Depois de seis meses e 22 dias de insistência maciça, Hermione finalmente me convenceu (ou melhor, me obrigou -vá por mim, você não vai querer uma Hermione, uma das bruxas mais brilhantes da década, irritada na sua casa) a dar um banho na Lilian.

- Alguma hora você vai ter que fazer isso, Harry! Pelo amor de Deus, é só um banho, não é como se você fosse enfrentar Voldemort de novo! Além disso, eu tenho certeza que você vai amar! É tão lindo, tão emocionante ver o contanto dela com a água...

Com meu lado feminino nada aflorado, achei na hora que aquilo era deboche. Que emoção tinha em ver um bebê dentro de uma banheira? Como é que eu ia amar dar banho num ser molenguinho e, admito, apaixonante daqueles?

Antes de cumprir meu papel de pai que dá banho e tento a absoluta certeza de que preferiria enfrentar o dragão montanhês de novo do que fazer aquilo, pesquisei com os amigos que eram pais. Eles me mostraram fotos dos primeiros banhos, mas também fotos da chegada à maternidade, fotos do parto, com direito a cliques da mãe: ainda na sala de parto, de touca, com o bebê ainda embebido em sangue no colo...

Saí dali e convenci Hermione a não mostrar para ninguém o álbum da nossa filha.

- Mas, todo mundo adora! Fotos do primeiro banho, então, fazem o maior sucesso.

Sinceramente, não sabia onde estava a Hermione sabe tudo e racional, com a qual me casei. Esses malditos hormônios só pioraram depois do parto. Por isso tentei expor meu ponto de maneira racional e lógica.

- Ninguém adora! As pessoas dizem que adoram. E é mentira! Nosso álbum tem mais de 300 fotografias. Ver aquele é insuportável para da nossa qualquer ser humano que não seja pai da Lily. Ninguém precisa ver as fotos do primeiro banho da nossa filha para saber que ela é limpinha. Não muda a vida de ninguém saber quem deu o primeiro banho na nossa filha. Ninguém que vem visitar a Lily vem pensando em quem deu o primeiro banho nela, entendeu?

- Por isso é que ela gosta mais de mim. Você é um grosso! - Saiu marchando essa entidade poderosa, magistral e acima de tudo e de todos, a mãe de criança.

Levei infinitas broncas enquanto enchia a banheira - A Hermione sabe tudo aparentemente tinha voltado. "Cuidado para não quebrar nada" (como se um simples feitiço não fosse resolver o problema!); Checa a temperatura da água com o cotovelo (OH Merlin!); "Não enche muito"; "Não enche pouco" (Serio, eu preciso responder essa?); "Tenta se divertir, Harry!"

- Enchendo uma banheira? Como a gente se diverti fazendo isso?

Hermione nem respondeu.

Banheirinha cheia, fui pegar a dona da banheirinha: a minha filha. Tirei sua roupinha com muita dificuldade (aliás, roupinha,10, pai, zero) e começou outro tormento: "Cuidado com a coluna dela", "Olha o pescocinho dela, Harry", "Cuidado para não arrancar o bracinho dela".

Mulheres...

- Para, Hermione! Eu achei que esse ia ser um momento meu e de Lilian! Não tá nada bacana dar banho nela com você berrando do meu lado - ralhei, botando finalmente aquele pedacinho de gente na banheira.

- Ih, Harry!
- O que foi que eu fiz agora?

Ela não precisou responder. O cheiro que tomou conta do banheiro falou mais alto. Lilian fez cocô no exato segundo em que pôs os pés na água. Cocô não. Um cocô gigante. Um cocô impressionante. Como é que ninguém avisa aos pais de primeira viagem o tamanho fenomenal das coisas que saem pelos pequenos orifícios de um muito pequeno bebê? Como é que aquela bunda mínima tinha tanto para oferecer ao mundo?

- Você cagou, filha?

- O que é que você acha, Harry?

- Cagou, né? Isso... isso é cocô, né?

- Claro que é, idiota! - respondeu aquele doce de mulher. - Mas olha o vocabulário! Diz popô.

- Ah, cocô não pode e cagar pode? Não entendo você, Hermione!

- Harry! Para de falar essas palavras horrendas! Elas são proibidas aqui! A gente tem que dar o exemplo dentro de casa.

- Que exemplo? Ela não fala, nem entende nada, Hermione! E isso não é um popô, popô é uma coisa pequenininha e indefesa. Isso aqui é praticamente um alien! Como é que cabe tanta coisa nojenta dentro desse corpinho tão bonitinho e perfeito? - questionei, enquanto a segurava no colo para esvaziar a banheira. Pena que aqui não posso registrar minha cara de nojo. Sim, senti nojo, sou humano! A menina fedia, o banheiro fedia, a banheira fedia, minha mão fedia. Sem contar que ela estava toda suja. Um horror! Ali comecei a entender por que dizem que ser pai é padecer no paraíso.

- Não sei pra que tanto nojo. Se limpasse as fezes de sua filha pelo menos de vez em quando, já estaria acostumado e saberia que é natural ela aliviar suas necessidades em horas e locais não apropriados.

- Eu nunca vou me acostumar com isso. Por que você fez isso, filhinha? É pra sacanear o papai, é?

- Sacanear, Harry? - recriminou-me a chata (mil vezes chatas - ela que não me escute dizendo isso) Hermione, enquanto, corajosamente, lavava a banheira no nosso boxe.

- Hermione, meu amor, entende! Sacanagem não é palavrão! Tenho certeza de que com três anos ela já vai dizer que é sacanagem eu botar no canal de quadribol quando ela estiver vendo desenhos.

- Filha minha não vai dizer sacanagem nunca, Harry - delirou - Nem vai ver desenho - delirou mais ainda. Eu amo minha esposa até a morte mais nesse momento eu quase a mandei para a ala psiquiátrica do St. Mungus.

A água barrenta foi retirada, a banheira foi limpa com muito vigor por Hermione e eu comecei a enchê-la novamente,

- Vê xe não faz um cocozão desses de novo, hein, bonequinha magi linda do papai! - disse, admito com voz de criança. Meu Merlin, eu um auror altamente respeitável dentro do ministério, falando om voz de criança. O que os gêmeos e o Rony diria ao ver essa cena? Pais são criaturas completamente estúpidas. - O papai quer que a filhinha colabore e feche exe bumbum fedido! Xixi, cocô e, principalmente, cocozão, xó muito, muuuuuuuito tempo depois do banho. Tombinado?

- Harry, se você disse essa palavra horrível mais uma vez perto dela, eu juro que te jogo uma maldição...

- Que palavra?

- Esse sinônimo de muito popô junto! Diz só popô, poxa!

- Mas eu não suporto popô! Popô é péssimo! Popô é uma palavra sem força. Popô nem palavra é!

- Rárárá! Rarrarraráááá!

Eu e Hermione paramos estáticos. Nossa filha estava rindo, reagindo, interagindo com a gente, mostrando a gengiva mais bonita do mundo para nós dois. Falei mais bobagem e ela riu ainda mais. Era só eu abrir a boca que ela caía na gargalhada mais gostosa que já tocara meus ouvidos. Eu era o comediante preferido da minha filha! Eu era ótimo!

E o primeiro banho que eu dei na Lilian foi assim: inesquecível e emocionante, mesmo com o empecilho do cocô gigante. Limpinha, cheirosinha e com carinha de sono depois da bagunça aquática que se transformou o banho, não resisti e pedi:

- Aqui, amor, tira uma foto minha com ela. O primeiro banho que eu dei na minha filha merece um registro. Vou mostrar para todo mundo no trabalho.

- Ah, é? E quanto aquela história de que não devemos mostrar fotos de bebê para pessoas, que é chato e tal?

- Não ligo de ser chato. Eu sou pai e pais são babões e chatos, todo mundo sabe. Essa bonequinha peladinha e cheirosinha no meu colo vai ser a atração do ministério amanhã. Além do mais, não são 300 fotos, é só uma. Não vai chatear ninguém.

Ela pegou a máquina e eu, como quem segurava um troféu, sorri orgulhoso. Depois, vesti a menina, botei pomadinha, troquei a fralda pela segunda vez na minha vida, pus o pijama nela e...

- A fralda tá molhada. Ela fez xixi. - alertou Hermione.

- E aí? Ela não pode dormir assim?

- Claro que não, Harry! Não diga sandices!

- Isso quer dizer que vamos ter que fazer tudo de novo?

- Claro, ela tem que tomar limpinha.

É isso aí... tira pijama, tira fralda, limpa tudo, passa pomada, bota outra fralda, outro pijama, bota para dormir, canta. Fui deitar absolutamente exausto, mas, confesso, muito feliz.

Só não me lembro do segundo banho que dei na minha filhota linda. Talvez porque ele não tenha existido. Confesso que, apesar da alegria que senti, o cocô gigante me traumatizou.