Tinha finalmente chegado o dia de Celine se livrar dos curativos nos olhos, todos estavam muito animados, principalmente a vampira. Jack estava do lado dela, Jéssica e as amigas estavam no fundo do quarto, Duncan estava do outro lado da cama, Jean estava atrás de Celine, pronto para tirar as faixas, e os outros admiradores de Celine estavam se acotovelando na porta. Douglas e Clara estavam junto de Jéssica, apesar de nenhum dos dois olharem pra ela.

-Pronta? – Jean perguntou.

-Pronta. – Celine respondeu apertando a mão de Duncan.

Jean desamarrou as faixas e Celine abriu os olhos bem devagar. Ela piscou algumas vezes para focalizar e sorriu quando notou que a pessoa que estava olhando era Jack. O frankenstein estava sorrindo e ela não conseguiu se segurar.

Ignorando todas as vivas e comemorações Celine soltou a mão do primo e se inclinou para Jack. O beijo veio tão inesperadamente que ele lhe deu um choque, ela se afastou na mesma hora.

-Desculpe. – ele disse morrendo de vergonha.

Ela só riu e disse:

-Vamos ter que trabalhar nisso.

Saíram tantas faíscas do pescoço de Jack que parecia que alguém tinha colocado fogos de artificio no quarto de Celine. Todos riram, menos Douglas e Clara. O íncubo estava tão revoltado que seria capaz de esganar Jack. Quanto a bruxa, ela estava com mais raiva que Douglas, mas não demonstrou. Ela só apertou os punhos tão forte que as dobras dos dedos estavam brancas.

Os admiradores de Celine ficaram tão tristes que saíram chorando pelos corredores, e Danny era o mais barulhento de todos. Pobre sátiro, estava tão cego pelas lágrimas que não parava de tropeçar. Cornélia sentiu muita pena dele, mas sabia que não tinha nada que ela pudesse fazer.

Depois das risadas Jéssica apareceu com as botas de Celine, mais envergonhada que o irmão.

-Eu não sabia como te pedir desculpas, então eu consertei as suas botas.

Celine estava tão chocada quanto os primos, mas por motivos diferentes.

-Você cortou as minhas botas. – ela disse com os olhos arregalados.

Jéssica engoliu em seco e disse:

-A tinta roxa entrou muito no couro em alguns lugares e foi impossível limpar. Então eu tive que cortar-

-Você cortou as minhas botas!

-Eu achei que não tinha problema, o Jack me disse que você achava que elas estavam arruinadas e-

-Você cortou as botas que a Maria Antonieta me deu! – Jéssica já estava fazendo suas últimas orações quando Celine completou: – e elas ficaram tão legais!

Jéssica quase caiu pra trás, tamanho era o alívio. Jean e Duncan trocaram um sorriso e Celine riu examinando as botas.

-Olha só que efeito legal! Parece que foram feitas de frankensteins!

Ela gargalhou e Dylan riu junto enquanto ajudava Jéssica a levantar, aquela cena tinha sido a coisa mais hilária que ele tinha visto na semana inteira. Os outros também riram e Celine colocou suas botas recém-consertadas, elas ficavam meio estranhas com as roupas que a vampira geralmente usava, mas Celine não estava nem ligando. Agora ela não as usava por serem lindas (o que de fato eram), agora ela as usava porque Jéssica tinha tido todo aquele trabalho para consertar. E por mais que Jéssica fosse grossa com ela, Celine gostava da frankenstein.

Dois dias se passaram até Douglas ir falar com Celine. Era noite e ele estava tremendo, Celine estava na margem do lago tirando um tempo para ela mesma. Ele se sentou do lado dela e ela sorriu antes de disser:

-O que você quer, Douglas?

-Faz semanas que você não me chama. – ele respondeu. – está começando a aparecer.

Celine olhou bem pra ele e viu que era verdade, sem energia vital Douglas parecia cansado e até mesmo fraco. Os cabelos, antes castanhos cheios de vida e brilho, estavam opacos e quebradiços, os olhos castanhos estavam começando a ganhar uma cor leitosa e, Deus os protegessem, Douglas estava com rugas! A garganta de Celine se apertou e ela o abraçou.

-Sabe que você é um dos meus melhores amigos, não sabe? – ela perguntou com o rosto enterrado no pescoço dele.

-Sei. – ele respondeu a abraçando de volta.

-Vai continuar assim depois que o nosso acordo acabar?

Douglas ficou com os músculos completamente tensos. Ele já sabia que Celine não estava mais interessada nele, mas ouvir aquilo em voz alta era muito doloroso. O que ele ia fazer agora? Podia não ser um monstro muito legal, mas não era um assassino. E ele também não queria morrer. Ele engoliu em seco, Celine nunca tinha sido sua namorada, nunca tinha sido exclusivamente dele. Ela era sua amiga, uma boa amiga.

Ele finalmente notou que o que ele e Clara estavam fazendo era errado. Ele não sabia exatamente o quê eles estavam aprontando, mas a ideia era separar Celine do menino que ela verdadeiramente gostava. E isso era errado. Celine realmente era uma de suas melhores amigas, ela merecia alguém legal, alguém que ela gostasse de verdade. Ela merecia ser feliz, mesmo que ele ficasse com dificuldades depois.

Então, com muita dor no coração, ele respondeu:

-Claro que vai.

-Então vamos.

Ela se levantou e o levou pela mão para o seu quarto.

No dia seguinte Douglas nunca tinha aparecido no refeitório mais bonito. E todos notaram, especialmente uma certa bruxinha que tinha acabado de chegar.

Ela era linda, meio baixa, mas isso lhe dava um ar de bonequinha. A pele era morena e os cabelos eram longos ondulados num corte irregular com uma cor castanho meio cobre, tinha uma franja jogada de lado, cobrindo parcialmente seu olho esquerdo. Seus olhos era muito interessantes, porque cada um tinha uma cor. O direito era azul e o esquerdo era verde.

Ela sorriu e correu na direção dele gritando a pleno s pulmões:

-DOUGIE!

Quando Douglas deu por si tinha uma bruxa colada nas costas dele que nem um carrapato feliz da vida. Ele sorriu e a puxou para um abraço.

-Lie! Como você está?

-Eu estou ótima, acabei de voltar para o colégio.

Ele estranhou e disse desconfiado:

-Você não ia ficar em Salem até o Natal?

-Elas não gostaram das minhas teorias de interações entre espécies, então me mandaram de volta. – ela o abraçou mais forte. – mas eu estou tão feliz de te ver de novo!

Ele riu e disse:

-Eu também estou feliz.

-Cadê a Amy e a Agatha? – ela perguntou olhando em volta. – estou com saudade delas.

-Já vão chegar. Você lembra da Celine e dos primos dela?

Lie olhou para a vampira sentada na mesma mesa que Douglas e engoliu uma careta, por que será que Celine sempre estava deslumbrante?

-Oi Celine. – ela disse desanimada. – o que aconteceu com as suas botas?

-Longa história. – ela respondeu sorrindo.

-Oi Jean. – ela acenou um pouco mais feliz. – e aí, Duncan?

Eles acenaram de volta sorrindo. Amy e Agatha chegaram em menos de cinco minutos e, assim que viram Lie, saíram pulando na direção dela.

Jack, Jéssica, Cornélia e Dylan apareceram olhando a cena. Cornélia bufou e Dylan sorriu. Os gêmeos não sabiam o que estava acontecendo, e foi Jéssica que perguntou:

-Que é a baixinha que está pulando com a Amy e a Agatha?

Dylan deu uma risada antes de responder:

-É a Lie, e é melhor você não chamar ela de baixinha. Cornélia fez isso e ficou cacarejando por um mês.

A górgona bufou de novo e cruzou os braços.

-Foi muito deselegante! E eu não tinha dito aquilo por mal, eu só não sabia como chamá-la. E ela nem sabe o perigo que ela correu, quase tirei os meus óculos pra ela ver o que era bom pra tosse!

Dylan rolou os olhos e passou o braço pelo ombro de Cornélia.

-Mas você é muito educada pra isso. – ele disse com carinho. – e sabe que se ficar guardando rancor pode ficar com rugas!

Cornélia fechou mais a cara e foi para a mesa batendo o pé. Dylan riu mais e dessa vez Jack o acompanhou. Jéssica não riu, não tinha gostado nem um pouco de ver Dylan daquele jeito com Cornélia.

Clara entrou no refeitório e empinou o nariz quando viu Lie. As duas bruxas se detestavam desde que eram pequenas, e o fato de serem vizinhas não ajudava nem um pouco. Isso mais o fato de Celine não notar nela fez a bruxa voltar para o quarto, não querendo ver ninguém.

Claro que Lie notou quando Celine foi se sentar perto de um frankenstein, ela nunca tinha imaginado que a vampira estivesse interessada em uma coisa daquelas. Mas quem ligava? Pelo visto Douglas estava livre, leve e solto!

Jéssica adorou Lie, ela, Agatha e Amy eram muito próximas, então a frankenstein viu que tinha alguma coisa de especial na bruxa. E o sentimento foi mútuo, Lie nunca imaginava que frankensteins podiam ser tão divertidos!

-Lie. – Dylan chamou. – quando você vai desistir desse boboca e ficar comigo?

-Quando os porcos voarem. – ela respondeu sorrindo.

Todos riram, menos Jéssica. Como ela nunca tinha notado o quanto Dylan era galinha? Ela sabia que ele gostava de meninas, mas não sabia que ele gostava tanto assim. Será que ele só estava sendo amigável com ela por segundas intenções? Ele passou o braço pelo ombro de Amy e o outro pelo ombro de Agatha e foi como um soco na barriga de Jéssica.

Ela se viu forçada a ver que talvez Dylan não gostasse dela do jeito que ela gostava dele. Talvez ele só gostava do rosto dela, porque remendada ou não Jéssica continuava a ser uma menina muito bonita.

Todas aquelas dúvidas e revelações deixaram a frankenstein enjoada e ela foi embora. Não aguentava mais olhar pra ele.

Lie ficou colada em Douglas o dia todo, então ele só teve tempo de ir falar com Clara de noite. Ela estava esperando por ele na porta do quarto, ele nem lhe deu chance de falar.

-Eu não quero mais fazer isso. – ele disse sério.

Ela ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços com um sorriso irônico antes de dizer:

-Você tem alguma ideia do que estamos fazendo?

-Não sei. – ele admitiu. – e também não me importa. Faça o que você quiser, eu estou fora.

Ele já ia dar as costas para Clara, mas ela o segurou pelo braço. Ele nunca a tinha visto mais vulnerável.

-Posso saber por que você está desistindo?

-É bem simples, eu não queria que Celine passasse muito tempo com Jack, porque eu pensei que ela ia ficar a minha disposição pra sempre, ok? Só ontem que eu vi o qual estúpido é esse plano! E como eu fui egoísta. Claro que sem Celine a coisa vai ficar difícil, mas eu tenho que aprender a conviver com isso. Celine é minha amiga, e como todo amigo, eu quero que ela seja feliz. Entendeu?

Clara nunca tinha parecido mais entediada, só deu de ombros e puxou Douglas para dentro do quarto.

-O que você está fazendo? – ele perguntou meio desconfiado.

-Tem uma coisa que eu tenho que te mostrar.

Clara era igual a Celine, tinha um quarto só dela e podia decorá-lo do jeito que ela quisesse. Douglas nunca se sentiu mais desconfortável em um quarto na vida. As paredes tinha uma cor estranha de vermelho, estavam muito sujas, o chão parecia que nunca tinha visto uma vassoura e as costinhas estavam rasgadas de um jeito assustador. A cama de Clara era a única coisa arrumada e eram tantas prateleiras que o íncubo chegou a ficar tonto. E que vidros estranhos que estavam lá... alguns conseguiram fazer Douglas ter ânsia de vômito. No centro do quarto tinha um caldeirão sujo e um livro enorme.

-Espere aqui. – Clara disse sem olhar pra ele.

Ela desapareceu e Douglas engoliu em seco. Como ele não tinha mais nada pra fazer ele foi xeretar o livro, grande erro.

Pelo visto Clara queria fazer duas poções. Uma era uma poção do sono e a outra era uma espécie de veneno, ele leu os ingredientes e estava escrito mais ou menos assim:

"-Duas penas de harpia;

-Dez olhos de sapo;

-Três cogumelos brilhantes;

-Um chifre de unicórnio;

-Duas asas de demônio"

O último ingrediente assustou Douglas. Onde Clara iria arranjar aquilo? Pelo o que ele sabia nenhum mercado tinha permissão para vender asas de demônio, nem mesmo o mercado negro. Isso era porque asas de demônio eram um ingrediente muito instável, sua maldade podia atingir pessoas que não tinham nada a ver com a história.

Só então a ficha dele caiu.

Ele era, em suma, um demônio. E ele tinha asas, Clara já tinha visto. E se ela tentasse pegar as asas dele? Só o pensamento o fez tremer. De repente aquele quarto ficou assustador demais, ele nem conseguia respirar. Um dos jarros tremeu e ele foi tremendo ver o que era.

Ele quase caiu pra trás quando leu o rótulo: "Medo de lobisomem". Douglas leu mais alguns rótulos e ele viu que todos estavam proibidos de circularem, aqueles ingredientes estavam banidos da sociedade mágica. Fosse lá o que Clara estava fazendo era uma coisa má. Onde Clara estava conseguindo aqueles ingredientes?

A resposta veio a Douglas como um soco na cara, de repente ele não sentia vontade de sair do quarto. Ele sentia urgência em fazer isso.

-Está tudo bem, Douglas? – Clara apareceu tão perto que ele até pulou de susto.

-Eu vou embora. – ele disse praticamente correndo pra porta.

Mas alguma coisa o acertou na cabeça e ele caiu no chão. Clara se sentou em cima dele com a maior naturalidade e simplesmente assim ele não conseguiu levantar.

-Você vai me ajudar, Douglas, nem que seja a força.

Ele tentou se soltar, tentando desesperadamente chegar até a porta, mas Clara bateu nele e tudo ficou escuro.

Ai ai ai! Agora complicou! O que será que vai acontecer agora? E quem sabe de onde a Clara conseguiu aqueles ingredientes? Eu já dei umas três dicas, quem vai arriscar?

Comentem!

PS: podem continuar me mandando monstros, tá?