Demi's POV

A manhã estava fria, pude sentir meus pêlos se eriçarem com o vento gelado que bateu sobre minhas pernas descobertas. Abri meus olhos devagar me acostumando com a claridade do cômodo e instintivamente apalpei o lado aposto do sofá, onde Selena havia dormido, mas estava vazio. Me espreguicei lentamente me lembrando da noite anterior e um sorriso brotou nos meus lábios. Me repreendi mentalmente por aquilo. Havia sido só uma noite, não havia? Estava escuro, estávamos carentes, eu achava Selena atrante. Era só isso. Eu tinha muito mais com o que me preocupar do que com um romance nessa fase da minha vida, ainda mais com uma mulher tão complicada quanto eu. Essa parte da minha vida eu havia deixado para trás quando tinha conhecido Wilmer e ficado grávida dele... Minhas escolhas sexuais haviam se consolidado ali.

Resolvi ir ao quarto onde estava hospedada e colocar alguma roupa qualquer, já que eu estava só de calcinha e blusa, e depois saí para procurar Selena. Ela não estava em nenhuma parte do hotel o que me levou a crer que estava na praia. Coloquei meus chinelos e saí a sua procura, notando os destroços que a tempestade havia deixado, a praia estava suja, muita madeira jogada e árvores caídas.

Avistei Selena sentada em um caixote na areia da praia, o vento fazendo seus cabelos chicotearem suas costas enquanto a morena tinha uma mão apoiada no queixo, totalmente perdida em sí, avistando o sol nascer aos poucos. Os raios fracos iluminavam a face bonita e eu me permiti suspirar ao perceber o quão bonita ela realmente era. Não aparentava ter a idade que tinha, nem a experiência, muito menos filhos. Parecia uma garota perdida, sentada inocentemente sem ter com o que se preocupar.

- Oi. - Eu disse baixo e Selena virou a cabeça para trás para me olhar, ela ainda não havia percebido minha presença. - Está tudo bem? - Me sentei ao seu lado.

- Está. - Ela respondeu indiferente. - Você ouviu o telefone hoje de manhã mais cedo?

- Não. Por quê? - Perguntei.

- Danny teve uma crise de asma e o Justin o levou para o hospital. - Ela esfregou o vinco entre os olhos, a aparência cansada, e suspirou.

- Ele está bem? - Afaguei o braço da mulher em um gesto confortador.

- Está... É que é a primeira vez que acontece uma coisa dessas sem que eu esteja lá. - Ela olhou para o mar, triste. - O meu filho, em uma cama de hospital, e onde estava eu? - Ela olhou para mim.

- O telefone estava mudo, Lena. - A apelidei sem nem perceber. - Não se culpe.

- Não me culpar? - Ela riu sarcástica. - Pois eu me culpo. Olha, se tem uma coisa na vida em que eu me achava boa era em ser mãe! Eu não posso fazer tudo o que eu quero na hora que eu quero! - Selena alterou a voz.

- Sabe, talvez você consiga ser assim, mas eu não consigo! Desculpe mas eu não consigo! - Ela cuspiu as palavras nervosa e se levantou, caminhando para o hotel.

Esperei mais alguns minutos até que a distância entre nós estivesse boa e também voltei ao hotel. Fui direto para o meu quarto, me sentei na cama, e suspirei alto. O que estava acontecendo comigo? Por que eu me importava tanto com aquela mulher que eu conhecia há meros dias? Eu tinha que continuar focada em Isabella, não poderia perder meu foco por nada nesse mundo. Eu tinha feito a escolha de ser a melhor médica e falhei, eu não poderia falhar em ser mãe. Não de novo. Eu gostaria de ser como Selena, uma mãe mais presente, uma pessoa com quem Isabella pudesse conversar. Eu havia falhado tantas vezes como mãe e ouvindo Selena falar sobre suas crianças, eu percebia que ela não havia falhado nenhuma vez e que ela não poderia nem suportar a ideia de não estar lá com seus filhos quando eles precisassem. Ela era uma mãe de verdade e eu desejava aquilo para mim. E por mais estranho que parecesse, eu desejava Selena para mim.

Me levantei resolvendo ir conversar com Selena mais uma vez, as coisas não poderiam ficar daquele jeito, ela não poderia se culpar daquela forma, alguém precisava dizer que aquilo não era sua culpa. Desci as escadas rapidamente, encontrando-a na sala onde havíamos transado, arrumando as coisas que haviam se quebrado quando a estante quase caiu sobre ela na noite passada.

Ela parou o que estava fazendo e olhou para mim. A preocupação, a dor e a saudade no olhar. Mas então eu percebi que aquilo não era só por causa de seu filho. Era por causa de mim. Era o que tínhamos feito ontem a noite quando seu filho estava no hospital, precisando da mãe. Ela se culpava por ter disfrutado de um momento bom e gostado daquilo enquanto Danny estava precisando dela.

- Olha, eu sei que se sente culpada por causa do seu filho. - Eu disse sem rodeios. - Mas eu quero que saiba que eu invejo o que você tem. Seus filhos tem muita sorte em ter alguém que os ama como você os ama. Alguém que se esforça tanto... - Eu suspirei, olhando para os meus pés enquanto confessava aquilo. -E qualquer homem que não saiba a sorte que é ter você, é um tolo.

Alguns segundos de silêncio e então percebi o que eu tinha que fazer. Selena olhou para mim e então eu me virei, saindo do hotel apressada e indo em direção ao meu carro. Eu precisava me redimir com o Senhor Efron. Eu devia desculpas a aquela família. Se eu quisesse ser uma pessoa melhor, uma mãe melhor, uma mulher melhor como Selena, eu precisava assumir a responsabilidade do meu erro. Aquele homem carregaria uma dor desconhecida por mim pelo resto de sua vida, e eu tinha uma grande parcela de culpa naquilo. Havia sido um acidente, sim, algo que só se acontecesse a cada 50 mil casos, mas havia acontecido com aquele homem e ele não queria saber se não havia culpados... Ele queria que eu, a doutora que havia operado a sua mulher, me desculpasse e tivesse compaixão. Selena estava certa, era isso que a fazia especial, era a compaixão, o amor e o quanto ela se doava para as pessoas.

- Ei, espera. - Eu a ouvi andar apressada atrás de mim mas não parei.

Entrei no carro e estava pronta para sair quando Selena abriu a porta do passageiro e entrou também. Não me importei em pedir para que ela saísse, ela seria um grande apoio. Liguei o carro e dirigi para a casa dos Efron.

- Por que estamos aqui? - Ela finalmente perguntou reconhecendo o lugar.

- Preciso assumir a responsabilidade do meu erro. Você tinha razão. - Saí do carro acompanhada de Selena. Ela sorriu para mim e segurou minha mão.

Toquei a campainha e não demorou muito para que o Senhor Efron nos atendesse. O olhar triste do homem pousou sobre mim e Selena e para minha surpresa ele gentilmentou nos convidou a entrar.

- O que te traz aqui, doutora Lovato? - O homem perguntou quando nos sentamos no sofá um de frente para o outro com Selena ao meu lado.

- O senhor me perguntou ontem, Senhor Efron, qual eram a cor dos olhos da sua esposa. Eu não soube lhe responder e fui muito indiferente ao assunto. Eu gostaria de saber, e gostaria de lhe pedir desculpas. - Eu disse.

Calmamente o Senhor Efron se levantou do sofá e retirou um retrato da parede, voltando a se sentar em minha frente e me entregou. Era a senhora Vanessa Efron.

- Os olhos da minha esposa eram um castanho suave, doutora Lovato, um castanho tão suave que era como se ela não pudesse ferir ninguém. E ela não podia mesmo. - Continuei a olhar para o retrato enquanto escutava o senhor Efron.

- Eu conheci Vanessa na época da escola... Aquela coisa no rosto dela, ela sempre teve, e eu não me importava. Eu nem via... Mas ela queria tirar. Eu a encontrei no banheiro, chorando, olhando para aquilo. - Ele suspirou. - Ela dizia "Eu quero ser bonita para você" e aquilo me partiu o coração. Por que ela era bonita... ela era tão... linda! - Ele disse deslumbrado e eu acenti, finalmente entendendo o que ele dizia.

- Mas era o que ela queria, ela queria a operação e em toda a nossa vida eu não me lembro dela ter pedido mais nada. Então eu concordei e foi assim que chegamos a você. - Ele olhou pra mim e eu acenti mais uma vez, engolindo a emoção e o choro que estava preso na minha garganta.

- Queria lhe agradecer por ter me mostrado isso. - Eu o entreguei o porta-retrato. - E por ter me dito isso. - Foi o que consegui dizer.

- Você foi a última pessoa que ela viu e falou nesse mundo. Ela tinha todo o amor e a gentileza do mundo dentro dela. Você não sabia para quem estava olhando mas agora você sabe. - Ele finalizou olhando nos meus olhos.

Não consegui sustentar o olhar do homem, era demais para mim. A culpa caindo em mim como uma chuva de tristeza. Esfreguei os olhos tentando segurar as lágrimas mas não consegui.

- Senhor Efron... eu, eu... Sinto muito. -Gaguejei em meio ao choro. Não haviam palavras o suficiente para lhe dizer o quanto eu sentia muito. - Muito mesmo.

O homem olhou para mim. Dessa vez havia compreendimento, compaixão, perdão. Ele se levantou e eu também, então ele me deu um abraço apertado. Não foram necessárias palavras da parte dele, aquele era o seu perdão. E o perdão me libertou daquela dor que eu vinha sentindo desde a morte de sua esposa, daquele sentimento escravizador, o compreendimento da dor daquele homem fora o remédio para curar a minha culpa. Eu estava liberta.

. . .

Selena e eu caminhávamos lado a lado agora sobre a areia da praia, ela segurava minha mão e sorria.

- Fico feliz por ter estado lá. - Ela disse sorridente se referindo a conversa que eu tinha tido com o senhor Efron.

- Eu também. - Admiti.

Ter a mão de Selena segurando a minha naquele momento tenso e enxugando minhas lágrimas quando não consegui mais segurar foi essencial para que eu não me sentisse tão sozinha.

Ela sorriu mais uma vez. Aquele linda carreira de dentes sorrindo para mim. Como eu estava amando aquele sorriso, como eu amava quando ela o dirigia para mim. Ela se virou para mim me abraçando e pousando a cabeça sobre meu ombro. Eu conseguia sentir seu perfume doce, e sorri ao enterrar meu rosto em seus cabelos cacheados.

Ela levantou a cabeça do meu ombro e me olhou. Aquele olhar intenso. Me aproximei e selei meus lábios nos seus. Me dei conta do quanto já estava sentindo falta daqueles lábios doces sobre os meus. Ela retribuiu o selinho geltimente o transformando num beijo simples mas gostoso.

- Sabe, talvez hoje você veja aqueles cavalos que você me contou na primeira noite que eu estava aqui. - Passei meus braços em volta do seu pescoço, sorrindo.

- Os Bankers? Ah... Não, eles nunca vem para essa parte da ilha. - Ela riu divertida.

- Você vai ver, um dia eles virão!

- Mesmo? Então tá, obrigada. - Ela riu mais uma vez me fazendo rir junto com ela.

Selena passou um dos braços ao redor da minha cintura e voltamos a caminhar rindo e conversando. Resolvemos nos aproximar mais do mar e molhar nossos pés na água rasa enquanto sentíamos os sol queimar nossas costas. Era um momento perfeito. A risada de Selena quando eu contava algo engraçado sobre minha vida era como uma música, uma melodia. Eu beijei o topo da cabeça dela me dando conta de que o amor verdadeiro, não importava quantos dias, meses ou anos demorasse para acontecer, o tempo para o eterno era o que menos importava. E ali, ouvindo sua risada, sua voz, suas conversas, eu tive certeza daquilo.