************************Cap 6 O Olho do Oráculo! ***************************
Centro de Atenas, 02:45 am
No bairro de Plaka, um glorioso conglomerado de sinuosas ruas e exóticos labirintos de vielas cuja decoração ainda remete ao neoclassicismo do século dezenove, Afrodite de Peixes caminhava sob uma fina chuva.
A água que se acumulava sobre a capa de folhas que ele usava começou a incomodá-lo fazendo peso, somando-se ao fardo já tão pesado das palavras duras que ouvira de Misty de Lagarto momentos antes na festa de Halloween.
Livrou-se da capa usando seu Cosmo para fazer as folhas desaparecerem, ficando apenas com os galhinhos que se entrelaçavam em seu corpo, mas infelizmente não podia fazer sumir as palavras de Misty.
Essas seguiam com ele pelas vielas escuras de Plaka.
Descalço, os cabelos vermelho sangue molhados pela chuva grudavam em sua pele de tom esverdeado. A cabeça baixa e o olhar melancólico refletiam um fim de noite bem diferente do que tinha planejado para si, Camus e Hyoga, o qual não iria acontecer porque estava andando na rua, debaixo de chuva, seminu e torcendo para um ônibus lhe passar por cima ou um avião cair em sua cabeça.
Passava pelas pessoas na rua sem olhar para ninguém.
Muitos mexiam com ele, passavam a mão em seu corpo, bêbados, drogados ou simplesmente notívagos insones à procura de diversão ou algum consolo para suas angustias.
Sem dar atenção a nenhum deles, parou em frente a uma porta azul que ficava numa viela mais escura. Alguns homens e mulheres rondavam por ali traficando ou se prostituindo.
Uma pequena luz branca no topo da porta azul indicava o número do estabelecimento. 333.
Afrodite deu três batidas na madeira.
Segundos depois uma pequena abertura retangular na parte superior da porta se abriu e um par de olhos de um verde sóbrio e austero saltou da escuridão que se fazia do lado interno.
— Quem? — perguntou uma voz grave que vinha do outro lado da madeira.
— Afrodite. — respondeu apenas o cavaleiro.
Do pequeno visor o par de olhos verdes contraiu as pálpebras, parecendo analisar com minúcia o rosto do visitante.
— Afrodite não é ruivo. — disse a voz grave — Suma daqui, boneca. Aqui não é lugar para meninas novas e bonitas como você.
— Ah me erra, Diógenes, sou eu, santa!... Aquenda a pinta! — disse Afrodite apontando para a pintinha que tinha no canto do olho direito.
Novamente os olhos severos o analisaram, então a abertura se fechou e ouviu-se o ferrolho do outro lado da madeira correr pelo passadiço.
Diógenes abriu uma fresta pela porta por onde só se podia ver metade de seu corpo avantajado. Era um homem bem alto, corpulento, que ostentava uma cabeleira farta de um castanho bem escuro e um bigode profuso na mesma cor. Estava vestido totalmente em couro, calça, camisa, colete e botas.
Esticando o braço para fora da abertura na porta o homem levou a mão ao rosto de Afrodite e tocou na pinta ao lado do olho.
— Hum... — murmurou ao constatar que não se tratava de maquiagem, depois voltou a encarar os olhos do sueco — O que faz aqui? Faz mais de dois anos que você não aparece por aqui, Afrodite.
— Vim ver o Polly. — disse o pisciano empurrando Diógenes para o lado, já atravessando a porta para seguir por um corredor escuro com paredes de espelhos — O resto não te interessa.
Ao cruzar o corredor, chegou a uma passagem íngreme onde havia uma escada. Desceu os degraus apressado e aflito, já sentindo o familiar aroma daquele lugar que tantas lembranças lhe traziam.
Uma música em volume muito alto e ritmo frenético golpeou-lhe os ouvidos quando chegou ao fim da escadaria e atravessou uma grossa cortina de veludo vermelho, mergulhando no universo particular de Polifemo, o Olho do Oráculo, a mais famosa casa de sadomasoquismo de toda a Europa.
Num amplo espaço de paredes espelhadas e colunas revestidas de papel de parede aveludado, onde predominavam as cores vermelho e preto, pessoas vestidas em couro, ou completamente nuas, dividiam mesas, informações e fantasias íntimas. Num mezanino, grupos conversavam animados em torno de um casal que se exibia enquanto faziam sexo, outros se acotovelavam para conseguir um melhor ângulo de visão de outro casal que praticava uma sessão de suspensão corporal.
Ainda tinha aqueles que se satisfaziam apenas vendo os sensuais movimentos dos dançarinos e dançarinas que se apresentavam suspensos em gaiolas, enquanto tomavam um drink.
Já familiarizado com aquele local e aquelas pessoas, Afrodite atravessou o salão sem sequer olhar para os lados, seguindo até uma ala mais particular que ficava atrás de um grande biombo de ferro por onde inúmeras correntes pendiam até ao chão.
Dois homenzarrões impediam a passagem, mas pelos vãos entre seus corpos avantajados Afrodite pode ver lá dentro quem procurava.
Polifemo estava sentando ao centro de um grande sofá de veludo roxo. Uma belíssima jovem de corpo nu e languido descansava a cabeça em seu colo enquanto outra garota, essa vestida num belo conjunto de lingerie, lhe servia uma dose de whisky.
O dono do Olho do Oráculo era um homem alto, negro, de uns quarenta e tantos anos, muito forte e que tinha um olho só. Usava um tapa-olho de couro, e reza a lenda que perdeu o outro olho numa briga de facas dentro de um navio quando servia à Marinha. Raspava a cabeça e tinha um cavanhaque muito bem esculpido num rosto grave, porém amistoso.
Regia soberano aquela casa noturna pouco convencional frequentada por um público nada convencional, e que somente sócios e pessoas influentes tinham acesso.
Afrodite e Polifemo se conheceram em uma loja de pesca no centro de Atenas quando o pisciano ainda era um menino. Desde então outros encontros se deram ao acaso, até que se tornaram amigos. Anos depois Afrodite passou a frequentar o Olho do Oráculo escondido de Shion, em busca de diversão, mas naquela noite diversão estava bem longe de ser o que Peixes buscava ali.
Soprando um pólen atordoante que fez brotar da palma de sua mão, nos rostos sérios dos dois seguranças que bloqueavam a passagem, Afrodite adentrou o espaço privado do dono do inferninho.
— Polly! — disse o sueco elevando a voz.
Polifemo arregalou o olho bom, desencostando as costas do assento do sofá, surpreso ao ver o pisciano ali, ruivo, e naqueles trajes para lá de esquisitos.
— Afrodite? É você?
Peixes caminhou até ele deixando-se cair de joelhos sobre o tapete de estampa de zebra que o marinheiro tinha sob os pés.
— Sim, sou eu. — disse Peixes apoiando as mãos nos largos joelhos do homem — Polly, me deixa morar aqui? Não quero mais morar no Santuário e ter de ver minha família ser tomada de mim, ou eu mesmo arrasar com ela... Me deixa morar aqui, Polly, me dá um quartinho? Pode ser um quarto matim*, não ligo não.
Atarantado, Polifemo coçou o queixo e pediu para que as duas garotas que estavam ali consigo o deixassem a sós com o sueco, e assim que elas saíram estendeu a mão a Afrodite o ajudando a se levantar do chão e o colocou sentado ao seu lado no sofá.
— Que papo de maluco é esse, Afrodite? Eu não entendi nada! — perguntou mascando o charuto que tinha num dos cantos da boca — Eu não te vejo há anos, ai você chega aqui me pedindo um quarto para morar?
— É.
— Inalou agrotóxico de novo menino?
— Não.
— O que está fazendo aqui? Você não tinha casado? Por que está com essas... plantas no couro? O que tá acontecendo, porra?
— Polly... eu... eu tenho um filho. — disse Peixes, visivelmente aflito.
— Como é que é? Tu já é pai?
— Não, eu sou mãe.
Polifemo retraiu as costas e tirou o charuto da boca. Encarou os olhos de Afrodite e então deu uma sonora gargalhada.
— Alôca! Tá rindo de que, santa? — Afrodite fez uma careta séria — Ai, eu não tô podendo!
— O que você queria, Afrodite? — disse Polifemo tentando se acalmar — Você chega aqui na minha casa depois de anos sem dar as caras, ajoelha nos meus pés, me pede um quarto para morar aqui, me diz que tem um filho e que é... mãe. — tentou abafar uma risada, mas não se conteve.
Peixes, sustentando um olhar impenetrável para o marinheiro, permaneceu calado, até que Polifemo percebeu que dado o semblante sério do cavaleiro, mesmo aquele papo parecendo não ter o mínimo sentido, Afrodite estava com algum problema sério. Conhecia Peixes de longas datas, e o suficiente para saber que algo o incomodava.
— Tudo bem, tudo bem... — disse colocando o charuto na boca — Quer começar de novo?
— Sim.
— Então manda.
— Não é tudo que posso te contar, mas... Você tem filhos, não tem?
Polifemo franziu o cenho, curioso e surpreso.
— Sim. Tenho dois. Moram com a mãe em Rodes.
— Você é a única pessoa que conheço que também tem filhos. — disse Afrodite agora com um semblante aflito — Polly... você acha que eu seria uma boa mãe?
Polifemo mascou o charuto entre os dentes e fez uma breve pausa enquanto analisava o rosto do pisciano.
— Afrodite é sério isso? — perguntou de modo firme.
— Sim... Digo... Eu ainda não sou exatamente mãe, mas posso vir a ser... futuramente.
— Agora vai me falar que tá gravido? Tu tá é precisando de um psiquiatra!
— Não, não!
Desesperado porque não sabia como encaminhar aquela conversa sem citar os nomes de Camus e Hyoga, nem fazer qualquer menção a seu relacionamento velado com o aquariano, tampouco ao pacto que fizera com ele de fingir-se de mulher para proteger o menino, Afrodite levantou-se do sofá e passou a andar em círculos pela saleta, procurando um meio de conduzir aquela conversa.
— Polly, só me responda. — disse, por fim, voltando-se ao marinheiro — O que eu preciso fazer para dar a uma criança tudo de melhor que ela merece? Eu... eu já amo tanto essa criança que só de pensar que posso fazer algum mal a ela, fazê-la sofrer ou prejudicá-la eu prefiro morrer! Eu... quero ser tudo que ela precisa, quero ser tudo que ela merece, mas eu tenho medo, porque eu... bem, eu sou eu!
Polifemo levantou-se do sofá com um ar preocupado. Caminhou até o pisciano e lhe deu um abraço, visto que Afrodite naquela altura já tinha os olhos marejados e os lábios trêmulos.
— Eeeei... Acalme-se. — disse delicadamente — O que é isso? Vejo que você está com um dilema, que de repente se tornou uma tempestade que está embaralhando tudo ai dentro dessa cabecinha oca te impedindo de pensar com razão... E pelo visto é coisa séria. — afastou-se e segurou no rosto do sueco com ambas as mãos — Olha, em mar revolto não há calmaria! Precisa acalmar as ideias ai dentro, Afrodite. — apontou para a cabeça do sueco.
— Tenho muito azar no amor, Polly... — disse quase num sussurro.
— Mas, não é possível... — Polifemo rebateu — Achei que estava bem. Sempre pergunto sobre você para o carneirinho quando ele vem aqui fazer as compras para o Templo das Bacantes e ele me diz que está feliz e radiante com o namoro.
— E eu estava, mas... A Lagartixa, a maldita cria do Aqueronte fez questão de me lembrar que não posso ser feliz, Polly, não posso! Eu tinha tudo, tudo! Ganhei um sorvete com chantilly e a amaldiçoada de ventosas veio e jogou terra em cima dele... Agora não tenho mais nada, nem filho, nem namorado, nem família, nem iate...
Polifemo respirou fundo.
Conversar com Afrodite nunca foi tarefa muito fácil, mas de toda aquela patifaria tinha entendido ao menos que Misty era a razão do tormento do pisciano.
— Filho da puta! Tinha que ter dedo daquele francesinho enjoado na história! — esbravejou o marinheiro, depois pegou nas mãos do sueco e disse com firmeza na voz — Vamos fazer o seguinte. Aqui não é lugar para conversarmos sobre isso. O som está muito alto, você está muito nervoso e há pessoas demais transitando por aqui. Eu vou te dar a chave de um dos quartos e você me espera lá, tudo bem? Eu vou avisar ao Diógenes para ficar de olho no salão e só tenho que dispensar um pessoal que está me aguardando. Assim que falar com eles vou até o quarto e lá conversamos sobre o que quer que seja que você queira falar. Está bem?
Afrodite balançou a cabeça afirmativamente e depois respondeu: — Está bem.
— Ótimo!
Polifemo então caminhou até uma estante de vidro presa à parede e de um mostruário enorme de chaves apanhou uma, a entregando a Afrodite.
— Vá, não devo demorar mais do que dez minutos. Sente-se, beba alguma coisa e tente se acalmar.
— Obrigado, Polly.
Santuário de Atena, Casa de Aquário, 03:32am
Camus despertou de súbito ao sentir uma vaga e repentina inquietação. Tinha adormecido no divã da biblioteca com Hyoga em seu colo. Já tinha tomado uma ducha quando chegou da festa, se livrado da tinta e da fantasia e agora vestia um pijama confortável.
Fez um queixume quando ergueu as costas e sentiu os músculos doloridos. Tinha pego no sono numa posição nada confortável enquanto esperava por Afrodite, que não apareceu.
Olhou o relógio na parede e ao constatar que já havia passado muito tempo ficou preocupado. Em seu colo, Hyoga dormia abraçado com o patinho Dudu.
Camus então se levantou com cuidado para não acordar Hyoga e foi vasculhar seu Templo a procura de Afrodite, que talvez tivesse chegado e ido direto dormir para não incomodá-los.
Não o encontrando ali subiu até a Décima Segunda Casa cautelosamente e também procurou o pisciano por lá.
Nada.
— Dieu! Será que aconteceu alguma coisa? Será que ele ainda está na festa? Ou será que... — murmurou para si mesmo enquanto descia de volta a Aquário, então, resignado, decidiu procurar pelo sueco, já que depois do que aconteceu à Natassia temia que Afrodite fosse o próximo alvo da Vory, e jamais se perdoaria se algo de ruim lhe acontecesse.
Camus entrou em seu Templo apressado. Rapidamente foi até o quarto e trocou de roupa, vestindo uma calça comum de alfaiataria em tecido escuro e camisa preta com mangas dobradas até os cotovelos. Calçou os sapatos e correu até o closet onde apanhou uma bolsa grande de couro e colocou alguns pertences de Hyoga, como uma muda de roupas, sapatos, toalha e uma pequena manta.
Não havia nada que justificasse aquele atraso de Afrodite. Haviam se despedido e o sueco lhe garantira que subiria logo depois, então alguma coisa deveria ter acontecido.
Aflito e angustiado, Camus pendurou a bolsa com os pertences de Hyoga em um dos ombros, passou na biblioteca e com todo o cuidado pegou o filho no colo. Não podia levar Hyoga consigo, pois procuraria Afrodite até nos confins da Terra se fosse preciso e não voltaria para o Santuário sem ele, então pensou em deixar o pequeno com a única pessoa por quem tinha alguma confiança ali: Mu de Áries.
Camus saiu de Aquário com Hyoga adormecido nos braços e desceu as escadarias até Virgem o mais rápido que pôde.
Quando adentrou a passagem da travessia da Sexta Casa, fez-se anunciar através de seu Cosmo e pôs-se a esperar. Era quase quatro da madrugada, e sabia que estaria sendo inconveniente ao extremo, porém não lhe restava outra escolha, só confiava em Mu para aquela tarefa.
Poucos minutos após se anunciar, o guardião do Templo de Virgem saltava da escuridão do corredor caminhando lentamente em direção ao visitante inesperado.
Como o Cosmo de Camus não emanava ameaça alguma, tampouco agressividade, Shaka não vestia a sagrada armadura, mas apenas uma túnica budista, e trazia seu rosário em mãos.
Tinha um semblante agastado no rosto, já que aquela não estava sendo uma de suas melhores noites.
— Camus de Aquário... — disse Shaka ao se colocar frente a frente com o aquariano, percebendo logo a criança em seu colo — Por que simplesmente não passou? Algum problema?
— Desculpe incomodá-lo, Virgem, mas eu poderia falar com o Mu? — os sulcos na testa do francês demonstravam preocupação.
— Creio que não será possível, lamento. — Shaka respondeu num tom enfastiado. Estava já aborrecido pela conversa que tivera com Áries na festa, acerca do desejo de ter filhos, e com ela agora tinha um novo dilema em sua vida, mas quando decidiu esperar o ariano voltar para casa para poderem conversar melhor, teve que abortar a missão porque Mu tinha chegado e ido direto para o banheiro. Quando Shaka foi até lá, encontrou o lemuriano só de cueca, gravata, bigode e meias, completamente bêbado dentro da banheira vazia. Já dormia o sono pesado dos ébrios!
— Ele está na festa? — Camus insistiu.
— Não. Ele já voltou, mas nem que as seis portas dos seis infernos de Samsara se abram e toda a legião de demônios famintos resolva tocar suas cornetas amaldiçoadas de uma só vez ele acordaria, Aquário. Acredite, eu tentei. — Virgem respondeu irritadiço.
Camus engoliu em seco.
Percebeu que Shaka estava agitado e impaciente, porém não tinha escolha, nem tempo a perder. Virgem podia ser um guerreiro temido por todos por seu Cosmo grandioso e postura agressiva, mas também era respeitado por todos por sua honra e sabedoria, e foi pensando nisso, e apostando na bondade daquele cavaleiro, que Camus o pegou de surpresa quando se inclinou para frente praticamente jogando Hyoga nos braços do virginiano.
— Pega. Segura ele. — disse o francês agitado.
— O... o que? — Virgem deu um passo para trás contraindo os ombros, mas já era tarde demais, e quando se deu conta já dobrava os braços e projetava as mãos para frente para melhor receber Hyoga em seu colo — O que está fazendo?
— Eu preciso que fique com ele. — disse o francês já retirando bolsa do ombro.
— Não! Eu não posso... — falou um todo atrapalhado Shaka, que tentava ajeitar a criança em seu colo.
— Eu non vou demorar. — disse o ruivo colocando a alça da bolsa no ombro de Virgem — Ele non vai acordar tão cedo, está exausto. Se acordar cante para ele que ele volta a dormir. Non lhe dê café! Café deixa ele agitado. Se ele chorar é porque perdeu o Dudu, só dar o Dudu para ele.
— Dudu?
— É Dudu... o pato. Está dentro da bolsa. Eu preciso resolver uma emergência, mas non vou demorar. — olhou para Shaka e visivelmente aflito segurou em seus ombros encarando seus olhos fechados — Virgem... muito obrigado. Te devo essa!
Sem dizer mais nada, Camus deus as costas ao guardião da Sexta Casa e seguiu correndo pelo corredor.
No entanto, a aflição do aquariano só crescia ao constatar que Afrodite não estava em lugar nenhum. Nem na festa, onde passou dando a desculpa de que tinha esquecido a carteira em uma das mesas, nem no quarto que Peixes ocupava no Templo de Baco, onde entrou pelos fundos sorrateiramente.
Angustiado, e com o coração pulsando acelerado dentro do peito a ponto de lhe causar dor, Camus seguiu até a vila de Rodório, sempre tentado rastrear o Cosmo do pisciano, mas Afrodite parecia ter sublimado este, ou...
— Dieu... Que non tenha acontecido nada com ele... — murmurou para si mesmo enquanto fazia sinal para um táxi.
Não sabia aonde procurar, não sabia aonde ir, só sabia que não podia ficar no Santuário esperando pelo pior, por isso pediu ao motorista que o levasse até o centro Atenas.
Talvez lá encontrasse pelo menos alguma pista.
No Olho do Oráculo, o inferninho de Polifemo, Afrodite chegava ao quarto que o marinheiro havia pedido para esperá-lo para que pudessem conversar mais tranquilamente.
Era um ambiente condizente à temática do estabelecimento, com paredes pintadas de preto e vermelho intenso, muitas correntes penduradas, espelhos e toda a sorte de apetrechos sexuais do universo sadomasoquista.
Peixes entrou encostando a porta atrás de si. Estava exausto fisicamente, de perambular pela rua, e também emocionalmente.
Desde que se apaixonou por Camus a vida de Peixes passou a ser uma montanha russa de sentimentos e emoções.
Amar Camus de Aquário era divino, mas também era um fardo pesado a se carregar diariamente. Era uma relação complicada, cheia de altos e baixos, marinada em mentiras, segredos e ameaças.
Não bastasse tudo isso, ainda precisava lidar com uma insegurança insistente que lhe consumia dia a dia, e que se tornou mais grave com a chegada de Hyoga.
Seria de fato uma boa influência para aquela criança?
E ainda tinha Misty...
A amizade que Camus insistia em manter com Lagarto confundia e atormentava Afrodite. Sabia que Misty era capaz de tudo que tivesse ao seu alcance para jogar Aquário contra si, com o diferencial de que Misty sabia dissimular e enganar até as mentes mais inteligentes, enquanto Afrodite era pura emoção.
Razão e lógica não eram o forte do Santo de Peixes. Por isso estava ali, no quarto de um inferninho.
— Dadá, eu não deveria ter vindo aqui. — murmurou ao deixar-se cair sentado na beirada da cama redonda de lençóis vermelhos.
Logo ouviu-se três toques na porta.
Acreditando ser Polifemo, Afrodite levantou-se e apressou-se a ir abri-la. Quanto mais cedo falasse com o marinheiro, que sempre soube lhe dar bons conselhos, ou ao menos que julgava serem bons, mais cedo voltaria ao Santuário, para Camus e Hyoga. Mas, quando abriu a porta surpreendeu-se.
— Diógenes? — disse Afrodite olhando com seriedade e espanto para o rosto grave do gerente da casa.
O homem vestido em couro espalmou a mão na porta abrindo passagem e adentrou o quarto.
— É fácil saber em que quarto você está. — disse o grego com voz grave e pastosa — O cheiro de rosas destoa de todos os outros cheiros comuns a esse lugar.
— Cai fora, Diógenes... Anda. Não quero papo com você, santa. — caminhou até ele o pegando pelo braço na intenção de conduzi-lo para fora do quarto, mas com um safanão o homem se livrou.
— Não quer papo? E outra coisa, você quer? — sussurrou numa risada lasciva enquanto corria os olhos pelo corpo do pisciano.
— Alôca! Volta pra pista* Irene*.
— Qual foi, Afrodite? Quer me enganar que veio aqui só para conversar com o chefe? Vestido desse jeito? Logo você?... Tá na cara que levou um fora do teu macho e veio procurar outro para te dar um trato.
— Senta lá, Claudia. Bebeu água de chuca*, Diógenes? — riu do homem à sua frente — O que eu vim fazer aqui não te interessa. Não é da tua conta. Agora sai e me deixa sozinho.
— Por que está fazendo esse charminho? É claro que veio aqui para trepar, e eu sei do que você gosta. Sempre soube... Os meninos estão todos ocupados hoje, a casa está lotada... Somos só eu e você. — disse o homem, que num movimento rápido e brusco agarrou Afrodite pelos cabelos e tentou beijá-lo, mas antes mesmo que conseguisse tocar nos lábios do sueco sentiu os dedos das mãos formigarem, os lábios e o nariz queimarem e rapidamente se afastou acometido por uma crise intensa de tosse — O... O que... o...
Peixes havia ativado minimamente seu Cosmo e liberado algumas toxinas, o suficiente para afastar aquele homem de si sem precisar sequer mover um dedo.
— Só não enfio uma Rosa Sangrenta no meio desses teus olhos juntos por consideração ao Polly... — disse irritado enquanto via Diógenes tossir até quase perder as forças, indo sentar-se na beirada da cama.
Afrodite então tornou a sublimar seu Cosmo para não matá-lo intoxicado, mas apenas aquela fagulha de seu poder foi o suficiente para entregar sua localização a Camus.
Aquário não estava longe do bairro de Plaka quando sentiu o Cosmo de Afrodite. Poucos minutos após o "sinal", lá estava Camus saltando do táxi em frente à viela onde estava localizado O Olho do Oráculo.
Quando parou em frente à porta azul de número 333, o aquariano ficou com a respiração suspensa por alguns segundos, pregado ao chão, em choque.
Camus não podia acreditar que estava ali. Fechou os olhos numa tentativa de não pensar também no que Afrodite estava fazendo num lugar como aquele, naquela hora.
"Non, isso non pode estar acontecendo." Camus pensou angustiado, então suas feições se contorceram numa carranca cheia de raiva e resignado o francês deu dois toques na porta.
Na entrada se identificou como cavaleiro de Ouro a mando do Santuário tão somente, e como aquela não era a primeira vez que um Santo aparecia naquele lugar, o homem que assumira o posto de Diógenes lhe deu passagem.
Ao cruzar o corredor, depois a escada, chegar ao salão e se deparar com aquele pandemônio todo, o ruivo sentiu-se asfixiar pela atmosfera densa daquele lugar.
O coração se comprimia dentro do peito de Camus, que sentia uma fúria insana crescer e tomar-lhe por inteiro ao constatar que ele e Hyoga estavam esperando Afrodite e este tinha vindo passar a noite em um puteiro sadomasoquista.
Juntando o pouco de racionalidade que lhe restava, ao avistar Polifemo, figura muito conhecida por qualquer ateniense, Camus foi até ele. Já tinha um discurso na ponta da língua preparado para não levantar suspeitas acerca do que fazia ali.
Enquanto isso, no quarto onde Afrodite aguardava o ex-marinheiro, Diógenes se recuperava da crise de tosse e dos formigamentos nas mãos e rosto.
— Seu... — raspou a garganta que ainda lhe queimava — Seu viadinho de merda! Filho de uma puta! O que você fez? ARGH!... Eu vou foder você... E vou foder com a tua vida, seu puto miserável!
Afrodite deixou escapar um suspiro ao mesmo tempo em que revirava os olhos entediado.
— Hum... Como se eu precisasse de alguém para foder com a minha vida... Por que caralho eu vim pra cá? Para que serve minha cabeça, Dadá? Será que é só pra ter cabelo? — queixou-se para si mesmo, depois deu as costas a Diógenes e seguiu a caminho da porta, decidido a ir embora.
De repente Peixes se deu conta de que ter ido ali não tinha sido uma boa ideia, mesmo que com a melhor das intenções. Porém, quando estava prestes a tocar a maçaneta para abrir a porta, Diógenes o agarrou pelos cabelos e o lançou contra uma bancada de ferro que ficava ao lado, fazendo o pisciano bater a lateral do abdome com força estonteante, lhe machucando as costelas.
Na mesma hora em que Diógenes avançava para cima de Afrodite, que estava debruçado sobre a bancada, a porta do quarto se abriu com um forte chute, produzindo um som estrondoso.
Era Camus, que mal podia acreditar no que via.
Aquário havia chegado no momento errado, na hora errada, pois com o susto da porta sendo aberta, Afrodite e Diógenes congelaram em uma posição muito sugestiva, apesar de enganosa.
Um ódio pungente correu pelas veias gélidas do aquariano, que ao ver o namorado ali com aquele homem pensou em matar a ambos no mesmo instante.
Rangeu os dentes em fúria ao pensar que Afrodite tinha trocado a ele e ao filho por uma trepada num bordel, nem respeitando seu luto por Natássia, para trai-lo. Sentiu a alma sendo sugada para um buraco negro de mágoa e dor.
Camus então encarou os olhos aquamarines do pisciano que o divisavam estupefatos.
Afrodite nem ao menos se mexia, tamanho seu estado de choque em ver o aquariano ali, provavelmente entendendo tudo errado. E nem podia lhe tirar a razão!
— O Grande Mestre me mandou aqui para lhe dar um recado em nome do Santuário, Cavaleiro de Peixes. — disse Camus com voz firme e olhos cravados aos de Peixes, e ali ele voltara a ser o homem frio, áspero e cruel que sempre fora — Non precisa voltar. Non há mais ninguém esperando por você.
— C-Camus... — num terror incrédulo, Afrodite ainda tentou correr até o aquariano e segurá-lo pelo braço, mas este fora mais rápido e usou a velocidade da Luz para desaparecer dali sem deixar rastro.
Ainda em choque, Peixes ficou parado na porta, quando de súbito fora desperto do transe no momento em que Diógenes novamente o agarrou pelos cabelos o puxando para dentro do quarto.
— Acha que pode vir aqui dar uma de bonzão e me esnobar? Polifemo sempre acobertou os seus caprichos, sempre passou a mão na sua cabeça, mas eu não! Essa zona também é minha, seu merda. E se veio até aqui vai ter que...
Diógenes não concluiu a ameaça.
Quando se deu conta lançava palavras ao vazio, com a mão fechada ao ar, segurando o nada.
Afrodite também havia partido na velocidade da Luz atrás de Camus.
Quando chegou ao Santuário, Peixes parou por um momento nas escadarias do Templo de Áries.
Com o coração acelerado e a respiração pesada, olhou para cima em angústia, para o pico do monte, e era como se escutasse as palavras de Camus repetindo em seu ouvido: "Non precisa voltar. Non há mais ninguém esperando por você."
Fechou os olhos e respirou fundo.
Não podia passar pelas casas com seu Cosmo aflito como estava, pois chamaria a atenção dos outros cavaleiros. Se bem que, dado o som da música em alto volume que vinha da Arena, muitos deles deveriam ainda estar na festa, mesmo assim não arriscaria.
Passados poucos minutos e conseguindo manter-se mais calmo, Peixes subiu as escadarias às pressas, mas quando chegou à Décima Primeira Casa, decidido a explicar a Camus que tudo não passara de um mal entendido que surgira depois da péssima ideia de ir ao Olho do Oráculo para pedir conselhos a Polifemo, Afrodite se deparou com uma grossa camada de gelo que impedia a passagem para a parte residencial do Templo.
Baixou os olhos, entristecido. Sabia que aquele era um claro recado de Camus lhe dizendo que não era bem vindo em sua morada.
Mesmo assim, Afrodite avançou poucos passos e tocou na parede de gelo, mas o Cosmo do aquariano estava pleno de mágoa, raiva e rancor, e Peixes recolheu a mão na mesma hora, como se tivesse levado um choque.
— Camus, me deixa entrar... Por favor... Não é o que você está pensando... — sussurrou, mas sua súplica serviu apenas para que o frio naquela passagem se tornasse ainda mais intenso, beirando o insuportável, e vendo que não havia conversa Afrodite retirou-se para seu Templo, subindo as escadas de cabeça baixa, aos prantos enquanto maldizia sua infeliz sorte.
Mas não era apenas Peixes quem pranteava.
No interior congelado do Décimo Primeiro Templo, Camus se encontrava sentado no chão, no canto de seu quarto, lutando contra os soluços e as lágrimas que teimavam em escorrer por seus olhos sem que as tivesse autorizado.
Ainda extremamente sensibilizado pelo falecimento de Natássia, o aquariano vivia um sofrimento profundo, agora agravado pela suposta traição daquele a quem amava.
Fora um golpe tão forte para Camus ver Afrodite com aquele homem, naquele lugar, que sequer havia conseguido pegar o filho em Virgem quando regressara ao Santuário. Precisava ficar sozinho, sentir sua dor.
Se não tinha forças nem para controlar o pranto, que dirá cuidar de uma criança!
Seria melhor que seu pequeno ficasse com Virgem até que tivesse forças novamente para manter sua máscara de indiferença e frieza, afinal agora tinha apenas a Hyoga, e por ele teria que seguir em frente.
Hyoga...
O pensamento no filho aumentava a dor de Camus, uma vez que acreditava ter sido traído por Afrodite e que essa traição afetaria também a Hyoga, que já amava o pisciano.
No horizonte os primeiros raios da aurora já começavam a aquecer os picos mais altos das ruinas que compunham o sagrado Santuário de Atena, mas estes foram repelidos pelas gélidas paredes do Templo de gelo assim que as tocaram.
No coração do guardião da Décima Primeira Casa só havia frio e dor.
Dicionário Afroditesco
Chuca – lavagem retal.
Irene – homossexual de meia idade, ou idoso.
Matim – chinfrim, mixuruca, simples, pobre.
Pista – local onde os travestis fazem ponto. Também pode ser usado para se referir à pista de dança de uma casa noturna.
