A Fera vs. A Loba
Belle saiu andando, sem nem olhar para trás, e sem coragem para pedir que ela parasse ou correr atrás dela, deixei-a se afastar, até estar longe o suficiente para sua silhueta ter se misturado ao breu da noite.
Andei de um lado para o outro atormentada da rua atormentada, como se precisasse fazer algo, achar alguma solução para não ficar naquela situação com ela, mas acabei sentada na sarjeta, fumando mais cigarros...e nem Lauren estava por perto dessa vez. Devia ser por volta de três da manhã quando decidi voltar para a pensão. Teria que tomar coragem. Passei na lojinha de conveniência do posto e comprei três tipos diferentes de trident. Sabia que Belle odiava cigarro, mas qual dos chicletes seria melhor? Hortelã? Menta? Ou Eucalipto? Misturei o de hortelã e o de menta, porque não queria que ela se lembrasse de mim ao sentir cheiro de pasta de dente, ou algo do tipo. E depois de caminhar a passos lentos, escolhendo as melhores palavras para usar, finalmente abri a porta da pensão. Procurei não fazer barulho, não queria minha avó, e nem nenhum hospede, se incomodando, e segui até o quarto de Belle. Bati uma vez na porta, de leve, caso ela estivesse dormindo. Mas não houve resposta. Bati a segunda vez na porta, e também não houve resposta. Olhei de um lado para o outro, e arrisquei bater um pouco mais forte. Nada.
Usando a chave mestra da pensão, abri a porta do quarto, e minha surpresa não podia ser pior. A cama de solteiro completamente vazia. O armário escancarado, e também vazio, o banheiro...nem escova de dente ela tinha deixado. Quando me aproximei do criado-mudo me deparei com um livro de capa vermelha intitulado: Chapeuzinho Vermelho. Engoli em seco, era o livro de como nossa história era passada por gerações e gerações à humanos. Minha esperança era encontrar algo no livro, mas à medida que passei os primeiros capítulos da história, pude ver, não havia nada ali, nada nas entrelinhas.
Apertei o livro contra meu corpo, desejando voltar no passado, fazer tudo de forma diferente, poder ter contado a ela, mas a história do gênio da lâmpada não era a minha, e eu não tinha direito à três desejos. Soltei meu corpo na cama, ainda com o livro sobre o colo dos meus seios, naqueles lençóis podia sentir o perfume de Belle, o cheiro doce e convidativo das rosas, que fizeram meus olhos inundarem de lágrimas. Engoli o choro, e me deitei de lado na cama, o cheiro dela era ainda mais perceptível assim. Dormi dessa forma até o dia seguinte, e acordei com vovó aos berros.
- RUBY! RUBY! O que esta fazendo ai? – Ela puxava os lençóis da cama tudo para o balde de roupa suja.
Acordei meio atordoada, me sentando na cama, e nesse instante, quando o livro rolou para o chão, me lembrei dele. Vovó largou os lençóis que ela puxava, e se abaixou para pegar o livro.
- Chapeuzinho Vermelho? – Ela me encarou, mas conhecia a neta que tinha. Eu não dava a mínima para esses contos. – O que você fez com Belle? – A pergunta era quase como se a vovó me tivesse jogado contra a parede, sem opção de escolha.
- Eu? Eu não fiz nada! Eu cheguei e ela não estava mais aqui e...
- Ela chegou chorando, Ruby! Eu nunca vi a menina daquele jeito...você tinha que ver era de dar pena! Tentei convencê-la a ficar aqui mas...
- Para onde ela foi? – Perguntei para minha avó de forma esperançosa, algo me dizia que ela sabia de alguma coisa.
- Para onde mais você acha? – Vovó resmungou de forma contrariada, deixando o livro em cima da cama, e voltando a puxar os lençóis e colocá-los no balde. – Gol...quer dizer, Rumple!
- Não! – Me levantei no mesmo instante sem acreditar. – Não, ela não pode ir...
- Ela já foi, querida! Disse que nunca deveria ter saído da casa dele...
Corri para a porta, mas antes que eu pudesse escapar, vovó me segurou pelo braço, encarando-me de forma desconfiada, ela sempre parecia saber de tudo.
- O que está acontecendo aqui, Ruby? O que aconteceu com Belle? – A forma como me indagava era severa por trás das lentes redondas do óculos.
- Eu gostaria de saber, vovó! - Tentei parecer o mais sincera possível, e embora minha avó parecesse não ter acreditado, continuei naquela história. – Eu vou atrás dela..convencer que volte!
Antes que eu fosse encurralada de novo, corri para fora da pensão, e minha primeira opção foi a biblioteca. Afinal, era lá que Belle estaria em um dia normal de trabalho, mas ao chegar perto, a placa que indicava "fechado", desmoronou minhas esperanças. O jeito seria ir até o antiquário, ela devia estar lá com Gold.
Entrei na loja, e um sininho logo indicou a presença de um novo cliente. Entre os móveis velhos e usados, Gold surgiu e, manco, apoiado em uma bengala, se aproximou.
- Ora...ora...se não é a amiguinha de Belle!...A mentirosa...
Engoli em seco, dando um passo na direção dele. Mantinha os dentes cerrados, e irritada pela maneira como ele dizia. Quem era ele para me chamar de mentirosa?
- Onde está Belle? – Tentei ir ao que interessava.
- Descansando...querida, você fez com que ela chorasse a noite inteira...e ela só pegou no sono agora cedo...tive que fic-...
Mas ele não conseguiu terminar, porque parti para cima dele segurando e torcendo a gola da camisa do homem.
Gold me encarava como se eu tivesse apenas cutucado ele, mantinha aquele sorriso nojento, e segurou tão firme em meu pulso, colocando ódio ali, que senti como se meu braço inteiro tivesse sido tomado por uma cãibra. Gemi baixo de dor, e então ele me soltou.
- Bela e a Fera, querida...não é Bela e a Loba! Além do mais...ela tem nojo de você! – Eu me mantive forte até quando mesmo ele usou magia em meu braço, ainda que a dor tivesse sido quase insuportável, mas no instante em que ele jogou as palavras na minha cara, engoli em seco, percebendo meus olhos, ridiculamente, encherem de lágrimas. – Fora!
Foi preciso Gold dizer uma única vez, para que eu saísse de lá às pressas.
Passei aquele dia inteiro trabalhando na lanchonete com a cabeça longe, cuidando do balcão, mas olhando na direção do antiquário, esperando que ela fosse surgir em qualquer momento na porta, para podermos conversar. Mas não aconteceu, o dia foi embora dando espaço a noite, e ainda que meu turno terminasse as seis horas da tarde, preferi passar minha noite inteira de folga no meu quarto da pensão, lendo o livro da Chapeuzinho Vermelho.
Foi por volta das onze e meia da noite que meu celular tocou. Era Mary Margaret, e atendi de maneira nada animada.
- Não vou poder sair hoje, Branca!
- Não calma...- Do contrário que eu imaginei, a voz dela estava desesperada. Sentei imediatamente na cama, pedindo que ela me falasse logo o que tinha acontecido. Mary continuou. - ...um acidente, foi um acidente, Ruby! Belle tinha vindo acompanhar Gold até a divisa...ele ia tentar passar, uma vez que tinha enfeitiçado um objeto...tinha certeza que daria certo...mas aconteceu um acidente! – Ela voltou a insistir nisso, me deixando mais apavorada.
- Branca! Por favor...- Pedi, sentindo o nó na garganta, tinha quase certeza que tinha a ver com Belle, e então veio a bomba.
- Belle perdeu a memória!
