Um Último Inverno - Títulos são desnecessários diante da verdade. – parte dois.

"Ele observou mais atentamente a sacola; era de uma loja infantil. Sentiu seu estômago revirar. Seus lábios se contraíram e seus olhos expressavam algo perto de repúdio. Não agüentava mais aquilo. Precisava falar para ela de qualquer maneira; não se via como pai e duvidava que isso fosse mudar.

- Angela...

- sim? – disse tirando os sapatos. Ela simplesmente não acreditava que um dia de compras podia ser tão divertido. Bom, nunca tivera uma amiga para ir as compras, talvez tenha sido por isso. Seu coração parecia não suportar tal felicidade. Ia se casar, constituir família com o homem que amava e com o filho fruto desse amor. Nada podia ser mais...

- eu não quero esse filho. – disse com calma e seriedade, enquanto olhava para ela.

...Perfeito.

- o que disse? – proferiu Angela, que o encarou instantaneamente, sua expressão era de puro choque.

O chão lhe fugia aos pés, não sabia o que fazer ou o que pensar. Sua mente se conturbou com a verdade, seu coração havia se descompassado, nenhum som lhe entrava mais nos ouvidos. Seu mundo tinha simplesmente desabado.

Essa fora a pior notícia de toda sua vida."

Nunca se sentira tão humilhada em toda sua vida.

Encontrava-se chorando incontrolavelmente em sua casa. Hiromi encontrava-se em sua cozinha preparando-lhe um chá. Takao estava com a inglesa; frustrado na tentativa de fazê-la parar de chorar, mas vitorioso em sua tentativa de ocultar sua irritação com o bicolor.

Seus pensamentos estavam confusos. Seu coração doía. Ela sabia que não era forte. Tinha a plena consciência de que fora ludibriada mais uma vez, pelo seu coração tolo e infantilmente puro. Sua face, que outrora fora sorridente e iluminada, refletia agora seu estado de espírito. Não queria conversar. Se sentia burra. E como se seu coração não agüentasse mais tanto desgosto, auto-humilhação e pensamentos sórdidos com relação a alma que residia aquele corpo; Angela sentiu um arroubo de fraqueza. Precisava desabafar tudo que sentia. Precisava dizer o que pensava, ou tinha o receio de que seu coração explodiria diante de tantos sentimentos impuros; pensamentos esses, indignos da criança que carregava.

Takao já havia abandonado a esperança de que ela falasse. Tinha em mente ir a mansão Hiwatari assim que conseguissem acalmar a Christopher, por isso, se encontrava olhando pensativo para um quadro pregado na parede do quarto.A mulher que encontrava-se em prantos sentada em sua própria cama - pensou Takao – provavelmente, estava sentindo-se ludibriada, e nada do que lhe dissesse naquele momento, poderia aplacar esse sentimento . Por isso, após várias tentativas frustradas de fazê-la parar de chorar, resolveu prestar-lhe solidariedade muda. Apenas estando por perto e esperando ela desabafar quando estivesse pronta. Na verdade nunca achou de fato que ela começasse a falar com ele. Achou, na verdade ela iria querer desabafar com Hiromi, já que ambas eram mulheres e amigas. Foi com espanto e susto que ouviu a voz fraca e meiga da inglesa falar-lhe, embargada pelos sentimentos que a possuía, pelo pranto deveras forte que a acometia.

- sou burra... – disse apenas. Olhando para o kinomya a sua frente, que pareceu-lhe deveras espantado ao ouvi-la falar. Sua voz saiu estranha. Provavelmente por causa do nó que sentiu na garganta.

- quê? Claro que não Angela. O Kai é que é um idiota; só isso...

- não t-takao... Sou burra mesmo. Burra e azarada... Por que eu simplesmente não posso viver em paz? Por que a tristeza sempre me persegue? Por que a desgraça sempre se coloca em minha porta, por mais benevolente e simples que eu seja? – lágrimas nasciam nos olhos castanhos e escorriam por sua face, enquanto sua garganta se colocava em soluços intensos. Seu choro era nervoso, agudo e,aparentemente, incansável.

Takao abria e fechava a boca varias vezes, tentando dizer algo que valesse a pena. Mas de seus lábios um único som, por menor que fosse não saía. Ele, estarrecido e se sentindo inútil com tudo que acontecia; fez a única coisa que achava que deveria fazer nessa hora: ele a abraçara.

- VOCÊ FEZ TUDO ERRADO SEU IDIOTA! – eram as palavras que saíam da boca do ruivo. – ELA TE AMA! ESTÁ ESPERANDO UM FILHO SEU E VOCÊ SIMPESMENTE...REJEITA! – completa o ruivo, dando as costas ao Hiwatari a sua frente, para olhar para a janela.

- eu não estou preparado pra ser pai Ivanov! – disse não muito seguro do que dizia. Sua voz estava temida, mostrando seu abalo. Seus lábios sorveram mais um gole da garrafa de Vodka que segurava.

- VOCÊ NÃO A MERECE! NÃO A MERECE! – sua respiração estava ofegante. – ELA NÃO MERECE ESTAR PASSANDO POR TUDO QUE ESTÁ PASSANDO, E POR SUA CULPA! - Estava com o rosto vermelho. Sem dúvida alguma sua pressão subira e seu sangue se encaminhava ao cérebro. A raiva o consumindo por completo.

- esquece. Ela vai continuar a vida dela e eu com a minha. Todos em paz. – dizia o bicolor, já com ares de bêbado. – ela vai ficar bem.

- EU A AMO KAI! – disse olhando-o nos olhos. - morei dois anos no orfanato em que a Angela morava. Nesse tempo, todos riam de mim por causa do meu cabelo, por isso passei a simplesmente ignorar todos a minha volta. Nunca fui, assim como você, muito sociável, portanto, não me importava em magoar, irritar ou bater em ninguém. Para mim, assim como ainda é hoje, sempre foi um divertimento. Mas com ela... Foi diferente.

- Flashback -

Um garoto ruivo chorava sozinho encostado na raiz de uma árvore. Uma mão pequenina e quente pousou em seu ombro.

- Hi! You are... Ãh... – foi o que disse uma garotinha, que parecia um pouco confusa e frustrada com o que dissera -... Hum... Você... Como falar?... Você... Ãh... – uma expressão de estrema frustração se apoderou do rostinho angelical da garota. Yuriy parecia confuso, achava que a garota era retardada, porém, parecia que ela o fascinara. Seu rosto angelical e inocente fez o coração frio e conspurcado do menino bater mais forte. - Você... Você bem? – disse com um pequeno sorriso benevolente.

- você é retardada? – disse o garotinho extremamente ruivo, sem nenhuma cerimônia, com um timbre seco e sarcástico, como era de seu costume.

- Ãh... Poder... Poder falar um pouco... De... Deva... devagur? – disse mordendo levemente o lábio inferior.

Um sorriso sínico por parte do ruivinho, "até gaguejando essa pirralha é bonitinha" – foi o seu pensamento.

- não é devagur, é devagar! Não sabe falar direito minha língua néh? – devido à expressão interrogativa da garotinha ele sorriu novamente e falou a mesma sentença, mas dessa vez bem mais devagar.

Ela apenas balançou a cabeça em sentido positivo. Yuriy nunca tinha visto garota mais bela do que aquela. Com um simples sorriso parecia iluminar tudo a sua volta.

- Você... Está bem? – disse a 'loirinha' com uma expressão de preocupação no rosto tão jovem.

- tô, to! – disse corando levemente. – meu nome é Yuriy Ivanov.

- Nao! Nao está! GOD, COMO ESTÁS VIRMILHO! Digo... Vermelho! Está febre? – disse se apresando em medir a temperatura do mancebo.

- é "Não" e não "nao". E sim, já disse que estou bem. – disse tirando a mão pequenina e quente de sua testa.

- Sorry... – disse abaixando a cabeça. – My name... Digo... Meu nome é Angela Christopher.

- eu sou ingrera. – disse a garotinha de cabelos encaracolados sentada a beirada do lago.

- Não... Hum... – disse engolindo o que tinha na boca - Eu sou inglesa. – disse o ruivinho que se encontrava sentado ao lado da garota comendo uma maçã.

- eu sou... Inglesa. – disse a garota sorrindo.

- isso. Agora... As cores da calçola da Madame Rakítina. – disse o pequenino mordendo novamente a maçã.

- Yuriy! – disse a menininha dando-lhe um tapa fraco no braço do menino. Esse sequer a olha, estando mais interessado na bela e vermelha maçã eu encontrava-se em sua posse.

- Quê? – disse apenas displicentemente. – fala logo que seu russo ainda está péssimo.

- Hum... Amalero... – falou a inglesinha tentando concentrar-se.

- Não!... Hum... – disse engolindo um pouco de maça - icho tá boum mexmo em... – engolindo o resto do que estava na sua boca - ãh... Amarelo. – disse mordendo de novo a maçã.

- amarelo... red... Digo, varmalho...

- vermelho! – redargüiu o russo.

- Fue o que disse. – disse a garotinha num extremo bico.

- você sabe muito bem que eu já tô vacinado contra esse seu bico. E não, não FOI o que você disse. – falou o rapazinho displicentemente.

- ãh... amarilho...digo, amarelo... varmalkho...

- vermelho!

- vermelho...

- vamos Yuriy! Sei que você consegue! – disse a menina incentivando-o.

- hunf... Não sei pra que eu tenho que aprende essa língua idiota! – disse reclamando.

- ora não seja rabugento. Vamos... "I am Yuriy Ivanov!"

- I am Yuriy Ivanov!

- Yes! Very good! Very good! – disse a garota batendo palminhas.

- posso saber o que isso significa?

- very good é a mesma coisa que muito bom!

-ok!... You are my Best friend Angela!

- tank you! – disse a garota corando levemente.

- por que você tem que ir embora? Eu não quero que você vá! Tenho tanto a aprender ainda Yuriy! – disse a garota entre lágrimas.

- Seu russo e meu inglês já estão ótimos Christopher! E além do mais, eu sou uma péssima influência para você! Já sabe até como arrombar portas... – disse tentando conter as lágrimas da menina.

- Mas eu quero que fique aqui Yuriy, não quero ser vendida.

- hum... Angela escuta: você é linda! Logo vai ser adotada! Agora pare de besteiras tá bem? – disse a última frase dando as costas a garota. Seus olhos vermelhos formavam lágrimas as quais não queria mostrar.

- Yuriy, nunca vou esquecer você! – disse meigamente abraçando o garoto por trás.

O garoto apenas olhou-a pelo canto dos olhos. Não pensara em nada para dizer a garota e não possuía coragem de dizer o que sentia.

- eu também nunca vou te esquecer Angela. – disse apenas antes de fazer a garota largá-lo e ir andando ser se quer olhar para trás.

- Fim do Flashback -

- você só pode estar brincando... – disse o Hiwatari levantando-se de súbito e encarando-o. Estava deveras surpreso, mas a bebida já mostrava seus efeitos e inevitavelmente sentou-e na cadeira novamente, deixando cair a garrafa de Vodka a qual bebia até agora.

- Eu penso nela, eu sonho com ela, eu a desejo dês do primeiro dia em que a vi. Dês da época do orfanato.

- mentira. – disse olhando para a garrafa que estava em suas mãos. Depois elevou-a ao alcance de seus lábios, para mais um gole do líquido ardente.

- Não. Não é mentira e você sabe disso... – disse encarando-o. – nunca se perguntou por que eu me importava tanto com a sua "empregada"? – disse fazendo aspas com as mãos ao pronunciar a palavra empregada.

Kai estava perplexo. Bebia goles maiores de sua vodka. Estava apenas a encarar o ruivo deixando que ele se explicasse. O ruivo deu um sorriso irônico.

- você nunca realmente se importou com o meu passado ou com o que eu sentia não é?... VOCÊ NUNCA SE IMPORTOU COM NIMGUÈM SEU CRETINO! – lágrimas caíam de sua face. Seus orbes estavam vermelhos. Sua íris azulada se destacava mais ainda diante do vermelho. Veias se destacavam por toda a extensão do rosto do ruivo. Encaravam-se.

- nem você. – disse seco. – você é exatamente igual a mim Yuriy, só está tendo um ataque idiota de sentimentalismo, só isso.

Yuriy deu uma gargalhada. Os empregados lá fora a muito já tinham parado os seus afazeres, para ouvir a briga dos dois "patrões" dentro do escritório.

- como você é hipócrita, Kai. Você sabe tão bem quanto eu, que você ama a Angela. Só está sendo egoísta demais para isso... – o silêncio se instaurou por alguns minutos do recinto. Yuriy tinha se virado novamente para a janela, a fim de encarar, novamente, as nuvens no céu, no seu prenuncio mórbido e conveniente de chuva. – nunca toquei em Angela sabendo que você estava se apaixonando por ela.

Kai levantou uma sobrancelha. A bebida já estava deixando-o cansado, e todas essas revelações, por mais que ele fingisse, atingiam-no como flechas de dor, que atravessavam o ar em busca de seu corpo. Deixou-se cair novamente na cadeira. Mas precisava negar tudo. Não podia deixar que sentimentos bestas o fizessem voltar atrás em sua decisão.

- Mentira. – disse, mas sem muita certeza em sua voz.

- não. Não é, e você sabe bem disso. Você e o maldito Boris são as únicas pessoas que posso chamar de amigos... Jamais faria algo que traísse nossa amizade. E não me chame de retardado dizendo que é mentira, ou que você não sente o mesmo, porque nós dois sabemos que não é verdade. – mais minutos de silêncio. Nenhum dos dois se encarava. Kai observava a foto do time borg colocado num porta-retrato em na escrivaninha de seu escritório pelo ruivo. Yuriy não se atrevia a tirar os olhos da janela. Apesar de sua voz estar embargada, ele ainda achava humilhante o bicolor o ver chorar. - Você só é o mais egocêntrico... – disse por fim baixinho, como se estivesse falando apenas para si. Tentando convencer-se de que era verdade. Mas infelizmente para os objetivos do ruivo, o Hiwatari ouviu, mas nada proferiu em resposta. Apenas desviou o olhar do porta-retrato que agora possuía em mãos, para o ruivo a frente. Passado mais alguns segundos, a voz do bicolor novamente invadiu o recinto. Soava firme, mas com sentimento.

- Você só diz que me tem consideração, por que o Sergei e o Ivan morreram naquele acidente não é? – disse com amargura.

- como adivinhou? – disse o ruivo com ironia ao se virar para encarar o bicolor.

Cinco meses se passaram. A barriga da inglesa já aparecia com o fulgor dos sete meses de gestação que possuía. Suas alunas riam ao pegar na barriga de Angela, os meninos brincavam que o pai só podia ser um jogador de futebol por causa dos fortes chutes.

Angela encontrava-se aparentemente feliz. Seus sorrisos encontravam-se desnorteantes, de tal maneira que faria jus a Michelangelo. Muitas vezes gargalhava gostoso com os alunos, que tinha deveras prazer em aprender com ela. Era de fato uma mulher encantadora, mesmo simples e tímida do jeito que era, e apesar do barrigão que agora possuía; muitos alunos ainda soltavam suspiros apaixonados pela bela pianista.

As meninas, em sua grande maioria tentavam imitá-la, mas sem obter muito sucesso em conquistar a ala masculina; por que Angela é única. E todos sabiam disso. Todos... Menos a pessoa que mais deveria se importar com isso.

Kai encontrava-se no escritório de sua fábrica. Yuriy era o vice-presidente da companhia, e como tal estava ali, com ele na sala de reuniões.

Kai nunca aprendera realmente inglês e não sabia como Yuriy podia falar com tanta naturalidade aquela língua estrangeira. Mesmo depois desses meses, ainda lhe era estranho ter o amigo por perto apenas em raras ocasiões. É claro que nunca admitiria isso, mas sentia falta de ter o ruivo por perto. Yuriy deve estar feliz. Pelo menos é isso que aparenta ao conversar com o empresário americano. - Risadas das duas partes. - Kai ainda se lembra daquela briga que tiveram por causa de Angela. Lembra também que esse foi o motivo pelo amigo voltar para Moscou.

- Então... Senhores é isso! Os americanos... – apontou para os loiros que estavam sentados a sua frente. – vão de fato fechar contrato! – disse o ruivo finalizando a reunião.

Todos se levantaram, ajeitando os paletós e apertando as mãos dos americanos, inclusivo o Hiwatari. Todos estavam saindo da sala, menos o ruivo que ficara para ajeitar alguns papéis, e o bicolor que ficou propositalmente, para... Bom isso não interessa! Ele é o dono e o presidente, pode muito bem ficar onde quiser, quando quiser. E isso de modo algum tem a haver com puxar conversa com seu EX- melhor amigo. Sim... digo NÃO! De modo algum ele está ficando lá por tal motivo... sentimentalóide.

Até por que, como o ruivo fazia questão de mencionar: eles eram EX- melhores amigos! E ex é um prefixo que indica passado, contrariedade, por tanto não há motivo algum para ele iniciar uma conversa! Mas... Hã... Ele quer... Hã... Saber sobre como ele... Sobre como ele conseguiu convencer os norte americanos isso! Ivanov sempre soube que o Kai era péssimo em inglês mesmo... Não seria novidade alguma, então não estaria se delatando digo... Não estaria ali sem fundamento. Não que ele não tivesse fundamento em estar ali só... Gostava de estar naquela sala, e não queria que o achasse louco por causa disso!

- bom trabalho Ivanov! – disse o bicolor inicialmente.

- tanks. – disse o ruivo com um sorriso um tanto sarcástico na boca. Ele sabia que o bicolor não entendera nada da reunião, por que sempre fora averso a inglês, o pouco que sabia, era por influência das músicas que tanto gostava de ouvir e por causa de uma certa pianista que sempre gostava de conversar em inglês. Por causa dos ciúmes, Kai se viu obrigado a iniciar um leve estudo sobre a língua, para suprir a necessidade dela da conversação, em lugar do ruivo que o fazia.

- hum... – disse de leve irritação. Já começara mal...

Um sorriso extravagante se formou nos lábios do ruivo, e Kai teve certeza de que ele sabia que o tinha irritado.

Hora do almoço.

O barulho de garfos se chocando com o prato ecoava pelo cômodo. Apesar de estarem no Japão, não podiam negar a sua nacionalidade russa. Para ambos, não era difícil comer com hashis, mas ainda assim preferiam o modo 'ocidental' de comer.

A tevê ligada mostrava o noticiário.

A imagem de uma mulher de óculos escuros com um guarda chuva em uma das mãos, apontando para um mapa eletrônico, foi substituída de supetão por um repórter de campo que noticiava ao vivo do local da notícia – uma escola, que aparecia ao fundo da tela.

Kai deixou o garfo a meio caminho da boca ao ouvir o nome da pequena escola primária da cidade de Akebono, automaticamente prestando atenção na TV. Intrigado pelo movimento súbito, Yuriy o acompanhou logo depois, a tempo de ouvir o repórter no local.

"Estamos ao vivo do colégio municipal de Akebono-cho, cidade do interior de Hokkaido. Os jovens estudantes, juntamente com os funcionários do local, foram rendidos por um grupo de terroristas. Foi pedido um alto resgate para a liberação dos reféns, e a polícia tenta agir..."

A porta do recinto onde a pouco se encontravam os dois russos estava balançando, revelando uma sala vazia, se não fossem por dois pratos ainda contendo comida.

O silêncio no carro era constrangedor. O céu acinzentado contribuía para o clima fúnebre instalado no automóvel. Kai dirigia o carro velozmente, enquanto o ruivo, silencioso como de costume, estava colocado no banco de passageiro ao lado do volante.

- O que vamos fazer, Kai? – Perguntou ele, sem tirar os olhos da janela.

- O que sabemos fazer de melhor, Tala. – Disse, sem tirar os olhos do caminho.

Aparentemente nenhum dos dois sentia necessidade de se encarar, tampouco o queriam. Mas o ruivo não pôde deixar de sorrir mediante o apelido dos tempos da Abadia Borg. Uma prova incontestável de que eram velhos amigos.

- Devo lhe lembrar que nós dois não treinamos há vários anos. – Disse com o ar de amizade que possuíam antes, porém com um pouco de melancolia. – Não acho que vamos conseguir. O único de nós que está "na ativa" é o Boris.

- Eu nunca disse que nós sairíamos bem-sucedidos. – Disse o bicolor antes de fazer uma curva com o carro.

- Fique calma, Angela! Os terroristas já estão negociando com polícia. Tudo vai ficar bem, calma tá? – Dizia Hiromi, tentando acalmar a grávida barriguda sentada a sua frente.

- Eu e-esto-tou com mu-muito me-medo Hiromi. – Disse entre soluços.

Uma mão morena pegou a Christopher pelo braço, puxando-a bruscamente.

- Você vem comigo, coisinha... – Disse a Angela, aspereza e luxúria em sua voz. Hiromi se levantou em um salto.

- Me le-leve no lugar dela! Ela está grávida. – Disse corajosamente ao terrorista que havia pego sua amiga. Foi respondida por um tabefe.

- Não seja idiota! Ela com esse rostinho lindo e delicado – Disse, roçando a ponta de sua arma no rosto alvo da pianista. – pode chocar mais do que você! Sem contar que pode me saciar bem mais.

Uma gargalhada rouca e metálica saiu da boca terrorista antes deste sair do lugar, levando consigo a mãe do filho de Kai.

Já estavam na entrada de Akebono-cho quando o som polifônico do celular do ruivo soou, quebrando a morbidez do silêncio instalado entre os dois russos.

- Yuriy Ivanov. – Disse apenas ao atender o celular.

- Boris Kuznetsov. – Disse a voz do outro lado da linha. – E aí Tala! Como vai essa ruivisse?

Tala apenas olhou para o bicolor com um estranho sorriso, que inspirava esperança diante de uma situação tão crítica e desesperadora.

- Eu quero o dinheiro que pedi! Ou essa aqui vai pelos ares levando o filhinho junto! Estão me ouvindo, idiotas? – Disse o terrorista frente às câmeras que os ligavam às telas da polícia.

As lágrimas rolavam espontaneamente pelos olhos da inglesa, por mais que as quisesse evitar, comovendo a todos que eram obrigados a vê-las.

Na frente do prédio, entre os jornalistas e os curiosos, se encontrava um Takao triste e sério segurando o menino Makoto. Seus orbes estavam vermelhos e seu semblante não possuía toda aquela vivacidade que outrora possuía e esbanjava. Hiromi, como já fazia há alguns meses, tinha levado Angela de carro até a escola, a fim de evitar que a grávida – que insistia em não deixar de trabalhar – andasse ou pegasse um ônibus com aquele barrigão enorme. Ao chegar, já encontraram os terroristas no colégio. Não pode fugir.

...

Sua mulher estava entre os reféns.

- Eu e o Yuriy somos maiores e vamos à frente para distraí-los, enquanto você vai atrás para cobrir a retaguarda e se infiltrar melhor. Se nos verem, não vêem você.

- Obrigado. – disse o Hiwatari.

- É pra isso que servem os amigos. – Seus olhos... seus olhos possuíam um brilho incomum. Nunca ouvira o Hiwatari lhe agradecer por nada antes. – Coelho! – Um sorriso. Aquele sorriso... de Sheshire.

Do lado de fora, a polícia local já se misturara com a tropa de choque. O exército também estava presente. Líderes se chocavam entre os comandos, jornalistas se expunham a ficar entre a polícia e o prédio, curiosos estavam a espreita para ver o que se sucedia. A situação estava criando dimensões catastróficas.

Aos poucos os três conseguiram se infiltrar no prédio. Com movimentos rápidos, cada um dos terroristas, que ficavam de vigília pelos corredores, iam sendo detidos. Cada andar era tido como um obstáculo a ser superado, pelo grupo que agora era mais unido. As câmeras iam sendo destruídas e tudo ia ficando mais excitante. A adrenalina era a maior fonte de energia dos três ex-companheiros. A cumplicidade de anos de treinamento era colocada a prova. E neste teste, eles até agora se saíam vencedores.

- Vo-você ainda... – Angela tinha a voz falhada e embargada pelo choro. – Ainda...

Um sorriso por parte do terrorista.

- Eu acho muito excitante fazer amor com grávidas... – Uma gargalhada. – Vocês ficam mais tensas... E isso dá um prazer excitante!

Os dois podiam ouvir o som de tiros.

- Está ouvindo? Provavelmente meus homens já estão matando alguns reféns como sinal para a polícia... – Um sorriso por parte do assassino. – Não vai me agradecer por estar aqui, comigo, ao invés de estar lá? ...Entre eles? – Uma gargalhada.

Angela mantinha um vestiário entre eles. Seu medo agora não deixava que ela chorasse, ou sequer falasse. Sabia que se continuasse ali com ele, certamente morreria. Suas tentativas de fugir estavam esgotando sua imaginação. E até agora, só conseguia fazer um jogo de gato e rato, que estava excitando cada vez mais e mais, o homem que corria atrás de si. Mas ela sabia que não tinha muito tempo. Não depois que um líquido esbranquiçado começara a correr por entre suas pernas.

Imagens de Angela passavam pela cabeça do Hiwatari. Sorrindo, tocando piano, lhe dando língua, gemendo seu nome, com raiva, fazendo bico... Era impressionante o quanto elas pareciam tão vívidas, mesmo depois de tantos meses sem contato. E ele achou que estava conseguindo esquecer... Teria de admitir que estava errado.

Suas têmporas estavam totalmente suadas, seu coração estava acelerado. "Mas onde diabos está a Angela?"

Yuriy e Boris guiavam os reféns até as saídas de emergência do ginásio e isso fazia com que seu desespero aflorasse cada vez mais. Não tinha ninguém por perto para fazê-lo colocar a máscara da indiferença. Tinha que admitir, pelo menos para si mesmo, que estava ficando desesperado.

- Kai! – Uma voz ofegante foi reconhecida.

- Hiromi! – Kai olhava para o rosto da mulher que se encontrava a sua frente. Seu semblante mostrava uma fragilidade que só Takao conhecia. Seus olhos demonstravam um medo absurdo.

- A... a Angela... a Angela... – Suas mãos gesticulavam em demasia. Sua mente parecia perturbada.

As mãos do russo rodearam os braços tremidos da mulher a sua frente. Sua voz estava calma, mas seu semblante perturbado.

- Onde ela está?

A Kinomiya respirou fundo, mas só conseguiu dizer duas palavras:

- No vestiário.

- Professorinhaaaaa... – Dizia com a arma levantada, enquanto andava por entre os vestiários, tentando procurar algum vestígio da mulher barriguda que lhe excitava. – Está me deixando muito excitado com essa brincadeirinha... Que tal aparecer, ah?... Eu posso lhe mostrar o quando isso me agrada...

A respiração de Angela já estava difícil. As dores iam e vinham cada vez mais fortes, e a única coisa que a fazia lutar pela sua sobrevivência agora era apenas o seu instinto materno.

Até que... Seus olhos se encheram novamente e um sorriso de esperança pairou sobre seus lábios – Kai... – Foi o que ela disse num sussurro inaudível.

Virou-se para ver se o bicolor já tinha encontrado a inglesa, mas viu apenas uma Hiromi parada no meio das pessoas que caminhavam em direção à saída.

Correu em sua direção, sendo atrasado pelas pessoas ansiosas por liberdade. Quando chegou até ela, sentiu algo estranho – uma pontada, algo que muitas poucas vezes na vida sentira – piedade. Só se via uma sombra da mulher desbocada com quem o Kinomiya tinha se casado.

Ele fez um movimento com a mão, pedindo para que ela fosse até onde estava. A adrenalina estava em seu pico e seu coração acelerava, mas tratou de ignorar isso enquanto sua mente ágil já planejava uma saída cautelosa. Os olhos castanhos, porém, apenas deixaram cair mais lágrimas, e um sorriso sofrido acompanhou o balançar negativo de cabeça. O coração dele falhou uma batida ao vê-la levar as mãos finas e pequeninas até o baixo ventre, quando uma expressão de dor não pôde ser escondida.

Precisou de um segundo para entender o que estava acontecendo... Ela estava entrando em trabalho de parto!

Seu cérebro precisou de uns segundos a mais que o normal para pensar numa saída. Olhou ao redor. Não demonstrava, porém estava desesperado. Viu um sapato num canto, pegou-o e jogou-o para o outro lado o mais longe que pôde. O barulho chamou a atenção do terrorista, que foi para o lado dos chuveiros, onde o sapato tinha caído.

Entrou com cautela e foi até ela. O tempo corria contra eles e os nervos, que todos acham que são de aço, começavam a mostrar que ele, sim, Kai Hiwatari era... Simplesmente humano.

O grito feminino foi abafado por uma toalha, colocada na boca da inglesa bem a tempo. O Hiwatari estava tentando achar uma saída, mas sua cabeça estava sob uma enorme pressão. Tinha consciência de que tinha pouco tempo, mas não podia simplesmente pegá-la e colocá-la em seus braços. Ela estava mais pesada e, mesmo que conseguisse, estava em trabalho de parto. Certamente não conseguiria ter o devido cuidado de que ela precisava, o que faria suas dores aumentarem. Estava confuso, não conseguia achar uma saída. Tudo que conseguia fazer era tentar acalmar a mulher que amava, mas ele mesmo não estava calmo, e ela sabia.

Ouviram uma gargalhada e o rosto do Hiwatari se virou. O terrorista estava voltando, andando lentamente na direção dos dois com a arma levantada.

- Você faz o quê aqui? – Disse entre o deboche e a raiva. A arma apontada para o bicolor, que se pusera na frente de Angela.

- Pensei que fosse óbvio. – Disse o russo no impulso. O outro deu mais um passo curto e parou.

- Você é um estorvo. – E, ao dizer isso, atirou.

Milhões de coisas se passaram pela sua cabeça, quando finalmente chegou até o vestiário. De onde tinha entrado, podia ver um homem com uma arma, e apontá-la em direção ao seu amigo e a mulher que amava. Seu coração falhou.

Ouviu a curta conversa que se desenrolava e um aperto se deu em seu coração. A resposta petulante que o bicolor dera foi o suficiente para que o outro atirasse. Sem pensar no que fosse, jogou-se na frente da arma.

Só teve tempo de ouvir um disparo e, quase simultaneamente, um grito por parte da pianista. Mas agora já era tarde. Várias lembranças lhe vinham à mente; uma senhora bondosa lhe dava um biscoito, ela era a dona do orfanato. Ele e Boris colam na bunda do Kai um pompom de algodão branco, e o bicolor correu atrás deles por horas naquela tarde... Boris e Ivan, incentivados por Sergei e 'acobertados' pelo Kai, lhe colam olheiras de lobo. Foi pela primeira vez para um bordel com Sergei e Boris... Sergei lhe dava um presente e desejava um feliz aniversário, com o Ivan ao seu lado, lhe dando outro embrulho menor. Ele e Boris com quinze anos, arrastando Kai bordel adentro. Sergei, Ivan, ele, Boris e até o Kai (o único com um copo de suco), brindavam numa mesa. Uma mulher de cabelos longos gemia seu nome. Sergei e Boris lhe pegavam pelos braços e pernas e lhe lançavam numa piscina.

"Foram tão bons momentos... Foram tão bons dias... Tínhamos uma amizade apesar de tudo..."

Kai precisou agir mais rápido do que nunca para aproveitar o curto instante em que o terrorista se distraiu, ao se surpreender com a chegada de mais alguém ali. Sem tempo para pensar duas vezes, seu corpo praticamente se moveu sozinho na direção do assassino. Sequer tivera chance de ver como Yuriy estava, embora tivesse ouvido o baque surdo do seu corpo caindo no chão. A bala com certeza o atingira, mas teria sido num ponto crítico? Ou apenas um tiro superficial? Não tinha como pensar nisso agora. Yuriy com certeza não morreria antes de lhe fazer ouvir um sermão por sua petulância.

Ele e o terrorista caíram no chão, brigando para pegar a arma. Suas mãos tentavam colocá-la para cima enquanto o outro queria apontá-la para o bicolor. A briga era acirrada enquanto os dois rolavam pelo piso, até que a arma caiu pelo chão. Kai tentou pegá-la, mas o moreno era mais forte e o empurrou, recuperando-a em seguida. Rapidamente, antes que Kai pudesse se recuperar, apontou a arma para ele. Um tiro, mais um grito da inglesa e um corpo caiu no chão.

Boris, apoiando a cabeça do amigo ruivo no colo, tentava ligar para a ambulância lá fora. Yuriy estava inconsciente, mas iria sobreviver. Quando o vira conversando com a Kinomiya, procurou com os olhos o bicolor, mas não o encontrou. Quando seus olhos voltaram ao ruivo, o percebeu deixando a mulher sozinha e indo em direção oposta a saída. Então o seguiu.

Quando chegou, viu Angela assustada e no chão, com um rosto contorcido de dor. Viu Yuriy caído no chão, com um tiro no abdômen, e Kai brigando com um terrorista. Quando percebeu o que estava acontecendo, atirou no moreno antes que ele pudesse matar o bicolor.

Angela gritou, sem poder mais sequer pensar em segurar. As dores estavam se tornando mais fortes a cada segundo; ela sabia que a criança já estava prestes a coroar. Agora era questão de minutos, pensou em desespero. Não conseguia entender como estava tudo indo rápido. Lera que partos costumam demorar horas, mas o seu...

Depois de garantir que Boris conseguira enfim contato com os médicos, Kai voltou a se agachar do seu lado, apreensivo.

- Os paramédicos já estão chegando, Angela. Eles já estão lá fora, é questão de minutos para chegarem até aqui.

- Também é... questão... de minutos... Pro seu filho nascer, Kai! – Disse, gritando em seguida.

O coração do Hiwatari falhou. Ele teria que fazer o parto do próprio filho.

O bebê chorava desesperadamente. Tinha os pulmões fortes e a garganta mais ainda.

Os paramédicos tinham chegado praticamente na hora do nascimento. Quando olhou pela primeira vez para aquela criança, aquele ser indefeso que estava em suas mãos ele não se conteve: teve que levantá-lo e admirá-lo. Seu peito se encheu de sentimento. Não sabia descrever, mas sentia algo forte por aquela criança, por aquele menino tão parecido com ele. E Sim! Era menino. Um menino lindo que tem os seus cabelos, o seu nariz, a sua boca... E os olhos belissimamente castanhos de sua mãe.

- meu filho! – disse com uma voz pouco emocionada, mas cheia de orgulho.

Um sorriso cansado se instalou no rosto da Angela, enquanto seus olhos se fechavam devagar. O sangue que escorria por entre suas pernas, manchava os azulejos do chão. Bom sinal não era.

Seus ouvidos eram feridos pela sirene alta da ambulância, mas era o barulho do bip do aparelho realmente o perturbava. O bebê estava numa incubadora dentro da ambulância, dormindo um sono pesado. Kai o observava para evitar olhar para Angela, parecendo tão frágil agora

Não se via sozinho cuidando de uma criança; na verdade, não se via mais sozinho em qualquer circunstância. Seu muro de gelo havia se quebrado, e uma lágrima rolou por sua face, diante do sentimento que sentia. Seu coração possuía uma dor estranha, incômoda e o amor que, ele tinha certeza, sentia; o fizeram olhar para o nada e se debruçar em lembranças.

...O dia em que um súbito pedido foi feito e houve um piquenique em pleno inverno... Aquele sorriso tão espontâneo diante do chocolate quente tomado na Praça Vermelha; A tarde em que, ao fim do treino, uma bola de gelo do nada lhe acertou a nuca, e dois olhos castanhos lhe sorriam, travessos; Um sorriso constrangido e assustado surgiu daquele rosto infantil ao pronunciar pela primeira vez o nome Kai... Um gemido particularmente alto saiu de uma boca extremamente vermelha ao fazerem amor no meio de seu escritório... O lindo sorriso ao lhe dizer que esperava um filho seu... Um anjo, sentado em um banquinho de carvalho tocando piano numa sala branca; sorrindo-lhe...

As mãos, trêmulas, acariciavam calmamente os lindos cabelos loiros, seus dedos se embrenhavam naqueles cachos curtos e grandes. Uma outra lágrima surgiu no semblante sério, a boca começando a tremer. A face, antes tão alva, agora aparentava uma coloração avermelhada atípica. Uma voz suave e fraca surgiu diante da cena. Foi um susto para o Hiwatari que se encontrava absorto em seus próprios pensamentos.

- Kai... E-eu...

- não fale. – disse suavemente, acariciando a testa esbranquiçada da mulher que se encontrava deitada diante de si, seus olhos estavam fixos no rosto pálido. Precisava memorizar, precisava guardar... – já estão levando você para o hospital... – sua voz, não era a do Hiwatari forte, imponente. Do Hiwatari sério, determinado, senhor de negócios. Não era a voz daquele patrão sério e anti-social. Daquele amigo chato e responsável. Daquele líder duro e arisco, sempre tão determinado a conseguir o melhor, e a ser o melhor. Não era a voz daquele oponente inigualável, sempre tão certo da vitória. Daquele amante fogoso, porém distante. Daquele... Homem singular que tinha o nome de Kai Hiwatari.

Aquela voz... Aquela voz era de um apaixonado... De um perdido... De um frustrado e indefeso... De um amedrontado. Aquela voz, agora tão baixa, sem qualquer vestígio de auto-confiança ou de frieza, tão característicos da sua personalidade; era o mais puro reflexo do estado em que se encontrava: Pânico. – já... Já vão levar para o hospital e vão... Vão curar você... Vão parar essa hemorragia e você vai poder cuidar do nosso filho. É um menino sabia? - mordeu o lábio inferior. Seus olhos agora não mais resistiam, e lágrimas, as mais diversas possíveis, surgiam. Não resistindo, colocou-se perto da maca. Sua testa na testa pálida, seu nariz sentindo o cheiro inigualável de lírios que seus cabelos exalavam.

Colocou seus lábios nos lábios brancos da inglesa. Uma lágrima. Mais uma. A mão pequenina e delicada, que apertava sua mão, agora afrouxava devagar. As forças se esvaindo.

- agüenta Angela... O hospital já está perto... – disse quase num sussurro. Mas os bip do aparelho já estavam mais espaçados... E um bip foi falho... Sentiu seu coração ficar menor e o medo dentro de si aumentar...

- Angela, por favor... - ele estava pedindo... - Não me deixe... – Ele estava implorando...

- Angela... - lágrimas fugiam de seus orbes e mais uma batida falha... - O Gou precisa de você... – e cada vez mais e mais batidas falhavam... e cada vez mais e mais lágrimas fugiam de seus orbes... E um barulho ensurdecedor da máquina se apoderou do recinto... Seus olhos se fecharam com força diante do desespero.

- eu preciso de mais tempo... – ele implorava. Não sabia se era para ela; para um deus ou para uma divindade... Ele só... Pedia. Os paramédicos tentavam reanimá-la mas nada adiantava... e apenas o barulho estridente do aparelho era ouvido. Sentiu uma parti de si morrer... Partir. – Angela... você disse que me amava... você tem um filho comigo... Angela... – sentiu soluços contidos virem a tona... Kai Hiwatari agora se reduziu... a nada.

- eu te amo Angela! – disse baixinho. No ouvido da mãe de seu primogênito. – NÃO ME DEIXE SOZINHO... – disse mais auto em desespero. –NÃO ME DEIXE! - ele gritava. – EU TE AMO Angela! – Os gritos de desespero do pai, somados ao barulho do aparelho de minotoramento cardíaco, acordaram o bebê. Gritos infantis eram ouvidos.

Suas mãos cobriram seu rosto, seus dedos embrenharam se em seus cabelos. O choro e os soluços eram inevitáveis.

- por favor... Não me deixe... Não nós deixe... – a ênfase foi feita propositalmente na palavra do meio. - por favor... – ele não se cansava de repetir... - eu te amo Angela... –... O que a mulher sempre quis ouvir antes... - koichiteru... Angela... – ele implorava - não vá... por favor... nós dê mais tempo contigo... Eu... Eu amo você! Eu quero me casar com você. ...Eu quero que tenhamos mais filhos, eu... Eu quero ter você ao meu lado e estar sempre onde você estiver!... Eu quero ouvir você tocar pra mim e cantar pros nossos filhos como você cantava pra mim, eu... – e murmurando - Eu te amo.

Bip.

Seu coração falhou diante da esperança. O choro da criança não era mais o único barulho do recinto.

Bip.

Ela não desistira. Ela nunca iria desistir. Ela era a mulher de Kai Hiwatari.

FIM

OLÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ enfermeira! Er... desculpem. É a péssima influência dos Animaniacs... Então? Gostaram? As meninas aqui queriam ver o Yuriy gay, vê se pode? Aí, depois que eu coloquei ele pra levar o tiro elas queriam que ele morresse. E ainda disseram que AMAM o ruivo. Imagino o que elas não fariam com o meu lobinho se não gostassem...¬¬

Quero agradecer a todos pelos MA-RA-VI-LHO-SOS rewiens. (cara, almoçar e digitar é difícil pacas...)