Capitulo 5 – A Mente Humana Pode Ser Perversa.
"O homem é o único ser capaz de se tornar amigos de suas presas" Autor desconhecido.
Eu podia ouvir os empregados andarem de um lado para o outro no andar de baixo arrumando a imensa mesa de jantar para a celebração desta noite. Edward terminava de arrumar seu smoking quando entrei em seu quarto. Ele estava com um sorriso nos lábios enquanto aquela típica ansiedade que lhe fazia um frio subir pela barriga sempre que ia encontrar Bella. Ele arrumava sua gravata de frente ao espelho enquanto eu sentia o peso dentro de meu peito.
-O que eu faço? – perguntei baixo enquanto ele assobiava distraído. – Você já sentiu isso por Bella? – levantei minha cabeça em sua direção, enquanto a cama macia me sustentava.
Apenas um suspiro de resposta. Era inútil, e no fundo eu sabia. Era algo que fluía naturalmente em meu ser desde que abri meus olhos e percebi que eu era apenas uma companhia muda entre os humanos. Essa sensação era como um instinto que já estava em minha alma desde sempre.
-Obrigado mesmo assim. – sussurrei antes de me colocar de pé.
Saindo do quarto, caminhei pelo corredor vazio enquanto todos estavam em seus respectivos quartos com suas respectivas sensações.
O carinho de Esme flutuava pela casa inteira, inundando o corredor. A responsabilidade de Carlisle e a sua preocupação paternal eram mescladas ao intenso sentimento de amor que emanava dela. A meiguice de Alice também saltitava pelo ar que rodeava meu corpo, me hipnotizando por um momento.
Porem, ao passar na porta do cômodo de Benjamin o que me surpreendeu foi o vazio que vinha de dentro do quarto. Absolutamente nada se quer ecoava de dentro daquele cômodo. Entrei sem pedir licença – literalmente – e o vi na frente do espelho, como Edward.
Novamente senti o ódio corroer meu corpo lentamente. Eu também pude sentir meus olhos se cerrarem e o fitarem diretamente no reflexo do espelho.
-Sabe, não adianta você me olhar assim. – ele pronunciou debochado. – A natureza é desse jeito. – ele falou abotoando a camisa. – Você deveria saber disso mais do que eu, sabe? – ele levantou o olhar com um sorriso maldoso. – Não é mesmo? Você sabe, eu existir e você simplesmente... não.
Era como se meus punhos fossem acorrentados enquanto ele proferia cada palavra. Seu tom venenoso derretia em meus ouvidos.
-O que...? – gaguejei surpreso.
-Convenhamos. Que chance eu poderia ter, se um ser que olhasse para ela como você olha, existisse? Seria injusto, não acha? – ele riu. – Confesse, por essa você não esperava arcanjo – ele disse zombando.
-Como? – perguntei controlado.
Ele se virou em minha direção rindo baixo. Seus olhos negros se fixaram em meu rosto, e me questionei se era pra eu ter sentido algum arrepio com seu semblante.
-Não seja tolo, arcanjo. – ele comentou caminhando até a cama, pegando seu paletó. – Eu achava que você me perguntaria algo mais inteligente.
Eu sentia meu corpo formigar. Talvez o ódio profundo tivesse esse efeito. Meus lábios se afilaram sobre os dentes, e eu parecia estar rosnando.
-Não se altere. – ele comentou virando para o espelho. – Isso só vai te deixar pior. – ele deu de ombros. – Espero que você entenda.
Eu já estava perdendo meu controle. Talvez um soco...
-Esqueça. – ele alertou. – Você não pode me ferir.
Aos poucos eu senti meu corpo imortal relaxando, meus olhos se fecharam no momento certo. Meus ombros penderam e eu sentia meus braços soltos na lateral de meu corpo, largados. A realidade que eu não poderia fazer nenhum mal a ele latejava em minha mente. Assim como o peso de suas palavras, me dizendo que Alice poderia ser minha, caso eu existisse.
Ao abrir meus olhos, eu já não estava mais naquele cômodo. Pelo contrario, o corredor estava claro em minha frente. Sentindo o peso de uma montanha em minhas costas, caminhei até o ultimo quarto. A alegria deu-me um solavanco, feito bala ao me aproximar do aposento de Alice.
Sorri cabisbaixo e entrei. Ela estava sentada na cama, com seu vestido rosado de cetim enquanto escrevia em seu diário. Caminhei até sua direção, e em pé em sua frente, alisei seu cabelo desfiado suavemente.
Ajoelhei-me em sua frente. Ela imediatamente desviou o olhar do caderno e fitou o nada a sua frente. Ela me fitou. Respirei pesadamente e alisei suas bochechas rosadas olhando diretamente naqueles olhos verdes.
-Por favor! – comecei sussurrando. – Não deixe isso acontecer... – implorei. – Eu não sei se posso cumprir minha palavra vendo você junto dele. – o nó em minha garganta se fechando cada vez mais. – Eu não sei se posso agüentar te perder, Alice.
Um suspiro longo saiu de seu peito e ela arfou, olhando novamente em minha direção. Toda sua felicidade se esvaiu naquele momento, absorvendo minha dor.
-Não! – exclamei me ponde de pé. – Você não pode fazer isso, não é justo. – encostei-me à parede a sua frente de cabeça baixa, afastado.
Ela levantou-se nesse mesmo momento e caminhou em minha direção – ou na direção da porta – e com a mão da maçaneta, olhou diretamente para mim antes de sair. Um sorriso surgiu em seus lábios e eu deixei meu coração acreditar que ela me enxergou naquele momento.
Desci atrás dela as escadas de madeira escura até a sala de jantar totalmente arrumada pra o evento daquela noite. Esme organizara um jantar para recepcionar seu sobrinho, Benjamin. Bella, noiva de Edward e também alguns amigos de Carlisle foram convidados para aquela pequena reunião.
-Que bom que chegaram! – pude ouvir Esme dizer alegre da porta de entrada enquanto rodeava a mesa junto com Alice.
Minhas mãos escorregavam pelos ornamentos de cada cadeira estrategicamente posicionada em frente á mesa. O lustre de cristal a cima brilhava, absorvendo assim como eu, a camada fina de empolgação que exalava de cada morador da mansão Cullen. Os talheres e a prataria extremamente límpida refletiam de forma quase fiel o semblante tranqüilo de Alice.
-Entrem, por favor. – Esme passou com os convidados na frente da sala de jantar, se encaminhando para o cômodo ao lado, onde seria servido um chá antes da refeição.
-Alice. – exclamou quando a viu. – Venha me ajudar.
Alice olhou sobre meus ombros e sorriu para mãe, saindo com as mãos juntas soltas na frente do corpo. Seu humor estava revigorado, como se a angustia absorvida no quarto tivesse sido dissipada.
Logo os convidados da alta sociedade da época – dois ou três casais – estavam posicionados na mesa longa de mogno.
Carlisle estava na ponta da mesa, como chefe daquela família que era. Edward estava ao seu lado, junto com Bella. Esme estava do outro lado de Carlisle, com Alice logo em seguida. E assim se seguia os outros convidados.
Benjamin sentara ao lado de Alice e não tirou aquele sorriso arrogante dos lábios cortados um minuto se quer. O sentia vibrar de superioridade, principalmente enquanto me posicionava atrás de Bella, olhando para Alice de frente.
Permaneci em silencio todo o jantar. Minha cabeça latejava com decisões dolorosas enquanto via os sorrisos tímidos direcionado para Benjamin. Os olhos negros, talvez a encantará, assim como ela encantava a mim. Aquilo era duro de assistir, sem poder gritar ou fazer qualquer coisa para impedir.
Eu me perdi em sua face por longos minutos até sentir um formigar de preocupação, vindo da jovem Bella. Ela olhava as insinuações de Benjamin e reprovava com a cabeça. Sorri em agradecimento.
Caminhei até suas costas e apoiando minhas mãos em seus ombros delicados, emanei um pouco mais de desconfiança nela. Aquilo estava errado, eu sei. Porem era difícil resistir. Se é que podem me entender.
-Edward. – ela cochichou. – Eu não gosto daquilo. – indicou com a cabeça.
Edward sorriu e acariciando o cabelo da noiva, concordou com a cabeça.
-Eu também não. – ele confessou passando delicadamente o nariz na bochecha de Bella.
-Ótimo. – sorri aliviado.
Pelo menos alguém poderia cuidar de Alice quando eu...
-Esqueça isso, Jasper. – repreendi-me. - Você não vai a lugar nenhum.
-Você não ousaria. – a voz de Alice não passou de um sussurro.
Nesse mesmo momento meus olhos encontraram seu rosto vermelho. Senti a esperança me consumir, talvez finalmente ela pudesse estar me vendo.
Enganado, outra vez.
Benjamin sussurrava algo inaudível em seu ouvido. Seus olhos escuros sorrateiramente viram a minha ilusão cair em terra. Novamente senti a raiva me consumir, fazendo algo latejar atrás de meu ouvido. Meus punhos se fecharam e eu desisti de me torturar daquela maneira.
Sai da sala de jantar rumo à biblioteca. Aquela redoma que envolvia Alice era como areia entrando pelos meus pulmões.
Fiquei lá por uma ou duas horas, enquanto o jantar acontecia na sala ao lado. Apesar do esforço, eu não conseguia tirar minha mente da proximidade de Benjamin e Alice.
Eu batia, compassadamente, na parede com o punho. De olhos fechados, só fui perceber a aproximação de alguém quando a porta da biblioteca bateu. Quando me virei, meus olhos se arregalaram e eu pensei de verdade que eu iria morrer. Se eu pudesse, era o que eu realmente queria naquele momento.
O que se seguiu foi massacrante. Senti meu corpo imortal se congelar e um torpor que eu nunca imaginei sentir, tomou conta de meu corpo. Alice estava com suas costas prensada na porta trabalhada, com Benjamin a sua frente. Ele beijava violentamente os seus lábios. Seus dedos delicados entrelaçavam no cabelo liso e negro, se entregando a fúria daquele garoto. As mãos dele deslizavam pela lateral do vestido enquanto suas línguas trocavam caricias luxuriosas.
Eu não sabia como reagir, ou o que fazer. Apenas sentia a raiva misturada com a decepção consumir-me rapidamente. Joguei-me nas costas de Benjamin, tentando com toda força acerta-lhe um golpe que seja. Arrancar-lhe dali. Os urros dolorosos saindo de meu peito incontrolavelmente. Ele nada sentia. Claro.
-Alice, para. – eu tentava impedi-la. – Por favor, Alice. – minha voz não passava de um rosnado enquanto meus punhos acertavam o rosto de Benjamin. – Não faça isso. Por favor. – eu implorava.
A dor era imensa. Ela estava tão entregue. Vulnerável nas mãos dele. E eu ali, inútil. Débil. Assistindo a cada segundo daquilo tudo sem poder fazer exatamente nada.
-Alice... – pedi mais uma vez, antes de escorregar pela parede e esconder minha cabeça nos meus braços, apoiados em meus joelhos dobrados.
Foi ali, no chão daquela biblioteca. Vendo Alice se entregar lentamente a Benjamin que senti pela primeira vez a inveja, o ciúmes, a raiva e principalmente o vazio. Aquele vazio que dominava, controlava e me afundava cada vez mais.
Por quanto tempo ficamos ali? Não sei dizer exatamente, porem não foi muito. Ouvi a voz de Bella chamar por Alice segundos depois de ver o sorriso presunçoso no rosto de Benjamin, após ele inalar o ar e olhar diretamente para mim.
