Cap. 6
Narração em terceira pessoa
Já era o sétimo dia desde que Saga havia acolhido Sianne em sua casa. Naquele período, ele fizera seu melhor para explicar a ela os fundamentos da energia cósmica, contida dentro de cada um. Além disso, dava preceitos básicos de como utilizá-la e alguns exercícios para que ela pudesse já manter contato com esta energia, bem como dominá-la.
No entanto, era difícil para ele. Caso fosse um treino qualquer, para aprendizes a Cavaleiros, ele saberia como projetar e apresentar o conteúdo. Mas para a moça... para quem sequer podia contar sua condição... tornava tudo mais difícil. Até que ponto deveria treiná-la? Ela teria que aprender técnicas físicas também? Não sabia como agir neste aspecto.
Após uma semana, houve uma convocação sobre o destino da moça mais uma vez. Desta vez, Atena não se mostrou presente; apenas Marin. Além dela, no entanto, havia uma pessoa a qual desejaram não identificar por ora... e a qual não se encontrava mais naquele recinto, mas sim no Santuário.
Saga, temendo revelar demais, disse a Sianne para ficar em casa e não revelou qual seria seu compromisso.
- Sianne, veja bem. Preciso comparecer a uma reunião. Fique em casa e não se preocupe. Logo voltarei.
A menina assentiu e foi se ocupar com outras atividades. Desde que chegara à casa de Saga, sentia que ele lhe tratava de modo excessivamente... formal? Apenas a chamava quando tinha alguma explicação ou exercício a lhe passar. Lhe dava bom dia, boa tarde e boa noite; não se recusava a comer junto com ela, na mesma mesa, na hora das refeições. Era justo e gentil; porém distante...
Sianne pensava em seu íntimo que Saga era um homem de espírito vazio... o qual não conseguia mais amar ou sentir o que quer que fosse.
- Será que ele um dia não poderá se recuperar desta... aridez de espírito que tem? Será que tantos anos se ocultando de todos e se dividindo em dois acabaram com sua alma?
A moça fez um gesto de descaso, como tentando afastar o pensamento de sua mente, filosófico demais para seu modo pragmático de pensar.
Foi de encontro aos criados, para ajudá-los com o trabalho de casa. Era seu hábito... e também a ajudava a esquecer a família, a saudade dos pais, dos irmãos, de sua casa.
-x-
A reunião demorou a começar. O Cavaleiro de Gêmeos chegara cedo, encontrando Marin e Seiya já preparados a recebê-lo. Ainda se sentia mal em relação ao passado... mas tentava esquecer tudo o que já passara.
"Afinal", pensava ele, "se me perdoaram não há porque me preocupar mais".
Marin, como lidava há muito tempo com Sianne, tomou a palavra.
- Então, Saga. Como estão indo as coisas com a moça?
- Vão bem. Ela demonstra alguma dificuldade com os primeiros exercícios, mas é coisa normal. Logo ela se acostumará. Há apenas um problema... eu já não sei se estou ensinando "demais" ou "de menos" a ela. Nunca sei se estou privando informação ou se revelarei demais sobre sua natureza.
- Está bem, Saga. Muito em breve lhe revelaremos a que veio. Ainda vamos debater sobre a melhor hora de lhe dar tamanha carga. Deixe-a se acostumar com o cotidiano das energias, e então tudo ficará mais claro e fácil a si. O assunto principal de hoje, no entanto, não será Sianne.
O Cavaleiro de Gêmeos se surpreendeu, levantando levemente uma de suas sobrancelhas. Marin prosseguiu:
- O assunto pertinente hoje, Saga... é seu irmão.
- Meu... irmão?!
- Sim. Você não estranhou o fato de ele não ter voltado junto com você?
- Eu...
Saga não tinha resposta para aquilo; mas enfim, o que Marin conhecia sobre Kanon, se nem mesmo o Grande Mestre da época, Shion, sabia muito? Kanon sempre fora algo sob sua jurisdição, seu controle; algo seu. Seu irmão. Sabia que havia perdido o controle sobre ele quando ele fora para o Mar; mas duvidava que houvesse alguém que o conhecesse tão bem no Reino Marinho quanto Saga o conheceu.
Mas... o que estava pensando? Aquela linha de raciocínio já estava indo longe demais. "Preciso me acostumar à vida na Terra outra vez", disse de si para si. "Esta cadeia de pensamentos deve ser reprimida. Na Vida devemos esconder mais o que pensamos..."
- Pois bem. Seu irmão está aqui.
A voz cristalina da moça caiu sobre Saga como uma pancada. Uma pancada inacreditável.
- Marin... eu... o que... o que meu irmão faz aqui?!
- Ele também tem uma função para cumprir na Terra, antes de finalmente partir. E vocês cumprirão tal missão juntos.
- Onde... onde Kanon está?
- Já foi para a casa de vocês.
- Por que me chamaram para cá, então? Se tudo o que me restava era esperá-lo em casa!
- Ainda há o que falar sobre Sianne, em relação a vocês dois. Saga, seu irmão deve cuidar da segurança e da parte física da moça, enquanto você deve zelar pela parte emocional e espiritual... e bem, é apenas isto. Se quiser ir, já está dispensado; era esta a mensagem que Atena tinha para lhe dar.
Marin se sentia estranha ao falar daquele modo com o homem que havia sido o Grande Mestre; ele, que a acolhera àquele novo e estranho universo quando ela era pouco mais do que uma criança. Mas agora era a mediadora entre a Deusa e Saga, que por sua vez era o guardião da encarnação de Nike.
Saga levantou da cadeira onde se encontrava sentado, meio tonto. Estava quase cambaleando; a onda de choque havia sido muito forte. Ainda não conseguia raciocinar ou acreditar direito naquilo; e portanto, para que a verdade fizesse efeito em seu coração, precisava vê-la.
E com efeito, quando se despediu fria e apreensivamente da Amazona de Águia, foi até sua casa, sentiu aquele cosmo conhecido seu... tão conhecido... emanando sem reservas ou mostras de se ocultar.
- Kanon...
O "baque" havia sido tanto, que mal conseguia se manter de pé. Como não havia nada próximo em que se apoiar, teve de respirar fundo várias vezes para manter o equilíbrio. Seu irmão estava na casa... ele podia... não; ele devia entrar.
- Sianne!
Repentinamente, Saga lembrou da garota. O que seu irmão pensaria dela quando a visse? Pior: o que Sianne pensaria de Kanon? Confundiria ele consigo próprio?
Foi tomando fôlego e dando alguns passos à frente com esforço que Saga conseguiu chegar à porta de sua propriedade. Entrando lá, viu seu gêmeo sentado na sala de estar. Imediatamente, Kanon levantou seu olhar para Saga e perscrutou seus olhos.
- Kanon...
O mais velho dos gêmeos quase perdeu o fôlego e o equilíbrio. Kanon apenas teve tempo de se levantar da cadeira e impedir seu irmão de se estatelar no chão. O corpo de Saga tremia nos braços de Kanon; ele se sentia mal, sem coordenação.
- Saga!
O Cavaleiro de Gêmeos nada conseguiu fazer, senão afundar sua cabeça no ombro de seu irmão. Tentou ainda firmar os dedos nos braços de Kanon, mas tal tarefa se demonstrava inútil. Ele sequer conseguia proferir alguma palavra.
Kanon o colocou gentilmente sentado numa cadeira, ao que Saga inclinou sua cabeça para trás e tentou se recuperar. Era muito forte... muito forte para si.
Sianne chegou neste momento à sala. Tomou um susto também, pois não sabia que Kanon havia retornado. Ao vê-lo chegar, pensou que era Saga; apenas estranhou o fato de ele não dizer absolutamente nada. Pois sequer Saga era tão calado ou reservado.
- Não se incomode – respondeu Kanon à indagação dela, por menos que ela houvesse externado sua preocupação verbalmente – Eu estou aqui para também olhá-la, dentre outras coisas.
A aldeã não teve reação, senão reverenciá-lo; da mesma maneira que fez com Saga quando o viu na celebração. Assim como seu irmão, Kanon, negou-se a aceitar o gesto.
- Você é muito mais do que pensa ser para me reverenciar, senhorita!
A moça se sentiu estranha perante aquele comentário, e Saga temeu que a partir dele ela pudesse "adivinhar" coisas que ainda não deveriam ser reveladas.
Sianne, porém, não reagiu ou perguntou mais nada. Saiu do cômodo e foi cuidar de outras coisas.
Kanon, assim que a menina deixou o quarto, abraçou a Saga e lhe disse baixinho, de repente:
- Eu te amo, Saga. Estou feliz em finalmente estar de volta.
O gêmeo mais velho nada conseguiu responder; apenas deixou que as lágrimas saíssem involuntárias de seus olhos. Deitou a cabeça no ombro de seu irmão e ali ficou, deixando-se levar pelo sentimento de que a espera finalmente havia acabado. Sim; pois todos aqueles anos, inclusive sua morte, haviam sido uma longa e dura espera pela volta de Kanon. Deitar nos braços dele era como sentir o fim de uma noite sombria e tenebrosa.
E finalmente, ao sentir que ele estava consigo, são e salvo, adormeceu sem culpa e paz, no ombro de seu gêmeo.
