6. Warrick

Eu tinha 14 anos.

Estava vendo TV, minhas apostilas espalhadas na escrivaninha. Algumas das pautas que eu havia usado há pouco voaram do console do piano, se espalhando pelo chão. Sara estava sentada à mesa, corrigindo algumas provas dos alunos dela da universidade. Ela se levantou para recolher as pautas, e senti que me olhava.

-Tudo bem, Eli?

Ela sentou-se do meu lado. Na TV passava um programa idiota sobre relacionamento, mas eu não conseguia mudar de canal.

-Sara, por que alguns casais se odeiam a ponto de se separar?

-Todo mundo tem problemas, e é difícil manter um relacionamento.

-Você e Gil se dão muito bem.

-É preciso muita paciência e confiança pra construir um relacionamento que dure.

-Quando eu nasci, meus pais ainda eram casados?

-Não, eles se separaram um pouco antes.

Os créditos do programa começaram a passar, mas eu fiquei com aquele negócio na cabeça.

-Eli, pare de pensar nessas coisas complicadas. O que acha de uma partida de scrabble?

Eu aceitei, mesmo sabendo que iria perder.

No dia seguinte, quando cheguei da escola e não havia ninguém em casa, resolvi rever algumas fotos antigas que Sara guardava na estante da sala. Tirei todas para fora do armário, até que vi uma caixa da qual não me lembrava. Estava cuidadosamente fechada, dentro de um plástico. Hesitei por um momento, mas minha curiosidade levou a melhor.

Há duas coisas as quais associo diretamente a Gil: seu grosso e antigo livro de Shakespeare e suas maquetes. Desde que me entendo por gente vejo-o fazer maquetes por hobby. Naquela noite, ele estava sentado em sua escrivaninha, trabalhando em um modelinho que já tinha há alguns meses. Eu me aproximei devagar, sem saber direito o que fazer.

-Eli? O que foi?

Ele não precisou virar-se para saber que era eu. Senti vontade de abraçá-lo, e enrosquei meus braços em seu pescoço, por trás.

-O que aconteceu, por acaso quer assistir algum filme? Precisa de dinheiro?

Ele largou os estilete e a régua, e tentou virar-se. Mas eu não o soltei.

-Eli?

A voz dele agora estava preocupada. Puxou meu rosto com as mãos, mas eu não queria que ele me visse chorando.

-O que aconteceu, LittleEli?

Ele me puxou para perto, me encostando à escrivaninha e segurando minhas mãos. Provavelmente só não me colocou no colo por que já não caberia.

-Eu vi o vídeo, Gil.

-Que vídeo?

-Da caixa. Eu vi tudo, os documentos, as fotos, o vídeo, o testamento...

Pela expressão dele, ele sabia do que eu estava falando.

-Fazem muitos anos que não mexo naquela caixa. Mas tudo ali te pertence.

-Por que você o contratou?

Eu queria muito fazer aquela pergunta, já há algum tempo. Desde que eu tive idade para compreender algumas das histórias relativas ao meu pai. Ele me olhou, como se me avaliasse. Eu repeti.

-Ele era viciado em jogo, não tinha pais. E era negro.

-Não era só um cara negro. Era inteligente, perspicaz. E acima de tudo, era um homem bom.

-Você não precisava defendê-lo, não tinha que cuidar dele, e ainda assim o fez... quem faz isso hoje?

-Eu faço. Eu vi nos olhos dele, Eli, como estou vendo nos seus agora. Vi que ele queria mais, queria melhor. Vi que tinha sonhos e precisava desesperadamente de alguém para orientá-lo. O que mais eu poderia fazer?

Eu abracei ele. Fiz um lembrete metal, para nunca esquecer: quero ser como ele. Quero ser como ele e meu pai.

-Obrigado.

Tenho 15 anos.

Hoje Gil e Sara me levaram até o cemitério, e eu tive uma conversa com o velho. Quase posso ver seu rosto, os traços tão parecidos com os meus. Ouço o tempo todo que estou ficando cada vez mais parecido com ele.

Todos me perguntam se vou ser investigador como meu pai. Respondo que ainda não sei o que quero da vida, e é verdade. Gil sempre diz pra eu não me preocupar, curtir o momento que vivo agora, pois a vida é curta e eu me arrependeria se não a aproveitasse. Na hora certa saberei o que fazer. E eu acredito nele, da mesma forma que acreditava quando tinha 4 anos de idade.


N/a: E eis o capítulo final, afinal! Hahahaha. Este final me veio com facilidade, uma vez que o personagem já estava bem construído em minha cabeça. Mas qualquer crítica, discordância ou sugestão é sempre bem-vindo para aperfeiçoar a escrita. Espero que tenham curtido a historinha, valeu pra quem acompanhou e até a próxima. ^^

Danna Mayfair: Eis o capítulo, desculpe pela demora. Espero que tenha gostado, e obrigado por acompanhar!

Poly-chan