06. Controle seu Demônio. Use seu Demônio.

– O que é toda essa sensação de calmaria que abastece minha alma? Será que é a morte?

Eu não sentia dor, mas também não podia ouvir o combate que acontecia bem perto de onde eu estava. Meus olhos entreabertos só enxergavam a escuridão até que ouvi ruídos.

– Acorde humano! – disse uma voz que me trazia certa nostalgia.

Abri meus olhos e vi uma grande torre que era golpeada por raios e trovões. No pico desta torre eu pude ver a figura de um homem sentado. Este novo lugar era completamente estranho, mas nostálgico. Uma cidade medieval devastada com uma grande torre piramidal no centro, apenas a torre estava intacta.

– Hey! Foi você que destruiu esta cidade? Se foi... – eu disse irado indo em direção ao homem da torre.

– Não. Muito pelo contrário, foi você quem a destruiu. Mostrando-se um fracote como eu sempre imaginei – o homem respondeu a mim com uma voz irada e de zombaria.

– Como? Se eu nunca vi este lugar antes – respondi incrédulo.

– Eu moro aqui e sei do que estou falando. Quando você está abalado isto aqui sempre vira um Caos. Você ficou com medo de machucar seu pseudo-professor? Nem tentou se esforçar, certo? Eu que deveria estar do lado de fora e você aqui dentro – disse o homem me confundindo mais ainda.

– Parece que a luta realmente tinha ocorrido e eu realmente perdera. – Este lugar não é estranho para mim e nem a voz deste homem – pensei comigo.

– Pare de pensar besteiras. Claro que é verdade. Você é tão fraco a ponto de perder para um fracote com pistolinhas. E agora seus amigos morreram graças a isso – disse a voz lendo meus pensamentos.

– Mas como você...

– Sei o que você pensou? – disse o homem completando minha fala.

– Sim – afirmei sem entender o que estava acontecendo.

– Eu sou Rayden ou Raijin, como você preferir. Sou o demônio do relâmpago. Eu e você somos um só ser. Quando você teve sua alma fundida com seu corpo eu nasci. Você é o governante deste lugar, mas esta é a minha chance de reverter esta situação – disse Raijin dando uma risada perversa.

– Vou lhe mostrar o que está acontecendo com os insetos que você chama de amigos – disse Raijin apontando uma direção.

Quando olhei para a direção que ele apontava o ar começou a distorcer os céus e assim tornando-se uma espécie de tela mostrando-me o que estava acontecendo na luta. Apenas Orfeu estava de pé, sua armadura que era a mais forte dentre as nossas estava aos cacos, mas ele ainda não desistira.

– Viu? Vocês são tão fracos que me causa nojo – disse ele gargalhando uma risada demoníaca.

– Vamos. Deixe que eu saia e mate tudo e todos. Assim "nós" poderemos dominar o mundo – disse Raijin fazendo uma proposta a mim.

– Não diga asneiras. Eu ainda estou vivo e vou voltar lá para ajudá-los. Os outros ainda não se deram por vencidos – afirmei confiante.

– Em seu presente estado não acho que você ajudaria muito. Se você conseguir se botar de pé já será um grande feito – disse Raijin vindo em minha direção.

Quando ele se aproximou, pude ver que ele era realmente um demônio de aparência excêntrica: cabelos longos, olhos estranhos: escleras negras, pupilas vermelhas e íris amarela, pele cinzenta, orelhas longas que iam quase até os ombros, ambas as orelhas com alargadores, possuía várias tatuagens de relâmpagos e outras em forma de Magatama juntas em trios, muito alto, unhas grandes e pretas, porte físico de um fisiculturista e os relâmpagos o acompanhavam. Ele era assustador. Eu podia sentir perfeitamente a hostilidade que vinha dele.

– Você acha mesmo que eu vou permitir que você saia daqui? – perguntou o demônio rindo.

– Você não pode me matar. Nós somos o mesmo ser... Você mesmo disse – eu disse intrigado e assustado.

– Não disse que o mataria. Só disse que você não vai sair daqui. Nós vamos trocar de Lugar, apenas isto – disse Raijin com algum tipo de plano perverso em mente.

Ele começou a correr e pulou em minha direção, era rápido de mais para que eu pudesse pensar em desviar antes que ele se colidisse comigo. No momento em que ele se chocou comigo ao invés de seu corpo me estraçalhar pela velocidade que ele estava aconteceu algo estranho, ele começou a transpassar meu corpo. Doía muito, mas aparentemente não estava me machucando, era como se minha alma estivesse sendo rasgada. Então eu caí de joelhos.

– Até que em fim posso andar livre do lado de fora desta prisão feita no mais profundo abismo de sua mente – disse a voz de Raijin, mas dessa vez vinha de minha mente.

– Miserável! O que você fez? – perguntei ainda arfando de dor.

– Nada de mais. Só vou dominar o seu ser e te prender aqui dentro para que eu possa andar livre do lado de fora – Raijin disse gargalhando como sempre.

– Não permitirei que isso aconteça, pois tenho que ajudar os meus amigos – eu respondi a ele.

Eu sabia que ele não acreditaria no que eu disse, pois a cada momento que passava eu podia sentir que eu estava perdendo o controle sobre mim mesmo.

Meu corpo estava mudando. Eu estava me sentindo muito estranho, meus ossos e músculos estavam se esticando, minha pele estava descascando e minha cor estava mudando de marrom amarelado para cinza. Uma estranha massa branca começou a sair de minha boca e se enrijecer sobre minha face dando forma a uma máscara que se parecia com uma máscara Tengu de porcelana. Depois de muita dor parece que meu corpo não era mais meu corpo, eu não conseguia fazer com que meus membros me obedecessem.

– Enfim, estamos unidos! – Disse Raijin movimentando minha mão contra minha vontade.

– Mas o que você fez comigo? – Perguntei furioso.

– Nada. Apenas melhorei você milhares de vezes. Agora nós somos o ser mais poderoso deste mundo – afirmou Raijin muito confiante.

– Eu preciso salvá-los. Permita que eu vá. Não tenho tempo a perder – clamei.

– Eu os salvarei por você – respondeu o Demônio que agora estava fundido comigo.

– Sério? Eu ficaria gra... – tentei agradecê-lo, mas fui interrompido por ele antes.

– Sim, mas depois nós os mataremos com nossas próprias mãos – zombou Raijin gargalhando.

– Não! – tentei pedir para que ele parasse, mas já era tarde.

Agora eu me encontrava na cidade medieval que eu acabara de descobrir que era minha mente e que servia como prisão para um demônio que controlava relâmpagos. Eu podia ver pela 'tela' que ele havia formado nos céus o que estava acontecendo do lado de 'fora', mas eu ainda estava completamente imóvel.

Uma grande explosão de energia abalou o lugar e devastou uma área dezenas de vezes maior que a área que Joe havia destruído com suas balas de energia. Meu corpo estava de pé do lado de fora, mas estava normal e não tinha sofrido as mesmas mudanças que eu sofrera dentro de minha mente, apenas usava a máscara Tengu com três Magatama pretas no lado esquerdo e tinha os mesmos olhos que Raijin.

Todos ficaram assustados, eu podia ouvir os outros chamando pelo meu nome, mas eu não conseguia fazer com que minha própria boca se movesse para respondê-los, dela só saiam rugidos e gritos de fúria, eu parecia um animal descontrolado.

Raijin tinha se calado dentro de minha mente. Do lado de fora, meu corpo começou a se mover rapidamente em direção de Joe que segurava Orfeu pela cabeça apontando uma de suas armas para sua fronte.

– O que você quer aqui de novo? Não durou nem 10 minutos lutando contra mim – eu podia ouvir a voz de Joe zombar de meu corpo.

Meu corpo rugiu descontrolado disparando uma enorme massa roxa de energia condensada na direção de meu antigo professor. Ele soltou Orfeu e se esquivou antes que o turbilhão os pegasse.

– Droga! Se aquilo atingir Orfeu será o fim... – presumi.

Depois que a energia pulverizou a área onde eles estavam pude ver uma sombra que se movia com Orfeu em seus braços, esta era Rotto que com a ajuda de Richarde tinha conseguido tirar Orfeu do local antes que a energia dizimasse a área.

Meu corpo ainda trajando os restos do que um dia eu chamara de armadura e usando a máscara Tengu estava usando Buster Blade como eu nunca tinha pensado em usar, cada balanço que era desferido criava ondas de ventos tão poderosas que destruíam tudo pela frente.

– O que aconteceu com você? – Perguntou Joe ainda tentando se esquivar dos ataques que eram desferidos pelo meu corpo descontrolado.

Meu corpo só rugia e nunca recuava. Eu parecia uma besta descontrolada que só pensava em destruir. Joe denotava perfeitamente sua dificuldade em se esquivar de tais golpes. A velocidade da luta era muitas vezes maior do que antes, os outros observavam atentos sem saber direito o que estava acontecendo.

Tanto poder, mas lutando apenas com o instinto de destruir e devastar, essa era a sorte de Joe, mas vários golpes já haviam acertado seu corpo. Um dos golpes rasgou a face de Joe. Meu corpo pareceu gostar de ver aquilo e parou observando a fúria de Joe.

– Droga! Fui humilhado por um inseto como você. Vou ter que usar o meu orgulho, a verdadeira forma de minhas armas Luna e Solaris – disse Joe parado no ar.

Ele me parecia estar se concentrando para algo. Uma espécie de fumaça começou a sair de seus pés como se ele estivesse queimando o ar, a fumaça o cobriu por completo quando uma grande pressão caiu sobre o local, tão forte que eu pude sentir. Os outros pareciam estar sentindo e sofrendo com ela, mas meu corpo ainda estava normalmente bem e continuava com os rugidos de fúria.

Quando meu pseudo-professor saiu da fumaça, suas armas tinham mudado muito. Agora elas eram enormes e estavam presas em seus braços por um tipo de ligação metálica que pareciam com manoplas.

– Pode vir coisa! – exclamou Joe se referindo a mim.

Os tiros disparados por Joe agora eram muito finos e diferentes dos enormes de antes. Eram mais rápidos, mas meu corpo os rebateu com tamanha facilidade. Quando um dos tiros se colidiu com uma das montanhas que cercava o Rukongai eu pude perceber o quão grande o poder de destruição de suas armas era agora. Extinguiu metade da montanha. Isso era insano, nem as massas de energia não modeladas que eram expelidas por meu corpo neste estado podiam fazer estragos daquele tamanho.

– O que achou? A verdadeira forma de minhas armas compacta toda a minha energia em tiros finíssimos, mas com poder demasiado – disse Joe empolgado com suas habilidades.

Meu corpo estava observando calmamente desta vez. Parado, sem rugir, levantou Buster Blade e rugiu ferozmente.

A mesma coisa que acontecera com Joe estava acontecendo comigo ali. A ponta da enorme espada queimava o ar, eu podia sentir a energia fluindo e inundando a cidade medieval que se encontrava em minha mente. Algo estava acontecendo. A gigantesca Katana se dividiu em duas Katana de tamanho médio. As ondas de vento que massacravam o lugar eram insanas.

Um relâmpago caiu dos céus atingindo as pontas de ambas as espadas deixando-as envolvidas por um constante raio de energia.

– Uau! Você mal chegou e já consegue libertar sua Shikai? – Interessante – disse Joe.

Os disparos cessados agora tinham sido retomados. Os raios que envolviam as espadas estavam facilitando o corte dos poderosos tiros de energia disparados por Joe. O combate estava sob controle novamente.

Contra duas espadas as dificuldades que Joe tinha antes haviam se multiplicado. Quando meu corpo desferia golpes com ambas as armas além de causar ondas de vento massacrantes, os raios que envolviam as armas se alongavam e golpeavam tudo que estivesse pela frente. Raijin parecia estar usando meu corpo para brincar com Joe o tempo todo.

– Por quê? Por quê? Por quê? Mesmo usando a minha Shikai não consigo sequer arranhar você – disse Joe desesperado.

Sem piedade alguma, meu corpo usou a distração de Joe e o golpeou com um ataque fulminante pela frente, que causou a destruição de suas armas e arrancou fora seus dois braços. Esse parecia ser o fim de Joe.

– Mas e se ele estivesse possuído? Não posso deixar que Raijin o mate – pensei.

– Mas é inútil quando estou preso aqui dentro e mal consigo mover meus olhos – eu disse interronpendo minha vontade de salvar aquele que um dia já fora meu amigo.

Quando meu corpo estava prestes a desferir o último golpe sem piedade sobre o corpo de Joe algo me chamou dentro de minha mente. Pude ver a figura de uma mulher nas sombras, uma doce voz que acalmava meu ser chamou pelo meu nome.

– Willian, lute contra ele. Ele nem sempre foi mal, creio que você pode mudá-lo de novo – disse a mulher ainda nas sombras.

– Ele? – perguntei sem entender.

– Sim. Raijin. Domine-o e junte-se a ele para impedir Loki – disse a voz sumindo nas sombras.

– Droga! Não vá... – reclamei tarde.

– Ela se foi e não me disse como dominar Raijin – eu reclamei para mim mesmo.

Mesmo eu não tendo ideia do que fazer a presença daquela mulher tinha mudado algo em mim. Eu estava mais confiante e um sentimento novo brotara em meu corpo. Aquela nostálgica voz tinha causado uma reação estranha em meu corpo.

Com muito esforço agora eu conseguia mover minha perna. Pude ver na 'tela' que o meu corpo cessara o ataque e estava parado.

Do lado de dentro terremotos e trovões começaram a quebrar o silêncio da velha cidade destruída. Uma fumaça cinza saia de meu corpo fazendo com que meus traços voltassem aos poucos à forma original. Eu estava colocando toda a minha vontade para mexer o resto do meu corpo. Pernas e pescoço ficaram livres do controle de Raijin em instantes.

– Mas que droga é essa... – a voz de Raijin reclamava no meio da fumaça cinzenta.

– Parece que estou conseguindo – eu disse.

– Mas como? – Raijin perguntou.

– Meu orgulho é grande demais para deixar que um reles demônio que dispara relâmpagos pela bunda controle o meu corpo e saia por aí fazendo o que bem entender – respondi zombando de Raijin na tentativa de distraí-lo, assim, facilitando a retomada do controle de meu corpo.

Parece que minha provocação funcionara, pois o demônio estava fulo e totalmente desconcentrado. Eu podia ver o corpo dele tomando forma fazendo com que meu corpo voltasse ao normal e sob meu controle.

– Parece que consegui me livrar de você! – Exclamei eufórico.

Raijin estava furioso bem na minha frente. Um grande relâmpago na forma da mesma máscara que havia se formado sobre minha face momentos atrás caiu sobre Raijin deixando-o energizado com um raio constante.

– Idiota. Agora você me deixou realmente nervoso – disse Raijin vindo em minha direção.

Desta vez eu não pude sentir nada além de medo, ele estava totalmente diferente.

– Obrigado, por salvá-los – eu disse agradecendo o demônio.

– Salvá-los? – Raijin disse gargalhando com uma das mãos sobre a face.

– Foi pura sorte. Algo aconteceu e você fugiu de meu controle, mas nós resolveremos isso agora. Dessa vez irei te deixar inconsciente para que não faça besteiras – disse o demônio começando a correr em minha direção.

– Desta vez eu o atacarei maldito – eu disse erguendo Buster Blade.

– Pois que seja – Raijin disse passando a mão no ar, assim, fazendo com que outra Buster Blade Surgisse em suas mãos.

– Mas... Mas isso é im... – tentei reclamar, mas fui interrompido por ele.

– Impossível? – Raijin gargalhava incontrolavelmente.

– Esta espada faz parte de sua alma, assim como eu. Nós três somos um só ser – disse Raijin explicando.

Percebi que ele iria tentar se unir a mim novamente, então eu corri ferozmente em direção ao demônio energizado por relâmpagos.

– Parecia besteira achar que eu poderia ganhar de um ser tão poderoso como ele. Mas se nós somos o mesmo ser, porque eu sou tão mais fraco? – eu pensei soltando um grito de fúria e posicionando minha espada para o ataque.

Quando tentei cortá-lo com toda minha força, ele simplesmente desapareceu num instante se esquivando de minha fúria. Ele se movia no ar como se estivesse chutando o ar para dar impulso. Eu não conseguia ver nada além de riscos. Ele sempre desaparecia e aparecia em outro local.

– Eu não tenho tempo para perder com você 'Ass of Thunder' – de novo eu gritei usando as provocações como trunfo.

Raijin veio em minha direção, como eu havia imaginado. Ele estava disposto a me atacar desta vez. Ele golpeava sem cessar com a enorme espada, eu bloqueava seus ataques com muita dificuldade, mas se ele continuasse a me atacar de tal maneira eu não agüentaria por muito tempo.

Não consegui suportar a força de seus golpes e deixei Buster Blade voar de minhas mãos. Esse seria o meu fim, ele me possuiria novamente.

– Você é tão fraco, que às vezes eu nem acredito que nós fazemos parte da mesma alma – Raijin dizia se preparando para unir-se a mim.

Quando ele tentou unir-se a meu corpo uma luz, que acalmava meu corpo da mesma forma que as luzes que Urahara havia usado, desceu dos céus criando uma barreira sobre mim. A luz estava puxando meu corpo para cima.

– Malditos sejam! – ouvi Raijin dizer antes que minha consciência se esvaísse.