6. Perdido
Mori mantinha seu olhar fixo no chão enquanto apoiava as costas na parede ao lado da porta do banheiro feminino. Observando muito além do piso de madeira de um restaurante cuja existência ignorava até alguns minutos, buscava em si mesmo por respostas. Todas as suas ações até aquele momento, após analisá-las cuidadosamente, não condiziam com nada que ele havia aprendido sobre precaução e autocontrole. Negligenciou sua função de guardião, meteu-se em um assunto de periculosidade óbvia e que poderia ter sido resolvido de formas mais sutis, desfigurou talvez de forma permanente o rosto de um garoto e, em sua opinião a pior de suas faltas, foi o responsável pela preocupação que viu nos olhos de Haruhi naquela tarde.
Takashi conhecia seus companheiros de clube o suficiente para saber que já havia provado a todos que podia cuidar de seus próprios problemas sozinho. Não que simplesmente não ligassem, apenas sabiam que, se ele não pedisse por ajuda, era porque não precisava. De fato, o que ocorria eram constantes intervenções dele e de Honey em qualquer eventualidade que envolvesse os outros membros e raras eram as vezes que surgia algo que não podiam lidar.
Já Haruhi não o conhecia há tanto tempo. Não estava tão acostumada com sua atitude solitária quanto os outros. Mori odiava a idéia de trazer preocupações para qualquer pessoa que fosse, mas principalmente para alguém que era tão querida por todos. Haruhi tinha a habilidade de ler a alma de qualquer pessoa, assim como fizera com todos do clube, mas isso fazia com que se apegasse facilmente aos outros. E Mori se odiava por ter que fazer alguém tão puro sofrer por ele.
Mori então se desencostou da parede a qual estava apoiado e calmamente começou a caminhar para a saída do restaurante. Mantinha ainda seu olhar perdido e os braços cruzados, mas seus passos firmes indicavam que seu objetivo não era aleatório. Ao sair, ignorando o olhar curioso do motorista que o esperavam, virou à esquerda e se dirigiu aos fundos do estabelecimento, através da frondosa floresta que o rodeava e a toda a estrada que passaram até chegar ali. Reconhecia que seus sentidos estavam afetados pelo redemoinho de informações que passeavam por sua mente. Mas não o suficiente para não perceber que ela poderia se machucar se pulasse de uma janela tão alta e pequena o suficiente para não permitir que planejasse melhor sua queda. Estendeu então seus braços e alguns momentos depois aparou o corpo de Suiko de sua queda desengonçada.
Ambos se surpreenderam. Suiko por um gesto tão terno e gentil de alguém que julgava ser um brutamontes e Mori pela complexidade de um ato que até então julgara tão comum. Fechando os olhos e tentando recobrar a linha de pensamente que seguia até então, ele a pôs de pé e deixou que se sustentasse com as próprias pernas. Ela, porém, levou uma mão a parede, ainda trêmula pelo risco que percebera ter corrido. Se Mori não estivesse lá, teria se ferido ao chegar ao solo? Resumiu seus pensamentos em um gesto: Um poderoso tapa explodiu no rosto de Mori, não que ele se deixasse afetar por tão pouco, ou mesmo que não esperasse por aquilo.
- Por quanto tempo pretende me manter prisioneira? Já disse que não quero ir com você e ainda assim você me força a vir. Isso não é diferente de um seqüestro!
Mori não estava ciente que Suiko sequer tentaria compreender seus planos, mas esperava que ela começasse a agir de forma mais condescendente com o passar do tempo. Pelo visto ela era mais teimosa do que ele sequer sonharia.
- Para todos, estamos a passeio.
- E o que dirão meus pais quando souberem que me trouxe para tão longe?
- Eu já os avisei. Eles concordaram que deveria vir comigo.
- O que?
- Ambos estamos sob licença médica e estamos nos recuperando de uma virose. Seus pais concordaram que era uma ótima oportunidade para você respirar o ar fresco das montanhas, já que não aparentava mesmo boa saúde nos últimos dias.
Suiko estremeceu de raiva. Ele era mais esperto do que parecia.
- Creio que seu amiginho Ootori tenha algo a ver com isso. – Ela também não era nada boba.
- Isso já não vem ao caso.
Suiko deixou escapar uma risada triunfante. Adorava estar um passo a frente de quem quer que fosse, mas estar além de alguém que até então a dominava era extasiante. Decidiu acabar com aquele diálogo enquanto estava por cima e se dirigir logo ao carro. Ele a arrastaria até lá de qualquer forma.
Antes que desse um terceiro passo, porém, Mori a segurou pelo braço.
-Por que disse aquilo a Haruhi?
Mori não a olhava nos olhos como de costume. Estava claro que aquele era um assunto que o incomodava. Direcionou o olhar apenas para uma direção próxima a dela com o canto do olho, tentando disfarçar qualquer emoção.
-... Não era necessário.
Suiko sorriu com o canto dos lábios e aproximou seu rosto do dele, parando apenas quando sua estatura a impedia, e falou com a voz baixa e repleta de esplêndida malevolência.
-Porque eu quis.
Retirou o braço das garras de seu dominador e retomou sua marcha em direção ao imponente veículo preto que os aguardava. Mori ainda olhava para o nada. Podia claramente sentir o sorriso satisfeito que ela com certeza havia estampado em sua feição naquele momento. Não conseguia distinguir em quais momentos ela expressava um sentimento verdadeiro ou quando apenas usava de sua agressividade corriqueira. Gostaria de ter a compreensibilidade de Haruhi, os modos de Tamaki, a sagacidade de Kyoya, a malícia dos gêmeos ou carisma de Honey, mas não o tinha. Tudo o que podia fazer era seguir em frente, mesmo sentindo que sua força não o seria útil.
Mesmo sabendo que estava perdido.
=//=
Enquanto isso, no host club...
-Oi, princesas! Querem comer bolo comigo?
-Oh, meu deus! Um garoto abandonado!
*Honey não é o mesmo sem Mori-sempai*
-Ele está tão maltrapilho...
-...Mas ainda assim é tão bonitinho! =*¬*=
