UM DIA DE FELICIDADE

"Não há vidas felizes;

há apenas dias felizes."

A Theuriet

Capítulo 35

Nesta manhã a praia está quase deserta.

Mulder, com o corpo distendido sobre a areia, observa Scully preparando-se para sentar-se ao seu lado. Não perde um só detalhe; nota o corpo pequeno e frágil, o ar destemido e às vezes ingênuo.

Dana, a sua Scully que tanto ele ama e que o faz feliz, realizado sentimentalmente, o completa.

Bem que ele gostaria de poder dar-lhe muito mais do que ela precisa.

Ama-a de verdade, como jamais imaginou entregar seu coração e sentimentos a alguém.

Mas ela, Scully, é especial. Ela possui aquele toque de feminilidade reunido à competência, à racionalidade, à seriedade de carater que o atrai e o faz cada vez mais submisso aos prazeres a que ela o faz sentir.

— Mulder, deixa que eu passe o óleo em você...

— Está a fim de me fritar, Scully? Com esse sol...!

— Pois é aí que há a necessidade de proteger a sua pele. Ouça o que estou dizendo, Mulder! Eu sei das coisas!

Ele puxa-a pela mão para que sente-se junto a ele na areia.

Scully senta-se.

— Deixa eu passar o óleo. - ela fala, para que ele facilite o que ela precisa fazer, sentando-se tambem.

Porem ele não o faz. Permanece deitado de costas ao chão.

Dana vai passando lentamente o óleo no seu peito desnudo.

Mulder apenas fica sorrindo, olhando-a, com ar de felicidade estampado no rosto.

— O que foi?

— Scully... gosto de te ver assim...

— Como? - pergunta sem fitá-lo.

— ... assim, cuidando de mim.

— Hum... - deita-se sobre o peito dele - ... gosta mesmo, é?

— Com certeza!

Uma música orquestrada, suave e romântica chega até seus ouvidos, vinda de um quiosque instalado a bastante distância do local onde os dois se encontram.

— Mulder, vira mais! Como vou poder passar o óleo em suas costas?

Ele agarra-a para que ela deite inteira sobre seu peito.

— Huuum...! - ele exclama, de olhar fixo em seu busto.

— Que é, Mulder? Não começa não, porque aqui não é lugar apropriado...

— Todos os lugares são apropriados para o amor, dependendo de como se faz.

— Mulder! - critica-o - Ainda bem que não há ninguém próximo de nós! O que pensariam?

Ele reclina-se, apoiando-se num cotovelo, levando-a para cima:

— E você se importaria com o que pensam?

— Ah, felizmente! - aproveita a pose dele para passar o óleo em suas costas.

Mulder agarra-a fortemente para que se desequilibre e desabe por cima dele, que se joga na areia.

— Mulder, você é incrivel! Pára! - recrimina-o em baixa voz.

— Por que parar? Eu quero você...

Dana oferece-lhe um lindo sorriso.

— Há uma explicação plausível para dizer-me por que está tão excitado?

— Há... há sim! Basta eu olhar pra você, meu sangue entra em ebulição!

— É? Que eu saiba o sangue ferve quando se está fula de raiva.

—E eu fico assim!

Ele deitado e ela fica inclinada sobre seu corpo.

— Ahn! Você fica com raiva! Pode começar a falar, Fox Mulder! - prende os lábios dele com seus dentes.

Ele apenas geme. Fala entrecortadamente:

— Se você... me der... uma chance... eu ... digo porque...

— Qual a chance que você quer, Agente? - tenta-o, fazendo-o desejá-la cada vez mais.

Começa a passar a lingua sobre a pele do seu peito desnudo, tentadoramente.

— Argh! Gosto ruim! - reclama em seguida.

— Você está só sentindo sabor de óleo! Bem feito! Por que não passa a lingua na minha boca?

Dana ri.

— Mulder, lembra quando, há muito tempo, eu estava comendo gelado de arroz e você disse que a sua saliva era melhor?

— Sim...

— Hoje eu sei... - agora toca-lhe os lábios com os seus - ...o quanto perdi... naquele tempo...

Ela faz como que somente o estivesse provando, sentindo o seu sabor, tocando mansamente os lábios dele com os seus.

— O que acha, agora, Agente Scully?

— Gostoso!

— Me beija, então!

Ela não o obedece. Somente ri, olhando-o, bem encostada a ele. Olhos nos olhos. Boca quase com boca.

Mulder a puxa com força sobre seu tórax, para unirem suas bocas.

E trocam um apaixonante beijo de amor, no intenso desejo em sentir suas linguas a se acariciarem na sua maciez suave e com o passar dos segundos, avidamente.

A música vinda até seus ouvidos embala-os, com doçura.

Minutos depois Scully sai de sobre ele. Deita-se ao seu lado.

— Dana Scully?

— Sim, senhor Fox?

— Antes eu não sabia que você era assim tão...

— Como?

— ... quente!

— Posso fazer você ficar em labaredas agora mesmo. - sussurra, sensual.

Rapidamente Mulder senta-se.

— Ah, não brinca! Não faz isso comigo, não!

Ele levanta-se rápido, a seguir. Puxa-a pela mão para que o acompanhe até a água.

Ela levanta-se ao ser puxada e sendo assim carregada por ele.

Ambos correm para a água.

Penetram na água, deixando que esta os envolva até a cintura. Abraçados, ficam calados, quietos, somente sentindo que seus corpos deixam liberar toda a ânsia do desejo que lhes abrasa neste momento. E assim abraçados, agarrados, colados, podem sentir o prazer estremecer todas as fibras do seu ser.

Ambos não conseguem reprimir os discretos gemidos de prazer que lhes saem do mais profundo de seu peito.

A água do mar, ondulante e calma, os faz porem-se em movimento, impulsionados por ela, que lambe-lhe os corpos e desfaz-se em seguida para retornar nos segundos seguintes e assim, ininterruptamente.

E Dana sente-se quase desfalecer de prazer.

Mais uma vez um gemido sai do fundo do seu peito, deixando libertar-se assim pelo sentimento o que a carne provoca neste momento.

E permanecem abraçados.

O forte sol agora, que coloca em tom dourado o verde das palmeiras que contornam a praia, aquece-lhes o corpo.

No horizonte infinitamente azul, o céu junta-se à agua numa só linha ao alcance da vista.

As gaivotas aqui e ali sobrevoam com seus gritos o límpido céu.

As ondas, levadas pelo vento, coroam a areia com seu colar de alva espuma, alisando-lhe carinhosamente a superfície e desfazendo-se a seguir.

O casal continua assim, abraçado, pleno de felicidade.

A natureza soberba ali, proporciona-lhe infindo prazer e tranquilidade no coração.

Eles têm a vida tão dura e difícil! Tão atribulada e perigosa! Tão cercada de mistérios e horrores!

Tão cobrada por seus superiores!

Mas isso tudo nada significa nos momentos em que pensam somente em si mesmos.

Em que buscam somente amar-se e deixar as coisas horrendas e difíceis para trás.

Nesses momentos querem apenas viver! Esquecer tudo à sua volta!

Porque se amam. Se querem. E o coração, movido pelo verdadeiro amor, fala mais alto que todos os outros sentimentos.

Encaminham-se novamente para a areia.

Deitam-se próximo à beira d'água.

As ondas do mar, desmanchando-se junto a seus corpos, vêm como que acariciando-os, desfazendo-se depois em nada.

— Scully?

— O que?

— Acima desse céu tão infinitamente limpo agora, existem vidas...

Dana o olha de soslaio. Não acha agradável falar sobre isso.

— ... seres que podem, por vezes, observar-nos, fazer-nos até algum benefício e, por vezes, maldades...

Ela continua calada.

Ele fecha os olhos.

— ... não poderia ser diferente? Aqui na Terra já existe suficientemente tudo o que o próprio ser humano pode fazer até contra o seu próprio semelhante.

Dana fecha os olhos. Não gosta de lembrar todas as experiências más pelas quais passou, quando abduzida pelos alienígenas. Abre os olhos, mas sente-se contrafeita.

Neste exato momento uma luz brilhante os ilumina.

— Mulder! - chama, amedrontada, sem movimentar-se da posição em que está, deitada, de costas na areia - Mulder!

— Hum?

— Abre os olhos, Mulder e vê! - sua voz está assustada.

— Vê o que?

— Olha, Mulder! - pede mais alto.

Mulder abre os olhos e percebe imediatamente a forte luz sobre eles. Senta-se rápido.

Sente um repentino terror dentro de si.

Agarra a mão de Scully, que, ainda temerosa, não se movimenta.

Ela mantém-se estática e assustada.

A luz parece-lhes aumentar de intensidade.

— O que é isso, Mulder?

— Eu não sei... não consigo enxergar. Está muito forte!

Dana aperta com mais força, ainda, a mão de Mulder.

— Vamos embora daqui!

— Espera! Tenho que ver o que...

Os olhos atentos de Mulder identificam, por fim, o facho de luz intensa e brilhante que os ilumina tão surpreendentemente.

— Mantenha-se quieta, Scully! - diz em voz baixa.

— Sim. Mas o que é? - pergunta, aflita.

— Estou vendo, Scully... e acho que vai ficar mais próximo de nós...

— Mulder...!

— Sim! Está se movimentando! E vai sair do lugar onde está! Scully... acho que estou com aquela cara de pânico...

Ele a segura, para mantê-la deitada na areia.

— Mulder, fala! - pede.

— Vou descrever pra você... fique quieta...

— Sim... - respira afogueada e tensa.

— Sua superfície é brilhante...

— Superfície...?

— Sim... espere... quadrado...

— Quadrado?

— Está mexendo-se agora, Scully. Está vendo a luz em movimento?

— Sim.

— Está saindo do lugar...

— É...?

Scully faz um esforço para levantar-se, porem Mulder a segura ainda contra a areia.

— Fique quieta! E não se mexa! - pausa - Tem... dois imensos olhos redondos...

— Mulder!

— Um corpo imenso... que movimenta-se pesadamente...

De súbito, Scully, amedrontada, não aguenta mais.

Senta-se para acompanhar com Mulder o que está acontecendo.

Lá distante, perto do quiosque, um grande caminhão-baú, fazendo manobra, joga a luz forte do sol refletindo sobre seu parabrisas contra Mulder e Scully onde estão, à distância.

— Mulder! Seu mentiroso!

— Eu?

— Você estava descrevendo pra mim um monstro, algo assim... sei lá!

— Monstro? Em nenhum momento lhe falei isso, Scully!

— Ora, seu...! - com as mãos em concha, junta água e a joga sobre ele várias vezes.

Abraçam-se, dando gargalhadas.

Suas risadas espalham-se no ar, misturando-se ao marulhar das ondas do mar.

"O riso está bem

perto das lágrimas."

Michelet