Capítulo 6

Cada tossida era como um golpe certeiro em seu estômago. Sangue escorria pela sua boca, mas ele não tinha tempo para limpar o queixo. A dor era cada vez mais frequente, tirando lentamente o pouco de sanidade que ele tinha guardado. Talvez se tivesse resistido à tentação as coisas não iriam terminar assim. Seus poderes não lhe valiam de nada agora; ele estava completamente sozinho.

Apesar de suas suspeitas, ele não tinha certeza de quem estava interferindo. Se acusasse o mestre desnecessariamente, não haveria volta. Ele tinha que continuar com o plano, pelo menos por enquanto...

Mas como, com a ligação tão fraca? Era como se tudo estivesse coberto por neblina. Talvez Kazfiel ainda estivesse no castelo, mas nem ele conseguiria encontrar-lo sozinho. E se o bruxo ja tinha fugido, ele não poderia ir atrás dele e deixar Melody ali...

Seus olhos passaram preguiçosamente pelo quarto simples. O armário tinha vários suprimentos e objetos pessoais guardados. Um cajado de madeira com uma grande esfera vermelha presa na ponta estava apoiado na parede.

O cajado...

Seu coração batia freneticamente enquanto tentava juntar fôlego para continuar correndo; seus músculos cansados continuavam na mesma posição, prontos para qualquer ameaça que pudesse aparecer num dos corredores silenciosos.

Ele segurava um livro velho com uma capa carmesim e dourada firmemente entre as duas mãos. Seria impossível não achar esse calhamaço colorido entre os inúmeros outros com gravuras monocromáticas. Mas ele nao tinha tempo para abri-lo agora.

Cada passagem parecia levar para um lugar parecido, em círculos. Ele correu e correu até chegar no salão familiar de entrada,. A barreira translúcida pairava à frente, como se esperasse o seu toque. Exatamente como a mulher disse, ele passou ileso.

Por um momento ele pensou em voltar ao seu quarto e pegar suas coisas, mas o risco era muito grande; ele nao sabia o quão forte a ligação estava naquele momento. E se ele encontrasse Remiel no caminho... ele sabia que seus olhos não poderiam mentir para ele.

Apesar disso, a corrida lhe deu tempo suficiente para endurecer seu coração e pensar sobre suas decisões. Ele sabia que não poderia fugir do destino que o inescrupuloso vampiro tinha imposto em seu caminho, não poderia fugir para sempre. Além disso, aquele castelo parecia ser isolado do resto de Rune-Midgard. Seria difícil encontrar uma Kafra naquele momento. Quando achou que a distância estava boa o suficiente, ele se sentou numa grande rocha plana cercada por árvores e abriu o livro.

Este era dividido em vários capítulos, com ilustraçoes no começo de cada um. Cada página folheada aumentava a sua frustração; tudo estava escrito com símbolos exóticos e cuidadosamente trabalhados. O castelo continuava onipotente à distância, rindo de seus esforços em tentar encontrar alguma solução para tudo aquilo. Ele era otimista demais, pensando que um livro estranho deixado por um estranho, "amigo" de Remiel, iria ajudar.

Seu dedo folheou o resto das páginas mecanicamente, cada página igual a outra... !

O que era aquilo? Ele voltou a última pagina e havia algo numa letra vermelha vibrante, muito diferente dos símbolos e em sua própria lingua, contrastando com a folha amarelada. Parecia ter sido escrito com pressa; não passava de um garrancho.

"Ela conhece a resposta."

Ela? ... Havia algo escrito mais embaixo; instruções de como formar um circulo mágico, quais ervas coletar...

Tudo parecia perfeitamente esquematizado; ele se sentia parte de alguma trama muito maior, mas ao mesmo tempo sem escolha nenhuma. Ou ele esperaria aqui e morreria quando a ligação se fortalecesse o suficiente ou agiria conforme o livro instruía...

Fechando o livro, ele pulou da pedra e andou rapidamente pela floresta. Era inevitável lembrar de sua infância de novo... ele costumava colher ervas para o curandeiro local junto com Remiel, e já sabia identificar cada tipo diferente. Não foi difícil juntar tudo que estava indicado; a última delas esperava pacientemente na beira de um riacho.

Após colhê-la, ele lembrou de quanto tempo fazia que não se refrescava. Deixando as ervas e o livro de lado, Kazfiel mergulhou o rosto, se deliciando com a água fria, esquecendo de tudo por alguns doces segundos. A realidade foi implacável ao expulsar seu corpo e mente do refúgio líquido. Ele precisava voltar para dentro, mergulhar por completo; para sempre. Talvez morrer afogado não fosse uma idéia tão ruim...

Mas alguém olhava diretamente para ele, um rosto pálido sobre a água. Quem poderia ser? Ele instintivamente tentou empunhar o cajado, só para depois lembrar amargamente que ele provavelmente estava jogado em algum canto daquele castelo sombrio.

Aquele ser estranho o assustava, com seus olhos extremamente vermelhos e radiantes. Seus cabelos negros e desarrumados pareciam um ninho sem vida.

Quando ele virou a cabeça para se levantar, o ser estranho se mexeu, imitando-o. Ele estendeu a mão para tocar a face estranha, e uma mão igual emergiu do riacho. Era o seu reflexo.

Aquela... aberração não era um vampiro, nem um humano. Como ele voltaria para a sua família e amigos agora? Ele não era nada agora...

Por um momento ele esperou que uma lágrima ardida caísse de seus olhos, mas nada veio.