Reticências
Capitulo 6
Edward ouvia os pensamentos de seu pai, eram tão velozes quanto ele a correr pela casa. A brisa trouxe da floresta os aromas que ele já estava acostumado a sentir, mas também, lhe trouxe os cheiros dos corpos que tivera a um cuidado meticuloso para esconder. Por instante ele fechou aos seus olhos e se permitiu relembrar pela ultima vez o que acontecera. A madrugada gelada mal havia dado inicio quando ele ouviu os pensamentos agressivos que se aproximavam da cabana. Com medo de ser descoberto, Edward foi para o ultimo cômodo e ficou rente a parede do quarto. Eram dois homens, eles sabiam o que estavam fazendo quando decidiram deixar a vila e subir pela floresta até a casa do bom e belo doutor. Jim e Earl, dois amigos de infância. Cresceram naquela cidade a mais de quarenta anos, tinham família, mulheres, filhos e cachorros. Eram fazendeiros locais, mas, eles tinham algo a mais em comum. Um segredo partilhado somente entre eles. Um historia obscura formada através do prazer que eles sentiam em propagar o medo nas pessoas que não podiam se defender.
Edward havia sentido o cheiro forte de excitação que emanava do corpo deles. Ele via as imagens que passavam nas cabeças, eram dúbias e grotescas. O medo de ser descoberto aos poucos foi-se dissipando do corpo de Edward, ele sentia-se frio. Earl, era o líder entre os dois e foi quem chamou a sua atenção, pois tinha um cheiro diferente, mais forte e doce. Eles haviam planejado a muito aquele ataque soturno, iriam esperar o bom doutor descer a encosta para depois subiram e fazerem uma visita ao irmão infeliz que não podia enxergar. Já faziam muito tempo desde a ultima vez que a dupla fizera aquilo. Da ultima fora um andarilho que perdido na mata tivera o azar de encontrar os dois que caçavam. Mas aquela não era uma noite para azares e sim uma noite de caça. Edward rosnou. Os homens não teriam piedade dele, eles seriam cruéis. Mas Edward não era um cego desprotegido de verdade. Ele ainda pensou em usar a sua velocidade e fugir para a mata e lá aguardar. Mas os homens estavam decididos a irem mais fundo com seus planos, eles aguardariam pelo bom doutor na manhã que nasceria, depois, ateariam fogo na cabana, tudo muito bem planejado.
Que Carlisle não seria também uma vitima nas mãos deles, mas, e os outros que viriam se ele não fizesse algo. Então ele esperou sentado na beira da cama até que Jim abrisse a porta do quarto e o encontrasse. Fora rápido, mas intenso. Pois quando ele pegou em Earl, o monstro dentro de si vociferou e sem controle ele acabou por colocar tudo a perder pelo o que aprendera naqueles meses tomando do sangue humano. Era forte, era poderoso. Edward sentiu-se vivo novamente. Seus sentidos se ampliaram em escalas jamais antes concebidas. Sua mente fervia e seu corpo morto, pulsava.
Duas bolsas foram postas aos seus pés.
_"Filho devemos partir agora, antes que a cidade comece a vasculhar, devemos..."
_Jogar os corpos em uma trilha próxima, perto do anoitecer. O estrago que eu fiz irá corroborar para a idéia deles terem sido atacados por leões da montanha. Depois partiremos, será melhor assim.
Edward se via através de Carlisle e sentiu vergonha de si mesmo, pois ele via a face do monstro, não do jovem inteligente e sensível que sempre fulgurava na mente de seu criador.
_Não sei se um dia você irá me perdoar Carlisle, mas...
As palavras foram silenciadas pelo abraço que ele recebeu de seu criador. Edward sentiu-se único naquele momento. Seus olhos se arregalaram e o ar passou a entrar rápido em seu corpo. Um sentimento além do ódio incompreensível o inundou e, ele retribuiu o abraço recebido.
_Edward, teremos toda a eternidade para compartilharmos, que ela seja melhor aproveitada na base da confiança, da amizade e, por que não, do amor. Nada tenho que perdoá-lo, pois apesar de termos agora a uma condição diferente, ainda podemos errar meu filho. E, como humanos que fomos e somente quem já sentiu isto, teria a humildade de pedir perdão como você acaba de fazer.
Uma grande lição Edward aprendia naquele momento com o seu criador, eles ficaram se olhando por um segundo que representou anos em suas vistas. Edward via a sua frente um homem jovem, apenas alguns anos mais velho do que ele, que aos olhos incautos poderiam passar sem qualquer adversidade como irmãos. Mas que na realidade era a uma criatura boa que lutava em prol dos desprovidos e dos fracos, renegando a si mesmo por mais de duzentos anos a sua real natureza. Provando que a mente pode sim, dominar o bestial, o rude e o inumano. Isto não se podia aprender nos livros, Edward tinha certeza. O dia se fechou e eles seguiram os planos de deixar os corpos para serem achados, o que não demorou muito. Pela cidade soou o alarme de que algum leão da montanha descera a procura de comida. Caçadores se reuniram para varreram a floresta. O prefeito e o xerife da cidade foram falar com o doutor, a orientá-lo a descer a montanha com o irmão diante de tal perigo. Esta foi a deixa que Carlisle esperava, alegando insegurança e falta de infra estrutura ele deixou a cidade de Wilseyville oito meses depois. Viajaram para cantos distantes do país, onde o clima fosse a favor de suas particularidades e os humanos pouco interessados em visitantes. Quando era viável, Carlisle comprava mansões distantes das cidades e se possível escondidas em alguma mata fechada. Mas a permanência nunca chegava a ser mais do que um ano. E nestas mudanças ele encontrou-se com o seu passado na cidade de Ashland.
Foi em uma tarde que Carlisle, conhecido na cidade e no pequeno hospital como doutor Peter Reaser voltou mais cedo do que era esperando, surpreendendo a Edward, que para todos os efeitos era conhecido seu irmão mais novo John Reaser. Ele estava agitado demais para a sua personalidade sempre calma e contemplativa, o que levou a chamar a atenção de Edward.
_Aconteceu alguma coisa?
_Ainda não sei, eu acho que talvez tenhamos que nos mudar.
Edward ficou um instante em silencio, ele nada conseguia ler na mente de seu criador, pois com o tempo Carlisle desenvolvera a técnica de deixar a mente em branco quando desejava ter privacidade em seus pensamentos perto dele.
_Acha? Talvez?
_Eu encontrei na cidade, no hospital, um pessoa que não via a alguns anos.
_Esta pessoa te reconheceu? Ela representa algum perigo?
Sem muitas alternativas Carlisle abre a sua mente e revela a face da mulher que o deixara tão agitado. Edward recordou-se dela também.
_Mas ela sabe o que você é?
_Eu não sei, mas sabe que sou diferente e com certeza não deva ter me esquecido, apesar do tempo que se passou.
Edward viu tudo novamente, o dia que ele a salvou na floresta do urso e quando ela quebrara a perna, no hospital em Columbus. Sim ela notara que ele era diferente e nada dissera. E hoje ele a encontrou novamente por acaso. Mas com sua rapidez conseguiu fugir antes que ela o visse. Edward viu o rosto bela da jovem de outrora agora transformado em uma mulher, sofrida, que chorava magoada.
_Mas ela não o viu!
_Sim, mas voltará ao hospital, não sei por quanto tempo conseguirei ficar me escondendo, não sei, Edward.
_Carlisle, ela não falou da primeira vez.
_Era muito jovem, cheia de ilusões. Agora é uma mulher feita, não posso arriscar.
Edward apenas acentuou que eles deveriam ter calma. Que ele iria procurar pela cidade, saber se de fato Esme lá morava ou se estava somente de passagem. Para esta segunda opção, eles ficariam na cidade e Carlisle procuraria ser mais atento do que já o era. Edward viu na mente do homem que ele aprendera em tão pouco tempo a confiar um conflito interno, algo, relativamente novo para ambos.
Edward a achou, uma mulher amedrontada e sofrida. Que fugira de sua vida passada, que vivia quase como uma clandestina, ela e seu pequeno filho de dois anos. Ele acompanhou toda a noite de Esme, que se desvelava a cuidar do pequeno filho nos fundos de uma casa grande em um bairro de classe média da cidade. Ela vivia escondida em uma casinha. Edward muito não conseguiu coletar, mas o pouco que soube, o pequeno Nicholas estava doente, febre infantil, este foi o motivo de levar Esme até o hospital. Ele passou a acompanhá-la por duas noites seguintes para aflição de Carlisle que não entendia que Edward entrasse calado na mansão e nada lhe dissesse.
Mas, na terceira noite eles conversaram.
_Ela sofre, pois vive com medo. aquelas primeiras palavras estranhamente trouxeram angustia a Carlisle. Pelo o que pude ler na mente de Esme... Eles ficaram em silencio por um instante, sentindo o tom da pronuncia do nome dela ...ela não pretende ficar muito tempo, esta juntando dinheiro, quando tiver o suficiente ela irá fugir com o filho pequeno!
_Fugir, Edward?
_Sim.
_Mas quem poderia ameaçá-la a este ponto?
_O marido dela!
Carlisle olhou para o filho e sua mente o levou até a floresta em uma noite escura, uma noite de predadores e entre eles, uma frágil criança.
_Conte-me mais! ele sabia que estava quebrando todas as regras, mas, era um daqueles momentos únicos que não voltavam a acontecer e Carlisle já vivera a muitos anos para saber identificar um quando acontecia. Era o momento da mudança, forte e intenso que crescia dentro de seu peito duro e frio.
_Ela sofreu maus tratos enquanto viveu com o marido. Um ex-soldado que voltou da guerra perturbado.
Edward também se permitiu voltar no tempo e lembrar que antes de sua transformação, ele desejava ir para a guerra, a mesma que devastara com o mundo e com a vida daquela mulher.
_O que eu vi na mente de Esme são pensamentos fracionados, mas intensos. Aquela mulher encontra-se ferida no corpo e na alma. Ela teve todos os seus sonhos destruídos, menos um, o de dar um mundo melhor para o filho. Ela fugiu em uma noite escura e de chuva com a criança embaixo dos braços, se aproveitando de uma das bebedeiras do marido. Carlisle, ele a espancava!
Carlisle sentiu a raiva, mesmo que contida, na voz de Edward. Mas o que o surpreendeu foi o que ele mesmo sentiu, o frio tão costumeiro esvair-se de seu corpo e dar lugar a um calor que crescia lentamente em seu peito.
_Ela esta escondida na casa do irmão, mas não é um bom plano, pois a família dela é rigorosa e não admitem mulheres separadas dos maridos.
_Mas o marido dela não vale nada! pronto o calor abrandou através de suas palavras e Carlisle se permitiu julgar. Aquele momento foi único para eles, Edward olhou admirado para o seu criador, sempre tão contido e ponderado, propenso a ajudar, mas não a interferir, se rebelava contra seus próprios paradigmas.
Carlisle não conseguia conceber que alguém pudesse macular algo tão delicado e puro. Ele que anos atrás não permitira que uma besta desse fim a vida da jovem criança sentia-se agora responsável por ela.
_Carlisle, você não pode salvá-la de todas as bestas, é a vida dela, lembra?
Ele trabalhou naquela noite com a imagem de Esme em sua cabeça, do sorriso, da voz doce e do balanço suave de seus cabelos. Inadvertidamente, Carlisle encerrou seu turno da noite um pouco antes do horário e foi até o endereço que Edward lhe dera, ele correu por cima dos detalhados pois tinha pressa de se encontrar com o seu passado e, quando finalmente lá chegou sentiu-se agradavelmente assolado pelo aroma dela, já tão intimo em seu organismo.
A criança chorava sem parar, pois sofria. A mãe, desesperada orava a Deus que lhe concedesse misericórdia e desprovida de recursos, ela embrulhou o pequeno em panos e saiu pela madrugada que se findava. Carlisle de longe acompanhou o sofrimento de Esme, ele viu lagrimas nos olhos claros dela e julgou que aqueles olhos jamais deveriam verte-las. Ela caminhou apressada pelas ruas da cidade, pois deveria atravessá-la até chegar ao hospital. O dia nascia firme com sol quente. Nunca em seus duzentos anos Carlisle lamentara por ter dia de sol em sua existência, nunca até hoje. Ele deveria se abrigar, esconder dos humanos sua verdadeira natureza e aguardar. Assim que entrou em sua mansão, ele já tomara a decisão de auxiliar Esme.
_Você vai quebrar as regras, Carlisle?
_Eu já fiz isto uma vez, sou responsável pelo sofrimento dela hoje!
_Não a impunidade é responsável! Carlisle, como ela existem milhares de mulheres que sofrem estes maus tratos. Devemos interferir?
_Edward, não estou pedindo que me entenda, apenas que saiba que eu preciso fazer alguma coisa por ela, especialmente.
Mas Edward não compreendia. Ele ainda era jovem, cheio de idealismo. Ele não entendia como se tem o poder e se opta por nada fazer? Por segregar quem deva ou não ter o beneficio da salvação? Com seu dom, Edward estava cada vez mais impulsionado a questionar o certo e o errado. Ele todas as noites lia a mente dos assassinos, dos ladrões e dos pústulas. Ele leu os últimos pensamentos dos inocentes, frágeis e solitários que morriam perguntando onde estava a justiça de Deus. Ele tudo via, ouvia e lia. Apenas isto. Depois voltava para a mansão e enfiava seu nariz nos livros e se enchia de conhecimento. Ele era forte, mas vivia entre os fracos. Era um predador, mas lutava contra a sua natureza. Era muita contradição para um único corpo, mesmo um corpo duro de pedra como o dele.
O dia foi lento e inquietante. Edward via através da mente de Carlisle que o mesmo deixaria uma somatória em dinheiro na porta de Esme, mas ele tinha duvidas se ela aceitaria, talvez sim, a julgar pela situação desesperadora em que ela vivia. Assim que ele chegasse ao hospital iria se interagir do caso da pequena criança e quem sabe fazer algo também, com seus conhecimentos médicos. O que Carlisle não esperava era que enquanto ele viabilizava alternativas para salvar Esme de seu triste fim, ela já havia encontrado este caminho pulando de um precipício perto a mata local. Mas, isto, Carlisle teria somente conhecimento quando entrasse no hospital para cumprir o seu turno.
Ele se dirigiu até a recepção e tomou o livro de registros em busca do nome da mulher e do pequeno filho que deram entrada naquele dia. Estava lá, marcado no horário em que ele a vira pela ultima vez, 06:10hs.
Depois, ele procurou pelo paciente, se preparando para reencontrá-la, mas quando no leito chegou, estava sendo ocupado por outra pessoa, um senhor com pneumonia. Carlisle foi em busca de informações com os funcionários e ouviu da boca de um enfermeira consternada a tragédia que se deu naquele dia. Ele mal esperou a mulher concluir o seu relato e caminhou o mais natural que pode até o necrotério do hospital. As macas ainda estavam lá, colocadas juntas por algum funcionário sádico que sentiu a necessidade de juntar mãe e filho pela ultima vez. A criança não resistira, o corpo enfraquecido pela doença dera seu ultimo suspiro um pouco depois de entrar no hospital, os médicos pouco puderam fazer. A voz da enfermeira soou na mente de Carlisle assim que ele removeu o lençol da face dela. Os olhos abertos estavam como vidros.
_"Foi horrível, doutor! Ela saiu do hospital consternada pobrezinha, esperamos por ela todo o dia, pois providências necessitavam serem tomadas. Mas qual não foi a nossa surpresa, quando mineradores trouxeram o corpo. Que Deus tenha piedade, ela se jogou da muralha da mina, o senhor deve conhecer, mais para o oeste, perto da mata..."
_Eu poderia salvá-la de todas bestas deste mundo, pequena Esme, menos de você mesma...
Ele sussurrou as palavras para o corpo quebrado e como resposta, Carlisle ouviu muito fraco o coração que bateu. Ele olhou mais atentamente para ela e se concentrou nele, que era a sua fonte da vida.
_Esme, me dê uma chance, por favor!
Tum...- longe e fraco, ele que lhe respondia, o coração de Esme. Agindo pelo instinto somente, Carlile retirou o resto do lençol e virou com cuidado a cabeça machucada, o sangue seco que escorrera por todo o corpo e pelo chão dava uma tonalidade fúnebre aos belos cabelos dela. Com dois dedos, Carlisle os tirou do pescoço que por algum milagre não se quebrara na queda e o mordeu. O sangue doce inundou sua boca, era a segunda vez que ele experimentava dele em toda a sua existência. Carlisle sugou o equivalente a um gole somente, o suficiente para deixar fluir de sua boca o seu veneno que se irradiou pelo corpo dela. Depois, ele a envolveu no lençol e partiu com ela em seus braços e, enquanto corria ele ouvia o bater do coração que já reagia ao efeito do veneno que lentamente ganhava o corpo pequeno e quebrado de Esme. Carlisle não se lembrava de algo parecido em sua existência e temeu pelo destino dela, pois duvidas lhe assolavam o corpo, será que ela iria resistir ao processo? Estando assim tão fraca e quase sem sangue no corpo?
Ele entrou na mansão pela janela dos fundos e se dirigiu ao porão e lá depositou o corpo inerte no chão e descobriu apenas o rosto e notou que os olhos estavam fechados. O coração forte de Esme batia alheio ao estado de seu corpo, impulsionado pelo veneno que tomava o lugar do sangue. Carlisle esperou pelos gritos que não deveriam tardar, mesmo Edward, enfraquecido pela febre, gritou já nas primeiras horas, mas, Esme mantinha os lábios cerrados e a mesma expressão em seu rosto. Sem ter muito o que fazer Carlisle puxou uma mão dela e viu com imensa tristeza que havia dois dedos quebrados. Ele sabia que se ela resistisse ao processo da transformação o corpo iria se regenerar assim que tivesse o veneno percorrendo por todo o corpo. As horas passaram como minutos apenas os quais Carlisle não sentiu, pois ele tinha todos os seus sentidos voltados para o coração de Esme, acompanhando cada batida, umas mais longas, outras curtas e saltadas. Ele estava tão concentrado que não percebeu, apesar de ter sentidos apuradíssimos, que estava sendo observado já a algum tempo por Edward.
Carlisle via sua vida passando diante de seus olhos contemplando a passagem de Esme. A esposa e o filho que morreram de fome na velha Inglaterra contaminada pela peste negra. Lentamente e com ternura ele acariciou um dedo, o mindinho e olhou com atenção para o formato bem feito da unha e fechou seus olhos, sentindo apenas o bater do coração, o único elo entre eles. Mas ele sabia que não era verdade, ele sabia que o amor levara Esme até ele, sem que ela soubesse, um amor indireto e maternal, o mesmo amor que o fizera salvar a vida do jovem que desejava ser soldado.
_Carlisle?
_Edward? Carlisle voltou-se e o viu parado perto da porta, o rapaz alto e esquio. Ele olhou para os cabelos bronze e lembrou-se de Elizabeth e depois voltou-se para Esme que agora gemia, muito baixinho.
Mãe.
Mulheres que deram a vida pelos filhos.
Com calma ele tocou uma mecha dos cabelos de Esme antes de falar:_Não me julgue, Edward!
_Não vou! havia sinceridade no tom baixo da voz profunda e aveludada de Edward.
_Eu não poderia deixá-la partir!
_Eu sei!
Eles ficaram dois dias e duas noites acompanhando o processo, por vários momentos acharam que o coração não iria conseguir pois o corpo estava tão fraco que ela não tinha forças para gritar.
_Carlisle, eu vim da cidade.
_Sim?
_O marido de Esme está sendo caçado pelas autoridades.
_Porque?
_Ele apareceu no hospital, no dia em que você a tirou de lá. As autoridades acham que ele levou o corpo. Não poderemos ficar aqui, temos que partir.
Eles olharam para ela. Que não mais gemia e que já apresentava na face a palidez eterna. Carlisle ergueu-se, ele sabia que teria apenas horas.
_Tome conta dela, vou providenciar tudo.
Naquela noite o diretor do hospital lamentou o desligamento do jovem médico que partia em busca de novos desafios. As vinte e duas horas um carro parou em frente a mansão. Malas foram postas no bagageiro e um homem jovem e loiro entrou pela porta da frente, ele levava em suas mãos roupas de mulher, lembrando-se ainda da expressão da jovem que o atendeu na loja feminina.
_"Posso ajudá-lo?"
_"Sim, quero comprar um vestido, um casaco e sapatos para minha esposa."
Esposa! uma palavra tão pequena e tão impactante. Carlisle desceu lentamente as escadas que levava até o porão e quando ele colocou sua mão na maçaneta se perguntou se o processo terminara.
_Quase, acho que são as ultimas batidas.
Eles se aproximaram do corpo inerte, Carlisle notou que o dedo quebrado agora estava reto e ele tomou a mão pequena com cuidado entre as suas, percebendo que agora, eles tinham a mesma temperatura e, encantando, ele viu, ele sentiu os dedos dela mexerem-se entre os seus. Seus olhos focalizaram o rosto suave de Esme no momento exato em que ela abriu os olhos para a nova vida.
Continua...
