Capítulo 6 – Culpa

O que sobrou da comitiva se dirigia em direção à cidade de Sacramento mais uma vez. A madrugada já seguia firme, e o visor do celular de Peeta marcava quase meia-noite e meia. Na Land Rover guiada por Johanna Mason, que levava o loiro, Cato e Haymitch, o silêncio era absoluto. O choque ainda não havia passado.

Quando finalmente alcançaram o subúrbio, os veículos foram estacionados no galpão e Finnick falou para que todos fossem para a sala de reunião do conselho. O agente do FBI achava que alguns membros do Tordo tinham ido dormir, mas o local estava movimentado com a chegada da comitiva. O loiro supôs que o outro havia dito alguma coisa sobre o ocorrido.

Amber estava sentada na mesa, à esquerda, próxima à posição que antes era ocupada por Katniss Everdeen. Todos os agentes do FBI se acomodaram como puderam, assim como os membros do conselho do Tordo. Finnick ligou o computador e tratou de iniciar uma videoconferência com Beetee, que parecia cansado. Quando relatado do ocorrido, o cientista ficou em choque.

Cato explicou que os acontecimentos daquela noite também seriam relatados para o FBI, e eles tomariam medidas para resgatar a líder do Tordo o mais rápido possível. Porém, era preciso que qualquer informação sobre Coriolanus Snow fosse repassada a eles com urgência para Amber, a fim de que um plano pudesse ser traçado.

Após a confirmação por parte da hacker de que as informações foram recebidas com sucesso e de que uma brecha seria aberta no servidor da sede do Tordo em Mojave para que a ruiva pudesse obter qualquer informação sem intermédio de ninguém. Finnick se despediu e a ligação foi desligada. O rapaz suspirou.

- Vocês precisam contatar o FBI agora, certo? – o rapaz, que deixou o ar galante para que a preocupação tomasse conta de cada traço, questionou após se sentar na cadeira ao lado direito da posição de Everdeen.

- Sim. Devemos esperar o amanhecer... – Cato começou.

- Não. Ligaremos para Jack agora. – Peeta o cortou. – Sei que a hora não é uma das melhores, mas não podemos esperar até de manhã. Katniss e Clove talvez não sobrevivam até de manhã.

O outro engoliu em seco e assentiu, pensando na agente que não estava entre eles naquele momento. Glimmer pegou o telefone da sala e discou para o número de seu chefe em Los Angeles.

- É bom o maldito que estiver me ligando a essa hora vá para...

- Jack. – Peeta chamou, com a voz soando firme e séria.

Do outro lado da linha era possível ouvir que o chefe deles aparentemente se sentando e suspirando com pesar. Parecia prever a razão daquela ligação durante a madrugada.

- Algo me diz que não vou gostar nada do que estarei prestes a ouvir.

- O baile promovido por Snow era uma armadilha. – ele explicou, sem dar atenção. – Everdeen e Blake foram capturadas durante a nossa fuga. Precisamos de reforços para o resgate, Jack. E logo. Não sei até quando elas vão aguentar.

A sala se manteve em silêncio, exceto pelo bufo de Jack Brutus. A tensão pela demora de qualquer pronunciamento tomou a sala, principalmente os agentes, que se entreolhavam e aguardavam a resposta de seu comissário.

- Ligarei para Sacramento. Direi a Chaff para ter uma equipe logo pela manhã para nos dar suporte.

- E o que faremos?

- Esperem por mim. Amber! – ele chamou e a ruiva respondeu de prontidão. – Coloque-me no primeiro voo da manhã para Sacramento. Não façam nada até eu chegar.

Os agentes assentiram e a ligação foi finalizada.

O grupo se entreolhou e Peeta olhou para um Finnick abalado. Era difícil para o loiro associar aquele homem ao galante com sorriso sedutor que tanto falou de Katniss para ele antes de conhecê-la, meses atrás. Tudo aquilo parecia ter sido há vários anos.

- Vão descansar. Terão muito que fazer amanhã. – Odair começou, passando a mão pelos cabelos e soltando um suspiro cansado.

Todos assentiram e se levantaram. O grupo de agentes, exceto por Amber, foram aos seus quartos.

Peeta, ao chegar, tirou suas roupas e entrou no banheiro. Contudo, antes de entrar na área de banho, ele se olhou no espelho. O cansaço marcava cada traço de seu rosto, que estava sujo de poeira. Sangue seco coloria uma parte de seus cabelos, em volta do corte que havia sofrido. Numa pequena estante, havia álcool. Aquilo serviria por enquanto. Precisou morder o lábio com força para conter o grito de dor quando o líquido atingiu a pele. Aos poucos, limpou os ferimentos e analisou seu reflexo mais uma vez. Gostaria que Madge tivesse vindo com eles. Mas missões de campo daquele tipo não faziam parte do trabalho da médica forense.

Guardou o álcool e foi para a área de banho, girando o registro e tratando de molhar o corpo inteiro e demorar mais do que seria necessário. Queria que aquela água levasse todo o peso que caía em suas costas. O peso da culpa. O loiro bateu no azulejo da parede, tentando conter a frustração que crescia dentro de si.

Desligou o registro e puxou a toalha, secando o corpo antes de colocar a roupa que usaria para dormir. Deixou o pequeno cômodo ainda secando os cabelos e encontrou Cato sentando em sua cama, com o olhar distante. Com certeza ele ainda pensava na namorada que já não estava ali.

- Será que ela ainda está viva? – o mais alto perguntou, com a voz um pouco embargada, apesar de segurar qualquer lágrima que ameaçasse cair.

- É claro! Estamos falando da Clove. – o outro falou, sentando-se de frente para o amigo. – Aquela ali é dura na queda. Nós dois sabemos disso.

- Ela será torturada Peeta! E se...

- Não vamos pensar no "e se", ok? Jack chegará amanhã cedo e vamos sair ao resgate dela com a equipe de Sacramento. Ela aguentará até lá. Disso eu posso garantir.

Cato assentiu, abrindo um meio sorriso, como se aquela ideia pudesse consolá-lo, mesmo que temporariamente. Observou o parceiro se deitar na cama e bufar em frustração.

- Gostaria de poder voltar no tempo. – Peeta comentou. – Deveria ter deixado o caso morrer quando Jack falou que arquivaria. Por minha culpa, todos quase morremos. Ainda perdemos Clove temporariamente. E Katniss...

- Você não tomou uma decisão errada...

- Tomei sim! Achei que podia lidar com isso quando Alma Coin, Everdeen ou qualquer outro nunca tentou mexer com a fera que é Coriolanus Snow. Claro que é minha culpa! Deveria ter dado ouvido a vocês.

- Talvez. Talvez não. Duvidava dessa missão inteira, pra começar, mas aquele homem não é algo que podemos ignorar. Ele possui armas e não hesitaria em dizimar metade do país, se assim desejasse.

- Mas poderíamos ter feito diferente. Talvez esperado. – o mais novo comentou, sentando-se ao lado dele. – Minha culpa. Prometo que vou dar um jeito nisso.

Os dois sorriram, apesar da tristeza. Cato se despediu do amigo e o deixou sozinho. Esperava que pudesse cumprir o que dissera ao outro. Peeta sabia que Katniss e Clove eram resistentes. Mas todo mundo possuía um ponto fraco.

O rapaz afugentou aquele pensamento de sua mente e se deitou. Só esperava que as duas mulheres aguentassem firme até que o FBI as resgatasse.


O voo de Jack estava marcado para sair de Los Angeles às quatro e cinquenta da manhã, e estava previsto para chegar ao aeroporto de Sacramento as seis e dez. Amber havia acordado Peeta para informar que Chaff estaria à espera, e acrescentou que seria bom enviar alguém da equipe para se juntar a eles.

O loiro, apesar do sono, pediu para que ela chamasse Glimmer e avisasse que ela ficaria encarregada de guiar Brutus até o subúrbio onde estavam hospedados. Quando Foxface o deixou sozinho, ele tateou pela escrivaninha a procurar de seu celular. Ainda não passava das cinco. Olhou para a porta e perguntou se a ruiva havia ido dormir.

Suspeitava que não, mas o momento de questionar não era aquele. Jogou o celular na cama e antes que seu corpo se deitasse, o loiro se pôs de pé e cambaleou até o banheiro. Molhou o rosto na pia algumas vezes até espantar o sono. Pegou uma calça de moletom entre seus pertences e a vestiu, assim como uma camisa simples que pegou.

Abriu a porta para o corredor bem a tempo de ver Glimmer, já arrumada, seguir Amber para fora. Acenou para as duas e elas sumiram de vista. Marvel apareceu no corredor e cumprimentou o outro, mesmo com o sono marcando cada traço de seu rosto, antes de sumir pela passagem da porta.

Peeta decidiu andar um pouco, mesmo sendo orientado a não deixar o prédio por motivos de segurança. E não tinha o que ver no galpão, exceto pelos carros de todos ali presente. Ao encontrar a escadaria, ele decidiu subir até o telhado e ir de encontro à manhã fria de Sacramento.

Finnick Odair estava lá, olhando para a cidade se estendendo no horizonte, com ar pensativo. Quando percebeu que não estava sozinho, acenou para o outro. Antes que ele voltasse para os seus pensamentos, o loiro quebrou o silêncio.

- Glimmer deixará o lugar para buscar Jack Brutus no aeroporto. – começou e caminhou até ficar ao lado do conselheiro. – Na ausência de Katniss Everdeen, eu gostaria que você tomasse a frente do Tordo na missão.

- Claro...

Não sabia mais o que dizer. Pensou que falar sobre resgatar a morena logo e que ela está bem na medida do possível parecia soar falso em sua mente. Não restava nada a ser dito.

- Peço perdão. – Peeta disse, por fim, pois era a única coisa que talvez não soasse tão falso. – Por tudo.

- Não é a mim que você tem que se desculpar. – Finnick interveio. – Ela realmente ama você, sabia disso? Dava pra ver isso quando vocês implantaram o vídeo com o pedido de resgate. Kat achou que havia sido o velho Snow. Ela viria até Sacramento por você.

O loiro se sentiu mal. Desejou desesperadamente que tudo fosse diferente.

- Ela é uma mulher de se admirar. – o outro continuou com seu tom de voz quase beirando à nostalgia de tempos passados. – Trocou a própria vida por todos nós. Ela nos contou tudo sobre o acordo com o FBI.

Peeta assentiu e sorriu. Não importava quão dura aquela mulher era, mas Katniss Everdeen era realmente de se admirar.

Depois de mais alguns minutos de silêncio, os dois rapazes decidiram por voltar e se arrumarem, já que Jack Brutus não deveria demorar a chegar. No corredor onde ficavam os quartos dos agentes, a movimentação era grande. Amber informou que Glimmer já havia se encontrado com o comissário, que estava em companhia de Chaff e a caminho do subúrbio.

Quase vinte minutos depois, os agentes se encontravam no galpão, junto com Finnick, Johanna e Haymitch. Quando o Fiesta preto, seguido de um furgão da mesma cor, estacionou, Jack desceu, juntamente com o motorista, um homem negro, tão alto quanto Brutus, aproximando-se da casa dos cinquenta anos. Sua característica mais peculiar era a falta da mão esquerda, que havia perdido anos atrás, no Afeganistão.

O comissário de Sacramento era mais animado, diferente do comissário de Los Angeles, e cumprimentou a todos com uma animosidade incomum. Apresentou-se e informou que tomou a liberdade de trazer a equipe para aquele lugar, a fim de usar aquele local como base para a operação de assalto à mansão. Finnick deu um passo à frente e se apresentou formalmente e anunciou que estava à frente do Tordo durante aquela crise, deixando claro que tudo pertencente a organização estava a disposição do FBI.

O conselheiro guiou os dois comissários e suas equipes para a sala de reunião. O cômodo não era grande para comportar tantas pessoas, então havia decidido que apenas a equipe de Los Angeles estaria presente, já que testemunharam o ocorrido e tem conhecimento da mansão de Coriolanus Snow.

- O que aconteceu exatamente? – Chaff questionou, dessa vez sério, sem nenhum traço do bom humor de minutos antes. – Apenas tenho conhecimento de que estavam em missão quando foram atacados.

- Inicialmente, - Peeta começou. – descobrimos resquício de material nuclear no porto de Los Angeles. Nossa investigação levou a Katniss Everdeen, líder do Tordo, uma máfia que produz e vende armamento. Ao prendermos a cabeça da máfia, descobrimos que ela era apenas a ponta do iceberg. Com um pouco mais de investigação e um acordo, conseguimos ter acesso a informações sobre Coriolanus Snow.

- Ele é o nosso principal cliente. E um dos mais antigos também. – Haymitch informou.

- O homem propôs uma festa e convidou a todos nós. – o rapaz continuou, agradecendo à observação dada pelo outro. – Mas era uma armadilha. Eu estava dentro da mansão, acompanhada por senhorita Everdeen, quando tudo aconteceu.

- Alguns convidados eram agentes do velho disfarçado. – Johanna explicou. – Sacaram as armas e atacaram, até lançarem uma granada para nos atordoar.

- Quantas baixas? – Chaff perguntou, ponderando tudo o que estava ouvindo.

- Nenhuma. – Peeta disse, e acrescentou em seguida. – Ainda. Katniss Everdeen e agente Clove Blake estão sendo mantidas como refém. Precisamos de uma equipe de assalto para resgatá-las antes que seja tarde demais...

- Caminha ai! – o comissário de Sacramento interrompeu. – Não é tão simples assim garoto. Preciso ter conhecimento prévio sobre esse Coriolanus Snow. Também preciso saber de informações como planta da mansão, esquema de segurança, e outros detalhes apenas para traçarmos um plano de ataque à mansão. Isso levaria no mínimo dois dias.

- Mas elas podem não ter dois di...

- Até onde eu sei, Jack não me ligou para ajudá-lo em uma missão de resgate. – o moreno disse. – Estou aqui para assumir uma missão de assalto que você estava encarregado e fracassou miseravelmente.

- Jack! – Peeta chamou, indignado, olhando para o próprio comissário.

- Eu disse a você as consequências. Disse que não haveria mais volta quando aceitasse o maldito acordo que aquela vadia impôs. Agradeça por não ter falado com Washington ainda. – Brutus se manifestou, com o tom de voz autoritário.

- E Clove? – o outro questionou. – Ela é sua agente! Cato! – e se virou indignado para encarar o amigo.

- Peeta, por favor... – o loiro mais alto falou, lançando um olhar de advertência para ele.

Mesmo que fosse a vida de Clove Blake em perigo, Cato não falaria nada. Ele não faria nada a respeito. Sacrificaria a mulher que amava em prol da missão. Até o próprio Peeta sabia que a morena preferia ser morta a ter a missão comprometida por sua causa.

Algo no loiro dizia que Katniss Everdeen não era dessa forma. Mesmo que aceitasse a morte de bom grado, a moça não queria que tudo acabasse nas mãos de seu inimigo. Ao menos isso ela desejaria. E Peeta daria isso a ela. Devia isso a ela depois de tudo o que havia feito.

- Não acredito que vocês estão as tratando como algo descartável... – o rapaz falou, olhando a todos.

- Já chega! – Jack falou, com a voz transmitindo cada traço de irritação que seu agente estava causando. – Senhor Odair. – e se virou para o representante do Tordo. – Agradeço por toda ajuda prestada. Saiba que nossa parte do acordo foi cumprida. Os nomes de todo mundo estão limpos para seguirem suas vidas de agora em diante.

- Mas... – Finnick tentou falar, mas Brutus o cortou.

- Espero que nos permita usar este lugar como base durante essa crise. Prometo que liberaremos o prédio assim que concluirmos esse caso. Griffin! Certifique-se de que todos os membros do Tordo deixe a cidade de Sacramento e volte para Los Angeles ainda hoje.

- O que?! – Johanna questionou indignada.

- E se certifique também de que Mellark irá com eles.

- Como é que é? – Peeta perguntou incrédulo. – Está...

- Você está fora do caso a partir de agora. Volte para Los Angeles e se comporte. Talvez eu consiga livrar a sua pele do inferno que Lyme irá querer enfiá-lo.

- Jack... Eu liderei essa missão desde o início. – o rapaz tentou explicar. – Não acredito que está me tirando dela num momento tão decisivo!

- Você teve sua chance. – o comissário de Los Angeles falou, num tom que não aceitaria mais discussão. – Foi sob sua liderança que Blake e Everdeen foram capturadas e pusera a missão inteira em risco. Agora suma daqui. Quero você em Los Angeles até amanhã de manhã.

Tudo o que aquele homem dizia o atingia como um saco no estômago. Não bastava a culpa que ele próprio estava mergulhado, seu chefe ainda precisava colocar mais sal na ferida. E por mais que odiasse tudo aquilo, Jack tinha razão.

Por fim, Peeta assentiu e saiu da sala sem olhar para ninguém. Apenas deixou a sala de reunião e todas as pessoas que estavam nela para trás em direção ao seu quarto, onde esperava que fosse deixado sozinho com sua raiva e culpa.