Capitulo VI

Pai morcego


Ele esperou a casa ficar vazia para seguir para o quarto de Bruce e confirmar que o velho não estava dormindo.

O encontrou sentado em um dos sofás de enorme e solitário aposento, folheando com cuidado as páginas do que parecia ser um enorme livro.

Dick não pediu licença para entrar. Caminhou até a cama e sentou-se nela, de frente para o pai.

-E então, como se sente?

-Péssimo.

Seu coração se contorceu de dor ao perceber que o rosto do outro estava levemente molhado. Bruce tinha chorado e isso era a única dica que teria sobre o tamanho do sofrimento que o homem carregava.

-Ela nunca vai me perdoar.

-Suponho que não. Mas você sabia disso e mesmo assim fez...

-Era necessário...

Dick levou uma das mãos a do pai e a apertou fortemente.

-Eu sei... Não sei se teria feito o mesmo que você fez, Bruce. Mas eu entendo. – então ele percebeu que o que o pai tinha no colo não era um livro e sim um álbum de fotos.

Olhou de relance para Bruce que o autorizou a pegar o objeto com um aceno de cabeça.

Retirou o álbum do colo do pai e se pois a folheá-lo. Eram fotos da ilha paraíso e de duas mulheres em especial. A rainha Diana e a filha, em suas varias fazes. Bebê, criança, adolescente, adulta. Todas tiradas de um ângulo superior, como que por alguém que estivesse voando.

-Foto de satélite? – perguntou, Bruce fez que sim.

O coração de Dick se apertou novamente. Ele havia instalado um satélite próprio apenas para fotografar o crescimento de Nike.

-Você acompanhou tudo.

-Ela é minha filha. – respondeu o outro, como se aquilo fosse obvio.

Dick fechou o álbum e o pós de lado, fazendo uma nota mental que o olharia com mais cuidado depois.

-E você pretende dizer isso a ela?

Bruce fez que não.

-É melhor que ela acredite na mesma mentira que Ra's.

O filho ponderou antes de falar.

-E o sr. Kent? Será que ele vai confirmar isso?

-Sim, vai... – disse ele, simplesmente – O Clark sabe o que esta em jogo. Já deixei recado para ele me procurar amanhã na empresa.

-E quanto aos McGinnis? Damian acha que Ra's quer o corpo do irmão do Terry para ele.

-É provável. Teremos que o proteger... Sem deixar que ele perceba. – respirou fundo – Infelizmente acho que teremos que adiar a vinda da Gabrielly, Dick.

-Eu já acho que devemos adiantá-la... – ele sorriu largo – Eu tenho um plano.

Ela jogou os cabelos lilás para o lado, os tirando do rosto. Fazia algum tempo que Max os usava cumpridos, na altura dos ombros. Às vezes o amigo sentia falta do corte curto que deixava a mostra todas as feições dela, mas tinha que admitir que a morena ficava mais bonita daquela forma.

-Céus, eu nunca pude imaginar que ele era casado... E logo com quem. A Mulher Maravilha. Quando era criança eu queria ser como ela.

-E eu queria ser o Superman... – deu de ombros – Mas tive que me contentar em ser o Batman mesmo.

Ela riu gostosamente enquanto lhe dava um tapinha no peito.

-Deixa o velho te ouvir falando isso... Mas, sério em todos esses anos te ajudando, eu não consigo me acostumar com esse excesso de informações. Será que o Sr. Wayne nunca vai parar de me surpreender? Casado, filha... O que mais?

Eles estavam na empresa, caminhando a passos curtos pelos corredores. Haviam acabado de tomar um café juntos e voltavam para seus afazeres enquanto terminavam a conversa.

-Bom, ele é padrinho do Superman, também... Já te contei isso? – gracejou, tentando fingir graça quando não tinha, enquanto ela arregalava os olhos. Suspirou. - Acho que o Bruce vai me matar se descobrir que te contei isso. Mas eu precisava desabafar com alguém Max. Não da para falar essas coisas pelo telefone com a Danna.

Ela concordou levemente com a cabeça.

-E como está o Matt?

-Bem, foi para casa hoje cedo. Amanhã já volta às atividades normais... Terminar o ensino médio, o emprego de meio período na lanchonete e atacar vilões nas ruas à noite. – bufou.

-Acha que ele vai continuar com isso?

-Pode apostar que sim. Você tinha que ver ele contando para a mamãe como ele "ajudou" o Batman!

Ela riu.

-Oh meu Deus, esse sangue de vocês realmente é podre, não? Os dois são louquinhos de pedra.

Ele deu de ombros.

-Dick tem um plano para tentar deixa-lo longe de problemas... Vamos ver se funciona. – ela concordou em silencio. Ele continuou a ponderar - E ainda tem a Nike... Não posso contar a ela a verdade, mas também não quero mentir. E ela vai procurar o Batman e cobrar uma resposta.

-O Batman, não. Você... Ela sabe quem você é.

-O que só piora as coisas e... – ele engoliu seco ao perceber quem passava pelo corredor mais a frente, na direção da sala do presidente. – O Sr. Kent... – murmurou, fazendo Max olhar na mesma direção – O que ele está fazendo aqui? – seguiu atrás do jornalista aposentado deixando, mais uma vez, a amiga sem muitas explicações.

Max suspirou alto enquanto levava as mãos a cintura.

-Eu não consigo me acostumar com isso. – rosnou para si mesma.

Então virou-se para a direção de sua sala e seguiu corredor a baixo.

Parou apenas quando trombou em um visitante que pelo visto estava perdido.

O homem era mais alto que Terry, o que significava que era quase duas vezes o seu tamanho. Tinha os cabelos escuros cortados de forma demasiadamente tradicional, que combinava e muito com os óculos que usava, mas a franja fora do lugar dava-lhe um ar um pouco rebelde.

As roupas lhe denunciavam a procedência campestre, uma blusa xadrez, botas de couro e calça jeans de tom escuro. Um visual bastante incomum para Gotham City.

-Ah, desculpa, moça. – o sorriso dele a derreteu – Eu não a vi. – comentou, arrumando o óculos no rosto com a ponta do dedo indicador.

Max teve vontade de dizer que, com aquela altura toda, seria difícil ele ver alguém na sua frente sem que andasse olhando para baixo. Mas as palavras não saiam. Só foi capaz de balbunicar um "tudo bem".

-Ah, talvez a moça bonita possa me ajudar. – o sorriso galanteador fez com que ela perdesse o ar por alguns segundos - Eu gostaria de saber onde é a sala do sr. Wayne.

O som do sobrenome do seu chefe a fez despertar, como era de se esperar. Max piscou algumas vezes antes de conseguir voz para respondê-lo.

-Quer falar com o Sr. Wayne? Ele não costuma receber ninguém sem hora marcada. – não que tivesse muita certeza disso, mas era algo que ela esperaria do velho.

-Ah, tudo bem... Meu pai já deve estar lá falando com o padrinho. Só vou espera-lo. Estava lá fora estacionado o carro... – o novo sorriso quase a fez perder a informação.

-Padrinho?

-É. Eu sou afilhado do senhor Wayne. – ele lhe esticou a mão num cumprimento – Prazer, Joseph Kent...

Max quase desmaiou ao perceber que apertava a mão do atual Superman.

-Obrigado por ter vindo logo.

Clark acenou, parecendo despreocupado, enquanto se sentava a frente do amigo, na enorme sala que Bruce ocupava na empresa.

O tempo lhe fora bem menos penoso, como era de se esperar. Embora Bruce realmente fosse mais velho que Clark, a diferença, que não devia passar de uns cinco anos, hoje parecia rodear uns vinte. Os cabelos brancos de Kent já lhe tomavam quase toda as laterais da cabeça, mas ainda era possível ver fios escuros no topo.

Por vezes Bruce se questionava o quanto aquilo incomodava Lois quando era viva.

-Você não costuma deixar certo tipo de recado... Alias, você não costuma deixar recados. Imaginei que seria algo urgente... E grave. – o outro acenou em concordância – E para ter me chamado ao invés de mandar seu menino contatar os novos... – o código deles para "a nova liga da justiça" - Imagino que seja algo com a família.

Bruce concordou com a cabeça, sem encarar o amigo nos olhos. Isso preocupou Clark mais do que qualquer outra coisa.

-Algo com o rapazinho?

-Não, Terry está bem.

-Então tem haver com a volta do Dick? – mais uma vez Bruce fez que não, sem parecer surpreso por Clark já ter essa informação -Tim?

-Não... E antes que pergunte, também não foi por causa do Damian que eu lhe chamei aqui... Eu preciso de um favor seu, mas não é referente a nenhum dos meninos.

"Meninos? Desde quando Bruce os tratava por 'meninos'?" perguntou Terry a si mesmo depois que ligou o aparelho para escutar a conversa, enquanto jazia sentado na recepção da sala da diretoria.

-E os meninos podem ouvir a conversa? – perguntou o senhor Kent com ar divertido.

Terry pode ouvir um longo respirar vindo de Bruce, depois um barulho de interferência feriu seus ouvidos. Seu pai certamente ligara algo que anulava o funcionamento do seu aparelho.

Teve vontade de levantar e entrar sala a dentro dizendo que ia escutar a conversa de qualquer jeito. Mas certamente seria expulso pelo olhar furioso de Bruce antes mesmo que abrisse a boca.

Então permaneceu onde estava e esperou. Cinco segundos depois um rosto deveras família, mesmo atrás de óculos tão exagerados, apareceu na sala.

Girou os olhos.

-O que diabos você está fazendo aqui, Joe? – perguntou enquanto o outro se aproximava.

-Viu trazer o meu pai, ele não anda enxergando muito bem... – sorriu marotamente. Era certo que ele contava aquela história para a secretária que estava tentando escutar algo mesmo - ...A idade, sabe como é. Demorei porque estava difícil para estacionar... – olhou para a parede que dava para a sala do presidente – Eles já estão conversando? – perguntou, e muito embora Terry soubesse que ele estava, certamente, usando a visão de raio-x e já soubesse a resposta, confirmou com a cabeça.

Joseph sentou ao seu lado.

-E você sabe o assunto? – questionou mais reservado.

-Estava tentando descobrir... Mas você conhece o seu padrinho. – respondeu Terry no mesmo tom.

Joe riu.

-Ok, deixe-me tentar então... – meio segundo se passou até que ele continuou - ...estão falando sobre uma garota. – isso Terry já imaginava – Ah! Sim pai? – McGinnis revirou os olhos, o primeiro Superman identificou a interferência do filho também – Eu sei que é uma conversa particular, mas nós estamos curiosos... – ele coçou a cabeça, preocupado com o que quer que o pai estivesse lhe dizendo - ...Não, eu não quero me entender com meu padrinho depois... Certo, eu não conto nada pra ele. – e olhou para o outro, dando de ombros em seguida.

-Medroso. – resmungou Terry, sabendo que o outro não abriria a boca, nem se o ameaçasse tortura-lo com kriptonita.

Joe pareceu não se importar.

-Quando o assunto é Sr. Wayne, sou mesmo. – sorriu arteiro – Mamãe sempre disse que resolveu chamar o padrinho para me batizar porque eu tinha que aprender a ter medo de algo. – relaxou o corpo encostando no sofá - E ela estava certa. Mas agora me fala, que historia de garota é essa?

Subitamente uma irritação lhe subiu a coluna.

Terry nunca soube dizer exatamente o que lhe incomodou naquela pergunta, se era a idéia de que alguém poderia ter interesse em Nike, ou se era a idéia de que Joe pudesse ter interesse nela. A fama dele era, por assim dizer, bastante extensa. Joseph Kent não era alguém com quem você gostaria de saber que sua irmã andava. E Nike era sua irmã, afinal, mesmo que tivesse descoberto isso a poucas horas atrás.

-Mantenha seus hormônios no lugar, Kent.

O outro piscou algumas vezes, enquanto o encarava. Quando Terry o tratava pelo sobre nome era porque algo o estava incomodando e muito.

-Eu, achei que você era noivo e fiel, McGinnis.

-E eu sou, Kent. – rosnou em resposta.

-Então por que do ciúme?

Ele devia parar de ser tão claro com seus sentimentos.

-Não é ciúme... Só que, se eles estão falando de quem eu acho que estão falando, a garota não é pro seu bico.

-E por que ela não é pro meu bico? – perguntou o outro, com o sorriso galanteador que costumava derrubar qualquer garota.

-Por que você da em cima de todo mundo, e ela não é desse tipo. – a resposta pareceu não convencer o homem de aço – Pare de me encarar desse jeito. Só mantenha distancia dela e ponto final, entendido?

-Claro, se você me disser de quem se trata eu... – ele levantou a cabeça, como se tivesse escutado algo assustador – Irmã?

Terry levou a mão a testa. A porta se abrir na seqüência. Joe se levantou rapidamente para encarar o pai de forma inquiridora. O senhor Kent não olhou para o filho, apenas acenou de leve na direção de Terry e proferiu um "vamos embora" para Joseph.

-De lembranças ao padrinho. – ele disse para Terry antes de seguir o pai.

Terry olhou de relance para a porta aberta da grande sala, incerto se deveria entrar ou não.

Ele fizera de novo. Certamente pedira ao primeiro Superman para que confirmasse a mentira que viria a tona a qualquer momento. E, por mais que todos dissessem que era necessário, isso o irritava.

Girou os pés sobre os calcanhares, após decidir que devia se acalmar ante de encarar Bruce novamente, quando o comunicador da mesa da secretaria tocou e ela lhe disse que o Sr. Wayne queria vê-lo.

Respirou fundo e retrocedeu, entrando na sala do pai em seguida.


Continua...

Agradecimentos especiais ao Mr. Six e a LastingDream pelos comentários.

E o Damian é um "amor" ne? ^^ hauahuahaau Acho que você vai gostar mais dele no proximo cap.

Agora os POs vão começar a aparecer bem mais, espero que gostem. Bjs a todos.

Bjs a todos

AMB