Ainda por aqui, nobre viajante? Surpreende-me cada vez mais.

Está chovendo. Gosto disso. Não dá todo um clima mais assustador para essa minha figura velha e curvada? #Trovões ao fundo enquanto ecoa a risada maligna da velha# Ho ho ho!!

Bem, enfim, aqui está. Todo seu. Sofra.

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Apenas um Conto-de-Fadas

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Mais uma manhã clara e fria, embora ligeiramente mais quente que a anterior. Os pássaros que iniciavam pequenos cantos para saudar o nascer do novo dia. Sakura sempre teve sono leve e despertava com qualquer luz um pouco mais forte que batesse em seu rosto. O sol era uma luz particularmente forte. Ainda sem abrir os olhos, acomodou-se na coisa fofa que estava embaixo de sua cabeça. Realmente não devia reclamar de terem trazido tanta carga, valia a pena.

Abriu devagar os olhos, que reclamaram do contato repentino com a luz. Protegeu-os colocando a mão entre eles e o sol. Estava tão descansada! Dormira bem como há muito não fazia. Quem diria que uma pilha de cobertores pudesse ser tão confortável.

De repente, gelou. O que era aquela mão nos seus cabelos?

Olhou para cima e encontrou a face adormecida de Syaoran. Só então se deu conta de onde sua cabeça estava apoiada.

Sentou-se rapidamente, fazendo o noivo murmurar alguma coisa, como se sentisse falta do peso e do calor que ela fazia em seu colo. Sakura corou violentamente, trincando os dentes. Não esperava adormecer ali, e muito menos esperava que Syaoran a deixasse passar a noite inteira apoiada em seu colo. No final, ele próprio adormecera, encostado na árvore atrás de si.

Estava perdida nesses pensamentos quando seu estômago roncou alto e a fez voltar para a realidade.

'É mesmo... não como nada desde ontem a tarde, quando paramos...' Pensou, levando a mão à barriga, como que para acalmá-la. Agora não havia mais fogo, o que ela poderia preparar? Teria algo na carga que pudesse ser comido gelado? Lembrou-se, então, que tinha passado por alguns arbustos frutíferos enquanto procurava lenha no dia anterior. Sim, pareciam framboesas. Sakura gostava muito de framboesas.

Um novo som feito pela barriga convenceu-a a levantar-se e ir procurar os arbustos.

Ela vestia um vestido muito simples e verde escuro, amarrado na cintura com uma corda rústica. Quando abrira seu guarda roupa na manhã anterior não conseguira encontrar nenhum vestido suficientemente simples e confortável, então pediu emprestado as roupas de uma criada que passava, juntamente com as botas. Agora ela agradecia aos céus por ter feito isso — estaria numa situação muito ruim se continuasse de salto alto e saia armada.

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­Eriol acordou alguns minutos depois. Disciplinadamente levantou-se pouco depois de abrir os olhos e espreguiçou-se. Seu rei continuava dormindo a sono solto, apoiado contra um tronco de árvore, mas — supreendeu-se — a rainha não estava a vista.

"Vossa Majestade?" Chamou ele. Um segundo depois, uma enorme pinha atingiu-o no rosto.

"Quantas malditas vezes tenho que dizer para parar de me chamar assim?" Sibilou a voz de Sakura, que aparecia do meio do bosque, segurando duas pontas da saia à frente. Na curva que o vestido fazia entre as pontas seguradas e o lugar em que estava preso na corda, ela havia depositado uma porção de framboesas. Eriol massageou a bochecha atingida.

"Perdoe-me, Sakura." Ele falou, mas para evitar que outra pinha fosse jogada nele que qualquer outra coisa. "Onde estava, afinal?"

"Procurando comida," Respondeu ela como se não tivesse acabado de jogar um fruto espinhoso da cara de seu conselheiro. Pegou uma das frutinhas vermelhas e estendeu-a. "Quer? Nessa época do ano elas estão bem doces."

"Mas trouxemos comida," Espantou-se Eriol, aceitando a oferta e pegando a framboesa.

"Algo que possa ser feito sem fogo?" Ela fez uma pequena pausa sarcástica, na qual fez questão de encarar fixamente os olhos azuis do companheiro de viagem. Eriol deu um sorriso sem-graça. "Bem, então, o que acha de acordarmos o preguiçoso do seu rei? Já faz quase meia hora que o sol nasceu! Se deixarmos, ele só acorda daqui a mais duas horas!"

Uma das poucas coisas que Sakura gostava no noivo era essa: ele era capaz de dormir até mesmo debaixo de um furacão. Lembrava-se de sua festinha de aniversário de seis anos, quando Syaoran adormecera no sofá e ela divertira-se durante horas desenhando com carvão no rosto dele, que apenas continuou dormindo pesadamente.

Oh, sim, essa era uma de suas lembranças mais queridas.

"Dê uma trégua a ele, ficou embalando-a a noite toda," Falou Eriol ternamente, e a rainha imediatamente ficou vermelha até a raiz dos cabelos. Embalando-a.

"Certo, então!" Conseguiu gaguejar, depois de uma luta contra a própria voz. O rapaz não deixou de reparar no embaraço dela e teve de morder os lábios para não rir. Era tão engraçado como eram casados e continuavam agindo como um casal de crianças... "Apenas reascenda o fogo e prepare algo comestível. O cheiro de comida o fará acordar, quer queira, quer não!"

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"O QUE QUER DIZER COM NÃO TEM NENHUMA COMIDA?"

Foi a primeira frase que Syaoran ouviu ao acordar.

"Majesta—Sakura, parece que toda a comida foi levada durante a noite."

"Está mentindo para mim," Falou ela, irada, cruzando os braços. "eu tenho um sono muito leve, Eriol. Você está me dizendo que alguém veio, desamarrou nossas coisas sem acordar os cavalos, pegou todas elas e foi embora sem que eu sequer percebesse?"

"Não," Respondeu Eriol, olhando o céu. "Não creio que foram pessoas, Sakura. Lembra-se daquele morro com um espinheiro em cima pelo qual passamos? É um sinal muito forte de que esse lugar está infestado de criaturas encantadas. Provavelmente fomos roubados por Springgans ou duendes de algum tipo." Ele deu de ombros. "Ele são pequenos e ágeis o bastante para não fazer nenhum barulho."

"De que estão falando?" Syaoran se sentou reto e bocejou. Ainda estava sonolento demais para conseguir acompanhar o ritmo daquela conversa. De fato, nem teria acordado se Sakura não tivesse gritado tão estupidamente alto.

"Alguns monstrinhos idiotas roubaram toda a nossa comida!" Resumiu Sakura, tão irritada que seria capaz de matar alguém. "Ah, esses malditos!"

"Bem, então ficaremos sem comer até encontrarmos alguma casa, ou loja, certo?" Suspirou o rei. "Maravilha. Queeee maravilha."

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Em uma hora, deixaram a clareira e recomeçaram a jornada em direção à praia onde moraria Mizuki. Dessa vez, porém, a viagem era infinitamente menos divertida do que fora no primeiro dia, primeiramente porque estavam viajando praticamente de barriga vazia. E, depois, não podiam andar nem a trote, muito menos a galope, já que tinham que desviar das várias árvores e o terreno parecia pouco confiável.

"Temos que sair daqui o mais rápido possível," resmungou Syaoran, tirando um pequeno galho da frente do rosto. Ao fazê-lo, algo parecido com um foco de luz saiu do meio das folhas e fugiu rapidamente, passando logo ao lado de uma das orelhas do rei. O susto foi tamanho que quase derrubou-o do cavalo.

Sakura riu da reação como se ela própria não tivesse agido assim quando as três fadinhas passaram ao seu lado. Bem, ele não precisava saber.

A briga gerada depois foi tamanha que o resto do caminho, até o cair da noite, foi percorrido em silêncio. Eriol jamais se sentira tão deslocado na vida. Certo que ambos estavam mal humorados por causa do estômago vazio, mas precisavam agir como se tivessem cinco anos? A primeira palavra que trocaram após o longo período de silêncio foi quando exclamaram ao mesmo tempo:

"Uma casa!"

De fato, perdida no meio da floresta, havia uma casinha. Ela parecia tão irreal que Sakura não se surpreenderia se dentro dela morassem os sete anões daquele antigo conto de fadas que sua mãe certa vez lhe contara ao pé do fogo. As paredes eram de pedra, recoberta de musgo, e o teto parecia feito de uma grossa camada de palha. Era como um sonho materializado que poderia se dissolver no ar a qualquer momento.

"O sol já se pôs há algum tempo," constatou Eriol olhando o céu. "o melhor que temos a fazer é pedir um pernoite nessa casa. Isso é, se é que alguém mora nela."

Sakura foi a primeira a se adiantar e aproximar o cavalo branco da porta, mas Syaoran desmontou primeiro e a deteve.

"Damas não batem em portas, Sakura, elas pedem que os cavalheiros batam por elas," Ele explicou galantemente. Quando ela abriu a boca para protestar, foi imediatamente cortada. "e de mais a mais não se bate numa porta montada à cavalo. É desrespeitoso."

"Como se alguém realmente morasse aí!" Ela retrucou. "Provavelmente está vazia. E eu não devo regras de etiqueta ao vazio!"

"Quem está aí fora?"

A voz esganiçada veio de dentro da casa e assustou os três viajantes. Syaoran teria dado um enorme sorriso vitorioso se a porta não tivesse se aberto no instante seguinte e, de dentro da casa, não tivesse voado um sapato atingindo-o na testa.

"Springgans malditos!" Resmungou a mesma voz, lá de dentro. "Deixem-me em paz!!"

Era uma velha, uma das coisas mais assustadoras que Sakura já vira. Ela era altíssima ("Deve ter quase 1,90 m!" foi o pensamento da garota), muito magra, os braços ossudos e longos, e andava com os joelhos e as costas curvadas, porém duros nessa posição. As expressão em seu rosto era de absoluto descontentamento. Vestia um vestido muito simples, de lã crua, porém com um lindo xale pelos ombros. Um monóculo aumentava seu olho esquerdo.

"Minha senhora," disse Eriol diplomaticamente, descendo do cavalo e curvando-se. Essa demonstração de respeito fez a velha tranqüilizar-se, apoiando as duas mãos na bengala que trazia e sorrindo. "Estamos procurando abrigo para passar a noite. Por acaso saberia onde podemos encontrar um?"

'Não é à toa que ele é conselheiro,' ponderou Syaoran, massageando a testa atingida. 'Consegue tranqüilizar as feras!'

"Bem," disse ela, com a voz esganiçada um pouco menos histérica. "eu ofereceria minha casa, mas creio que não será uma noite tranqüila."

"Oh?" Eriol olhou para cima, ainda curvado. Ele conhecia o tipo daquela velha. Provavelmente fora criada rigidamente e agora achava que todos eram inferiores, pois ela era mais velha. O mais adequado para conseguir favores dela era exatamente parecer submisso, coisa que ele duvidava que qualquer uma das realezas conseguisse.

A velha resmungou alguma coisa inaudível antes de responder numa voz pouco mais alta que um sussurro: "Esse lugar está infestado de ladrões Springgans. E todos eles me odeiam."

Sakura estancou. "Foram os desgraçados que roubaram nossa comida!" Ela disse.

"Se tiveram alguma coisa roubada, com certeza foram eles." Respondeu a outra, dando de ombros. "Bem, eles costumavam dividir as mercadorias roubadas na minha casa. Eu não podia permitir isso, então pendurei uma ferradura na porta e agora eles não conseguem entrar, por isso fazem uma algazarra aqui fora todas as noites."

"Mas eles com certeza lhe recompensavam por usar sua casa como local de reunião." Falou Eriol, levemente surpreso. Os seres encantados normalmente retribuem os favores que os humanos lhes fazem.

"Ah, sim, claro. Me deixavam uma moeda de ouro por noite, mas, entenda, eu não podia deixar que minha casa virasse um covil de ladrões."

"Espere..." Sakura ponderou. "Isso quer dizer que, se tirarmos a ferradura da porta, eles provavelmente voltarão a entrar para dividir as mercadorias esta noite, certo...?"

"Ah, sim, sim, provavelmente."

A rainha deu um sorriso maligno. "Senhora, eu sou Sakura, soberana desse reino. Poderia nos deixar pernoitar em sua casa?"

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"Estão ouvindo?"

Estavam. Eram barulhos muito baixos, como uma cobra deslizando pela areia. Eram os pequenos ladrões Springgans, curiosos, entrando na casa pela primeira vez em algum tempo. O que tinha sido feito da ferradura? A dona da casa teria se mudado? Eles se comunicavam entre si com o que pareciam sussurros de uma língua incompreensível.

Mas logo simplesmente esqueceram tanto a velha quanto a ferradura.

"Veja quantas coisas," Sussurrou Syaoran, tão baixo que só Sakura a ouviu, quando os ladrõezinhos começaram a colocar no centro da roda tudo que tinham obtido durante o dia. "tudo isso veio de viajantes perdidos?"

"Ali está nossa comida!" Ela murmurou de volta, segurando a ferradura firmemente na mão. "É minha vez de entrar em ação."

"O quê? Ficou maluca?! Se jogar essa ferradura no centro da roda..."

"... eles vão fugir e deixar nossas coisas para trás, exatamente." Ela completou.

"E também vão nos perseguir pelo resto da viagem, pequeno gênio." Isso estava virando uma pequena discussão, como tantas outras houve. Mas dessa vez discutiam sibilando, e não gritando. O que já era uma grande avanço, na opinião de qualquer um que já tivesse presenciado uma das brigas.

Sakura não tinha uma resposta.

De repente, a velha senhora tomou-lhe a ferradura das mãos e lançou-a no meio da roda de Springgans. A debandada foi tão veloz que Eriol posteriormente a descreveu como 'se um furacão tivesse passado de repente e levado todos' — nunca, nem quando dissera para seu rei, muitos anos atrás, "Creio que vossa Majestade deveria pedir desculpas à sua esposa", vira algo desaparecer tão rápido.

No lugar que outrora estava a roda de seres encantados, ficara só os itens que eles dividia. Incluindo a comida afanada dos jovens viajantes.

"Porque fez isso?!" Perguntou Sakura, dessa vez num tom bem audível, segurando o pulso da velha. Esta trincou os dentes e libertou o braço com irritação.

"Olhe lá como fala comigo, mocinha!" Ela sibilou, erguendo o nariz curvado. "É assim que me agradece? Fiz isso porque os Springgans já me odeiam de toda a forma e não faz diferença, mas eles poderiam atrapalhar um bocado a viagem das Majestades."

Sakura ficou sem reação diante desse ato de altruísmo. Principalmente vindo de uma velha tão rabugenta.

"Bem," Interviu Syaoran, segurando a noiva pelos ombros ao ver que ela não tinha resposta. "nós—nós lhe agradecemos muito."

"Humph!" Foi a resposta dela, enquanto virava o resto de se recolhia, quase magoada. Eriol levantou-se e foi recolher o que os ladrõezinhos haviam deixado para trás e, principalmente, pendurar a ferradura novamente na porta. "Esses jovens de hoje em dia. Só porque são realeza acham que são melhores que os quase oitenta anos que vivi e—"

"Hey," chamou Sakura de repente.

Com as sobrancelhas brancas a centímetros de se juntarem em cima do nariz a velha se virou devagar, quase perigosamente.

"Desculpe."

Eriol parou a meio caminho da porta em por pouco não deixou cair a ferradura; Syaoran soltou os ombros da noiva como se ela queimasse; a anciã meramente arqueou as sobrancelhas, um pouco surpresa, porém infinitamente agradada.

"Ah, minha criança. Não foi nada." Ela disse num tom quase carinhoso que ficava terrivelmente dissonante da voz estridente e áspera. Depois, virou-se novamente e recolheu-se para passar a noite. Quase um minuto inteiro de silêncio se passou depois disso. Eriol pendurou a ferradura, impedindo a estrada de Springgans no lugar; Syaoran deu um sorriso vitorioso; Sakura, mesmo de costas para ele, quase podia sentir o curvar de lábios... cerrou os punhos e ficou muito vermelha.

"Doeu?" Perguntou o rei.

"O quê?"

"Doeu se desculpar uma vez na vida?" Ah, ela o odiava! Odiava quando ele usava aquele tom de sarcasmo com ela! Odiava quando sorria daquela maneira! Odiava quando cruzava os braços em frente ao peito numa clara demonstração de superioridade!

"Do que está falando?" Ela sibilou, incomodada com o silêncio. Ficar em silêncio era como dar razão a ele.

Mas Syaoran deu de ombros. "Não finja que não sabe. Quando foi a última vez que se desculpou?"

"O quê—! Ora—" Ela gaguejou de raiva antes de encontrar as palavras certas. "Não nos vemos há dez anos, Li! Quem é você pra dizer o que eu faço ou deixo de fazer?!"

"Você não mudou quase nada nos últimos dez anos, então deve continuar a mesma criança de antes, que nunca admite ter a culpa!" Ele rebateu. "Sua mãe não devia ter te ensinado humildade?!"

"Não abra a boca pra falar da minha mãe, Li Syaoran!"

"... Uh— Alguém quer um doce?"

Quase caíram pra trás: tinham esquecido completamente da mera existência de Eriol. O conselheiro lhes estendia uma espécie de bolo e sorria forçadamente, sabendo que aquela era umas das piores desculpas que poderia ter inventado para parar a briga. Sakura e Syaoran se entreolharam: tinham falado demais no calor da discussão. O que o companheiro pensaria deles após terem dito que não se viam há dez anos? Só podiam esperar que ele fosse discreto o bastante para não comentar.

"Ah, sim," ele continuou quando uma desculpa melhor lhe ocorreu. "o que devo fazer com o resto das coisas? Deixar lá fora pra os Springgans pegarem?

"Sim," respondeu Sakura, atordoada. "Sim, sim, acho que é melhor." E Eriol se virou para cumprir a ordem.

"Simplesmente brilhante, Sakura." Sibilou Syaoran quando o companheiro tinha se afastado o bastante para não ouvi-los.

"O que foi? Você também falou um bocado que não deveria." Ela respondeu.

"Mas foi você quem começou com a coisa dos 'dez anos'."

"E você ainda diz que sou eu quem nunca admite ser a culpada?"

Em pouco tempo estavam discutindo novamente. Eriol deu um longo suspiro quando abriu a porta novamente — não podiam ficar cinco minutos sozinhos sem que um choque de gênios acontecesse. E então, quando estava prestes a intervir, a porta do quarto da velha se abriu e de lá de dentro voou o outro pé do sapato que, mais cedo, fora jogado em Syaoran.

"Calem a boca, vocês! Estou tentando dormir!" Ela falou em um tom absolutamente irritado. Ninguém ousou dizer mais nada, e fizeram suas camas em silêncio.

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No dia seguinte, cordialmente despediram-se de sua anfitriã e partiram. Foi o primeiro de alguns dias de paz quase absoluta, quebrada apenas por eventuais discussões das Majestades que, entretanto, nunca duravam muito. Viajam em silêncio na maior parte do tempo.

Isso dava a Eriol bastante tempo para pensar sobre o que ouvira.

'O que eles quiseram dizer com dez anos?" Era o que passava pela cabeça dele. Já fazia um tempo que ele notava uma mudança no rei e na rainha que, no entanto, atribuíra à falta de atenção que tivera para com eles desde de seu vigésimo aniversário — provavelmente eles haviam mudado aos poucos, e isso passara despercebido pelo conselheiro.

Mas agora, mil outras hipóteses vinham a sua mente, elas iam desde gêmeos idênticos que haviam tomado o lugar dos soberanos até um rapto dos verdadeiros Sakura e Syaoran pelos seres encantados. Mas porque seres encantados no lugar do rei e da rainha consentiriam em acompanhá-lo até a casa de Mizuki — mais do que isso, insistissem que ele fosse à casa de Mizuki — se tinham planos para controlar o reino, ou coisa que o valha?

Por fim a resposta o atingiu. Sim, só podia ser aquilo.

Eles haviam tido um choque... e agora sofriam de amnésia.

Não entendeu como não pensara nisso antes. Claro, haviam perdido todas as suas memórias dos últimos dez anos! Oh, insensível que fora! Agora entendia porque o nome Kaho Mizuki não lhes era familiar, porque se espantavam como crianças diante de fadas. Tomou uma decisão: dali em diante, explicaria tudo à seus soberanos, mas sem que eles percebessem que ele lhes descobrira o segredo. Oh, sim, ajudaria-os.

E, com esse pensamento, sorriu para o sol lá no céu.

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"Hey, Syaoran, você notou como Eriol tem agido esquisito desde ontem?" Sakura perguntou, no quarto dia desde tinham deixado a velha para trás, assim que o moreno saiu para buscar água no rio. Syaoran assentiu, sério, enquanto colocava um pedaço de carne um pouco acima do fogo. "A cada ser encantado que menciona, ele dá quase uma ficha completa incluindo hábitos alimentares, habitat natural, personalidade... E, também, faz questão de nos informar onde estamos no mapa, características do local... É muito meigo da parte dele e tudo, mas..."

"Você acha," ele perguntou, preocupado, sentando-se próximo ao fogo. "Que ele descobriu tudo? Descobriu que não somos os verdadeiros rei e rainha do reino dele? Eriol é um homem muito gentil, deve estar fazendo seu máximo para nos situar, mas... Não entendo, como ele poderia ter deduzido isso!"

"Não fique tão inquieto, Li. Não há tanto problema, mesmo que ele tenha descoberto." Sakura disse, fazendo seu melhor para parecer casual e superior.

"Como, não há problema, Sakura?" Ele bagunçou os cabelos. "Já tivemos essa conversa antes. E você própria ficou completamente irada quando eu perguntei a ele onde era nosso quarto." Ele fez uma voz de falsete. "'Temos que manter as aparências'... Imagine o que pode acontecer se descobrirem que viemos de outro mundo! Já leu sobre as torturas que fazem com as bruxas?"

"Eu andei pensando um bocado sobre isso. Enquanto estamos viajando, ele não tem como contar a ninguém mesmo," respondeu, dando de ombros.

"E depois que voltarmos?"

Os olhos verdes de Sakura brilharam esmeralda, refletindo o fogo. "Se tudo correr como eu planejo, não vamos ter que voltar." Ela fez uma pausa, em que foi fitada pelo noivo. Julgou que estivesse curioso, mas na verdade estava fascinado pelos olhos dela. "Talvez insistir nessa viagem completamente insana de Eriol até uma feiticeira perdida na praia não seja inútil! Talvez ela possa nos levar de volta! Parece que é muito poderosa, e se eu estiver certa, problemas resolvidos!"

"E se não estiver?" Ele perguntou, saindo do transe.

Ela deu de ombros. "Bem, aí vamos ter que assassinar Eriol ou coisa assim."

Nesse momento, silenciaram, ouvindo os passos daquele de quem falavam. Eriol entrou na pequena clareira com os cantis cheios de água nas mãos e um sorriso enorme no rosto.

"Voltei! Esse rio, o Scar, é longo e muito tranqüilo, além de raso. Ele começa desde fora da floresta e há até um pedacinho dele próximo ao reino, mas essa parte dele é bem mais larga e funda." Syaoran revirou os olhos. Como ele decorava tanta coisa inútil? "Mas de que falavam?"

"Falávamos sobre como vamos matar você." Respondeu Sakura em um tom morbidamente brincalhão. Syaoran quase engasgou; Eriol riu. "Sim, pois é e— Syaoran, o fogo está quase engolindo a droga da carne!!"

A jovem ajoelhou-se no chão e puxou o pedaço de ferro no qual estava fincada a carne — de fato, sendo lambida pelas primeiras labaredas. Mas esse tinha sido mais ou menos o método pelos último cinco dias mesmo: a carne ficava irremediavelmente queimada e quase sem gosto. Se bem que normalmente os viajantes estavam cansados o bastante para simplesmente engolir qualquer coisa com o maior prazer.

"Não me admira que queime, francamente," Ela resmungou, colocando o espeto numa posição um pouco mais afastada.. "Ah, hoje vamos comer um jantar decente. Eriol, passe o sal. Ah, acho que sobrou um pouco de manteiga também. Passe, passe!"

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"Sakura, quer se casar comigo?" Perguntou Syaoran dramaticamente ao dar a primeira mordida na carne. Sakura deu-lhe um tapa na parte de trás da cabeça e corou violentamente. "Ok, ok, já somos casados, eu tinha esquecido!!" Murmurou Syaoran em sua defesa, mas ela, que tinha esquecido desse detalhe, corou ainda mais e deu-lhe outro tapa.

Eriol olhou fixamente a comida. Já tinha esquecido até do próprio casamento? Provavelmente Sakura estava brava por ele quase ter deixado escapar o segredo da amnésia dos dois.

"Eu não sabia que você cozinhava tão bem, Sakura." Comentou o rei, dando outra mordida prazerosa na carne. Sakura sorriu de modo convencido e murmurou 'é, não tinha como saber mesmo'.

'Sim... afinal ele se esqueceu de tudo...' o moreno olhou melancolicamente o casal, que tentava de todas as maneiras esconder a verdade dele. Sakura percebeu que o tinha falado soava suspeito e tentou corrigir-se.

"Quer dizer— nunca me deixam cozinhar no castelo, não é?! Er—" coçou a parte de trás da cabeça. O conselheiro baixou o comida e decidiu: bastava. Era humilhante demais para as majestades que haviam sido tão gentis para com ele.

"Sakura, Syaoran, podem parar com toda essa encenação," ele disse solenemente. Os dois param tudo que estavam fazendo e olharam para o companheiro de viajem, em expectativa. "Eu sei o segredo de vocês. Sinto muito, sei que estavam fazendo o máximo para não dar na vista mas... Não foi muito difícil descobrir."

Syaoran suspirou pesadamente. Então ele havia mesmo deduzido que não eram os verdadeiros rei e rainha? Perspicaz. Passou um minuto de silêncio entre esse suspiro e a próxima fala. "Muito observador, Eriol. Você deve querer algumas explicações... mas, para ser sinceros nem nós sabemos direitos como foi."

Como haviam sido sugados para dentro do quadro? Algum dia chegariam a saber?

"Muito compreensível. Não se preocupem, seu segredo está a salvo comigo, faço um juramento solene." Ele levantou-se e ergueu a mão direita, como uma criança que jura que é confiável. Sakura riu.

"Obrigada, Eriol. Mas, quando encontrarmos Kaho Mizuki, creio que ela também poderá resolver nosso problema, além de curar sua maldição. Não há com o que se preocupar."

"Ah, com certeza ela dará um jeito," Falou ele, erguendo uma sobrancelha. Recuperação de memória seria algo simplíssimo para Mizuki... Talvez até mesmo a druida do castelo conseguisse dar um jeito, na verdade. 'Mas, claro,' ele pensou um estremecimento 'é muito compreensível que não queiram vê-la'. O corte que ela fizera em sua mão formada uma enorme cicatriz cortando a palma. Definitivamente era, no mínimo, uma velha com uma força anormal.

"É, ela dará. Não disse, Li?" Ela falou, sorrindo altivamente para o marido. O sarcasmo era evidente em sua voz.

Ele levantou as mãos em sinal de rendição. "O que eu dizia, Sakura, é que você nunca admite quando está errada, não que sempre está errada." Sakura pareceu em dúvida se devia levar isso como um elogio ou uma ofensa. Como não chegou a nenhuma conclusão, comeram o resto da refeição em silêncio, depois desejaram-se uma boa noite mutuamente e foram dormir.

Fim do sexto dia de viagem.

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Estou cansada, terrivelmente cansada, e cada junta do meu corpo dói. Maldita velhisse. Será gota? Reumatismo? Blah, não sei nem me importo o bastante para me mexer e descobrir. Se dói? Não, só quando respiro. Só sei que quero acabar com isso o mais depressa possível.

Ando tão desanimada para preparar novas armadilhas... Não sei porque. Pensei várias vezes em simplesmente deixar ACF de lado, mas aí eu me lembrava de fics que eu adoro e que estão simplesmente paradas há milênios. Vocês me perdoam por demorar muito, se eu jurar que vou continuar?

Ho ho ho #risada de bruxa má# que tal me darem algum incentivo pra colaborarem também? Sim, eu imploro por feedback, e aproveito para implorar por comida e água também.

Ok, é mentira. Eu não imploro, eu ORDENO. E não preciso da sua comida e água u.ú #se acomoda# sou autosuficiente nisso #se prepara para fazer fotossíntese, mas sua gruta que serve de casa é escura demais para isso# ... droga.

Parti, cavaleiro/dama! #risada má enquanto some na escuridão da gruta#