CAPÍTULO SEIS: PASSOS NUMA ESTRADA SOMBRIA

Ele pediu para ser enterrado em Hogwarts.

Apesar de não haver precedentes, ninguém argumentou. Ninguém jamais fora enterrado nos terrenos da escola -- embora as lendas dissessem que o próprio Gryffindor descansava sob o grande lago. Mas aquilo era apenas uma lenda e até a morte de Albus Dumbledore, a tradição nunca fora quebrada. Hogwarts, afinal de contas, era um local de crescimento e aprendizado, e não de morte. Dumbledore, porém, era diferente e ninguém ousara recusar seu último pedido. Nem mesmo os governadores do colégio, Lucius Malfoy incluso, ergueram a voz se opondo, deixando a decisão para o atual diretor de Hogwarts. Talvez eles tivessem esperado que ele argumentasse, mas Remus não hesitou.

Às vezes, ele se perguntava se aquele fora o único pedido que Dumbledore fizera na sua longa vida. O antigo diretor e Ministro da Magia passara a vida dando aos outros, realizando os sonhos deles -- você chegou a ter tempo para seus próprios sonhos? Remus perguntou-se em silêncio. Ou estava ocupado demais conosco? Ele fechou os olhos contra a luz do sol brilhantes, tentando fingir que era o vento que criava lágrimas em seus olhos. Ou talvez ele não estivesse. Remus não se importava realmente se alguém o visse chorar; embora não fosse disso por natureza, Dumbledore fora mais do que seu diretor. O famoso bruxo fora mais do que um amigo para ele também: fora seu mentor e guia, que dera a Remus bem mais do que uma chance de estudo. Albus Dumbledore quase tornara a vida de Remus possível.

Se não fosse por ele, eu provavelmente estaria trancado numa jaula em algum local, ou vivendo selvagem sabe merlin aonde. Eu não teria vindo para Hogwarts. Não teria conhecido meus melhores amigos. Não teria um emprego, e nem teria uma vida que valesse viver. A única coisa boa é que eu não faria parte dessa guerra, Remus pensou cinicamente. Mas então sorriu ligeiramente para si mesmo. Até mesmo a guerra, mesmo com seus longos anos e confusões sangrentas, valia a pena. Preferia muito mais ser parte da guerra do que um espectador "inocente".

Se é que haveria espectadores inocentes na época em que essa guerra acabar.

Perto dele, Sirius tocou o cotovelo de Remus. A voz do Auror estava desanimada. "Eles estão aqui."

Remus virou a cabeça para observar as seis figuras que dirigiam-se na pequena colina, caminhando vagarosa e formalmente. Uma parte cínica da mente do diretor refletiu que era o modo mais calmo que ele já vira aquelas seis crianças agirem -- mas ele sabia que aquilo era errado. Eles compreendiam. Ao contrário do que outros pudessem pensar, aqueles seis entendiam.

Dumbledore pedira um funeral quieto. Ele não queria algo grande e importante -- "Nada de floreios," o irmão dele dissera numa voz sobrecarregada. Aquele era Aberforth Dumbledore, a quem Remus só encontrara uma vez, mas que aparecera misteriosamente antes que alguém pudesse encontrar o Dumbledore mais novo para notificá-lo da morte de Albus. Aberforth deixara a maioria dos arranjos a cargo de Remus, mas ele interferira de uma maneira surpreendentemente gentil. Onde muitos queriam dar a Albus Dumbledore o tipo de funeral que achavam que ele merecia, Aberforth queria que seu irmão tivesse o funeral que ele teria apreciado. Entendendo isso, Remus ficara do lado do Dumbledore mais novo, e eles seguiram as instruções do antigo diretor à risca.

Dumbledore queria simplicidade: ele era simples. Embora houvesse uma multidão maior do que Remus antecipara, o próprio funeral era extremamente simples. Poucos falavam. Menos ainda conseguiam entender, mas Remus sim. Dumbledore também fizera um pedido menos esperado, mas Remus realizara aquele também. Pedira que Harry Potter, Fred Weasley, George Weasley, Ron Weasley, Hermione Granger e Lee Jordan carregassem seu caixão. Pedira pelos Travessos. A Sociedade Mágica e Invisível para Aqueles que Instigam Problemas. Terrorres, todos eles, principalmente em quebra de regras e malandragem generalizada.

E Remus sabia que Dumbledore teria adorado ser o diretor deles. As seis crianças tinham ficado ligeiramente confusas, mas concordaram prontamente. Todos eles conheceram Dumbledore, é claro, mas nenhum deles fora muito próximo a ele -- mesmo Harry, cujos pais estavam profundamente envolvidos na Ordem por anos. Remus, contudo, explicara um pouquinho, e mostrara a eles a carta que Dumbledore deixara para eles (que ele não lera e nunca iria) e os Travessos concordaram. Causara um cansaço convencer a Sra. Jordan a permitir que Lee atendesse ao funeral, mas Remus finalmente o fizera. Lee caminhava com expressão séria junto com seus amigos da Gryffindor, com uma mão leve giando o caixão que flutuava entre eles.

Uma nota triste preenchia o ar.

Fawkes chegara. A fênix vermelha e dourada flutuou do céu, cantando uma canção de quebrar o coração, sobre tristeza e sofrimento. Remus não a vira desde a noite anterior, mas compreendia o por quê. Fawkes estivera com Dumbledore por anos sem fim, e ela também precisava chorar. Alguns poderiam se perguntar se uma fênix podia chorar, mas as lágrimas prateadas brilhavam nos cantos dos olhos de Fawkes não deixava espaço para dúvidas.

Fawkes desceu e aterrissou gentilmente no caixão de madeira polida. O corpo de Dumbledore fora muito danificado pelos Comensais da Morte e pelos destroços do Ministério; o caixão estava fechado à pedido de Aberforth. A magia podia ter restaurado a aparência do Ministro, mas todos concordaram que assim era melhor. Dumbledore nunca ficara envergonhado em mostrar suas cicatrizes -- uma vez ele tinha dito que poderiam ser úteis -- então não tinham mudado nada.

Remus inspirou profundamente, perguntando-se se deveriam ter deixado o caixão aberto, afinal. Aberforth estivera certo quando comentara que haveria muitas crianças presentes e que não havia necessidade de assustá-las -- mas Remus também tinha ciência dos milhares de rostos assistindo. Ele sabia que aquelas bruxas e bruxos comuns tinham enfrentado seus próprios medos para vir ao funeral, sustentando a possibilidade de um ataque de Voldemort porque amavam e respeitavam Albus Dumbledore. Muitos deles não teriam compreendido totalmente os ferimentos do Ministro, ou o que significavam -- talvez ele devesse ter insistido em manter o caixão aberto para passar a mensagem. Ele lutou, Remus queria gritar para eles. Vocês deviam lutar também.

Mas aquilo era só uma mágoa amarga falando e sabia que deveria ignorá-la. Remus fechou os olhos mais uma vez, desejando que os pensamentos sombrios o deixassem. Deixe-me lembrar Dumbledore como ele iria querer. Não com amargura. Abriu os olhos novamente. Os Travessos tinham chegado à cova. Estava na hora.

À sua direita, uma figura numa cadeira de rodas adiantou-se. Não houve tempo para melhorar o aparelho trouxa, embora aquelas rodas passassem qualquer terreno e não precisavam de nenhum esforço para se mover. Em suma, não havia muitos bruxos na história que tinham ficado paralisados da cintura para baixo; normalmente, não havia nenhum ferimento físico que a magia não conseguia consertar ou membros perdidos que a magia não conseguia substituir. James Potter, contudo, permanecia um mistério para os curandeiros do St. Mungo's e embora eles tenham entrado em contato com especialistas de todo o mundo, o sucessor de Dumbledore ainda estava confinado a uma cadeira de rodas trouxa. Era de se dar crédito a James, pois ela pouco o detinha de agir normalmente, embora ele tivesse que retornar ao hospital para mais testes imediatamente após a cerimônia.

"Senhoras e senhores, obrigado por virem," James começou baixinho. Sua voz ecoava com facilidade; o vento tinha diminuído agora e o sol brilhante escondia-se atrás de uma nuvem. Uma pena, Remus pensou consigo mesmo, com os olhos ainda no amigo. Dumbledore teria preferido o sol. Mas James continuava e Remus sabia que a dor na sua voz era verdadeira. Inconscientemente, Remus esticou o braço e o pôs em torno de Lily, que ficava à sua direita agora que James se adiantara. Ele não era normalmente do tipo que demonstra sentimentos, mas Lily era sua amiga e ela estava sofrendo muito.

"Reunimo-nos hoje por uma causa comum. Não acho que preciso dizer a ninguém o que é." James falava sem anotações; o que ele dizia, vinha do coração. "Mas em vez de chorar hoje, devíamos comemorar -- e devemos todos ficar agradecidos de termos tido o previlégio de ter conhecido Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore. Peço, portanto, de que lembremos dele como ele era -- não como outros desejavam que ele fosse."

"Ele era um homem forte, um grande homem. Sacrificou muito por todos nós, mas não o fez com o desejo de ser um herói. Albus Dumbledore era, acima de tudo, humano. E ele acreditava que as pessoas deviam ter o direito de escolher seu próprio caminho, não importava qual fosse esse. E ele lutou por esse direito. Assim, reunimo-nos hoje não somente para lamentar, mas também para honrar seu sacrifício.""

"Albus P. W. B. Dumbledore morreu para outros pudessem viver. Não havia desejo maior."

"Se ele estivesse aqui, Albus lembraria a todos nós que nem tudo está perdido. Há dias sombrios à nossa frente, mas a coragem é medida pela forma como enfrentamos as trevas -- e eu, pelo menos, pretendo fazer isso do mesmo modo que Albus Dumbledore: abertamente e com minha cabeça erguida. Há muito a se perder, mas também há muito a se ganhar. E eu não esquecerei do homem que lutou por tanto tempo e pediu por tão pouco." James de repente inspirou profundamente, e Remus o viu engolir as lágrimas.

"Eu me lembrarei."

O silêncio foi quebrado pelo soluço de uma bruxa, e Remus virou a cabeça ligeiramente para concentrar-se em Auriga Sinistra. A normalmente calma professora de Astronomia tinha lágrimas correndo pela face e apoiava-se com força no ombro do irmão mais novo enquanto chorava. Contra Remus, Lily estremeceu um pouquinho e então adiantou-se.

Ela continuou andando, silenciosa e se expressão, até que parou bem de frente do caixão. Os Travessos afastaram-se para permitir-lhe passagem e Lily pôs as mãos no caixão. Sua voz era suave, mas mesmo assim chegou aos ouvidos de todos, embora ele não tirasse os olhos do caixão.

"E assim nós trazemos seu corpo para Hogwarts, o local que ele sempre chamou de lar. Deixaremos ele aqui com nosso amor, para que ele possa observar as gerações de alunos de Hogwarts que virão." Sua voz se interrompeu e Remus viu os olhos dela fecharem-se brevemente, antes que ela pudesse continuar.

"Adeus, Albus Dumbledore. Que você possa descansar em paz."

A multidão repetiu o desejo dela. "Descanse em paz."

Lentamente, o caixão afastou-se das mãos de Lily, mergulhando até pousar no fundo da cova.

Os feitiços já estavam funcionando. Assim que o caixão abaixou, a terra e a grama em torno da cova começaram a se mexer. Sob os olhos vigilantes dos presentes, a cova vagarosamente se fechou. Ninguém falou; isso era uma parte antiga da cerimônia de enterro bruxa. Momentos depois, a grama na colina estava perfeita, só deixando uma pedra de mármore branca para marcar o túmulo.

Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore

84º Diretor

25 de Junho de 1841 - 19 de Junho de 1992

Ele pedira que fosse escrito assim. Dumbledore não quisera uma lista de realizações, nenhum elogio aos seus prêmios. Ele nem mesmo quisera que colocassem que ele fora Ministro da Magia -- suas instruções foram bem claras nesse ponto. Dumbledore só queria que eles lembrassem que ele fora diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts -- a coisa mais importante que ele fizera.

Outras pessoas começaram a mover-se, pondo flores no túmulo. Alguns deles falavam baixinho, dizendo adeus à sua maneira, mas enquanto Remus os observava, não conseguia deixar de sentir-se um pouco amargo. Por direito, deveria haver outro túmulo ao lado de Dumbledore.

Mas Arabella Figg fora enterrada sem cerimônias e com apenas sua família presente. O irmão dela e a família dele já deixara o país, dirigindo-se para os Estados Unidos, para longe da guerra. Estavam dando um basta, Theodore Figg dissera a James com raiva. Os Figg não teria parte nisso; não mais. Não iam perder mais membros da família para uma guerra que não podia ser vencida. Então eles fugiram, abandonando a causa que Arabella Figg morrera para proteger. Remus nem mesmo sabia onde ela fora enterrada.

Ele se adiantou, afastando aqueles pensamentos zangados. Remus já se despedira de Dumbledore, mas de repente sentiu a necessidade de fazê-lo de novo. Sentiria muita saudades do velho, e se dirigiu até onde Lily agarrava desesperada a mão de James. Ela estava sofrendo mais do que qualquer um, ele sabia, por ter tido uma relação próxima com Dumbledore nos anos que fora sua "secretária". Lily passara a ver Dumbledore como um mentor e guia durante esse período e ela foi profundamente ferida pela morte dele -- e sua incapacidade de preveni-la. De repente, um sopro de vento frio passou pela sua nuca.

Sua cabeça começou a girar, mas mesmo os reflexos do lobisomem em Remus foram lerdos demais. Vislumbrou as sombras pelo canto do olho, mas então uma mão firme caiu sobre seu braço. "Dementadores," Sirius disse rouco.

Sirius estava em movimento e Remus bem em seus calcanhares. Enquanto eles dividiam a multidão, notou que outros percebiam também. As pessoas gritavam e fugiam, com as lembranças dos recentes ataques de Voldemort frescas na mente de todos. Os Dementadores inundavam a colina, e na hora que Sirius alcançou a frente da multidão, eles estavam a menos de cinqüenta metros de distância. Aí Peter estava ao lado de Remus, varinha em mãos.

O que Peter está fazendo aqui?

"O que eu faço?"

"Reze," uma quarta voz disse.

Era James, cuja cadeira de rodas voara pelo aclive sem protesto. Mas também, quando Sirius metia a mão em coisas trouxas, era possível no mínimo que elas voassem -- mas não havia tempo para pensamentos irrelevantes. James também tinha a varinha em mãos e embora Remus não conseguisse se lembrar de ter pego a sua, ele sentia a madeira gelada entre os dedos. O rosto de James estava fechado e o vendo açoitava a todos eles.

"James!" O grito de Lily foi quase perdido no vento, mas quando Remus virou-se para fitá-la, a multidão tinha arrastado-a.

Os Dementadores começaram a se aproximar.

Todo mundo gritava. A multidão corria feito louca, procurando por uma rota de fuga, mas os Dementadores aproximavam-se deles depressa. Pior ainda, as criaturas vinham numa linha larga, e as pontas dela se curvavam para contornar os presentes antes que pudessem fugir. Tudo que estava no caminho deles eram quatro homens, um deles nem mesmo de pé -- e estavam sozinhos. Todo o resto que desejava lutar fora pego pela multidão em pânico, deixando os quatro homens enfrentando quase cem Dementadores sozinhos. Era impossível, é lógico, mas de algum modo, o destino os pôs na linha de frente.

Remus estremeceu, e de repente percebeu o quão rápido os Dementadores se moviam. Estava ficando tão frio, tão rápido -- e repentinamente sentiu dificuldade em respirar, em pensar. Lutou para arranjar um pensamento feliz, mas de súbito sua mente estava vazia -- até que James esticou a mão e agarrou seu cotovelo.

"Pronto?" o Maroto na cadeira de rodas perguntou. Sua voz estava rouca, mas firme. Remus não confiava em si mesmo para responder. Tentou assentir, mas descobriu que suas mãos tremiam. Peter, à sua direita, não estava muito melhor.

Os Dementadores aproximavam-se depressa.

"Agora!" Sirius explodiu. Ele soava zangado e a voz estava contida. Mas Remus não podia culpá-lo. Sirius sempre detestara sentir medo.

Remus arrancou a mente dos próprios medos. Um pensamento feliz, disse a si mesmo desesperado. Pense em algo feliz. Os Dementadores se aproximavam e sua mente estava um vazio aterrador. Depois do que pareceu uma eternidade, a solução ocorreu a ele e era tão simples que Remus não pôde acreditar não tê-la percebido antes -- Hogwarts. Sua escola. Seus alunos. Seu lar. Ele ergueu a varinha, gritando: "Expecto Patronum!"

"Expecto Patronum!" a voz de James uniu-se a sua e a de Sirius veio meio segundo depois.

"Expecto Patronum!"

Peter levou mais um instante, mas suas palavras ainda saíram fortes. "Expecto Patronum!"

Luz prateada lampejou e quatro patronos saíram correndo atrás dos Dementadores. Voando bem acima dos outros estava a águia de Sirius e perto dela, Remus percebeu chocado, estava o seu -- mas não era o lobo de antes. Uma vez, ele se surpreendera ao descobrir que seu patrono era o lobo como ele sempre desejara que fosse: belo, pacífico e livre -- mas ele não era mais um lobo. Uma fênix gigantes flutuava ao lado da águia de Sirius, e sabia que era o seu. De um modo estranhamente não surpreendente, a fênix lembrava Fawkes. Era a Ordem, Remus percebeu. A parte da Ordem que se tornara ele.

O cervo de Peter galopava ao lado do leão de James e o simbolismo de ambos era óbvio. James contara a Remus sobre o primeiro patrono corpóreo de Peter e Remus não ficou surpreso ao ver que a forma dele não se alterara. Elas raramento o faziam. A de James, é claro, era simples; seu patrono sempre fora o grande leão de Gryffindor. Juntos, eles eram uma das mais belas visões que Remus já tivera: poderosos, indestrutíveis e bons. Dentro de instantes, os quatro patrono começaram a se separar para enfrentar os Dementadores de frente.

E então eles desapareceram.

Horrorrisado, Remus observou os Dementadores correrem para enfretar os patronos separados, cortando-os violentamente. Ele viu a fênix recuar, lutando para voar sobre o grupo de Dementadores que a perseguia. Por um breve momento, achou que fênix os evitaria, mas então uma massa de sombras negras engolfou o patrono e a luz prateada tremeluziu. Remus viu um Dementador fugir, mas os outros fecharam o cerco -- e de repente, sua fênix perdeu-se na escuridão. O medo agarrou-se imediatamente na sua alma, e Remus girou feito louco, para ver o destino dos patronos dos amigos, esperando desesperado que estivessem se saindo melhor do que o dele.

O cervo de Peter durou por mais tempo, mas mesmo enquanto Remus virava a cabeça, ele também desapareceu. Perderam-se.

Os Dementadores aceleraram, motivados pelo sucesso, se é que tais criaturas sentiam isso. Com confiança, aproximaram-se dos Marotos, e Remus começou a sentir-se muito, muito frio. Os Dementadores estavam perto o bastante para que ele ouvisse a respiração rascante e seu nariz sensível sentisse o cheiro de podridão -- apenas quinze metros separava os quatro da destruição. Cada instinto de Remus gritava para que ele fugisse, mas um olhar apressado sobre o ombro lhe disse que os outros ainda lutavam para escapar. Frio.

"Temos que fugir!" Peter gritou no vento que aumentava. Remus sentia como se tivesse sido pego numa monção.

"Não podemos!" ele gritou de volta. À distância, notou que sua voz soava aguda de medo, mas havia inocentes atrás dele que não conseguiriam lutar. E não tinham tempo.

Sirius segurou o braço de Peter. "Juntos!" o Auror berrou; mal conseguiu ser escutado sobre o vento que rugia. "Temos que fazer isso juntos!"

Juntos até o fim. Um arrepio correu pela espinha de Remus, e de repente ficou calmo. Juntos. Era a única chance deles.

"EXPECTO PATRONUM!"

Quatro vozes. Quatro bruxos. Uma alma.

Não houve hesitação. Juntos, sempre foram fortes. Apesar do mundo ter tentado separá-los mais de uma vez, os quatro nunca tinham cedido. A despeito das dificuldades e do tempo separados, sempre estariam juntos, e juntos não havia medo. A amizade deles sempre fora maior do que os outros viam, mesmo no começo. Sempre foram mais próximos do que os outros entendiam. O que somos é irmãos e como tal continuaremos...

Luz brilhante banhou a colina de prata e Remus foi quase cegado pela imprevisibilidade e ferocidade do poder. Sua varinha tremia ligeiramente na sua mão, e ficou surpreso em ver que nenhum deles tinha criado um patrono corpóreo -- em vez disso, quatro linhas prateadas de poder emergiram de suas varinhas. Mas aquelas linhas não eram feitas de névoa; eram sólidas e enquanto Remus observava com espanto, as linhas separadas teceram-se, girando em torno uma da outra e acelerando-se na direção dos Dementadores. De súbito, luz branca dividiu o céu.

Remus piscou os olhos, incapaz de crer neles. Sabia o que estava vendo -- não havia como se enganar -- mas ao mesmo tempo, era impossível. Piscou de novo, e então voltou a fitar as quatro formas prateadas que as linhas tinham se tornado. Elas atacavam lado a lado, dirigindo-se direto para o grupo de Dementadores.

Aluado.

Rabicho.

Almofadinhas.

Pontas.

Estavam ligados, porém, unidos. E uma luz brilhante os rodeava, que Remus não conseguia definir. Antes que ele pudesse respirar fundo, porém, os patronos combinados mergulharam na massa de Dementadores. Mais uma vez, as criaturas engolfaram-nos, mas então uma explosão pareceu chacoalhar o mundo. E realmente a colina chacoalhou -- mas não era um terremoto. Puro poder fez Hogwarts tremer naquele dia. Mais do que poder estava envolvido, todavia, e embora muitos não percebessem, o mundo recebeu seu primeiro sinal de algo diferente naquele dia. Algo inesperado, porque o poder sozinho não conseguia fazer cem Dementadores fugir. Precisava de algo muito maior para isso.

Pois se havia algo que os Dementadores não conseguiam suportar, era amor.

Título Original: Promisses Remembered - Chapter 06: Footsteps on a Dark Road
Autora: Robin
Tradução: Rebeka