufocando Hiei em um abraço apertado. Hiei apenas ficou olhando para a camisa de Kurama.
Não estava acontecendo novamente. Não podia. Ele não precisava disso para confundi-lo ainda mais. Ele já estava convencido que este era o sonho e a outra realidade era a verdadeira, mas estava de volta... sentindo sua raposa contra si… aspirando seu aroma único… Não podia ser um sonho. Não podia.
"Eu estava tão preocupado, Hiei," Kurama sussurrou, aparentemente percebendo que Hiei não repondia devido ao choque pelo qual seu amado passara no pesadelo. "Você começou a gritar e se debater durante o sono, e então você parou de se mover e não acordava não importava o que eu fizesse."
Com essas palavras Hiei sentiu uma dor fina em sua bochecha e tocou-a para sentir melhor. Não se pode sentir dor em um sonho… pode? Não. Então não era um sonho, certo? Ele não sabia. Ele continuava sem saber.
Kurama percebeu o movimento do pequeno demônio e viu Hiei correr os dedos sobre a bochecha avermelhada.
Kurama estremeceu, suas bochechas corando fortemente.
"Gomen nasai, Hiei," Kurama desculpou-se suavemente, gentilmente removendo a mão de Hiei de sua bochecha e delicadamente acariciando a marca vermelha com o dorso de sua própria mão. "Você… você me assustou. Você simplesmente não acordava. Gomen nasai." Kurama inclinou-se, pressionando um beijo leve na bochecha de Hiei.
Os olhos de Hiei se abriram em surpresa, mas não em aversão como havia feito antes, no quarto da raposa no dia de sua morte naquela realidade perturbadora. Kurama estava preocupado com ele. Este pensamento aqueceu Hiei de uma maneira totalmente estranha para ela. Até aquele momento, tudo o que ele experimentara do amor havia sido a dor da perda quando o amado era tomado dele. Este sentimento quente… era esta sensação que o amor deveria causar nas pessoas? Lágrimas começaram a correr por sua face novamente e Kurama afastou-se em surpresa.
"Hiei?" o ruivo questionou docemente. Ao invés de responder, Hiei inclinou-se e beijou-o nos lábios. Ele esperava que a raposa se afastasse, mas para sua grande surpresa sentiu Kurama corresponder ao seu beijo, e depois de um tempo percebeu a língua dele percorrendo seus lábios pedindo permissão para entrar em sua boca. Hiei estava mais que satisfeito em consentir e logo sua mente estava perdida em um turbilhão de êxtase e incredulidade quando a língua morna de Kurama percorreu sua boca sem perder um único espaço.
"Kurama…" Hiei suspirou quando eles finalmente pararam buscando ar, descansando sua cabeça no peito do ruivo e se obrigando a não iniciar outra crise de choro como acontecera antes. "Gomen nasai. Eu sinto muito," Hiei sussurou com a voz entrecortada.
"Sente muito? Pelo quê?" Kurama perguntou, tentando se afastar o suficiente para ver a face de Hiei. Mas Hiei segurava-se nele com tanta força que o seu rosto permanecia escondido sobre o peito da raposa.
"Por ser tão estúpido. Por não perceber antes que fosse tarde demais. Eu sinto muito, sinto muito! Foi minha culpa, tudo minha culpa!" A voz de Hiei estava partida com a emoção e ele finalmente parou de amaldiçoar a si mesmo por ser tão fraco. Kurama apenas fitou com olhos arregalados o pequeno demônio agarrado a ele. Hiei estava sendo totalmente incoerente e nada do que dizia fazia o menor sentido, mas o pequeno estava mortificado devido a algo que acreditava ter feito, e seja o que fosse era algo macabro, e desafortunadamente parecia ter sido culpa dele.
"Hiei," Kurama tentou tranquilizá-lo, "nada é culpa sua."
"É sim!" Hiei choramingou, finalmente se afastando, seus olhos voltados para os do ruivo. Kurama arfou por um momento mas conseguiu controlar-se. Hiei parecia… perdido. Seus olhos brilhavam com lágrimas não derramadas e ele tinha uma terrível expressão de dor em sua face. "Eu sou o único responsável por tudo. Ninguém mais. Só eu! Tudo minha culpa! Não é culpa de Mukuro ou sua, é minha! Minha culpa! Minha culpa…" desviou o olhar para baixo e cerrou os punhos, seus ombros tremendo enquanto ele fechava seus olhos injetados pelas lágrimas, forçando-se a não chorar.
"Hiei…" Kurama não sabia com reagir. Sobre o que Hiei estava falando? Então um súbito pernsamento lhe ocorreu e se perguntou porque não pensara nisso antes. "Hiei, você está falando sobre o pesadelo que teve mais cedo? O pesadelo voltou?"
Hiei vociferou numa risada ensadecida que mais parecia um soluço. "O que eu não daria para isto tudo ser apenas um pesadelo...," sussurrou mais para si mesmo.
"É um pesadelo, Hiei," Kurama tentou acalmá-lo mas Hiei apenas sacudiu a cabeça.
"Você não compreende. É tão real, tanto como a realidade em que estamos. Eu posso sentir. Eu sinto tudo. A dor, o tormento, a culpa. Tudo! É tão real, incrivelmente real. Quando eu estou lá, eu tenho a certeza que é real e aqui onde estamos é apenas um estúpido sonho otimista criado pela minha mente para me fazer sentir melhor. Mas quando estou aqui, eu sinto exatamente o contrário. Estou certo de que este é o mundo real, aqui com você, e o outro é apenas, como você disse, um terrível pesadelo. É tão difícil de falar, eu não consigo!" Com estas últimas palavras Hiei perdeu a luta contra suas lágrimas e elas rolaram em cascatas por sua face, acrescentando mais joias de lágrimas à pilha que se formara na sua última crise de choro.
Kurama apenas o fitou desconcertado. Mais uma vez ele entedera apenas metade do que seu amor lhe dissera e agora estava mais perto do limiar da loucura do que jamais estivera antes. O que Hiei dizia era verdade? Ele perdera tão severamente sua sanidade que não percebia a diferença entre a realidade e um sonho?
"Hiei," Kurama iniciou, estendendo a mão para tocá-lo, mas Hiei saltou da cama parando ao lado dela.
"Não me toque!" Hiei implorou. Sua expressão suavizou e ele olhou para o chão. "Por favor… toda vez que você me toca apenas torna mais difícil sobreviver quando eu volto para… aquele… pesadelo ou que quer que seja aquele inferno. Sempre que você tenta me confortar e me faz acreditar que aqui está a realidade, apenas faz com que eu me odeie ainda mais intensamente quando eu retorno para aquele lugar em que você não está comigo. Por favor, Kurama, apenas pare. Eu te imploro."
"Hiei…" Kurama temia pela sanidade de seu amigo agora. O que acontecera com Hiei? O que estava causando isso? Ele levantou-se da cama e tentou alcançar o amigo novamente, mas Hiei recuou.
"Por favor…" Hiei sussurou com a voz rouca, jóias de lágrima espalhando-se pelo carpete.
"Hiei, deixe-me ajudá-lo," Kurama suplicou, dando um passo em direção ao meio-Koorime. Hiei balançou a cabeça, incapaz de falar, mais lágrimas caindo. Ele continuou andando para trás. Kurama percebeu que Hiei estava indo de encontro à sua estante e logo alarmes dispararam em sua mente. Não se lembrava, mas havia algo importante sobre a estante que ele se esquecera com a chegada de Hiei pela manhã, algo perigoso. Olhando de relance, ele viu. A planta! Kurama estava aguando um vaso de planta que deixara em cima da estante quando Hiei chegara encharcado e com frio da chuva. Na pressa para acolher o pequeno demônio, Kurama não guardara a planta adequadamente e agora o vaso de planta se projetava perigosamente na ponta da prateleira.
"Hiei!" Kurama gritou em aviso e avançou, tentando segurá-lo antes que se machucasse. Assustado, Hiei recuou ainda mais, esbarrando na estante. Exatamente como Kurama temera, o vaso caiu sobre a cabeça de Hiei. Hiei desfaleceu, vendo a face preocupada e embaçada de seu amor até que a inconsciência o levasse.
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Hiei abriu seus olhos lentamente, gemendo com a dor em sua cabeça. Esperava estar no quarto de Kurama, mas foi obrigado a encontrar uma realidade bem mais desagradável quando olhou a si mesmo soterrado sob uma caverna semi-destruída.
"Não… não de novo," murmurou, impossibilitado de se mexer. Tudo doía e ele estava tão fraco. Por que as coisas tinham que ser desse jeito? O que ele fez para merecer isto? Então todos os detalhes do seu mundo voltaram à sua mente e ele lembrou exatamente por que merecia isto e muito mais. Ele murmurou algo pela terceira vez e fechou os olhos, tentando reunir forças para levantar as pedras que o soterravam. Ele tinha certeza de que se não descobrisse logo o que era a realidade sua mente iria mais longe do que a mente de Sensui sequer imaginara.
