Tolice II

Muito iria de dizer a respeito do escândalo de ser deixado praticamente no altar, mas a verdade é que para Draco aquilo fazia muito sentido. Há anos já não tinha tanto orgulho assim com o qual se preocupar, e não estava preocupado com as fofocas. Os olhos, cansados, nem mesmo se arregalaram quando descobriu que ela fora embora. Talvez fosse realmente melhor assim.

As pessoas achavam que ele estava magoado, e quando ficou claro que ela fora embora com Zabini, que se sentia traído. Achavam que ele queria vingança, ou que ela acabaria voltando, ou que Blaise deveria temer que ela se arrependesse. Diziam que ela tinha o trocado por uma fortuna maior, um nome mais limpo, mas ele sabia que não era bem assim.

Muita gente acreditava no amor dos dois, e talvez houvesse realmente algum amor, mas não daquele tipo. Não o amor que seus pais tinham a devoção intensa, a paixão absurda. Não, Draco jamais sentira nada disso em relação à Pansy – tinha entregue tudo que poderia entregar de seus sentimentos há muito tempo atrás, e não tinha nada para a namorada oficial a não ser migalhas.

Mas ela o confortava e fora justamente isso que o fizera se acomodar. Um bom casamento não precisa de paixão, ela costuma acabar, e ele tinha pedido pensando apenas no companheirismo, não no desejo ou no amor. Não tinha percebido que ela queria muito mais que isso, que merecia muito mais que isso. Na realidade, achava que era o papel dela exigir, ir embora, se queria mais.

E fora exatamente isso que ela fizera, ainda que no último minuto. Ela trocara suas migalhas pela promessa de um relacionamento pleno, verdadeiro, novo, cheio de frutos. Claro que Draco sabia, há tempos, que Blaise era apaixonado por ela – só ela mesma era incapaz de perceber isso. Se fosse um grifinório, talvez, tivesse aberto mão dela voluntariamente para que ele tentasse, mas de que adiantaria se ela estava disposta a ser cega?

Ele não trocaria seu conforto por nada.

Falavam, é claro, do quão clichê e tolo era a noiva fugir com o padrinho do casamento, mas para ele era uma sorte. Talvez Blaise tivesse livrado-o de um peso a mais em sua consciência, a do sofrimento da mulher que fora sua amiga por toda a vida e a quem ele não poderia dar mais do que gentilezas e conformidades. Melhor só do que casado por aparências, diria sua mãe, que nunca fora a favor daquela união sem amor. Talvez ela estivesse certa, ele nunca iria saber agora.

... Ao menos, ela saberia. Ela teria felicidade, alegria, devoção, amor, paixão, carinho, companheirismo, firmeza, solidez e uma boa vida. Ele também teria todas essas coisas, e mais, a mulher com quem sempre sonhou. E, para Draco, isso era o suficiente para que não se irritasse com as fofocas, com os risinhos, com os comentários maldosos e tolos que os outros faziam.

Ele tinha orgulho de saber perder com dignidade, para alguém melhor que ele.

(Mais uma vez)