Chichi estacionou o aerocarro na porta da casa da amiga, ajudou o seu filho caçula a descer, apertou o botão para que virasse cápsula de novo, viu Goten correr até a porta feito um louco enquanto enfiava a cápsula na bolsa.
- Goten… Não corra, filho, você pode cair e se machucar – advertiu ela enquanto caminhava atrás dele.
- Que nada mãe! Eu sou um sayajin.
O garoto apertou o interfone. Passados uns segundos, Bulma apareceu na porta escancarada.
- Que bom que veio, Chichi.
A mulher de cabelos azuis afastou-se para que a morena entrasse.
- Tia Bulma, onde está o Trunks? – perguntou ansioso o pequenino.
- No quarto, querido. Pode subir.
Bulma acariciou os cabelos rebeldes do garoto e algumas lembranças das suas aventuras com o seu amigo vieram à sua mente. Afinal, aquele garotinho era uma cópia exata de Son Goku quando se conheceram. Suspirou fundo, a ver o garotinho correr.
- Goten-kun, não corra na casa dos outros! – Chichi gritou tão alto que Bulma teve que tapar os ouvidos. Os pássaros das árvores do quintal saíram alvoroçados, subindo pelo céu afora. A seguir, baixou o tom de voz: – Tenha modos, filho.
- Deixa ele, Chichi. Só esta ansioso para brincar com o Trunks…
Bulma olhava-a com tristeza, as olheiras eram visíveis sob os olhos inchados de tanto chorar, mostrava que a mulher tinha dormido pouco e chorado muito. Chichi respirou fundo, não queria apelar a melodrama, nem carregar no ponto que magoava mais Bulma. Haveria de resolver aquele assunto rapidamente e perguntou direta:
- Onde está a pequenina?
- Está com a minha mãe. Mas antes quero que venha comigo
Bulma entrou no seu quarto, agarrou no bilhete e mostrou-lho. Chichi leu linha por linha. Baixou a mão que segurava o pequeno pedaço de papel que tantos tormentos tinham causado à cientista e encarou-a com um sorriso singelo.
- Parece um bilhete comum, daqueles que uma mãe escreve quando não tem condições de cuidar do filho.
- Não é um bilhete comum, Chichi. Leia de novo – insistiu Bulma apontando nervosamente para a mão da amiga. Os olhos estavam aguados.
Chichi fez-lhe a vontade e deu mais uma leitura. Pelo sim, pelo não, releu as poucas linhas uma terceira vez, arqueando uma sobrancelha, pois continuava sem encontrar qualquer indício ou prova de culpa ou sequer uma ténue explicação naquelas palavras manuscritas.
- Continuo sem perceber…
- Aí está escrito, com todas as letras, que Vegeta é o pai da criança.
- Mas, eu não vejo nada que aponte isso.
- Como não?
Bulma tomou o bilhete com raiva da mão de Chichi e começou a explicação, apontando a unha pintada para as primeiras linhas.
- "Para que nunca te esqueças"… Está diretamente relacionado com o pai da criança que deixou a mulher abandonada. Para que ele nunca se esqueça do erro que cometeu, agora fica com a responsabilidade de criar o erro. "Quero que saibas que nunca me esquecerei de ti, minha doce filha"… Esta será tanto para o pai, como para a menina. A mãe nunca se vai esquecer da filha, mas também nunca se vai esquecer do pai. O que quer dizer que ela ainda o ama, ao maldito que a abandonou com a criança. "Adoro-te, és a minha vida"… Outro recado para o miserável do pai. Depois de tudo o que ele lhe fez, ela ainda tem esperança que ele regresse… Vê se isso tem cabimento, Chichi! Quem vai querer que alguém que tenha magoado assim tão fundo, regresse? Eu não o quero nunca mais aqui, na minha casa! Aquele saiyajin marrento… Ontem, ele passou a tarde toda fora e não me quis dizer onde esteve. Como é possível? Tenho certeza que ele aprendeu algo com o verme do Yamcha.
Bulma estava a nadar em desespero, pálida, chorosa, esvaída. Chichi analisou-a condoída. Estendeu a mão a ela e disse:
- Deixe-me ler novamente.
Bulma devolveu-lhe o papel, amassado e quase rasgado de tanto ler, reler, chorar sobre ele, nem sabia ao certo como ainda estava inteiro. Chichi pegou o papel, desamassando com jeito para não rasgar, leu mais uma vez, palavra por palavra e mais uma vez lhe disse:
- Bulma, sinceramente, eu não sei onde você está vendo duplo sentido nessas frases. É só um bilhete de uma mãe a despedir-se da filha. E a mulher está sofrendo por ter de se separar do seu bebê.
- Se ponha no meu lugar, Chichi! – exclamou Bulma indignada e nervosa. – Se fosse deixado um bebê na porta da tua casa, o que faria com o Goku?
Chichi colocou uma mão no queixo, pensativa, recordando se tinha havido alguma ocasião em que pudesse desconfiar do Goku daquela maneira. Só tinha havido uma, pensou com um meio sorriso, depois de ele ter chegado de Namekusei e de lhe ter contado sobre o saiyajin que tinha aparecido e que tinha derrotado Freeza. Não era possível que existisse outro saiyajin na Terra, com a idade que Goku dizia que ele tinha, a não ser que tivesse havido uma escapadinha… O que também seria estranho, pois Goku estava sempre nas montanhas Paozu com ela, a não ser quando se afastava para treinar. Naquela ocasião, berrara-lhe, azucrinara-lhe o juízo e depois ele revelara que o rapaz tinha vindo do futuro, numa máquina. Ela não acreditara logo… olhou para Bulma, apertou as mãos diante do corpo.
- Bulma, nunca conseguiria desconfiar do Goku dessa maneira. Ele é ingênuo demais para ter um relacionamento fora do casamento…
A cientista revirou os olhos.
- Tem razão. Nem sei como ainda teve seus filhos com ele…
Chichi começou a corar.
- Bulma... Sabe, no começo do nosso casamento foi difícil, mas depois ele aprendeu. Nunca tomava a iniciativa, mas quando Goku estava inspirado, sabe… Eh… Ele me levava até às nuvens...
Bulma sacudiu as mãos para cortar a conversa que tomava um rumo indevido.
- Olha, não me contes detalhes, por favor... Foco! Estamos aqui para falar do Vegeta e da criança. – Cruzou os braços e acrescentou contrariada: – Ao contrário do Goku, Vegeta não é tão ingénuo. Ele já deve ter tido muitas mulheres por esse universo. Ou muitas fêmeas, melhor dizendo…
- Mas como eu disse a você pelo telefone, ele não é do tipo que trai – argumentou Chichi. – E não acho que iria trocar você por uma sirigaita qualquer. Não é do feitio dele andar à procura de uma aventura com saias.
Foi a vez de Bulma suspirar. Abanou lentamente a cabeça, desalentada.
- Eu não sei mais o que pensar. Melhor você ir tirar as suas próprias conclusões.
Chichi assentiu, determinada.
- Hai.Então, vamos onde a pequenina está. Quero vê-la o quanto antes e depois digo-te a minha opinião.
Saíram do quarto à procura da senhora Briefs, que cuidava da garotinha com desvelo, como uma verdadeira avó. E deveria estar a sentir-se assim, uma avó novamente com um bebê, o que irritava ainda mais Bulma, alimentando-lhe a desconfiança e o rancor.
Trunks deu pausa na consola para verificar, pela sexta vez, se ainda ouvia a voz das duas mulheres, mas agora, finalmente, o silêncio instalara-se. O amigo olhava para ele na expetativa, com o comando entre as mãos. Estavam os dois no quarto do primeiro, matando o tempo com um videojogo.
- Goten, parece que já saíram do quarto da minha mãe.
- É… Parece mesmo. Já podemos ir ver onde tem o ninho das cegonhas?
- Não é preciso ir muito longe, Goten. – Trunks caminhou lentamente e abriu a porta do quarto devagar. – Esqueceu que meu avô tem um monte de bicho no seu zoológico, aqui na minha casa? Ele deve ter alguma cegonha no meio.
- Ah… Mas como vamos saber?
- Simples... Nós perguntaremos ao meu avô. Ele está no laboratório, só precisamos ir até lá sem ninguém saber.
Olhou de um lado para o outro para ver se o corredor estava limpo e saiu do quarto acenando para que o amigo o seguisse. Trunks seguia encostado à parede e Goten o imitava.
- Não faça barulho – sussurrou ele.
- Hai – concordou o menino mais jovem.
Chichi e Bulma chegaram à cozinha. A cientista não olhou para a criança que se sentava na cadeirinha que brincava com um chocalho numa das mãos, que agitava animada, curiosa com o barulho que o pequeno brinquedo fazia. Encostou-se ao balcão da cozinha onde a senhora Briefs trabalhava a massa dos bolos que estava a confecionar. Sacou do maço de cigarros, mas a mãe admoestou-a com brandura:
- Bulma-chan, não fumes em frente da bebê.
Enfiou o maço de cigarros no bolso, bufando contrariada. Precisava absolutamente da nicotina para se acalmar, a conversa inicial com Chichi tinha-lhe mexido nos nervos. Atirou-se a roer as unhas. A senhora Briefs voltou-se, dobrou as costas ligeiramente e cumprimentou:
- Koniichi-wa, Chichi-san. Que alegria ter-nos feito uma visita hoje.
- Koniichi-wa.
Chichi aproximou-se da cadeirinha e retirou a menina, pegando nela ao colo, embalando-a, sorrindo para aquele bebê adorável, fofo e perfeitamente inocente.
- Mais que menininha mais linda! – exclamou.
- Oi, vejo que gostou da pequena Panty.
- Hai, ela é um amorzinho.
- Amanhã vou ao shopping comprar-lhe muita roupinha e fazer dela uma bonequinha mimada – anunciou a senhora Briefs orgulhosa, juntando as mãos junto ao rosto, num trejeito coquette que lhe era próprio. – A pequena Panty não trouxe muitas mudas de roupa e é uma tragédia que uma princesa não se vista como tal.
Bulma rosnou. Não gostara que a mãe tivesse tratado a garotinha de princesa, implicando que já a aceitava como outra descendente do príncipe e, portanto, irmã sem qualquer dúvida do seu verdadeiro neto, Trunks. Mas a senhora Briefs ignorou a rosnadela da filha. Bulma saiu do balcão e ordenou, passando por Chichi sem deitar um olhar, nem que fosse uma simples espreitadela, para a bebê nos braços da morena:
- Chichi, trá-la até ao salão. Vamos deixar a minha mãe fazer os seus bolos.
- Mas, Bulma-chan… A garotinha não me está a atrapalhar.
Chichi saltitou atrás de Bulma, gaguejando:
- Eh… Senhora Briefs, eu cuido dela… Não se preocupe. Estamos no salão, como Bulma disse.
A cientista atirou-se para o sofá. Tirou outra vez o maço de cigarros do bolso, mas ao ver Chichi aparecer com a garotinha ao colo, teve um rebate de consciência e desistiu de fumar. Atirou o maço de cigarros para uma mesa próxima e respirou fundo. Sentia-se tensa.
- Então, vai fazer o seu exame à pirralha, ou não?
Chichi também se sentou no enorme sofá macio do salão da Capsule Corporation. Não gostara do tom de desprezo na voz da amiga, mas recordou as circunstâncias e perdoou-lhe, pois o sofrimento dava-lhe para a insensatez, a indiferença e o azedume. Notou que ela desistira de fumar, por causa da bebê, e nesta ocasião por iniciativa própria, o que indicava que, de algum modo, respeitava a garotinha.
De seguida, fez o que a cientista lhe exigia. Exigência igualmente da sua curiosidade, apesar de continuar a julgar Vegeta incapaz de uma traição daquele calibre. Colocou a pequenina no sofá e foi tirando a roupinha com cuidado, até chegar à fraldinha. Tirou-a também, virou a pequenina, colocou-a de bruços. A bebê começou a choramingar, a tentar engatinhar para ficar numa posição mais confortável. Não viu nenhum sinal particular, virou-a novamente deitando-a de costas, a bebê cessou o choramingo. Observou todo o corpinho da garota, continuava sem ver nada. Vestiu-a, analisou o rostinho dela, não viu semelhança alguma com o sayajin.
- Então? – inquiriu Bulma ansiosa.
- Mediu a energia dela?
Bulma fez uma careta e respondeu:
- Não.
- Pediu ao Trunks para verificar?
- Não.
- Bom, acho que devias medir a energia dela. No mais, eu olhei e aparentemente ela não tem qualquer marca que lembre um sayajin.
Mas Bulma argumentou:
- Mas Chichi… Ela come muito, como um sayajin.
Chichi sentou a garotinha no colo.
- Acho que você está colocando chifres em cabeça de cavalo, Bulma. Você me pediu que visse a bebê para saber a minha opinião e o que eu acho é: ela não me parece saiyajin. Parece-me bastante humana.
- Você acha que ela não tendo poder de luta, pode não ser do Vegeta. E o Goku? Quando ele foi enviado para a Terra, também não tinha um grande poder de luta.
- Se você ainda tem as suas dúvidas, é melhor comprovar por outros meios. Há testes que podem ser feitos, como, por exemplo, analisar o poder de luta dela.
Bulma olhou a pequenina de lado, que aparentemente gostava do colo de Chichi. Balbuciava sons enquanto enfiava uma mão na boca, enchendo-a de baba. Pensou no conselho da amiga, procurando convencer-se que, se calhar, estava mesmo colocando chifres em cabeça de cavalo.
- Talvez…
Chichi olhou para Bulma esperançosa. Teria ela conseguido convencê-la daquela loucura de julgar o Vegeta o pai da criança tão facilmente? Iria ela reconhecer que talvez Vegeta não fosse o pai?
Bulma completou hesitante:
- Talvez se fosse feito um teste de DNA, ficaria com todas as certezas.
Não estava à espera daquela conclusão. Chichi pestanejou confusa:
- Teste de DNA?
- É o teste da cidade grande que determina a paternidade de alguém – respondeu Bulma recordando-se algo que a amiga lhe tinha dito quando a fora visitar nas montanhas Paozu, logo a seguir ao início daquela tempestade. – Mas tem um problema…
- Qual?
- Vários problemas. Primeiro, convencer o Vegeta a fazer o teste… Depois, se o teste der positivo e se a menininha for mesmo filha dele?
Chichi embalou a garotinha no colo.
- Eu acho que ele vai alinhar, só para resolver este problema.
- Achas que sim? – perguntou Bulma, de ombros descaídos.
- Claro! E quanto mais cedo procurares por ele e o convenceres a fazer esse teste, melhor… Para acabares com esse sofrimento.
Bulma voltou a cara, fechou os olhos para reter as lágrimas.
- Ou descobrir, de uma vez por todas… a verdade.
Goten e Trunks alcançaram a porta do laboratório sem que ninguém se apercebesse.
- Fique aqui, Goten. Eu entro e pergunto ao meu avô onde estão as cegonhas.
- Hai.
Trunks deu uma batida na porta e entrou. O doutor Briefs fuçava em uma de suas engenhocas, com o gato preto ao lado a observá-lo quieto, com ar sabedor. Assim que o neto entrou, se virou para o menino.
- Trunks, sabe que eu não gosto que venha ao laboratório. Existem aqui coisas perigosas.
- Sei sim, avô. Mas eu queria apenas fazer uma pergunta. – Uniu as mãos nas costas, enquanto fazia um traço invisível com o pé.
- Então pergunte e vá brincar.
- Tem cegonhas no seu zoológico?
- Tem sim.
Tímido, Trunks olhou de baixo para cima e perguntou baixinho:
- Posso ir lá vê-las?
- Claro que pode. Mas atenção: deixe a porta fechada e não assuste muito os animais.
Trunks comemorou com um grito e saiu apressado do laboratório, desviando-se de um robot que carregava um tabuleiro com peças variadas. Puxou pela blusa do amigo, que aguardava no corredor, ao passar por ele.
- Vamos lá, Goten! O meu avô nos deixou ver as cegonhas do zoológico dele.
- Então os bebês vêm da sua casa?
Os dois meninos pararam. Goten enfiou o polegar na boca, chuchando devagar. Trunks agarrou pensativo no queixo.
- É mesmo, Goten. Se aqui tem cegonhas e tem ninhos de cegonha, como foi que a bebê foi parar na porta da minha casa? Ela tinha que estar junto com os animais…
- Eu também não entendi essa – concordou Goten ingênuo.
- De qualquer forma, vamos até ao zoológico dar uma olhada.
Alguns metros adiante, chegaram à porta envidraçada que dava acesso ao parque interior da Capsule Corporation. Na parede lateral estava um teclado com números que barrava o acesso a quem não conhecia o código, o que não era o caso daqueles dois visitantes inesperados. Trunks digitou cinco vezes sobre as teclas e a porta destrancou-se. Empurrou-a com um braço e Goten seguiu-o. No interior estava quente e o ar encontrava-se humedecido, como se estivessem numa floresta tropical. Olharam para todos os lados, ambientando-se ao sítio. Viam-se os animais maiores vogando de um lado para o outro, lagoas espalhadas por um chão gramado, pequenas fontes artificiais. Os pios dos pássaros ecoavam no interior.
- Trunks como vamos reconhecer a cegonha se nunca vimos uma?
- Baka, eu já vi num livro como são as cegonhas e onde elas fazem os ninhos.
- Uau, Trunks! Você é mesmo inteligente!
- Claro, puxei à minha mãe – se gabou o menino de madeixas lilases.
Caminhou calmamente de olhos postos no teto alto do lugar, com Goten a segui-lo e a olhar também para cima, de boca aberta, sem saber muito bem o que procuravam. Alcançaram uns rochedos perto de um lago e Trunks levantou um braço, barrando os passos do amigo.
- O que foi?
- Ali tem uma, Goten!
Avistaram uma cegonha pousada nas margens pantanosas do lago que mergulhava a cabeça na água para se alimentar.
- Agora, vamos esperar para ver para onde ela vai voar.
A ave tinha um grande bico alaranjado, penas brancas, pontas das asas pretas e pernas longas. Movia-se graciosamente e era muito grande, quase tão grande quanto um dinossauro voador daqueles que havia ao pé da sua casa. Goten abriu a boca admirado. A ave era muito bonita. Perguntou:
- Vamos esperar ela ir para o ninho, certo?
- Isso, Goten-kun.
A aventura prometia. O filho caçula de Goku acenou com a cabeça, sorrindo:
- Hai!
Eles esconderam-se atrás de uma pequena moita e ficaram observando a majestosa cegonha.
Passou-se algum tempo, demasiado para o pequeno Goten que já cochilava quando sentiu uma cotovelada. Entreabriu um dos olhos, sonolento.
- Hum?
- Ei, Goten. Ela voou!
Trunks seguiu a ave branca que voou muito alto até se transformar num vulto branco. Descreveu alguns círculos com as asas abertas, planando satisfeita sobre aquele pequeno reino. Goten esfregou os olhos para afugentar o sono.
- Para onde ela foi?
Após o voo, a cegonha descreveu uma curva e aterrou. Trunks apontou para um enorme poste, que tinha no topo um chumaço ressequido arredondado, com a forma de um ninho.
- Ela pousou ali.
- Mas é muito alto, Trunks-kun. Como vamos chegar ali? – perguntou Goten olhando para cima, uma mão em pala sobre os olhos para tapar a claridade.
- Vamos subir.
- Subir ao poste? Mas… e vamos agarrar-nos onde para ajudar a subida?
A terra tremeu levemente e uma sombra massiva se formou sobre eles. Os dois meninos olharam para trás e descobriram um enorme dinossauro de pescoço longo. Goten deu um sorriso largo e disse:
- Tenho uma ideia melhor.
- O que vai fazer, Goten? – perguntou Trunks curioso.
O dinossauro aproximou a cabeça minúscula de Goten que começou a conversar com ele, acrescentando carícias às palavras.
- Ficou maluco, isso sim... – murmurou Trunks, cruzando os braços, numa pose idêntica à do pai.
Goten sorriu e anunciou contente, indicando o pescoço do dinossauro que mantinha a cabeça junto ao chão.
- Agora, podemos subir. Ele disse que nos vai ajudar!
E depois trepou para cima do animal. Trunks duvidou do que tinha acontecido.
- Como fez isso?
- Eu estou acostumado com dinossauros, Alguns são dóceis – riu-se Goten animado. – Venha, ele vai-nos levar até ao ninho da cegonha no cimo do poste.
Trunks também montou no animal, agarrou-se às costas do amigo. O dinossauro ergueu a cabeça devagar, num movimento cuidadoso para não perder os dois passageiros, os meninos soltaram gargalhadas felizes enquanto venciam as alturas. Parou junto à borda do ninho. A cegonha voou assustada com os súbitos intrusos, um dinossauro e dois rapazinhos curiosos.
Goten e Trunks espreitaram o interior do ninho, fabricado com ramos secos entrelaçados, e viram uma pequena ave, com plumas acinzentadas encolhida em um canto, ao lado de um ovo. Trunks ergueu a sobrancelha, apontou para a avezita e disse:
- Não parece a Panty…
- Parece um ninho de dinossauro. É assim que eles fazem os ninhos, só que nascem dinossauros e não pássaros. O ovo também lembra o de um dinossauro, só que é um pouco menor. – Goten apontou para a pequena ave. – Ei, Trunks-kun… Onde estão os bebês? Será que esse bichinho se vai transformar num bebê?
Trunks achava aquilo muito esquisito. Não havia ali nada que se parecesse com sua irmãzinha, não lhe parecia que existisse ali algum bebê e definitivamente as cegonhas se pareciam com aves comuns. Ainda pensativo, ele virou-se para Goten e disse:
- Acho que a minha avó se enganou, Goten-kun. Os bebês não vêm das cegonhas. – Carregou a sobrancelha. – Isso tudo está estranho de mais, talvez tenhamos voltado à estaca zero.
Goten pestanejou. Pediu ao dinossauro para descer e o animal obedeceu, dócil. A descida foi ainda mais suave que a subida. Cumprida a tarefa, afastou-se pesadamente, fazendo tremer o chão do zoológico. Por cima deles, no alto do poste, a cegonha regressava ao ninho. Pôs-se a bater com o bico.
Os dois meninos saíram do zoológico, ficaram parados ao pé da porta envidraçada.
- O que vamos fazer agora, Trunks-kun?
- Vamos ter que descobrir de onde vêm os bebês e só tem um jeito.
- Como?
- Nos livros, não dá. Não tenho livros com essa informação. Vamos pesquisar no computador da minha mãe. Internet...
- O quê? – Goten arregalou os olhos. O irmão, Gohan, também tinha um computador com essa Internet, mas não o deixava mexer naquilo. Devia ser uma coisa só de pessoas crescidas e ele assustou-se com a possível transgressão.
Trunks respondeu:
- Hai,vamos pesquisar na internet. A minha avó não acertou no sítio de onde vêm os bebês, a minha mãe não me quis dizer...
- E se eu perguntar à minha mãe?
- Duvido que ela te fale. – Trunks puxou pela blusa de Goten e foram juntos pelo corredor. – Vem, tem um computador na sala de gravidade do meu pai.
- E você sabe mexer? Sabe pesquisar? Precisamos escrever para pesquisar…
- Claro que eu sei! – falou Trunks orgulhoso. – Ou não seria filho de uma cientista. – Sorriu e se encheu ainda mais de orgulho, esfregando as mãos.
Os dois dirigiam-se para a câmara onde Vegeta se tinha treinado antes do Cell Games, agora uma sala abandonada pois o príncipe resolvera tirar umas férias prolongadas dos seus afazeres guerreiros.
Vegeta aterrissou de frente a um portão muito alto, gradeado e castanho, recortado em arabescos detalhados. Comparou o endereço que lhe tinham dado no arquivo municipal com as letras bordadas na placa pregada no pilar direito do portão.
Chegava à casa do miserável chamado Miruku, um novo-rico que se escondia atrás de muros e de portões altos. Ao fundo, depois de um caminho alcatroado rodeado por um jardim verdejante pejado de árvores e de canteiros de flores, viu uma enorme mansão precedida por um largo empedrado que tinha, no centro, um chafariz.
- Chegou o momento de esclarecer esta trapalhada…
Concentrou o ki, elevou-se e flutuou por cima do portão, pousando no interior da propriedade. Subiu pelo caminho alcatroado e alguns cachorros ameaçadores se aproximaram dele, a ladrar. Mas ele olhou cada um deles com um olhar frio e assassino, que fez os cachorros saírem latindo, correndo para onde tinham vindo. Cerrou os punhos e começou a dar passos pesados na direção da porta de entrada da mansão.
Um homem forte, usando óculos escuros, vestido em um terno de grife, saía pela porta. Ergueu uma mão enorme como uma barreira, deslizando pelos poucos degraus que levavam da casa até ao largo do chafariz.
- Quem é você? Como entrou aqui?
O príncipe encarou-o sério.
- Saia da minha frente, verme. Você está atrapalhando o meu objetivo.
O homem o ergueu pelo colarinho, abanou-o e rugiu:
- E quem você acha que é, nanico?
- Sou o seu pior pesadelo.
Sem se esforçar muito, elevou o ki e o homem ameaçador foi lançado para longe. Bateu com as costas na parede da mansão e resvalou insconsciente pela escadaria abaixo, parando junto a ele. Vegeta, empurrou-o com um pé e entrou na mansão.
Retirou a foto do bolso, só para conferir pela última vez a cara do miserável. Quando levantou os olhos, deparou-se com um homem de pé no átrio forrado a mármore e que tinha o rosto que ele procurava.
- Você é Miruku? – perguntou o príncipe num tom imperativo.
- Quem é você?
Não lhe tinha dado uma resposta direta, o que significava que era mesmo ele. Se não fosse, teria negado enfaticamente a identidade, pois estava aterrorizado. O miserável tresandava a medo por todos os poros. Vegeta disse num tom gutural:
- Quem eu sou, não importa. Apenas quero que venha comigo, agora.
Agarrou-o pelo braço e arrastou-o para fora da mansão. O homem tentava resistir, sentia-o claramente a tentar fincar os sapatos no chão.
- Para onde está me levando? Isso é um sequestro? Olha, eu te dou o que quiser. Eu pago mais do que aquilo que te estão a pagar… companheiro.
Vegeta parou junto ao chafariz. O miserável tremia como varas verdes, suava copiosamente, estava mais branco que um lençol. Fixou-lhe um daqueles seus habituais olhares negros irredutíveis.
- Não sou o teu… companheiro. Não quero dinheiro. Quero apenas que faça um exame de DNA para mim.
- O… quê?
Deu-lhe um puxão no braço e levantou voo. O homem gritou.
- Mas como você voa?!
- Cale-se ou você não volta vivo para sua casa.
Vegeta fechou o semblante e foi voando com o miserável preso por um braço sobre West City.
Felizmente, Miruku compreendeu que seria melhor cooperar e não protestar demasiado, ou a queda não seria agradável. Aceitou ser transportado pelo ar por aquele desconhecido que era estranhamente convincente e certamente muito perigoso, olvidou dúvidas, perguntas e exigências, trancou a boca e começou a rezar aflito ao kamisama.
