CAPÍTULO VI
Harry a levou para jantar em um restaurante irlandês, fora de Baxter, e Gina agradeceu por isso. Detestaria ir a algum lugar sofisticado, à luz de velas, onde ele apresentaria seu cartão de crédito, e garçons ficariam cercando a mesa o tempo todo. Por isso o ambiente descontraído do pequeno restaurante a deixara feliz.
Haveria um segundo encontro.
Pensava nisso quando, na volta, esbarraram com Os Cabeças de Metal na esquina da rua Cinco com Presley Boulevard. Conveniente, refletiu Gina.
Com o barulho ensurdecedor das guitarras e a voz esganiçada do solista, mal dava para entender a letra da música, porém o refrão era assim: Minha namorada me deixou, e peguei sua amiga, afinal... Levei uma surra das duas, e estou no hospital.
Encantador, pensou Gina. Como se fosse possível, estavam piores que no ano anterior. No íntimo esperara que houvessem progredido, para que o Conselho os incluísse no festival, mas... Talvez pudessem fazer uma apresentação especial.
Fez um gesto com a mão, pedindo silêncio.
- Desculpem, rapazes! Precisamos conversar com vocês. Distraídos, os músicos continuaram com a cantoria, enquanto transeuntes passavam, gritando:
- Calem a boca! Vou chamar a polícia!
Gina postou-se bem na frente do guitarrista e colocou as mãos em concha ao redor da boca. :
- Alô!
Mas o rapaz continuou, de olhos fechados, seguindo, enlevado, o ritmo da música.
Um assobio agudo soou às suas costas. Gina voltou-se o viu Harry colocando uma nota de vinte dólares no balde de doações.
O silêncio que se seguiu foi total.
As pessoas que passavam aplaudiram, não a música, é claro, mas sua ausência.
Os quatro componentes da banda aproximaram-se, circundando Harry e Gina.
- Ora, cara, obrigado! - exclamou o solista de cabelos louros e magríssimo.
- Faz frio aqui na rua.
- Sim, cara - concordou o baterista suado. - As pessoas não entendem nossa arte.
O que tocava contrabaixo, usando óculos escuros no meio da noite, e o guitarrista, com calça de couro vermelho, apenas resmungaram em agradecimento.
- Fico feliz em poder ajudar os artistas locais - disse Harry com expressão
séria. - Sou Harry Potter, e esta é Gina Weasley.
- Puxa, cara! - exclamou o do contrabaixo. - São nossos primeiros fãs?
Os quatro rapazes examinaram os recém-chegados, e Gina sentiu-selisonjeada e insultada ao mesmo tempo.
- Acho que não - murmurou.
Gina passou-lhe um braço protetor pelo ombro.
- Ela está comigo. Fazemos parte da comissão do festival do Dia da Independência, e queríamos conversar com vocês sobre sua... apresentação.
O olhar dos quatro parecia implorar, e dava pena negar-lhes a participação.
Se desejar vencer era sinal de talento, aqueles rapazes eram muito talentosos, refletiu Gina. De repente concluiu que seria impossível rejeitá-los. Talvez com um
pouco de orientação, aulas de canto e um bom repertório musical...
Apreensiva, relanceou um olhar para Harry, que sorriu, murmurando:
- Não se preocupe, chérie. - Voltou-se para a banda. - Tenho algumas sugestões para o número de vocês. Pagarei uma cerveja e conversaremos.
Os rapazes ficaram bastante animados. Guardaram os instrumentos em uma van vermelha e amarela, estacionada ali perto, e encaminharam-se com Harry e Gina para um bar.
Depois de se acomodarem e os rapazes tomarem seu primeiro gole de cerveja, Harry começou:
- É muito importante para vocês atuarem no festival?
Os quatro se entreolharam, um tanto contrafeitos. Por fim, o líder, que se apresentara como Bonitão, falou:
- Seria o máximo, cara.
Maravilhoso, pensou Gina, embora ignorasse o que Harry pretendia com aquela conversa.
- Então, mon ami, têm trabalho a fazer - disse ele.
O do contrabaixo, chamado Garoto Dourado, embora tudo em sua pessoa fosse escuro como breu, olhos, cabelos, pele e roupas, resmungou:
- Sabia que era uma armadilha...
- Suas canções precisam ser mais bem elaboradas - continuou Harry, relanceando um olhar para Gina, e tentando incluí-la na conversa. - Quanto tempo levaram para compor a que apresentavam há pouco?
Bonitão inclinou a cabeça para um lado, e fítou Garoto Dourado, pedindo conselho.
- Levei seis meses - respondeu o segundo. Gina refreou um gemido. Seis meses para escrever... Minha namorada me deixou, e peguei sua amiga, afinal... Levei uma surra das duas, e estou no hospital?
Porém Harry aquiesceu, como se esperasse tal resposta.
- Tenho uma idéia! - exclamou com entusiasmo, fazendo Gina sorrir.
Ela observou seus gestos confiantes, a expressão serena e madura. Meu herói, disse em pensamento. Mas logo tratou de voltar à realidade. Que herói, que nada! Harry Potter logo partiria de Baxter, portanto não devia se entusiasmar.
- Deviam ser covers - continuou Harry, fazendo-a arregalar . os olhos.
Bonitão e Garoto Dourado trocaram olhares de dúvida, mas o baterista compreendeu.
- Quer que cantemos músicas dos outros?- Harry voltou a aquiescer com um
gesto.
- As platéias costumam ser mais receptivas com músicas que já conhecem.
E isso lhes daria mais experiência para compor seu próprio repertório no futuro. - Por debaixo da mesa, deslizou a mão para a coxa de Gina, que estremeceu. - Foi ela quem me deu essa idéia.
Espantada, a companheira o fitou, mas Harry continuou falando com toda a calma.
- Gina me disse que mudaram de estilo diversas vezes, durante os últimos anos. Por certo entendem de imagem e encenação, então tudo que resta a fazer é...
Ter talento?Perguntou-se ela, refreando uma risada, enquanto os quatro rapazes fitavam Harry com respeito e atenção.
- ...adquirir prática - concluiu ele. - Com que freqüência ensaiam?
- Mais ou menos uma vez por semana - respondeu Bonitão. Harry balançou a cabeça, discordando.
- Tentem uma vez por dia, rapazes. E quantos cachês receberam este mês por suas apresentações?
- Bem... conseguimos vinte dólares de você.
- Tocamos na festa de aniversário da avó de Bonitão, na semana passada - lembrou Garoto Dourado. - Ela deu cinco dólares para cada um.
Os quatro permaneceram calados por um instante, como se fizessem cálculos, e depois o líder disse:
- Se fizermos isso que disse... se formos covers... poderemos tocar no festival?
- Representamos dois votos na comissão, mas faremos o possível para convencer os demais - disse Harry, inclinando-se para frente. - Depende de vocês trabalharem bem. Estamos só lhes oferecendo um teste.
- Está certo, cara - concordou Bonitão. - Precisamos votar. Os quatro se levantaram e foram para o outro canto do bar. Gina apoiou o queixo na mão.
- Foi muito esperto - comentou. - Acha mesmo que dará certo?
- Conheci alguns rapazes parecidos com esses, em minha cidade natal. Queriam tocar no nosso bar, e meu avô lhes deu o mesmo conselho. - Encostou-se na cadeira, sorrindo. - Atualmente fazem o maior sucesso no sul da Louisiana.
Harry a deixava intrigada, refletiu Gina. Era um pouco aventureiro, mas ajudava Gus no bar em suas horas livres, em vez de se divertir. Tinha uma motocicleta, e compadecia-se de quatro rapazes ansiosos por sucesso. Lutava contra incêndios, enchentes e doenças, era irônico, às vezes, e irreverente, porém a tomara nos braços com carinho quando tivera medo. Como vencer a atração que sentia por um homem tão cheio de contrastes? Esse pensamento a preocupava.
Harry apertou seu braço
- Desculpe, chérie. Não era assim que planejava passar o restante de nosso encontro.
O calor dos dedos fortes pareceram queimar-lhe a pele, mesmo por cima da roupa, e ela murmurou:
- O que planejou?
Ele deslizou a mão para o seu ombro,
- Que tal namorarmos no jipe?
Gina sorriu. Ele devia estar brincando! Não namorava dentro de um carro desde a adolescência, e mesmo assim sem muito sucesso, porque seus irmãos
sempre a encontravam.
O pensamento a fez olhar em redor. Estavam em um lugar público de Baxter,
conversando e se tocando. Canecas de cerveja meio vazias se encontravam sobre a mesa, e isso não dava a impressão de reunião sobre a festa do Dia da
Independência. Se alguém conhecido os visse, por certo pensaria que se tratava de um encontro particular.
Entretanto o bar não estava cheio, e ninguém parecia lhes dar muita atenção.
O problema, pensou Gina, era que Rony costumava chegar nesses lugares sem
avisar. Pedira ao irmão que a deixasse lidar sozinha com Harry, mas por certo ele não a levara a sério. Na verdade, pensou, não podia culpar os irmãos por serem tão protetores, porque sempre acolhera seu apoio com uma certa docilidade. Sempre... Até conhecer Harry Potter.
Os dedos de Harry pressionaram sua perna, e ela estremeceu. Ergueu o rosto, e viu uma expressão de raiva nos olhos dele.
- Está com receio de que alguém a veja em minha companhia?
- Sim - replicou ela, afastando a mão que a acariciava. - Este é um encontro para a comissão, lembra? É a nossa desculpa.
Ele nada respondeu, fazendo-a pressentir que estava aborrecido.
Qual era o problema?, pensou irritada. Estava tentando protegê-lo! Sua preciosa carreira como combatente do fogo terminaria se não tomasse cuidado!
- Tudo bem - resmungou Harry. - Assunto da comissão.- Parecia magoado,e Gina insistiu:
- Sabe o que quero dizer. A comissão pode ser nosso melhor disfarce.
- E você é especialista em disfarces, não? Encontros, lingerie...
Ela enrijeceu.
- Meus negócios nada têm a ver com...
Mas foram interrompidos com a volta de Bonitão, que exclamou:
- Trato feito, cara! Quando é o teste?
Os outros rapazes da banda o seguiam, como sempre. Harry levantou-se e apertou a mão do líder.
- Que tal daqui a duas semanas? No Bar do Centro. Conhecem?
- Claro - replicou Bonitão com um amplo sorriso. - Lugar legal.
- Vou conversar com o proprietário, e amanhã avisarei vocês. De agora em diante, ensaiem o tempo todo!
Trocaram números de telefone e, minutos depois, a banda partia, com ânimo renovado. Harry fitou Gina.
- Creio que a reunião terminou.
Seus olhos tinham um brilho distante e frio, e ela nunca o vira assim. Bem, pensou com irritação, se ele não compreendia seus esforços para preservar-lhe o
emprego, tanto pior!
- Vamos embora - disse, não ocultando a raiva.
Já dentro do jipe, sentiu-se estranha. A camaradagem alegre desaparecera, e um silêncio constrangedor se instalara dentro do veículo. Por mais que estivesse ressentida, refletiu, desejava o antigo Harry ao seu lado.
É melhor assim, falou consigo mesma. Convencera-se de que esse seria o primeiro e último encontro entre os dois, e se ele estava zangado, não tinha importância.
Entretanto, quando Harry estacionou na porta de sua casa, Gina já decidira que não poderia despedir-se aborrecida. Precisava fazé-lo entender como era sua família e... ela mesma.
Harry saiu do jipe e deu a volta para abrir-lhe a porta. Quando lhe estendeu a mão, ela disse:
- Precisamos conversar.
Harry cruzou os braços sobre o peito, e encostou-se no capo.
- Tudo bem.
A frieza a constrangeu, mas prosseguiu:
- Adorei sair com você hoje, mas sabe muito bem que caso meus irmãos descubram, transformarão sua vida em um inferno e, provavelmente, irão balançou a cabeça em negativa.
- Não sei nada disso.
- Bem, se é teimoso, nada posso fazer.
Assim dizendo, saiu do jipe e começou a caminhar para sua casa, mas parou no meio do caminho, e olhou para trás.
- Não posso culpar muito meus irmãos por serem como são, porque, embora não me meta na sua vida amorosa, estou sempre resmungando sobre os perigos que enfrentam em suas profissões. E se o preço que tenho que pagar por isso é suportar sua intromissão, então tudo bem.
Na verdade, até conhecer Harry, não se queixara de sua vida social e pouco se importara com namorados.
- Quer dizer que me acha muito perigoso - disse ele.
- Não. Eu sou um perigo para você. Rony já o colocou na cadeia, não? O que acha que fará se souber que saímos juntos?
Ele nada respondeu, e Gina admirou as pernas longas, esticadas na frente do jipe, os olhos cor de esmeraldas fixos em seu rosto. Desejou lançar-se em seus braços, porém se entregar à atração física não seria uma boa coisa, refletiu.
Suspirou. Aquela conversa não estava tendo o resultado esperado, então mudou de tática,
- Há quanto tempo é bombeiro, Harry?
- Cinco anos.
- E o que o fez ingressar nessa profissão?
- Pareceu-me uma boa idéia.
- E como se sentiria caso não pudesse continuar nesse trabalho?
- Minha carreira é tudo - replicou ele com simplicidade. Gina reteve a respiração, já suspeitava disso. Teve ímpetos de dizer-lhe que tomasse cuidado, e não deixasse uma esposa prematuramente viúva, com dois ou três filhos pequenos para cuidar, mas calou-se a respeito e comentou:
- Aí está! Quer seguir adiante e trabalhar em uma cidade grande como Atlanta, certo?
- Oui.
Gina engoliu em seco, sabendo que o que diria a seguir iria afastá-lo dela.
- Não conseguirá, a não ser que Ben o recomende. Tentava se convencer de que Harry estava fadado a não ser seu, e que apenas evitava ser magoada. Por fim, ele falou.
- Creio que se preocupa à toa. Estou furioso com essa história de sair às escondidas com você.
Percebendo que conseguira seu objetivo, mas sentindo-se péssima, Gina perguntou:
- Não quer me ver mais, a menos que minha família tome conhecimento?
- Detesto me esconder!
- Então, está me dando um ultimato?- Ele aquiesceu.
- Se é assim que entendeu...
- Não desejo pôr em risco sua carreira, Harry. - E nem meu coração,
acrescentou em pensamento,
- Não acha que é hora de tomar suas próprias decisões?- Gina ergueu o queixo.
- É isso que estou fazendo. Tomando uma decisão. Ele se aproximou e segurou-lhe o rosto entre as mãos.
- Gina, o anjo protetor - murmurou.
Sem dizer mais nada, deu meia-volta, entrou no jipe e fechou a porta.
- Vejo-a por aí, chèrie - saudou, acenando pela janela aberta.
- Não ganho nem um beijo de despedida? - gritou ela. Mas, é claro, esperou para dizer isso quando o jipe já estava bem longe. Sim, lembrou, era uma grande protetora, em especial de si mesma.
- Encontro da comissão coisa nenhuma! - resmungou Harry, enquanto fazia o inventário das caixas de primeiros socorros no depósito da central dos bombeiros.
Por que Gina sentia tanta necessidade de se esconder? E por que isso o aborrecia tanto?
Já tivera relacionamentos secretos no passado. A rainha do baile do ginásio, que não queria que o pai soubesse sobre seu namoro, uma moça na escola de paramédicos, que depois revelara ser casada... Mas eram casos sem importância, pensou.
Entretanto a idéia de Gina sentir vergonha em sua companhia o enchia de ódio e mágoa, sem que entendesse muito bem a razão.
- Trouxe uma coisa para vocês.
Harry ouviu as palavras, e sentiu um baque no coração. Gina! Olhou em volta, mas continuava só. Deus! Estou começando a ouvir vozes, pensou.
- Carlinhos! Tire as mãos dessa cesta agora mesmo!
Não podia ser imaginação, refletiu. Era a voz de Gina. Enfiou a cabeça pela porta do depósito, e lá estava ela no vestíbulo, uma grande cesta pendurada no braço, e vários bombeiros ao redor.
Harry sentiu o aroma delicioso de frango frito e biscoitos. Isso explicava o bando de homens em volta da cesta, concluiu com um sorriso. Mas a própria Gina estava uma tentação, usando short de brim e uma camiseta, que revelava cada curva de seu corpo.
Harry caminhou pelo corredor e misturou-se aos colegas. Gina batia nas mãos dos irmãos, impedindo que avançassem sobre a cesta. Em dado momento
ergueu o rosto, e seus olhares se encontraram, mas ela logo virou a cabeça.
Harry mudara de turno com um colega, portanto Gina não poderia saber que estaria lá. Fugia dele como o diabo da cruz, refletiu, e não tinha certeza se era para protegê-lo ou proteger a si mesma.
Em parte sabia que a jovem tivera razão na noite do encontro. Sua carreira era vital, e o levaria para longe de Baxter. Um envolvimento sério a essa altura da vida não era conveniente, e não podia imaginar um namoro sem conseqüências com a irmã dos Weasley,
Entretanto todas essas considerações não o faziam desejá-la menos.
Manteve distância enquanto o lanche era servido, e sentou-se no canto extremo da sala. Magoado, observou-a conversar e rir com seus colegas.
Por fim, deu um jeito para postar-se ao seu lado, enquanto levavam os pratos para a pia.
- A comida estava ótima, chérie.
- Obrigado.- Gina o fitou de modo vago.
- De nada.
Harry sorriu, deslizando o olhar pelo lindo corpo.
- Preferia um agradecimento mais caloroso.
Gina lançou um olhar furtivo na direção de Carlinhos e murmurou:
- Fique quieto.
Ele cerrou os dentes com raiva, e replicou no mesmo tom:
- É muito mais divertida quando se mostra rebelde. Até onde vai sua rebeldia?
Um rubor intenso invadiu as faces de Gina. Por que ela resistia?Pensou Harry. Estava a ponto de tomá-la nos braços e gritar para que o ouvisse, quando Carlinhos se aproximou.
- Sente-se, Gina- comandou. - Lavaremos tudo.
Ela retrocedeu, tropeçando em uma cadeira, e gaguejou:
- Certo. Preciso mesmo voltar para casa. Adeus. Agarrou a cesta e quase correu para fora da central dos bombeiros.
Harry a observou partir, desejando-a mais do que nunca.
No Bar do Centro, dias mais tarde, Harry meditava em frente a um copo de cerveja. Comparecera a outro encontro de emergência da comissão, a pedido do prefeito Collins, e vira Gina. Durante duas horas haviam discutido sobre o tom apropriado de vermelho para os cartazes e faixas do Dia da Independência, e ela permanecera ao seu lado, indiferente como uma estátua de pedra.
Era preciso encarar os fatos, pensou. Se os próprios pais nunca o tinham desejado de verdade, por que Gina iria querê-lo? Ela poderia conquistar qualquer um, não precisava dele.
Voltando ao momento presente, desceu do banquinho no bar, e dirigiu-se à velha vitrola. Selecionou uma música e retornou ao seu lugar, rolando a garrafa de cerveja entre os dedos.
Sentiu uma mão sobre o ombro, voltou-se, e viu-se diante de uma linda morena. Os olhos de um azul-escuro faziam um belo contraste com a pele bronzeada.
- Este lugar está ocupado? - perguntou ela com voz aveludada, referindo- se ao banquinho ao lado.
- Não.
Ao sentar-se, Harry sentiu o perfume almiscarado que usava. A jovem tinha lindas pernas, e o eterno demônio em sua mente sussurrou que isso era exatamente do que necessitava.
Sorrindo, a morena pediu um uísque para Gus, que se apressou a atender.
Harry não pensara em ninguém além de Gina, durante toda a semana, recordando cada palavra e gesto que haviam trocado. Lembrava da maciez de seu corpo e do perfume floral que sempre usava, desejando-a com força avassaladora.
- Meu nome é Devlin - disse a morena.
- Sou Harry. Vem sempre aqui? - perguntou ele, mordendo o lábio ante a pergunta tola.
Ela balançou a cabeça em negativa, fazendo os cabelos ondulados dançarem em volta do rosto.
- Em geral vou ao Bar da Esquina. - Fitou-o de alto a baixo. - Tenho uma queda pelos soldados do fogo.
Só então Harry lembrou que usava a camiseta do Corpo de Bombeiros de Baxter, e sorriu sem entusiasmo. Não gostava de mulheres agressivas, e aquela não perdia tempo. Além disso, era o oposto de Gina em tudo, e só tinha a jovem Weasley nos pensamentos.
Suspirou, tentando ser educado.
- É um bom trabalho. - Desceu da banqueta. - Vou embora, Gus. Voltarei sexta-feira.
- Certo, rapaz.
Harry montou na sua Harley, sabendo muito bem que jamais esqueceria Gina.
Gina bebericou o vinho, rezando para arrumar uma boa desculpa e poder ir embora. Hermione sempre a arrastava para jantar fora quando saía com Rony, mas duvidava de que a amiga realmente desejasse sua companhia nessas ocasiões. Por certo sentia pena dela, pois nunca tinha com quem sair, refletiu.
Porém, embora no passado não se importasse com isso, no momento estava muito aborrecida, porque desejava ficar com Harry Potter. Ele era uma pessoa generosa e solidária, ajudara a banda desastrada e o menino sardento que lhe trouxera flores... Mas como esquecer que planejava ir embora, e que Baxter não fazia parte de seus planos?
- Está se divertindo, Gina? - perguntou Hermione, interrompendo seus pensamentos
- Sem dúvida!
No íntimo, acrescentou que adorava segurar vela para os outros, mas nada disse.
Voltou a procurar por uma boa desculpa, quando a porta se abriu e Harry Potter entrou. Gina quase gritou de emoção.
Ele estava lindo, com uma camiseta que realçava a musculatura do tórax, e calça jeans desbotada. Teve ímpetos de se levantar e correr ao seu encontro, porém conteve-se.
- Gina? - chamou Hermione, com ar preocupado. - Tudo bem?
- Um pouco cansada, só isso - gaguejou, tomando mais um gole de vinho.
Ela, Hermione e Rony estavam sentados no fundo do salão, e Harry ainda não os vira. O olhar perspicaz da ruiva passeou pelo bar apinhado, e logo avistou o novo bombeiro.
Porém Rony também o vira, e exclamou:
- Ora! É Harry Potter, o selvagem.
- O que isso quer dizer? - perguntou Gina irritada.
- A reputação dele é terrível. Não sabia?
- Não.
- Era leão-de-chácara em um bar, e foi expulso diversas vezes da escola.
Gina estava à beira de perder a paciência.
- Ora, Rony! Quantas bobagens você já fez na vida antes dos vinte anos?
O irmão semicerrou os olhos e inclinou-se para frente.
- Harry não serve para você, Gina.
- E quem serve, Rony? É sempre você quem decide.
- Ele é bombeiro, Gina. Quantas vezes já me disse que quer encontrar um gentil contador ou comerciante, com um trabalho tranqüilo e estável? Estou lhe
fazendo um favor.
- Talvez eu tenha mudado de idéia...
Rony segurou-a pelo pulso.
- Não faça tolices, irmãzinha.
Por certo ele se referia ao seu caráter impulsivo, pensou Gina, que sussurrou com raiva:
- Não se intrometa em minha vida amorosa!
Assim dizendo, levantou-se e rumou na direção de Harry que, ao lado de outros companheiros no bar, sorriu ao vê-la se aproximar.
Quando perceberam sua presença, os demais bombeiros se afastaram um pouco, e olharam ao redor, como à procura de um Weasley que, sem dúvida, devia estar por perto para proteger a irmã. Ao verem Rony, trataram de se afastar mais ainda. Em breve havia seis lugares vagos ao redor de Harry.
Percebendo tudo que acontecia, pela primeira vez na vida Gina sentiu vergonha da proteção dos irmãos.
Porém Harry estava achando a cena muito engraçada, como sempre.
- Junte-se a mim, meu bem. Temos bastante espaço. A que devo a honra?
Gina não ousava encará-lo. O vinho já a deixara tonta, e tratou de afastar os cabelos do rosto.
- Só vim cumprimentá-lo. Tudo bem?
- Claro!
Ela sentou-se em um banquinho ao lado, e cruzou as pernas com cuidado, por causa da saia curta que Hermione a fizera usar. Mas ninguém jamais olhava para suas pernas em Baxter, com medo da reação dos Weasley.
- Está desafiando seu irmão? - perguntou Harry com calma. - Então, deixe-me dizer que teve sucesso, porque ele ficou roxo de raiva.
- Não estou provocando ninguém, e Rony não ficou furioso, Está vermelho, prendendo o riso. Acha que faço papel de boba.
- Por quê?
- Por causa de meu gênio impulsivo.
Harry não sabia se devia ficar aborrecido ou lisonjeado. Sua querida rebelde resolvera se aproximar, mas... por quanto tempo? Até que ponto essa demonstração de interesse prevaleceria? Não tinha respostas para tais perguntas.
Resolveu entrar no jogo.
- Sobre o que você e Rony discutiam?
Gina ficou vermelha.
- Não sabia que tinha nos visto.
- Sempre reparo em você.
Assim dizendo, segurou-lhe a mão, e deslizou o olhar pelas curvas macias sob a saia curta.
- Uma discussão em família - replicou ela, os olhos dilatados de desejo.
Harry observou isso e ficou pensando se ela também se sentia triste e só. Por
que perdiam tempo falando do irmão Rony?Refletiu com raiva.
- Lamento pelo que aconteceu na semana passada, Harry- disse Gina, fitando-o com os grandes olhos azuis.
Ele olhou em volta, procurando uma cerveja para apagar seu fogo. Como por mágica o garçom apareceu, oferecendo outra rodada. Com gesto brusco, Harry tomou a garrafa e bebeu do gargalo.
- Tudo bem? - quis saber Gina, aproximando-se um pouco mais.
Harry se sentia um perfeito idiota. Sem dúvida ela estava fazendo uma cena para provocar o irmão. Tratou de aceitar a realidade e continuar no jogo.
Aproximou-se de seu ouvido e murmurou:
- Quero saber o que está usando por debaixo da saia.
Corando até a raiz dos cabelos, Gina olhou em torno, mas ninguém parecia estar prestando atenção em sua conversa.
Harry deslizou a mão sobre sua coxa e insistiu:
- Diga-me, angel. É a calcinha vermelha? Talvez hoje seja preta de renda. -
Fitou a camiseta cor de turquesa que ela usava. - Ou combine com sua roupa. De qualquer modo, deve ficar linda.
- Harry, por favor...
- O quê? - Com gesto rápido, tomou-lhe a mão e fez que acariciasse sua coxa musculosa. - Não é isso que quer fazer? Provocar seu irmão até as últimas conseqüências?
- Não vim aqui para provocar alguém.
Embora desejasse acreditar, Harry ergueu as sobrancelhas.
- Só quis me desculpar por sexta-feira - continuou Gina -, e dizer que não tenho medo de meus irmãos,
A expressão de Harry tornou-se dura,
- Não vou servir de brinquedo para você provocar sua família, Gina.
Ela mordeu o lábio, e por fim disse:
- Talvez tenha me escondido atrás de meus irmãos por muito tempo, e ainda me preocupo com seu futuro. Irá partir e continuarei aqui. Mas não me importo mais. Quero ficar com você.
Uma onda de alívio invadiu Harry, que sorriu.
- Está tentando me dizer que sou o sujeito certo para você?
- Talvez.
Ele a beijou no rosto e brincou:
- Não consegue resistir, certo?
- Certo.
Harry inclinou-se de novo e beijou-a no pescoço.
- Quero você...
Nesse instante, ouviu-se o som agudo de uma sirene de bombeiros, e um homem entrou correndo no bar.
- Uma casa na rua Maple está pegando fogo! Precisam de reforços!
Harry pulou da banqueta e lançou um olhar de desculpas para Gina.
Segundos depois desaparecia na rua.
Bom aqui vai mais um capítulo, espero que tenham gostado.
Comentem!
