Capítulo 6: Preocupações de uma Mãe

Na biblioteca da escola, alguns minutos depois do incidente entre Bruno e Leandro, Bruno parou de escrever, porque já lhe doía o braço.

"Fogo, dói-me o braço. Porque é que temos de transcrever isto tudo? Devias era tirar fotocópias." disse Bruno.

"Esse livro não pode ser fotocopiado. Regras da biblioteca, vá-se lá saber porquê." disse Leandro. "Vá, continua a escrever."

"Hunf, está bem, seu chato. Eu a pensar que os gays eram dóceis e afinal sais-me tu na rifa. És mais perigoso com esse teu cérebro a funcionar do que se fosses forte fisicamente."

"O perigo não está sempre naqueles que são mais fortes fisicamente." disse Leandro. "Fazes bem em aprender isso. E desculpa lá, mas tu és muito ignorante em termos da homossexualidade. Não sei se tens ideias preconcebidas porque acreditas em tudo o que te dizem ou se vais inventando coisas à medida que te passam pela cabeça."

"Ei! Estás a chamar-me ignorante?"

"Só agora é que percebeste? Eu sou um rapaz, tal como tu. Ok, temos certas diferenças, certíssimo, mas não julgues as pessoas sem as conheceres. Nem sei para que é que estou a perder o meu tempo a dizer-te isto, porque deve entrar-te por um ouvido e sair-te por outro, sem ficar nada nessa cabeça oca."

"Oca? Leandro, também não abuses. Senão, eu bato-te mesmo e depois já tens razões para gritar."

"E eu faço queixa de ti e digo que me bateste por seres homofóbico. Havia de dar um bom processo disciplinar."

Os dois entreolharam-se e depois abanaram a cabeça.

"Ok, já percebi que tenho de aprender a ser mais esperto que tu." disse Bruno.

"Ainda bem que percebeste. Agora, toca a escrever."

Para Além da Adolescência

Uma hora depois, na casa de Liliana, ela e Ivo já tinham recolhido toda a informação que precisavam e estavam a organizar tudo. Liliana ia dando sugestões, enquanto Ivo ia acenando afirmativamente a tudo o que ela dissesse.

"Ela é mesmo bonita. E agora está muito faladora e mais solta. Provavelmente é porque está na casa dela e está mais à vontade ou talvez porque agora nos conhecemos melhor e sente-se bem ao pé de mim. Era óptimo que fosse isso. Eu sinto-me mesmo bem ao pé dela. Quem me dera que ela gostasse de mim." pensou Ivo. "Mas tenho de ser paciente. Sei que se ela me conhecer melhor e se nos tornarmos mais próximos, haverá a possibilidade de podermos ficar juntos. Ela não parece importar-se por eu não ser branco como ela."

Por essa altura, Marisa entrou no quarto. Liliana parou de falar e olhou para a mãe.

"O que foi agora, mãe?" perguntou ela.

"Vim só dizer que o teu pai ligou e vem para casa mais cedo." disse Marisa. "Era bom se conseguissem terminar o trabalho antes dele chegar... ele quer que vamos jantar fora."

Liliana percebeu o significado das palavras da mãe e virou-se para Ivo.

"Ivo, vamos então dividir o trabalho, para fazermos no fim-de-semana e depois segunda-feira juntamos o que tivermos feito." disse Liliana. "Desculpa, mas o meu pai é um pouco rígido com as situações e se quer ir jantar fora, quando chegar a casa quer que eu e a minha mãe estejamos prontas para sair de imediato. Se estiveres aqui, há-de ficar aborrecido por ainda não estarmos prontas."

"Ah, claro, compreendo. Não tem problema."

Marisa saiu discretamente do quarto e pouco depois Ivo estava já de saída.

"Vemo-nos então segunda-feira." disse ele.

"Sim. Adeus." disse Liliana.

Ivo acenou-lhe e desceu no elevador, enquanto Liliana fechava a porta de casa. A sua mãe aproximou-se dela pouco depois.

"Fizeste bem em tê-lo finalmente mandado embora." disse ela.

"Mãe, o pai vem mesmo mais cedo?" perguntou Liliana.

"Vem. Ele ligou e hoje chega mais cedo. Claro que não devemos nada ir jantar fora, mas foi o que me ocorreu. Tudo sabes bem como o teu pai é. Se achas que eu sou preconceituosa, então sabes que ele é muito pior. E eu não disse nada à frente do rapaz, mas o teu pai, se o visse, não estava com meias medidas."

"Eu sei. Nem sei como é que eu, com vocês os dois a dar-me este tipo de educação, não saí racista."

"Eu não descrimino os negros... quando estão longe..."

"Vou para o meu quarto." disse Liliana, virando as costas.

Marisa abanou a cabeça.

"Pelo menos ele foi-se embora. Ainda bem." pensou ela.

Na biblioteca da escola, Bruno e Leandro tinham terminado de recolher informações e distribuído o trabalho, apesar de Bruno não estar muito contente por ter de fazer trabalhos no fim-de-semana.

"E espero que na segunda-feira tragas isso feito, Bruno." disse Leandro.

"Já sei, seu chato."

"Óptimo. Senão ainda posso beijar-te à frente de toda a gente e ficas falado por muito tempo." disse Leandro, sorrindo.

"Tu és mesmo perigoso. Bolas... pronto, adeus."

Bruno saiu rapidamente da biblioteca, enquanto Leandro continuava a sorrir.

"É super engraçado ver as reacções dele. Ao menos agora tenho uma arma para usar contra ele, se for preciso. O seu próprio sentido de orgulho e masculinidade é que o está a tramar, neste caso, a meu favor." pensou Leandro.

Para Além da Adolescência

Na tarde do dia seguinte, Regina foi até à casa de Amanda e ao chegar à morada que Amanda lhe tinha indicado, deparou-se com uma casa bastante grande, com um jardim enorme.

"Ena, não deve ser rica, senão não andava numa escola pública, mas os pais dela de certeza que não passam necessidades, nem são apenas de classe média." pensou Regina, tocando à campainha que havia ao lado do portão.

Pouco depois ouviu-se uma voz do outro lado, perguntando quem era. Regina disse o seu nome e segundos depois o portão estava a abrir-se. Caminhou até à porta da casa, que foi aberta por uma empregada vestida com um uniforme a rigor.

"Ena, até têm empregada e tudo. Que rica vida. Também queria viver assim." pensou Regina, enquanto a empregada a conduzia ao quarto de Amanda.

Ao chegarem lá, a empregada bateu à porta e a voz de Amanda mandou entrar. Regina e a empregada entraram no quarto e depois Amanda dispensou a empregada, enquanto Regina olhava à sua volta, para o quarto espaçoso e bem decorado, em tons dourados e rosa.

"Bolas, a tua família nada em dinheiro ou quê?" perguntou Regina. "Pensei que a casa por fora era grande, mas por dentro parece ainda maior e têm empregados e quartos bem decorados..."

"Não é para todos, Regina." disse Amanda, em tom superior. "Os meus pais são ambos médicos e muito trabalhadores e conhecidos. Não somos ricos, mas digamos que nos podemos dar a certos luxos."

"Vê-se. E não devem ser ricos porque gastam o dinheiro que têm nisto tudo. Só esses cortinados devem ter custado um dinheirão." disse Regina, olhando para os cortinados dourados.

"Ainda bem que aprecias a minha casa e a decoração do meu quarto, que diga-se de passagem, é linda, mas estamos aqui para trabalhar." disse Amanda, apontando para uma grande secretária, munida de um computador. "Vamos sentar-nos e começar a trabalhar."

Regina encolheu os ombros e ambas se sentaram nas cadeiras.

"Então vamos lá." disse Regina. "O que é que podemos usar para fazer o trabalho sobre a amizade?"

"É uma boa pergunta e seria mais fácil de responder à pergunta se eu me desse bem com a pessoa com quem estou a fazer o trabalho." disse Amanda.

"Não te dás bem comigo porque és, dizendo simplesmente, um bocado parva."

"O quê? Estás na minha casa! Não admito que me ofendas!" exclamou Amanda, furiosa.

"Se nos damos mal, a culpa é principalmente tua. Lembras-te que criticaste a minha maneira de vestir e ainda me chamaste prostituta? Acho que não é uma boa maneira de começar uma amizade com ninguém." disse Regina.

"Pois tu é que foste parva, a dizeres que eras a rapariga mais bonita da turma. Ora, tu andas assim vestida, toda decotada e tal, mas isso não quer dizer que sejas a mais bonita." disse Amanda, encarando Regina.

As duas ficaram a olhar uma para a outra, até que Regina encolheu os ombros.

"Pronto, talvez tenhas razão e eu tenha exagerado um pouco. Mas também não precisavas de ter dito aquilo sobre mim." disse Regina.

"Eu... ok. Ok, eu admito que exagerei também." disse Amanda.

Regina sorriu.

"Óptimo. Vês, não é assim tão difícil darmo-nos bem, pois não? Podemos pôr no nosso trabalho que a amizade não é algo sempre compatível com acordos de opinião. Por vezes até os amigos se zangam, mas é a capacidade de fazerem as pazes que os torna realmente amigos uns dos outros."

Amanda pareceu surpreendida e abanou a cabeça em assentimento.

"Agora falaste muito bem. Fiquei surpresa. Mas sim, podemos abordar isso também. E pronto, estou a ter a ideia de..."

Amanda e Regina começaram a trocar ideias e a apontá-las. Mais tarde, a empregada que tinha trazido Regina até ao quarto apareceu com uma bandeja com bolos, bolachas, sumo, chá, café e outras coisas para o lanche. Regina adorou os bolos.

"São óptimos!" exclamou ela. "São feitos aqui em casa ou comprados?"

"São feitos pela cozinheira." respondeu Amanda. "Ela tem um dom especial para os doces. Mas eu não como muitos. Não posso estar para aí a engordar."

"Ah, claro. Eu também só como doces de vez em quando. Tenho de me manter na linha porque senão lá vai a minha carreira futura."

Amanda olhou para a outra rapariga, hesitando. Até ao momento, estavam a conseguir conviver sem discutirem uma com a outra, o que já era um feito. Mas depois de hesitar mais um pouco, Amanda decidiu fazer a pergunta.

"Desculpa lá, mas porque raio é que tu queres ser actriz pornográfica?" perguntou ela.

"Há muitas razões, sabes? Mas se calhar a ti ia chocar-te falar disso."

"Sim, é melhor nem explicares." disse Amanda. "Esquece que eu fiz a pergunta. É só que essa profissão é tão pouco dignificante... ok, tenho de admitir que tu és bonita e podias fazer muito melhor. Não percebo porque é que te vais rebaixar a esse nível."

"Rebaixar? Eu não acho que a empresa dos filmes pornográficos seja algo mau, nem de que se deva ter vergonha. Não há pessoas que varrem ruas? Não há pessoas que recolhem o lixo? Não há pessoas que têm cafés? São coisas necessárias e, para algumas pessoas talvez não, mas para outras os filmes pornográficos são necessários."

"Só se for para tarados."

"Não. Imagina um casal a atravessar uma crise no casamento. Alugam um filme pornográfico e se calhar com o que vêm, até a chama da paixão volta. Imagina que o filme que tinham visto era comigo. Acho que me sentiria bem por ter sido uma das causas para o casal ter ultrapassado aquela crise. Isso ia fazer-me sentir bem."

Amanda ergueu uma sobrancelha.

"O quê? Agora estás a dizer que queres ser actriz pornográfica para ajudar os outros?"

"Não exactamente, mas se os filmes ajudarem, é bom."

"Pois, é que vais mesmo ganhar um prémio por serviços prestados." disse Amanda, sarcasticamente. "Além de que nunca vais saber, mesmo que o filme ajudasse o casal ou casais, que o filme os tinha ajudado."

"Ora, no filme vêm os nomes dos actores, certo? Pois o casal podia ficar tão agradecido que me podia escrever a agradecer por eu ter ajudado no casamento deles." disse Regina. "Mas pronto, é o que eu quero para o meu futuro."

"Eu acho que devias desistir dessa ideia. Podes fazer melhor e acho que essa indústria é uma coisa horrenda e que não te vai levar a lado nenhum. Ou pelo menos, a nenhum lado de jeito."

Regina abanou a cabeça, pensando que não valia a pena estar a argumentar com Amanda. Apesar de tudo, ficava contente por Amanda parecer estar a tentar dar-lhe bons conselhos.

"Falando em causas perdidas, Amanda, quando é que tu vais desistir de andares atrás do Ricardo?"

"Desistir? Porque é que eu devia de desistir dele?" perguntou Amanda.

"Ó Amanda, por favor. Ele não te liga nenhuma e é óbvio que gosta da Elisa."

"Eu posso conquistá-lo!" exclamou Amanda, levantando-se da cadeira onde estava sentada. "Ouviste? Posso conquistá-lo!"

Regina também se levantou.

"Ouve. Não estou a dizer nada para te magoar, acredita. Mas se tu dizes que eu posso fazer melhor na minha profissão e até podes ter razão, também tenho de te dizer que tu podes ter melhor que o Ricardo. Ele é bonito, sim. Simpático também. Mas não te ama. Tu consegues, de certeza, arranjar alguém que goste de ti."

"Mas eu gosto do Ricardo!"

"Sim, isso já eu sei. Mas ele não gosta de ti. Tens de aceitar isso e andares para a frente com a tua vida. Se ele começar a namorar com a Elisa, o que é que vais fazer?"

Amanda deixou-se ficar calada, sem saber o que responder.

"Vais fazer como as vilãs das novelas e tentar separá-los? O que é que vais ganhar com isso? Podes conseguir separá-los, mas o Ricardo vai continuar a não gostar de ti e estás a estragar a felicidade de outras pessoas."

"Eu sei que tens razão, mas não posso desistir assim." disse Amanda, numa voz magoada.

Regina nunca tinha ouvido Amanda falar com aquela vulnerabilidade.

"Eu sei que o Ricardo não gosta de mim, mas tenho esperança. Tenho fé que ele abra os olhos e me veja de maneira diferente, porque eu gosto dele desde o ano passado e não consigo esquecê-lo. Já tentei, mas não deu resultado."

"Tens de tentar com mais força." disse Regina. "Dedica-te a outras coisas para não pensares nele. Olha, aplica-te agora no clube de teatro. Conhece outros rapazes."

"Não é a mesma coisa... não posso envolver-me com outro qualquer só para esquecer o Ricardo."

"Não foi isso que eu disse."

Amanda começou a andar pelo quarto, enquanto Regina a seguia com o olhar.

"Porque é que eu não tenho sorte nenhuma?" perguntou Amanda. "Das vezes que eu namorei, os rapazes deixam-me sempre. Porquê? Eu sou bonita, tenho personalidade e quando estou numa relação, dedico-me ao máximo. O que é que eu estou a fazer mal?"

"Não te sei responder a isso. A meu ver, se estás a dar o teu melhor, não te podes culpar de nada. Se calhar os rapazes é que foram uns parvos em te deixarem."

"Há uns dois anos que nenhum se aproxima de mim. Bem, se calhar houve alguns que se aproximaram, mas entretanto apaixonei-me pelo Ricardo e não quis saber deles. Há imenso tempo que ninguém me beija, nem que sinto afecto nenhum. Até mesmo as amigas que tinha se afastaram. Tinhas razão quando disseste que não tenho amigas... bolas, sou uma desgraçada. Tenho os luxos em casa, mas no amor sou um zero à esquerda."

Regina aproximou-se de Amanda.

"Calma. Também não precisas de desesperar."

"Pois, para ti é fácil, porque os rapazes andam todos atrás de ti e não estás interessada em nenhum romance. Mas para mim não é. Nem sequer um beijo o Ricardo meu deu. Ninguém me beija há mais de um ano. Achas isso fácil?"

Antes que Amanda pudesse fazer mais alguma coisa, Regina agarrou-lhe a cara e beijou-a. Amanda arregalou os olhos e poucos segundos depois, Regina afastou-se.

"M-mas o que é que foi isto?" perguntou Amanda, em choque.

"Um beijo, ora. Estavas a queixar-te que ninguém te beijava, por isso eu beijei-te."

"Estás maluca?"

"Eu? Não. Fiz-te um favor."

"Eu queria um beijo do Ricardo ou de outro rapaz e não teu, Regina!" exclamou Amanda.

Regina encolheu os ombros.

"Desculpa, mas foi o que se pôde arranjar. Hum, nunca tinha beijado outra rapariga, mas olha que o beijo até não foi mau, heim?"

Amanda corou imenso e de seguida começou a tossir.

"Ai, que vergonha..." murmurou ela.

"Ei, pronto, querias um beijo e aí o tens. Não te preocupes que eu não vou andar para aí a dizer que te beijei." disse Regina. "Mas faz o favor de te recompor e deixar de ter pena de ti própria. Na escola pareces a dona do mundo e afinal não é nada assim. Tu é que tens realmente jeito para actriz, a fingir todos os dias que está tudo bem contigo."

"Eu... vamos continuar com o trabalho. E não me voltes a beijar!" exclamou Amanda.

Regina acenou afirmativamente e as duas voltaram ao trabalho. Amanda ia lançando olhares a Regina.

"Ela é maluca. Agora beijou-me." pensava Amanda. "Quer dizer, o beijo não foi mau, mas não estava à espera e ela é rapariga, ainda por cima. É o que dá dar-me com pessoas como ela... mas pronto, até foi simpática de me estar a aconselhar... o que é que tu estás a pensar, Amanda? A sentir simpatia pela tua inimiga? Mas... conhecendo-a agora melhor, beijos à parte, ela não é tão má como eu pensava..."

Algum tempo depois, Regina e Amanda terminaram de organizar as ideias para o trabalho. Dividiram o que cada uma iria fazer.

"Pronto, então se já está tudo, eu vou andando." disse Regina. "A tarde até foi interessante."

"Pois, foi uma maravilha." disse Amanda, sarcasticamente. "Nem penses em contar a ninguém que me beijaste."

"Já disse que não vou contar." disse Regina. "Está prometido. E afinal até nem discutimos muito. Até podemos vir a ser amigas."

"Isso já é esperar demais, não?"

"Acho que não, Amanda. Tu precisas de amigos e, se estiveres disposta a aceitar-me como eu sou, eu aceito-te como tu és e podemos ser amigas."

"Para já... contento-me em sermos colegas de escola... sem rancores. Não vou dizer mais mal de ti." disse Amanda.

"Ok, é um começo." disse Regina. "Também não direi mais mal de ti."

Regina caminhou até à porta do quarto.

"Vemo-nos na segunda-feira. Vê lá se pensas no teu futuro e deixas o Ricardo de lado. Adeus."

Regina saiu do quarto, fechando a porta atrás de si, enquanto Amanda suspirava.

"Pronto, no fundo ela não é má pessoa. Talvez... talvez seja remotamente possível virmos a ser amigas." pensou Amanda. "Nunca se sabe o que o futuro nos reserva."

Para Além da Adolescência

Enquanto isso, na Florista Maravilha, Eugénia estava a dar ordens a Irene, que já estava a começar a aprender melhor a trabalhar com flores, enquanto Elisa se ocupava de outro arranjo. Delfina entrou na florista, decidida a comprar uma planta para alegrar a sua casa.

Eugénia olhou quando ela entrou e ficou surpreendida de a ver. Aproximou-se de imediato.

"Delfina, é você?" perguntou Eugénia.

"Dona Eugénia. Olá. Há quanto tempo."

As duas mulheres cumprimentaram-se.

"Então, trabalha aqui?" perguntou Delfina.

"Não. A loja é minha." respondeu Eugénia. "Comprei-a há alguns anos."

Eugénia e Delfina tinham sido vizinhas há cerca de vinte e cinco anos atrás, mas depois tinham mudado ambas de casa e perdido o contacto.

"Muito bem. Comprou a loja." disse Delfina, de modo contemplativo.

"Então e a sua mãe, como é que ela vai? Da última vez que a vi, antes de me mudar, ainda viviam juntas." disse Eugénia.

"Ah, a minha mãe agora está num lar. Eu e os meus irmãos pusemo-la lá. Dava muito trabalho. Estava muito chata e era um bocado badalhoca, por isso livramo-nos dela. Eu nem gosto de ir ao lar. Aquilo é uma espelunca, mas pronto, não íamos gastar muito dinheiro em lares, quando ela deve estar quase com os pés para a cova, não é?" perguntou Delfina.

"Ah... pois... estou a ver." disse Eugénia. "Então e você, o que é que anda a fazer?"

"Eu? Hum... eu sou directora de uma escola." mentiu Delfina. "Mando naquilo tudo. É uma maravilha. Andam todos os alunos direitos como um fuso."

Elisa, que agora estava a ajudar Irene, levantou os olhos e reconheceu Delfina. Percebeu o que ela estava a dizer e que estava a mentir, mas encolheu os ombros e continuou com o seu trabalho. Aquilo não era da sua conta, por isso não tinha de se intrometer.

"Directora? Que maravilha. Então e casou-se?" perguntou Eugénia.

"Casei-me, mas divorciei-me alguns anos depois." respondeu Delfina, desta vez com a verdade. "O meu marido bebia muito e não deu para aguentar. Chegava a casa e havia sempre porrada."

"Credo. A Delfina era vítima de violência doméstica?"

"Eu? Não. Eu é que batia no meu marido, quando ele chegava a casa bêbado. Mas depois comecei a cansar-me, sabe? Sempre a dar-lhe porrada é bastante aborrecido. Acabei por o pôr na rua de vez e divorciei-me." respondeu Delfina. "Acho que agora o meu ex-marido é mendigo e vive debaixo duma ponte."

"Que interessante... bem, então veio cá para comprar algum arranjo? Alguma planta?"

Delfina explicou o que queria e Eugénia mostrou-lhes as plantas que tinha para venda. Delfina acabou por escolher uma delas.

"Pronto, então vou indo." disse Delfina.

"Adeus. E volte cá mais vezes, agora que sabe que eu estou aqui e tenho o meu negócio." disse Eugénia.

"Pois, claro que volto. Adeus."

Delfina foi-se embora rapidamente. Mal ela saiu, Eugénia deitou-lhe a língua de fora.

"Nunca gostei desta Delfina. Mentirosa até não poder mais. Directora de uma escola? Se ela é directora, eu sou a presidente da república. Espero que não volte a cá pôr os pés."

Enquanto Delfina ia a caminho de casa, também ia pensativa.

"Não sabia que aquela florista era da Eugénia. Nunca lá tinha entrado se tivesse sabido antes. A Eugénia está mesmo velha. Também deve ter quase sessenta anos. Nunca gostei dela. Era muito badalhoca, quando vivia na mesma rua que eu e a minha família, quando eu era mais jovem. Enfim, não planeio voltar a ver aquela carcaça velha."

Para Além da Adolescência

No Domingo à tarde, Elisa saiu da sua casa, com a sua máquina fotográfica pendurada ao pescoço como era costume e dirigiu-se à casa de Ricardo. Não foi difícil encontrá-la, pois ficava realmente perto da florista onde Elisa trabalhava. Era uma casa pequena, pintada de branco e com um jardim minúsculo. Elisa tocou à campainha e pouco depois Ricardo veio abrir-lhe a porta.

"Olá Elisa." disse ele, sorrindo. "Conseguiste encontrar a casa facilmente?"

"Ah, sim. Não tive problema nenhum em chegar aqui." respondeu Elisa.

"Entra."

Elisa entrou na casa e Ricardo fechou a porta atrás de si. Conduziu Elisa até à sala de estar. Em cima da mesa da sala estava já um livro que Ricardo tinha estado a estudar, sobre a poluição. Margarida, a mãe de Ricardo, estava sentada num sofá, a fazer renda. Ricardo tinha-lhe dito que era melhor não se cansar a fazer renda, mas a mãe tinha insistido que aquilo não lhe provocava qualquer cansaço.

"Mãe, a minha colega já chegou." disse Ricardo.

Margarida levantou os seus olhos da renda e sorriu a Elisa.

"Olá. Eu sou a mãe do Ricardo. " disse ela. "Sê bem vinda à nossa casa."

"Obrigada." disse Elisa.

"Eu estava já a ver algumas coisas sobre o nosso tema de trabalho." disse Ricardo, baixando de seguida a voz. "Olha, importas-te de fazermos o trabalho aqui? O meu quarto é um bocado pequeno. Sei que está aqui a minha mãe, mas..."

"Não tem problema nenhum." respondeu Elisa, prontamente.

Ricardo sorriu-lhe abertamente e Elisa corou um pouco. Os dois sentaram-se à mesa e Elisa tirou um outro livro da mochila que tinha trazido consigo.

"Trouxe aqui um livro que também tem informações sobre a poluição. Acho que podemos ver que tipos de poluição vamos tratar e depois dividimos o trabalho em duas partes iguais, uma para eu fazer e outra para tu fazeres." sugeriu Elisa.

"Parece-me bem." disse Ricardo. "Então, sobre tipos de poluição, temos por exemplo, a poluição do solo e a poluição hídrica."

"Sim, da terra e da água. Ah, temos a poluição sonora e a poluição atmosférica." disse Elisa. "Hum... aqui no livro fala que há outros tipos, mas não especifica."

"Falta a poluição térmica." disse Margarida, já agarrada novamente à sua renda. "Desculpem estar a meter-me, mas é para vos ajudar."

"Não tem mal nenhum." disse Elisa. "Hum... que mais?"

"Ah! Poluição visual." disse Ricardo, lembrando-se. "No outro dia passei por um cartaz mesmo feio que estava na rua. É claramente poluição visual."

Elisa acenou afirmativamente e escreveu poluição visual numa folha de papel.

"Não me lembro de mais nenhuma." disse Ricardo. "Bem, tenho no meu quarto o meu computador. Podemos ver na internet. Mas o meu computador é um bocado lento..."

"Olhem, podem pôr também a poluição luminosa." sugeriu Margarida.

"Poluição luminosa?" perguntou Elisa, confusa. "O que é isso?"

"Não sabes, querida? Então, a poluição luminosa, como o nome indica, é causada pela luz. Por exemplo, a luz das várias casas de uma cidade pode ser poluição luminosa, porque pode alterar os ecossistemas de alguns animais, por exemplo." explicou Margarida. "Pode confundi-los. Pesquisem sobre isso, que é importante."

"Obrigada." disse Elisa. "Vamos fazer isso."

"Eu vou num instante ao meu quarto ver se tenho indicações de mais tipos de poluição." disse Ricardo. "Volto já."

Elisa acenou afirmativamente e começou a folhear o livro que Ricardo tinha em cima da mesa quando ela tinha chegado. Margarida levantou os olhos da sua renda, hesitou e depois deixou a renda de lado e caminhou até à mesa.

"Elisa? É Elisa, não é?"

"Ah, sim." respondeu Elisa, olhando para ela.

"O meu filho já me tinha falado de ti, claro. Olha, tenho de te pedir desculpa."

"Porquê?"

"Tu e o meu filho foram sair juntos uma vez e logo nessa noite eu tive um ataque de coração e estraguei-vos a noite. Peço desculpa."

"Desculpa? A culpa de ter tido um ataque de coração não foi sua, obviamente." disse Elisa.

"Pois, mas estraguei-vos a noite. O meu filho estava tão alegre. Vê-se que ele gosta mesmo muito de ti."

Elisa corou quase instantaneamente e Margarida sorriu, puxando uma cadeira e sentando-se.

"Vais-me desculpar, mas eu sou uma grande mãe galinha e às vezes sou um bocadinho exagerada, porque não quero que o meu filho sofra. Eu e o Ricardo somos muito chegados. Só nos temos um ao outro. O pai dele divorciou-se de mim, foi para o estrangeiro e nunca mais deu noticias. Ficámos só eu e o Ricardo." disse Margarida. "Mas isso agora não vem para o assunto. Acontece que o meu filho gosta de ti. Nestes últimos dias tem-te referido. A Elisa isto, a Elisa aquilo... e pronto, eu não quero que o meu filho sofra. Diz-me, tu gostas dele também?"

Elisa ficou um pouco atrapalhada com a pergunta e demorou alguns segundos a dizer alguma coisa.

"Eu... eu gosto do Ricardo. Gosto de estar com ele e ele é muito simpático e tudo o mais, mas ainda nos conhecemos há muito pouco tempo." respondeu Elisa. "Talvez tenhamos um futuro juntos e obviamente que não o quero magoar, mas não posso dizer que estou, para já, apaixonada por ele."

Margarida abanou a cabeça.

"Muito bem, compreendo. Gostei da tua sinceridade. E realmente o amor constrói-se." disse Margarida. "Espero que as coisas resultem entre vocês. Mas se não resultarem e não te apaixonares por ele, peço-te que sejas sincera com o meu Ricardo."

"Serei, pode ter a certeza."

"Óptimo. Então, estou a ver que trazes uma máquina fotográfica ao peito. Gostas de fotografia?"

"Oh, sim, adoro." respondeu Elisa, sorrindo. "Normalmente a máquina anda comigo para todo o lado."

"Eu nunca gostei muito de fotografia. Quer dizer, não gosto de ser fotografada, melhor dizendo. Fico sempre mal nas fotografias." disse Margarida, rindo-se.

Pouco depois, Ricardo regressou à sala e ficou contente por ver a mãe e Elisa a conversar animadamente. Margarida acabou por voltar à sua renda, enquanto Elisa e Ricardo voltavam ao trabalho.

"Ainda bem que a Elisa se deu bem com a minha mãe." pensou Ricardo. "Assim, se eu e a Elisa viermos a namorar, posso ter a certeza de que elas se dão bem. Claro que a minha mãe costuma dar-se bem com toda a gente, mas assim tenho a certeza que não devem haver conflitos."

Os dois continuaram a organizar ideias para o trabalho, quando começaram a ouvir gritos. Margarida, Ricardo e Elisa ficaram à escuta e depois Margarida levantou-se e foi à janela.

"Ai credo, é outra vez o Arnaldo!" exclamou ela. "Está a bater na Ermelinda. Ali no meio da rua!"

Ricardo levantou-se apressadamente.

"Aquele homem tem é de ser preso." disse Ricardo, saindo rapidamente da sala.

Margarida seguiu-o e, depois de hesitar um pouco, Elisa segui-os também. Os três saíram para a rua. As pessoas começavam a aparecer das suas casas, vendo a cena. Arnaldo, um homem grande e careca, estava a bater numa mulher baixa e de cabelo escuro, que gritava.

A vizinha Alzira estava nesse momento à porta da sua casa, com um telemóvel na mão, a ligar para a policia, enquanto o velho chato da rua, o senhor Terêncio Madeira, estava a sair da sua casa, resmungando. Olhando para a cena, Elisa ficou chocada.

"Que horror! Alguém tem de parar aquele homem." disse ela.

Continua…