No capitulo anterior de "Memórias do Passado, Sonhos do Futuro"...

- Ai! – exclamou a francesa.

- Ei, você ta bem? – perguntou segurando-a pelo ombro.

- Pardon, monsier, est que je... – sacudiu a cabeça, que estava baixa, tentando reordenar os pensamentos. – Me desculpa, é que estava com pressa...

- Anne? – fitou-a assustado.

- Mas como... – ela então olhou-o nos olhos. – Miro!

- Por Athena, o que aconteceu? – perguntou profundamente preocupado.

Ela, como única reação, abraçou-o de forma tão forte que nunca tinha feito em toda sua vida, desabando novamente em lágrimas que logo umedeceram a camiseta amarela do rapaz.

CAP VI – A Surpresa

Miro não podia negar que estava incrivelmente surpreso. E pelo visto, sua surpresa não era boa. Primeiro, esbarrá-la na sua casa, sendo que ele não tinha a menor idéia de que ela estava na Grécia, e ela, por sua cara de surpresa, não tinha a noção de onde ele morava. Segundo, por encontrá-la naquele estado tão... triste. Ele novamente pediu para que ela lhe contasse o que havia acontecido, mas ela falava tão rápido e entre tantas lágrimas e soluços que ele não conseguiu entender nem a metade – ainda mais porque ela falava a maioria das coisas em sua língua natal.

- Calma, calma. – afagou-lhe a cabeça. – Fica calma, meu francês não é tão bom como seu grego.

- Por quai, Miro?

Ele não tinha resposta para aquela pergunta que ele não tinha nem idéia do que queria dizer, quem dirá a resposta. E mesmo que ele tivesse essa resposta que ela queria, não conseguiria responder para aquele par de olhos verdes perdidos e inconsoláveis. Passou seu braço direito pelo seu ombro, envolvendo-a, e então a conduziu para uma das salas daquele lugar, mostrando a ela que agora estava tudo bem.

- Fica calma e me explica o que aconteceu, oui?

- Você não tinha direito de magoá-la dessa forma, Pierre!

- Eu já disse que não conversarei com você sobre o assunto, Afrodite. – respondeu irritado, pois chamá-lo de Pierre, seu nome do meio, era uma das coisas que mais o irritava no mundo. – Quero apenas saber se ela tá aqui.

A discussão agora estava somente entre os cavaleiros das últimas duas casas. Os outros já tinham desistido de argumentar algo, ainda mais porque o que Kamus deveria argumentar com Anne ele estava discutindo com Afrodite, que parecia a cada minuto mais irrequieto. Shura já estava na quarta cerveja, Aioria esperava a pipoca ficar pronta e Giancarlo já tinha consumido quase seu maço inteiro de cigarros. O último era o mais impaciente de todos. Nenhum deles entendia como Kamus, o tão reservado, estava discutindo há tanto tempo com seu vizinho. Tudo bem, eles eram amigos, mas não tão próximo a esse ponto. Aioria e Shura não tinham entendido como o pisciano estava bravo há tanto tempo, e Máscara da Morte então comentou sobre a festinha de algumas horas atrás, o que fez com que eles rissem.

- Tanto cara legal nesse mundo, e a menina vai gostar justo de um francês boiola... – comentou Câncer ao acender outro cigarro.

- Bom, isso ele não deve ser. – comentou Leão comendo sua agora pronta pipoca. – Senão ela não vinha atrás dele.

- Ainda não me conformo de ele te-la chamado de feia! – interveio um inconformado Shura. – Nem que ela quisesse ela poderia ser feia!

- Ela é tão linda assim, Shura? – perguntou surpreso. – Ela saiu de Aquário antes que a visse.

- Anne? Anne é a chica mais linda que já vi... – respondeu maravilhado com lembranças dela.

- E cadê ela que não aparece? – revoltou-se o leonino. – Todo mundo fala tanto que eu quero ver também!

E mais ao centro da sala a conversa continuava.

- Não tenho mais tempo pra discutir com você, Dido. – respondeu frio. – Eu preciso encontrá-la antes que ela se vá e eu a perca outra vez.

- Coitadinha, já deve estar longe daqui, e com uma péssima impressão! – dramatizou o pisciano.

O francês, já farto daquilo tudo, resolveu sair em disparada as demais casas. Ele não devia satisfações a nenhum daqueles ali presentes, e demorou tempo demais argumentando com quem não valia a pena. Desta vez, queria encontrá-la, precisava fazê-lo! Por ela e... Por ele! E se ela já tivesse saído? Provavelmente não voltaria mais. E por que ele se sentia tão mal quando fez tudo isso com essa intenção? Por que tantas dúvidas e pensamentos confusos assolavam sua cabeça? Quando se deu por si, estava parado ante a Casa de Sagitário, observando o nada. Pensou se deveria continuar ou retroceder e, depois de anos, deixou seu coração falar. E ele mandou-o ir ate ela. E isso o fez continuar.

- Pronto, agora o pingüim foi atrás dela! – disse Afrodite inconformado, se sentando na cadeira da mesa de jogos.

- E por que você não vai atrás? – zombou Shura.

- Porque to meio tonto, não sei porquê.

Máscara da Morte revirou os olhos como protesto e indignação, e Aioria e Shura riram da cena. Pelo visto a festa tinha sido boa!

- Deixa, Dido. – consolou o leonino. – Melhor eles resolverem isso logo.

- E espero que de uma forma amiga, porque os dois estão sofrendo já. – concordou o espanhol.

- E você não falar nada, Carlinho? – indignou-se o sueco. – Ou vai concordar com esses dois ai?

- Ele merecia levar umas porradas, mas ninguém me ouve. – e acendeu mais um cigarro. – Mas não se preocupa, logo ele vai tá na minha casa... sorriu sádico.

- Ai, cruzes! – arrepiou-se enquanto afastava a fumaça do cigarro. – Você me dá medo!

Quando voltaram seus olhares para Shura, viram que ele não estava ali, mas sim no canto da sala, falando ao telefone. Claro que ficaram curiosos, queriam saber de quem se tratava, e por isso instantaneamente se calaram, para ver se tinham alguma pista. O dono da casa logo desligou e então juntou-se aos demais, pensativo, de sobrancelhas cerradas, cabeça baixa e com as mãos no bolso.

- Com quem você tava falando, Shura? – indagou o curioso leonino.

- Miro. – respondeu distante.

- E ela já passou por lá? – perguntou Afrodite com medo da resposta.

- Pior. – disse fitando os demais. – Ela tá com ele.

Surpresa geral, com direito a boca aberta de Afrodite. Como ela tinha encontrado justamente o mais mulherengo do Santuário? Ainda mais tão vulnerável daquele jeito...

- Ótimo! – ironizou o canceriano. – Correu do maluco e encontrou o depravado.

- Po, eu não tenho essa sorte! – reclamou o leonino.

- Aioria, você tem a Marin! – repreendeu-o Afrodite.

- Eu sei, eu tava brincando. – riu sem graça. – Tudo bem que a gente brigou, mas...

Agora quem estava farto era o canceriano, que apagou o cigarro no cinzeiro e saiu em direção à porta de saída da casa, com as mãos no bolso e um sorriso triunfante no rosto. E o único que entendeu seu motivo foi o companheiro de carteado, que resolveu confirmar:

- Ei, Carlo, pra onde você vai?

- Pra casa, Shura.

Aioria e Afrodite se entreolharam assustados, ainda mais por se lembrarem da declaração de antes do italiano. Ao mesmo tempo, pensaram que ele iria atrás de Kamus e então falaria para ele algumas coisas, ainda que quisesse a violência, mas logo mudaram de idéia, confirmando a teoria de Shura. O sorriso que o cavaleiro de Câncer exibia em seu rosto não era um de sarcasmo ou maldade, mas sim um sorriso de triunfo. E logo ele sumiu as vistas de todos, assim que saiu pela porta e desceu as escadas.

- Vocês acham que...? – perguntou Aioria ainda descrente.

- Sim, ele tá feliz. – confirmou Shura rindo. – Porque o Kamus rodou na mão do melhor amigo.

- Homens. – suspirou Afrodite.

- Quem era? – perguntou curiosa.

- Shura. – respondeu tranqüilo. – Estavam preocupados.

Anne estava sentada em um sofá vermelho-sangue de uma das salas daquela grande casa, segurando uma grande xícara de chá, preparada pelo dono daquele templo. Miro, o dono em questão, sentou-se novamente ao seu lado, agora mais tranqüilo vendo-a consideravelmente controlada e mais calma. Ela não mais chorava, estava bem tranqüila sob a sua companhia.

- Eles são tão bonzinhos... – balbuciou antes de beber mais um gole do líquido.

- Nem todos. – contrariou Miro. – Você conheceu o Máscara da Morte?

- Sim, um amor de pessoa o Giane. – e observou Miro se engasgar nesse momento. – Se não fosse por ele, ainda tava perdida em Capricórnio e Sagitário.

- Estamos falando da mesma pessoa? – indagou surpreso. – Bom, tanto faz. Shura ligou pra avisar que Kamus ta vindo.

Anne o fitou com olhares temerosos. Não, não queria vê-lo, principalmente em seu atual estado: vulnerável e arrasada. Colocou a xícara sob a mesa de apoio a sua frente, com as mãos trêmulas e um olhar de súplica que ele instantaneamente entendeu o que queria dizer.

- Calma, Anne. – pegou suas mãos. – Ele ta vindo aqui, mas não quer dizer que ele vai falar com você.

Ela não conseguiu dizer nada, apenas se jogou novamente nos reconfortantes braços do rapaz, que a abraçou e mais nada disse, afinal entendeu o que ela quis dizer, mesmo sem ela ter falado uma palavra sequer. A cumplicidade entre os dois sempre foi tão grande, e nada havia mudado, mesmo depois de tempos. E como era bom estar com ela! Agradeceu aos deuses por terem colocado-a em seu caminho quando ele se sentia mais sozinho, e quando ela mais precisava dele.

- Miro? – o nome do escorpiano ecoou pelo grande corredor. – Miro, ta em casa?

Alguns segundos depois, o rapaz apareceu com um copo de alguma coisa que Kamus não soube distinguir o que era nas mãos e o sorriso de um grande garoto que esqueceu de crescer no rosto. Os dois eram tão diferentes um do outro, como poderiam ser melhores amigos? Esse era apenas mais um dos grandes e inexplicáveis segredos do Santuário de Athena.

- Fala, parceiro! Beleza?

- Miro, você viu uma garota passar por aqui? – perguntou apressado.

- Garota? – perguntou desentendido. – Que garota?

- Morena, olhos verdes, alta, cabelos compridos... – tentou descrevê-la.

- Você é um safado! – deu um soquinho no ombro dele. – Trás mulher pra cá e nem pede pra ela trazer uma amiga?

- Miro, serio. – fitou o amigo. – Ela não é uma qualquer. Ela é aquela da França.

- Men... Mentira! – balbuciou chocado.

- Ela veio ate aqui, ontem e hoje, e viu tudo errado, e eu não contribui muito e... – tentou explicar de forma breve. – Esquece, depois te explico. Mas por que sua camiseta ta molhada?

- Tava bebendo água e você me assustou. – respondeu prontamente rindo. – Esse é o resultado.

- Uma eterna criança... – suspirou. – E o que tava aprontando pra ter se assustado?

- Pior que nada. – riu.

- Enfim, eu vou atrás da Anne. – concluiu o assunto. – Depois nos falamos.

- Ei, Kamus! – interveio com um frio percorrendo seu corpo. – Não acha melhor deixar pra amanha? Pelo que você disse, ela ta fugindo de você, e você ta meio estranho...

- Se ela for embora, nunca mais volta. – E eu ainda fico me perguntando se não é melhor ela fazer isso mesmo.

Miro olhou para o amigo, assustado. Kamus nunca tinha ficado assim antes, confuso e dividido, e por que estava agora? Ficou apreensivo com o que estava por vir, e ficou em dúvida se fez bem ou mal omitindo e mentindo para seu melhor amigo. Mas Kamus estava visivelmente transtornado, e isso era visível e incomum, ate mesmo para ele.

- Volta pra casa que eu peço pro Mu pedir o telefone dela pra você. – respondeu na hora. – Sabe que ele consegue esse tipo de proeza... Indo atrás dela, você só vai assustá-la ainda mais.

O aquariano o olhou, não com seus costumeiros olhos gélidos, mas com olhos de dúvida, que lhe deram certa razão. Geralmente era Kamus quem dava conselhos ao amigo, sempre infantil e irresponsável demais, e hoje os papéis se invertiam pelo simples fato de Miro conhecer melhor o assunto em questão: mulheres. O francês cruzou os braços, refletindo alguns segundos ate que deu uma resposta que concordava com o amigo:

- Certo, talvez você esteja certo dessa vez.

- Ei, nem vem! – respondeu ofendido. – Estou sempre certo, você que é careta demais...

Parou quando foi reprovado (mais uma vez!) por aquele par de olhos azuis que mais pareciam dois blocos de gelo. Miro riu sem graça, de suas próprias palavras, que ele sabia que podiam convencer à todos os outros, mas não ao cavaleiro que estava a sua frente. Mal sabia ele que estava sendo enganado pelo melhor amigo...

- Esfria a cabeça, pingüim. – continuou dando tapinhas nas costas do amigo, que odiava ser chamado por esse apelido. – Vai pra casa, dorme, e amanha vocês se acertam.

Kamus balbuciou mais algumas palavras, em reprovação ao comportamento do dono da casa, o que o fez ver que o amigo estava bem, afinal já o recriminava como o fazia sempre. Conforme ele se dirigia de volta a sua própria casa, a expressão de Miro mudava. Do sorriso maroto ao rosto incrédulo em menos de um minuto. Como o destino poderia ser tão cruel a ponto de colocá-lo entre duas das pessoas que mais considerava nesse mundo? Sentiu-se sem chão e desnorteado por alguns minutos, ate que sua razão fez com que ele voltasse a si. Prontamente ele ligou para o Cavaleiro de Áries, explicou por cima a história e pediu para que, caso Kamus ligasse, avisasse que a garota já havia se ido, e que ele tinha o telefone dela.

Voltou em passos lentos para a sala onde tinha deixado Anne o esperava silenciosa e pensativa. Observou-o entrar, sem expressão alguma no rosto que não fosse a de chocado. Sentou-se lentamente no sofá, sob os olhares curiosos dela, até que então veio a pergunta:

- Anne, você e o Kamus...?

Não conseguiu terminar. Ela desviou o olhar e as lágrimas tornaram a lavar seu delicado rosto. Ele se aproximou dela, como quem quisesse conferir mais de perto o que ele sabia que ela iria confirmar.

- Foi ele o francês que me abandonou sem eu saber o motivo. – balbuciou cabisbaixa.

- Anne, ele... – hesitou, buscando forças para lhe dizer. – Ele é meu melhor amigo!

A francesa instantaneamente fitou-o, surpresa. Como? Não, não poderia ser. A vida não podia ser tão cruel a ponto de envolver Miro em uma história amorosa tão confusa e complicada quanto a sua. Não, ele não. Encostou os braços cruzados e a cabeça em seus joelhos e então chorou – em desabafo e em desespero.

O escorpiano olhou-a confuso. Ele nunca tivera jeito com as mulheres quando elas choravam, ainda mais com Anne. Não sabia se lhe abraçava, esperava ela se acalmar e depois perguntar o que aconteceu. Não sabia se deveria deixá-la sozinha. Não sabia se devia forçá-la a contar tudo. As opções eram tantas que ele se sentiu desesperado e sem reação. Anne chorava tanto, inconsolada e isso lhe partia o coração de tal forma... Não se sentiu a vontade para invadir um momento tão íntimo como aquele. Pensou nela, em como estaria se sentindo ao reencontrá-lo depois de tanto tempo, no que Kamus teria feito para fazê-la fugir dele... Justo ele, tão correto e tão recluso...

- Miro, me desculpa, mas é que... – tentou limpar as lágrimas com o dorso das mãos.

- Pode chorar a vontade... – e finalmente tomou uma decisão: a de abraçá-la, de uma forma que sua cabeça ficou no seu ombro. – Não tem problema, já não é a primeira vez e nós sabemos disso.

Anne agradeceu, mesmo que em pensamento. Ficaram ali um bom tempo, silenciosos. Ela chorava e ele pensava. Nada mais importava naquele momento para ele; esperou tanto tempo para te-la em seus braços, e agora ela estava ali, da pior forma possível. Pelos menos em seus braços ela estaria segura. Ele a protegeria.

Aos poucos ela foi se controlando para voltar a si. Pensou nele, e em como era difícil para ele ser indiferente ou ficar preocupado com aquilo tudo. Ela precisava explicar tudo a ele, lhe devia uma satisfação. Sentiu-se ainda pior perante o fato de estar tão desolada na frente dele – outra vez! -, ainda mais depois de tanto tempo sem vê-lo. Limpou novamente o rosto, respirou fundo e olhando nos preocupados olhos azuis de seu anfitrião, dise:

- Eu vou te contar o que aconteceu. Tudo que aconteceu.

Miro balançou a cabeça, concordando com o que ela acabara de dizer, mostrando que estava disposto a ouvir assim que ela estivesse pronta para falar. E assim o fez.

Giancarlo, o Máscara da Morte, saiu triunfante da Casa de Capricórnio. Acendeu outro cigarro, mesmo com praticamente todos os cavaleiros recriminando seu vício. Ele era aquele tipo de pessoa que não se importava com o que os outros diziam ou achavam. Mesmo que fosse sobre ele.

Voltava para sua casa, em passos tranqüilos, observando o céu estrelado que parecia sorrir para ele. E ele retribuía, entre uma fumaça e outra. Passava pela Casa de Sagitário quando reconheceu um cosmo familiar vindo em sua direção. Sorriu sarcástico, já que, ao que tudo indicava, o cavaleiro em questão voltava sem sucesso do que fora fazer. Cruzaram-se a porta, onde o canceriano parou cruzando os braços e Kamus lançou-lhe um olhar hostil.

- Desistiu da loucura, frances?

- Ela já tinha descido pelas outras casas. – respondeu frio.

- Que pena. – riu cínico soltando fumaça do cigarro. – Eu queria tanto a sua cabeça decorando a minha casa...

- Não se engane pelas aparências, Giancarlo. – continuou sério. – Nem tudo que reluz é ouro.

Com essas palavras o aquariano saiu rumo a sua própria casa. O italiano riu, e então jogou o cigarro no chão, apagando-o logo em seguida com o pé. Era realizador para ele ver Kamus, sempre tão distante e tão centrado, visivelmente abalado e dividido. Isso porque ele nem sabia que a garota não tinha ido embora ainda.

- Finalmente fez algo certo na vida, Escorpião.

- Anne, você tem certeza do que ta me dizendo?

Ela confirmou com a cabeça e viu um rosto embasbacado a sua frente. Ela entendeu, claro, afinal sua história era hollywoodiana demais para ser verdadeira. Beirava o absurdo. E mais absurdo ainda por vir da parte de Kamus.

- Ele nunca mencionou o porque de estar indo embora?

- Não avisou ninguém, sequer se despediu. – suspirou. – Simplesmente fugiu.

- O Kamus? – perguntou incrédulo. – Tem certeza?

- Absoluta! – respondeu ofendida. – A minha vida inteira desandou depois disso, eu saberia quando ela desmoronou...

- Parece mentira...

- Antes fosse. – suspirou. – Seria mais fácil.

Miro levantou-se, confuso. Andava em zigue-zague pelo pequeno corredor formado entre o sofá e a mesa de centro, como se pudesse encontrar a resposta que ele queria. Anne, de braços cruzados, o observou, e esboçou um leve sorriso ao ver que ele não tinha mudado nada! Parecia coisa dos deuses

ele ter aparecido na sua frente justo quando ela mais precisava dele...

- Ele já foi.

- Ahn? – perguntou sem entender nada.

- Ele voltou pra casa dele, não vem mais aqui. Não hoje.

- Eu não conseguiria encará-lo novamente...

- Anne, vocês vão precisa resolver isso! – disparou. - Já tinham que ter feito isso há muito tempo.

- Vim aqui de burra, pra encontrar ele com outra. – desabafou sentida. – Fora que...

- Que outra? E fora o que, Anne?

- Ele quem fugiu de mim e da França, e quando o encontro, anos depois, sou vista como "incômodo" e "fácil". – suas palavras saíram com pesar, mas logo em seguida vieram em um tom energético. – Se ele quisesse resolver algo, tinha me procurado em Paris, ou tinha resolvido isso ontem, mas pelo contrario, alem de deixar isso pendente ainda me insultou hoje.

- Eu entendo que você esteja fula da vida, mas...

- Eu não me importo mais, Miro.

- Se não se importasse, não estaria aqui com medo de encontrá-lo.

- Medo? – perguntou ofendida. – Ate parece que eu vou ter medo de um covarde!

Miro riu da cena, o que fez a garota transformar o semblante sério e bravo em um surpreso. O escorpiano continuou olhando-a, e viu ficar brava novamente quando ela lhe perguntava qual o motivo da risada e ele não respondia. Ela não tinha mudado nadinha! Ele amava ver sua expressão de brava, ela ficava parecendo uma criança.

- E o que você ta fazendo na Grécia? – desconversou ainda rindo.

- Passeando. – respondeu emburrada.

- Com seu pai?

- Até parece! – riu irônica.

- Ah sim, com seu séqüito de serviçais! – levantou-se novamente, zombeteiro. – E como Olivier te deixou vir sozinha?

- Tive que despistá-lo, pedi para que não me acompanhasse.

- Sei.

- Pára de ser ciumento, Miro. – riu finalmente. – Você ainda é meu segurança favorito.

- Eu vou querer isso por escrito!

- Bobo! – riu ainda mais. – E você, o que anda fazendo?

- Treinado bastante, cada dia mais pesado.

- É aqui que você mora? – perguntou curiosa.

- Não só moro. Eu vivo aqui.

- Faz tempo?

- Um pouco mais de três anos...

- Ou seja, desde que fui embora...

- Por ai. – parou pensativo, tentando relembrar-se. – Vim pra cá uns 10 dias depois de você voltar pra casa.

- Eu senti sua falta. – disparou sem dar continuidade ao assunto, carente.

- Eu também. – olhou-a serenamente. –E muito! Seu sorriso me fez muita falta...

Quando Anne ia responder, a porta da sala se abriu bruscamente, assustando a ambos. A garota pensou se tratar do francês, que poderia ter descoberto que ela não tinha ido embora ainda, e Miro fechou a cara por entrarem em uma área privativa da sua casa sem seu convite e de uma forma tão invasora, sem cerimônia alguma.

O "invasor" então se revelou para os presentes: um homem alto, cabelos curtos, sorriso sádico e cara de poucos amigos. Claro que era ele: Máscara da Morte de Câncer.

- Só podia ser! – torceu o nariz Miro.

- Fica quietinho, antropóide, não vim falar com você. – entrou sem rodeios e se aproximou. – Desculpa atrapalhar, bambina.

- Sem problemas, Giane. – sorriu indo ao seu encontro.

- Vim saber como estava.

- Eu não mereço tanta preocupação assim... – riu encabulada.

- Ei, ei! – interrompeu o escorpiano. – Que palhaçada é essa? Olha o respeito!

- Pára com isso, Miro, ninguém tá fazendo nada!

O grego respondeu, seu instinto protetor falou mais alto e ele não se segurou. Ainda mais porque conhecia o canceriano. Giancarlo observou os dois, e viu que tinham certa intimidade e que aquele seguramente não era o primeiro encontro dos dois. Pensou em acender um cigarro enquanto pensava, mas lembrou-se que o escorpiano odiava o cheiro de nicotina e que, como aquela era a casa dele, tinha que respeitar isso. Perguntou-se como ela conseguira sorrir daquela forma tão sincera para ele depois de tudo que tinha lhe acontecido. Ficou instigado com aqueles olhos verdes que, ainda que levemente vermelhos, transbordavam o brilho da serenidade... A discussão entre os dois parou quando Miro, contrariado, cruzou os braços e emburrou-se, não conseguindo argumentar com a garota. Ela continuava temperamental!

- Tem certeza que vai ficar bem com esse inseto? – perguntou com um olhar instigador e inseguro.

- Sim, tenho! – e deu um largo sorriso, interrompendo o que o grego ia responder. – Fazia muito tempo que não o via.

- Pensa bem! Ainda dá tempo de ir comigo e fugir desse depravado... – instigou-a a ir consigo.

- Depravado? – perguntou olhando Miro com um olhar curioso.

- Não dê atenção pra ele! – riu sem graça o escorpiano. – Ele não sabe o que fala e...

- Não? – perguntou o italiano, fazendo intriga. – Pergunte ao Shura, os dois são companheiros de boemia.

- Já tá tarde ne? – apressou-se Miro olhando para o relógio da parede. – Tchau, Giancarlo, ate logo, buonna cera, arrivederci! Depois a gente se fala, certo? Certo! Ate.

O escorpiano se adiantou em levar o italiano em direção a porta, empurrando-o mesmo, o mais depressa que pôde, antes que a garota descobrisse como era sua agitada "vida noturna", e que ela certamente recriminaria – e muito! Certamente ela foi seguindo-os, curiosa, querendo ouvir pelo que o canceriano tinha a dizer, embora não teve sucesso. Resolveu implicar com o grego então, e disparou, entre risos:

- O convite pra amanhã tá de pé?

- Claro, bambina. – sorriu malicioso. – Venha a minha casa a noite e te mostro como fazemos na Sicília.

- É, matam e roubam! – interveio Miro batendo a porta a frente.

Anne riu desenfreada do ataque de ciúmes dele, que fechou a porta para não dar chance para Giancarlo responder. A verdade é que poucos no Santuário gostavam, de fato, do Cavaleiro de Câncer: a maioria ou detestava, ou tinha medo. Miro se encaixava no primeiro grupo. E ver a garota com uma certa afinidade justamente com ele o irritou o suficiente para o deixar enciumado – ainda mais não sendo essa atitude do feitio do italiano.

- Como você é bobo, Miro! – riu divertida.

- Já é a milésima vez que você me chama de bobo hoje! – respondeu contrariado. – Se você conhecesse Máscara da Morte como conheço, me daria razão!

Ela balançou a cabeça, como se tivesse zombando dele. Finalmente conseguia rir de verdade! Lembrou-se de que tinha que voltar para casa, embora não quisesse deixá-lo... Se não voltasse, Olivier estaria em maus lençóis, e por sua culpa. Olhou o relógio e decidiu que deveria se apressar.

- Puxa, eu preciso ir! – levantou-se subitamente.

- Mas já? – perguntou surpreso. – Mas você acabou de chegar!

- Você quem pensa! – rebateu rindo. – To aqui desde manhã, vim almoçar com Dido, ai a gente começou a conversar e beber e...

- Ou seja, o Santuário inteiro sabia que você tava aqui menos o panaca aqui? – revoltou-se.

- Ao que tudo indica, sim! – confirmou com a cabeça.

- Fica mais, vai? – pediu igual criança. – Até falo com o mala do Olivier que te levo no hotel.

- Não dá, Miro, sério. – lamentou pegando sua bolsa.

- Então você volta amanha, ne? – seguiu-a.

- Não. – fitou-o séria. – Não volto mais aquil.

- Ah, não, Anne! Eu não posso sair daqui por muito tempo durante o dia...

- Mas durante a noite pode, é? – alfinetou-o.

- Poxa, depois de tantos anos sem te ver...

- Não volto mais aqui, ainda mais depois de ser chamada de fácil. – respondeu irredutível.

- Não liga pro Kamus, ele não é assim. – disse contrariado. – Assim domo seu novo amigo Giancarlo.

Ela balançou a cabeça com a colocação do rapaz, que estava claramente com ciúmes, e então sem dirigiu a porta, sem dar muita atenção ao que ele dizia, e ele novamente a seguia como se fosse uma criança pedindo um brinquedo novo aos pais.

- Vai, Anne, volta, por favor! – implorou quando chegaram à saída. – Eu ate vou com você na casa do Máscara da Morte!

- Você o que? – voltou seu olhar incrédulo para o rapaz.

- É! – respondeu desconcertado. – Eu levo você pra conhecer o Santuário e então vamos pra lá.

- Você faria isso? – indagou segurando o riso.

- Claro! – respondeu prontamente a fim de convencê-la. – Assim é até melhor porque não deixo aquele italiano safado fazer nada com você.

A francesa riu enquanto ele abria a porta para que ela passasse, e então passou em seguida, colocando seu braço direito sobre seus ombros, o que ela retribuiu passando seu braço esquerdo em torno de sua cintura, se aproximando.

- Você não tem idéia de como me fez bem te ver, Miro.

- Claro que tenho! Fez melhor pra mim que pra você, pode ter certeza. – respondeu aproximando-a de si. – Olha pra você, tá maior que da última vez.

- Impressão sua. – riu. – Você quem tá mais forte.

E o clima informal e íntimo continuou até que se depararam com a Primeira Casa. Por todas as casas que passavam, olhares curiosos fitavam os dois, estranhando toda aquela intimidade entre o escorpiano e a visitante. As coisas só permaneciam tranqüilas devido ao fato de Aioria ainda estar na Casa de Capricórnio, entretido com o início da ressaca do cavaleiro de Peixes.

Quando passaram por Câncer, Giancarlo estava à porta da sala, com a perna direita dobrada e o pé apoiado no batente da porta, com seu cigarro na boca. Ele sabia que Miro estava próximo e queria irritá-lo. Quando Anne o avistou, levou a mão livre à boca, abafando o riso, principalmente depois que o canceriano sorriu e levantou a mão em um cumprimento, para desespero do escorpiano, que resolveu apressar o passo.

Mu e Aldebaran, sempre discretos, apenas sinalizaram um adeus, desejando a garota boa noite. Saíram das Doze Casas e Miro a acompanhou até onde a garota tinha combinado com Olivier de se encontrarem, embora tenha ficado mais longe para não ser visto pelo guarda-costas da garota, e se despediu com um aceno que fez doer seu coração. Afinal, ela voltaria ou não?

A resposta veio no outro dia, juntamente com uma leve dor de cabeça, que indicava que ela tinha bebido demais no dia anterior. Uma ligação para o cavaleiro de Áries resolveu o problema novamente. E mais uma vez Anne estava de volta ao Santuário, mesmo prometendo a si mesma que não o faria. Afinal, o que a atraia aquele lugar? Chegou à conclusão de que era o conjunto da obra. E ter encontrado Miro recompensou o fato de reencontrar um desconhecido Kamus.

Chegou logo depois do almoço. Foi apresentada ao Grande Mestre e aos demais dourados. Começava a entender daquele mundo estranho, e ele não o assustava. Quanto a Kamus? Ela não tinha notícias. E nem queria.

O cavaleiro de Aquário acordou naquele dia como se tivesse voltado a si: centrado, sério, reservado. Em nada parecia a pessoa abalada da noite anterior. Anne novamente voltou a ser seu passado. E um passado distante e esquecido, cujo fantasma não voltaria a assombrá-lo. Nunca mais. Ah se ele soubesse...

Logo depois do animado jantar, ela se despediu e os presentes tinham a convicção que aquela não seria a ultima vez que se encontrariam. E realmente não seria.


N/A!

Finalmenteeeeeeeeeeee terminei de digitar isso!

Estava há eras aqui!

Hoje vou dedicar especialmente para o Schummie, porque eh aniversario dele!

Parabéns, Schummie, você que com suas brincadeiras inspirou meu pisciano favorito!!!!

Obrigada pelos coments, amei lê-los!

Bjus e ate a próxima!