Kagome depositou o potinho de comida do lado de fora e esperou pela raposinha vir buscá-la, como sempre fazia desde que fora solta novamente. Mal passaram-se alguns minutos e lá vinha ela, o rabo peludo balançando de modo brincalhão.
- Bom dia, Shippou - disse Kagome, acariciando a pequena raposa enquanto esta deliciava-se com os restos de comida do jantar. Ela observou o pequeno animalzinho enquanto este comia, pacientemente esperando que terminasse. A pelugem da raposa a encantava. Podia passar horas admirando o tom avermelhado que brilhava embaixo do sol.
Sempre quisera ter algum bichinho de estimação, mas nunca que seu pai permitiria tal coisa. Lembrava-se uma vez de quando havia levado um gatinho para casa. Escondera-o em seu quarto. Amanhecera morto embaixo de sua cama, o pescoço torcido em um ângulo bizarro. Ao ouvir o choro de Kagome, seu pai não dissera nada além de que o gatinho havia morrido por causa dela, que o trouxera para casa contra a vontade dele. A partir daquele dia ela nunca mais havia tentado se aproximar de animais, por mais que os adorasse. Tinha medo que eles viriam a morrer novamente por sua causa, direta ou indiretamente.
Shippou emitiu um pequeno barulho, acordando Kagome de seus devaneios. Ela respirou fundo, afastando pensamentos negativos e a sensação gelada que sentia na boca do estômago. Ao ver o pratinho novamente limpo e vazio, despediu-se de Shippou e levou a louça de volta à cozinha, colocando-a na pia para ser lavada depois que voltasse das aulas.
Ela pegou sua mochila e jogou-a sobre os ombros, checando o relógio logo em seguida. Ainda havia cinco minutos antes que precisasse sair. Rapidamente regou as poucas plantas que haviam dentro da casa da senhora, que provavelmente haviam lutado muito para sobreviver quando Kaede ainda morava sozinha. A idade avançada não permitia que ela lembrasse de cuidar das pequenas plantas tão frequentemente quanto lhes era necessário, o que havia resultado em folhas marrons e amarelas e um solo ressecado dentro do vaso. Se Kagome tivesse demorado uma semana sequer a mais para mudar-se para o templo, duvidava que aquelas plantas estariam vivas hoje.
Antes de sair, Kagome desligou o velho aquecedor que permanecera ligado a noite inteira, para que a gentil senhora não tivesse gastos adicionais em sua conta de energia elétrica. O tempo ainda não havia esfriado tanto a ponto de haver a necessidade de deixar o aquecedor ligado por mais tempo, mas Kaede já começava a reclamar de dor nas juntas. Kouga havia feito bem em ter aparecido ali de novo para consertar aquela relíquia. Segundo a senhora, o amigo a visitava todo ano para dar um jeito no aparelho velho. Talvez tivesse visitado o templo aquele outro dia exatamente por isso mas, se havia se esquecido, tinha sido por causa dela. Aliás, agora que pensava sobre isso, notara que Kouga viera visitar em mais de uma ocasião desde aquele dia que a ouvira cantar. Dizia que procurava tal pessoa, mas Kagome sabia que era papo furado. Talvez estivesse se sentindo solitário e só quisesse companhia, tadinho.
Ela checou o relógio novamente e, satisfeita, pôs-se a caminhar em direção à escola. Desceu as escadas sem se apressar, tomando seu tempo e aproveitando o ar fresco. Gostava de sair mais cedo para ouvir o som dos passarinhos e deliciar-se com os raios do sol da manhã, ainda que a temperatura não fosse a das mais confortáveis. Ela encolheu-se dentro do fino casaco que usava. Sentiu um arrepio de frio ao ser atingida por uma brisa gelada. Sabia que precisaria de roupas mais quentes se quisesse sobreviver àquele inverno, mais rigoroso do que em Tóquio. As roupas que trouxera não eram muito grossas e, na pressa daquele primeiro dia, não pensara em comprar mais do que um casaco de frio.
Kagome não sabia se gostava do inverno ou não. Claro, era melhor do que o verão, em sua opinião - nada daqueles respingos de suor dos outros esfregando-se nela, ou daquele calor insuportável que nem uma sombra ajudava - mas ficaria mais velha em menos de uma semana e não gostava de lembrar-se do seu aniversário. Para ela, tal data não merecia ser comemorada. Não se achava uma pessoa digna de ser parabenizada por viver mais um ano. Sempre que pensava em inverno lembrava da imagem da mãe e do irmão saindo de carro para ir buscar seu bolo de aniversário. Ainda que fosse uma imagem um tanto quanto borrada em sua mente por ter se passado tanto tempo, lembrava-se do sorriso de sua mãe. Lembrava-se do pequeno irmãozinho acenando para ela do banco traseiro do carro, dizendo-lhe que voltariam logo e para que não abrisse seu presente ainda porque queria estar junto dela quando o fizesse. Lembrava-se de ter esperado por horas, sentada no tapete da sala, olhando para a árvore de Natal semi-montada, e que o pensamento de que algo havia acontecido havia passado por sua cabeça; mas ela havia ignorado seus instintos e continuara a brincar com os carrinhos de brinquedo de Souta, certa de que ele brigaria com ela quando chegasse. Não se recordava do barulho do telefone, nem das palavras que seu pai proferira ao atendê-lo; lembrava-se, no entanto, de ver seu pai vestindo seu casaco com pressa e ajudando-a a vestir o dela.
Kagome apertou o próprio casaco, embrulhando-se o máximo possível neste. Ela chacoalhou a cabeça e ignorou o coração apertado. Não sabia como havia parado ali, mas encontrava-se à frente do prédio da escola. Suas pernas haviam memorizado o caminho e haviam a levado ali automaticamente, enquanto seu consciente perdia-se em seus pensamentos. Ela respirou fundo, concentrou-se e trancou suas memórias atrás de uma porta bem ao fundo de sua mente, como sempre fazia todo ano ao lembrar-se daquele fatídico dia que se aproximava. Quem precisava de aniversário, afinal? Não planejava em comemorar aquela data, nem contaria para ninguém.
Kagome suspirou ao adentrar o prédio do colégio, contente por poder se abrigar do vento que a assolava. Tentando não pensar em mais nada ela dispôs seu material em cima da mesa e tirou o casaco, pendurando-o no encosto da cadeira. Ela sentou-se e esperou em silêncio os alunos que chegavam um a um.
Sango foi a primeira do grupo a chegar, cumprimentando Kagome acaloradamente e sentando-se em seu lugar. Miroku apareceu logo em seguida, antes que houvesse tempo para Sango bombardeá-la com perguntas e novidades. A amiga fez uma careta, que passou despercebida pelo rapaz. Os dois começaram a discutir sobre algo mundano, enquanto ela olhava para fora da janela sem realmente prestar atençãona conversa.
Kouga foi o próximo a adentrar a sala, quando metade dos alunos já encontravam-se em seus respectivos lugares. Inu-Yasha, para variar, fora o último, chegando apenas alguns minutos antes do professor. Isso não o impediu de juntar-se ao grupo, porém, e ele logo viu-se discutindo assuntos sobre a banda com os outros. Até tentaram incluir Kagome na conversa, mas esta parecia um tanto quanto avoada e mal respondia - ou, quando respondia, usava palavras simples ou um monólogo. Essa rotina não lhes era estranha, então logo deixaram-na em paz.
O professor logo adentrou a sala e a conversa foi morrendo aos poucos, substituída pelo barulho de cadeiras arrastando-se no chão ao serem puxadas pelos alunos. O ruído de páginas sendo viradas tomou a sala. A voz do professor preencheu o aposento com teorias e passagens do livro-texto.
O dia passou normalmente: aulas monótonas, visitas à biblioteca com Inu-Yasha, almoço no lugar de sempre com os quatro. Nada diferente, nada de novo. Nada que lhe chamasse a atenção. E gostava disso, de não ter que se preocupar com muito em seu dia-a-dia. Claro, ainda tinha que se preocupar em manter sua identidade - mas quanto mais vivia como Aoi, mais se acostumava com aquela cidadezinha do interior. Tentava ser discreta o máximo que podia, mas sabia que chamava um pouco de atenção por causa de sua aparência. Ossos do ofício, pensou ela sarcasticamente.
O fim do dia escolar chegou rapidamente. Ela agradeceu a qualquer Deus que estivesse ouvindo - Filosofia realmente não era algo que ela colocaria entre suas matérias favoritas - e, ao notar que era sua vez de responsabilizar-se pela limpeza, pôs-se a limpar a sala de aula juntamente com outro colega de classe. O resto dos alunos arrumava suas respectivas mochilas e preparava-se para ir embora. Logo o único som a ser ouvido era o do trabalho manual sendo exercido.
Os minutos passaram-se. Ela parou, enxugou o suor da testa com um lenço e admirou o resultado daquela última hora. A tarefa havia se tornado mais fácil com o passar do tempo, apesar de ainda ser um tanto quanto desgastante. Ao ter certeza de que haviam terminado, afastou uma das cadeiras e sentou-se para descansar enquanto seu parceiro guardava os materiais de limpeza. O colega acenou com a cabeça e despediu-se, deixando-a sozinha.
Silêncio.
Kagome ficou só na sala de aula por um tempo, deliciando-se com o som do nada. Podia ouvir algumas pessoas em clubes, praticando esportes, ao longe. O ruído da folhagem das árvores acompanhava o ritmo do vento, que soprava gentilmente. Conseguia ouvir as batidas do seu coração, lentas e rítmicas, e podia jurar que se outra pessoa estivesse ali conseguiria ouvir as batidas deles também.
Antes, a falta de sons a aterrorizava. De todos os dias que seu pai ficava bêbado, preferia quando a agredia verbalmente e em bom tom; conseguia desligar-se facilmente da situação trancando-se em seu quarto (e arrastando um móvel para frente da porta, pois seu pai abominava a idéia de instalar fechaduras nas portas) e silenciosamente ouvindo música com fones de ouvido, deitada na cama. Sempre havia o ocasional bater - leia-se esmurrar - na porta; não haviam sido poucas as vezes que a madeira tivera que ser substituída. Haviam vezesem que conseguia passar da porta,e era nesses dias que Kagome via seu corpo marcado. Sabia bem como tudo funcionava: primeiro vinham as manchas vermelhas; depois, elas tornavam-se roxas. Em seguida, verde e amarelo. Só depois de dias é que conseguia ver o tom normal de sua pele novamente. Ao passar do tempo havia notado que, quanto mais sons de dor emitia,mais seu pai deliciava-se com a situação. Aprendera a morder a língua e a engolir qualquer pedaço de orgulho próprio que lhe restava para que conseguisse ver o amanhã. Quanto mais quieta ficava, menos era atingida e mais rápido poderia tratar de seus ferimentos.
Porém, havia dias que era impossível não sentir medo. O total silêncio sempre indicava que seu pai havia bebido demais e sorrateiramente tentaria deitar-se com ela. Felizmente tal ato nunca acontecera, pois quando ficava bêbado a esse ponto acabava pegando no sono rapidamente. A primeira vez que havia presenciado isso conseguira desvencilhar-se por pouco, muito pouco. Não queria nem imaginar o que pudesse ter acontecido com ela se tivesse se descuidado um minuto que fosse. Podia suportar ser espancada, machucada, queimada com bitucas de cigarro, marcada a ferro; mas nunca - NUNCA - suportaria a humilhação de ser violentada por aquele monstro que se disfarçava de ser humano. Aquele monstro que dizia ser seu pai.
Um ruído chamou-lhe a atenção e seus olhos voltaram a focar-se no ambiente. Viu Inu-Yasha parado, encostado na soleira da porta. Tinha um meio-sorriso nos lábios, os braços cruzados. Fitava Kagome amigavelmente.
- Há quanto tempo está aí? - perguntou ela.
- Não muito. Mas fico surpreso que não tenha me notado antes. Viajando?
- Um pouco. - respondeu ela, distraída. - Me lembrava de quando meu pai-
Kagome estacou de repente quando notou o que disse, um nó formando-se na garganta. Os ombros da garota retesaram-se instantaneamente. Inu-Yasha olhou-a curioso; era a primeira vez que ouvia Aoi mencionar sua família. Sempre que o assunto surgia, ou ela dava uma resposta breve ou permanecia em silêncio até que alguém tocasse em um novo tópico.
Inu-Yasha não sabia bem o que pensar. A julgar pela cena da biblioteca, quando se conheceram, tinha a impressão que Aoi tinha medo de sua família - sempre que o assunto surgia, notava quase que imediatamente que os olhos azul-turquesa perdiam seu brilho. Aqueles olhos que sempre transbordavam com emoções subitamente viam-se inertes, sem vida alguma. Já notara que o amigo ficava surpreso - assustado, talvez? - com qualquer tipo de contato físico, fosse uma garota pendurando-se em seu braço ou um relar de joelhos debaixo da mesa. Apesar de não terem se conhecido há tanto tempo assim, tinham virado bons amigos e Inu-Yasha sentia algo estranho no coração toda vez que presenciava algo desse tipo; não sabia bem o que pensar. Ele mesmo tivera uma família complicada, com brigas e desentendimentos, mas ainda assim sequer conseguia imaginar o que quer seja que havia acontecido com Aoi.
Inu-Yasha poderia muito bem perguntar o que havia ocorrido em seu passado, mas sabia que se pressionasse o amigo este ficaria desconfortável. Na pior das hipóteses, Aoi poderia até se afastar dele e do grupo. Sentia que a confiança que Aoi depositava neles era algo tão poderoso quanto frágil, como se eles fossem os primeiros amigos que tivesse tido em sua vida, e não desejava estragar o relacionamento que tinham. Por isso, preferia que ele viesse a Inu-Yasha por conta própria - e estaria de braços abertos para quando isso acontecesse.
O silêncio ainda pairava no ar. Um apito soou ao longe, vindo da direção das quadras. Alguns segundos mais se passaram e ela nada disse, então Inu-Yasha deu de ombros e resolveu esquecer sobre o assunto por enquanto.
- Abriu uma loja nova aqui perto. - disse ele, a voz reverberando no aposento quase vazio. - Um café. Bora pegar tuas coisas e ir pra lá, que mandei os outros na frente para guardarem lugares pra gente. Lugar novo é sempre uma novidade tão grande nesse fim de mundo que todo mundo vai migrar praquele lugar até abrir outra loja nova.
Kagome assentiu e colocou seu material dentro da mochila, livro atrás de livro. Inu-Yasha observou-a. Sempre se perguntava como cabiam tantos livros dentro daquela mochila de tamanho médio, e o porquê de alguém levar tantos livros. Ele mesmo só havia comprado metade dos que precisava e revezava o resto com pessoas de outras salas, porque ninguém realmente usava os cadernos além dos que realmente queriam estudar e tirar notas altas.
Ele notou que a alça da mochila de Kagome já começava a esticar além do recomendável, alguns fiapos soltando-se onde a essa encontrava o corpo da mochila. O tecido aparentava que ia ceder a qualquer momento. Parecia pesada. Ele perguntou-se como um rapaz franzino daquele jeito conseguia carregar aquela mochila pesada ida e volta e ainda subir e descer a escadaria do templo todo santo dia.
- Dá que eu levo - ofereceu Inu-Yasha, aproximando-se e estendendo a mão.
- Ah, não precisa…! - ela mal conseguiu acabar a frase quando sentiu a mochila sendo levantada de seu ombro. Inu-Yasha jogou-a sobre seus ombros e deu uma risada.
- Cê limpou a sala, novato. Mochila tá pesada. Descansa um pouco que depois eu devolvo.
Kagome abriu a boca para argumentar, mas Inu-Yasha não deu-lhe atenção. Ela deu de ombros, derrotada, e deu uma risadinha. Os dois fizeram o percurso devagar, conversando sobre música o tempo inteiro.
A atmosfera era um tanto quanto aconchegante. Kagome reconheceu vários rostos na multidão dentro do café, a maioria estudantes de sua escola. Não tardou a encontrar quem procurava: lá estavam eles, sentados, acenando para os dois e indicando dois lugares vazios perto de Miroku. Inu-Yasha dirigiu-se até eles, com Kagome a tiracolo, e sentaram-se sem fazer cerimônia.
- Como tem muita gente, já fizemos os pedidos por vocês - anunciou Sango, olhando de esguelha para Kagome. - Hambúrgueres e refrigerante. Sem tomate - ela olhou para Inu-Yasha - e sem pepino - ela olhou para Aoi. Inu-Yasha e Kagome sorriram.
Kagome olhou em volta, curiosa. Agora que estava sentada conseguia notar detalhes que não havia percebido antes ao entrar no café.
O ambiente dentro da lanchonete era confortável. A cor creme das paredes combinava com o rosa-bebê dos assentos (que pareciam mais macios do que realmente eram), formando uma combinação harmoniosa. Plantas artificiais espalhavam-se atrás das mesas, contra as paredes, alegrando o ambiente. Algumas televisões, suspensas e espalhadas pelo recinto, sintonizavam o mesmo canal de notícias, onde uma mulher de vermelho dizia algo que Kagome não prestava atenção.
Já escurecia e as luzes do lado de fora começavam a acender-se uma a uma. No verão ela imaginava que conseguiria ver pequenos mosquitos circundando as lãmpadas, mas como o tempo esfriava cada vez mais ela duvidava que algum inseto iria sair de suas casinhas quentinhas para aventurar-se.
Vinte minutos se passaram, os cinco conversando alegremente sobre assuntos diversos. Uma garçonete aproximou-se com uma bandeja e colocou o pedido no centro da mesa, afastando-se em seguida. Os lanches logo foram distribuídos entre eles e Kagome segurou seu hambúrguer (sem pepino) com um guardanapo. Ela olhou de esguelha para os amigos.
Miroku e Kouga conversavam de boca cheia sobre algo que Kagome não deu muito atenção. Sango brincava com um guardanapo enquanto comia suas batatas fritas, picando-o em pedacinhos. Inu-Yasha tomava seu refrigerante com a cabeça apoiada na mão, o cotovelo na mesa, fitando a televisão mais próxima sem demonstrar muito interesse.
A menina sorriu. Ela sentiu um calor no peito e desejou que o tempo parasse naquele momento. Nunca, em um milhão de anos, teria imaginado que teria amigos em quem pudesse confiar. Sabia que não haviam se conhecido há tanto tempo assim, mas a química do grupo era tão boa que qualquer um que olhasse de fora acharia que se conheciam há anos. Haviam recebido Kagome de braços abertos, sem hesitação, e ela era eternamente grata por isso. Daria a vida por eles e, talvez, um dia, realmente pudesse contar a eles quem realmente era. Que era…
- Kagome Higurashi.- ela ouviu Inu-Yasha dizer.
Ela engasgou. Sentia como seu coração tivesse parado. Aquele momento mágico que sentia dissipou-se e o sentimento de aconchego que sentia transformou-se em puro medo. O lugar subitamente pareceu-lhe esfriar e o tempo pareceu desacelerar por um instante.
- P-Perdão? - gaguejou ela, os olhos arregalados e marejados de tanto tossir. Miroku ofereceu um guardanapo. Ela aceitou.
- Aquela cantora famosa que sumiu - disse ele, apontando com a cabeça a televisão e dando mais uma mordida em seu hambúrger. - Achei que ela tinha sumido semana passada, mas pelo visto foi há mais tempo e só agora avisaram a mídia.
Os outros quarto viraram-se para fitar o eletrônico. Uma foto de Kagome ocupava o canto direito da tela enquanto uma mulher bem-vestida dizia algo, o coque bem-feito e brincos de pérola discretos. Lembrava-se de quando tirara aquela foto: fora o dia em que tivera uma sessão de fotografia em um estúdio perto da praia. Tinha perguntado ao pai se poderia divertir-se na água depois que terminasse a sessão. Havia o feito na frente de outras pessoas, para que seu pai não conseguisse atingi-la, mas estivera muito enganada ao pensar que o sorriso que lhe dera naquela hora era amigável. Acabara tendo que voltar para o Japão antes do combinado, sem mesmo ter a experiência de catar conchinhas na praia ou divertir-se pulando as ondas do mar.
Perguntava-se se alguém, qualquer um, podia ver o sofrimento nos olhos da foto.
Ela mordeu um pedaço de seu lanche. Se fosse em qualquer outra situação, teria gostado da comida: o hambúrguer era preparado perfeitamente, do jeito que ela gostava, com partes iguais de salada, queijo e carne. O pão era macio e saboroso. O molhoque havia sido passado por dentro do pão completava perfeitamente o gosto do hambúrguer. No entanto, naquele momento, parecia a Kagome que tinha um pedaço de papelão na boca.
Ela forçou-se a mastigar aquele pedaço e teve dificuldade em fazer a comida descer pela garganta.
- Coitado, o pai dela tá desesperado - disse Kouga,ainda fitando a TV. - Imagina tua filha desaparecer assim, sem mais nem menos. Será que ela foi seqüestrada?
- Fugir de casa é que não foi, deve ter tudo o que precisa e mais - disse Sango, não prestando mais atenção na reportagem e atacando mais batatas fritas. - Eu não sairia de casa se tivesse tudo o que ela tem.
Kagome mastigava em silêncio, os olhos baixos.
- Não sei. - respondeu Inu-Yasha. - Essa história tá meio mal contada. A polícia fala pra esperar 24h antes de deduzir que alguém tá desaparecido de verdade porque tem gente que assume o pior e se desespera. Mas o pai dela só toca no assunto dois meses depois? E dizem eles que é dois meses, mas não se sabe mesmo quando foi. Pode ter sido há mais tempo ainda.
- Vai ver ele tava procurando ele mesmo antes que o negócio tomasse proporções maiores, ué. Detetive particular e coisas afins. Ele tem dinheiro mais do que suficiente pra tirar recursos da bunda - disse Miroku, dando de ombros e mordendo seu sanduíche vegetariano. - Só me pergunto como ela conseguiu se desvencilhar dos guarda-costas que eu SEI que ela tem. Porque todo famoso tem guarda-costas.
"Fiz birra pra entrar numa loja de roupas, fingi que tava provando um vestido e enganei eles enquanto comprava roupas masculinas", respondeu Kagome em pensamento.
- Aoi - chamou Sango - Você tá legal? Tá meio pálido.
- Estou bem. Cansado, acho - dispensou ela, mordendo seu sanduíche-papelão mais uma vez. Inu-Yasha olhou-a de esguelha, mas não comentou nada a respeito.
- Parece que a polícia está procurando no país inteiro agora, não mais só em Tóquio. Espero que o pai dela a encontre logo - continuou Kouga.
Kagome sentiu algo atingir seu estômago e o pedaço de comida que engolia pareceu estacar no meio da garganta. Sem aviso prévio, ela levantou-se e dirigiu-se rapidamente ao banheiro masculino, onde trancou-se em um box e vomitou tudo o que tinha conseguido comer. Mesmo quando achou que não havia mais nada para colocar pra fora, sentia bile queimar seu esôfago e o ciclo recomeçava.
Quando a situação parecia ter-se amenizado, ela limpou a saliva dos lábios e do queixo e sentou-se no chão, ao lado da privada, tentando respirar fundo e acalmar-se. As mãos tremiam ligeiramente e ela sentiu os braços pesados.
- Novato? - ela ouviu a voz de Inu-Yasha ecoar e reconheceu dois pares de pés por debaixo da porta.
- Cê tá bem? - perguntou Kouga.
"Nem um pouco", pensou ela. Só de pensar o que seu pai faria com ela quando - SE, corrigiu ela - a achasse, o chão debaixo de seus pés parecia sumir.
Ela debruçou-se sobre o assento mais uma vez e vomitou novamente.
- Kouga, vai ver se alguém tem algum remédio pra enjôo - ela ouviu Inu-Yasha dizer. Logo em seguida a porta do banheiro fechou-se.
- Estou bem - disse ela roucamente.
- Tô vendo. Quer abrir pra eu te ajudar?
- Sério. Estou melhor agora.
O rapaz suspirou. Ela ouviu farfalhar de roupas e viu Inu-Yasha sentar-se à frente de sua porta, as costas para ela.
- Tem certeza que tá tudo bem?
- Sim - respondeu ela, ainda sentindo uma acidez na garganta. - Talvez tenha comido algo que não me caiu bem. Venho me sentindo meio estranho desde hoje de manhã.
Kagome levantou-se lentamente, os joelhos trêmulos. Não havia se acalmado o suficiente mas não podia deixar os amigos preocupados daquele jeito. Ela destrancou a porta do cubículo e viu Inu-Yasha pondo-se de pé rapidamente assim que a viu. Ele parecia um tanto quanto inquieto.
Ela resolveu fingir que tudo estava bem. Ao passar por Inu-Yasha, porém, seus joelhos cederam e ela achou que demoronaria no chão. Um par de mãos segurou-a bem a tempo.
Um choque elétrico assolou-a onde as mãos de Inu-Yasha encostaram em sua pele. Ela recuou imediatamente, indo de encontro à parede e atingindo seu ombro com força razoável. Kagome, no entanto, não sentiu seu ombro doer. Olhava para Inu-Yasha, assustada. Por uma fração de segundo esquecera-se o porque de estar passando mal daquele jeito.
O rapaz fitou Kagome. Sentia aquela sensação estranha no coração de novo, como se alguém o estivesse apertando. Os olhos azul-turquesa que o encaravam, esbugalhados, transbordavam de medoe surpresa. Inu-Yasha levantou as mãos como se estivesse se rendendo para a polícia.
- Desculpe, foi um acidente. Sei que não gosta quando encostam em você.
- N-Não, tudo bem - ela disse, o coração a mil. - Fiquei surpreso. Só isso. Desculpe.
Kagome pôs-se de pé, ainda ignorando a dor que sentia onde atingira seu ombro. Por alguma razão sentia-se um tanto embaraç abaixou a cabeça e passou por Inu-Yasha, dirigindo-se à pia.
Inu-Yasha fitou as costas do amigo enquanto este lavava as mãos e o rosto. Não sabia o que havia se passado na vida de Aoi, mas sentia que queria protegê-lo. Não sabia exatamente o porque de sentir-se assim, mas sabia que protegeria o amigo a qualquer custo.
- Aoi.
A voz grave de Inu-Yasha ressoou por trás de Kagome. Ela fitou-o pelo espelho. Ele olhava para ela, a expressão um tanto quanto… Triste? Frustrada?
- Sim?
- O quê… Realmente aconteceu?
- Já disse, fiquei surpreso. Só isso.
- Não. Não é disso que eu tou falando.
Kagome não respondeu. Ela secou as mãos com duas folhas de papel.
- Não sei o que quer dizer, então - ela disse finalmente.
- Eu só quero ajudar. Não precisa me contar nada se não quiser - acrescentou ele rapidamente -, mas acho que você precisa contar seus problemas pra alguém pra tirar um pouco do peso dos ombros.
Kagome fitou o papel amassado em suas mãos. Já havia pensado em contar tudo para seus amigos, mas acabara descartando a idéia por não querer que eles fossem envolvidos em sua bagunça. Confiava em todos eles, isso era certo: sabia que, se precisasse, colocaria tudo em risco por eles e eles fariam o mesmo por ela.
Era verdade, no entanto, que sentia uma conexão maior com Inu-Yasha do que com os outros três. Não sabia exatamente ao certo por que se sentia daquele jeito, mas sentia que poderia contar tudo para ele quando a hora chegasse. Talvez, se lhe contasse apenas um pedaço de sua história, omitindo alguns fatos… Será que conseguiria?
Inu-Yasha fitou Aoi. Parecia levar algo em consideração, pelo jeito que olhava para o papel amassado em suas mãos. O amigo levantou a cabeça e olhou para Inu-Yasha. Seus lábios entreabriram-se e tremeram ligeiramente. Nenhum som saiu, mas ele via que Aoi tentava dizer algo.
Naquele momento a porta do banheiro escancarou-se e Kouga entrou, feliz da vida, segurando um pequeno pacote de papel.
- Consegui o remédio!
Inu-Yasha nunca quis estrangular tanto o amigo quanto agora.
Kagome virou-se rapidamente para a pia e jogou um pouco de água em sua nuca. Ela agradeceu Kouga e tomou uma pílula (pois sabia que ele só a deixaria em paz se o fizesse). Sem sequer olhar para Inu-Yasha e antes que qualquer um pudesse lhe dirigir a palavra, murmurou que gostaria de ir para casa e saiu, um tanto quanto apressada.
Inu-Yasha fuzilou Kouga com o olhar.
- Que foi?
Ele socou o braço do amigo moreno.
