"Cadê o tanque?" – a vigilante deu um susto no capitão do corpo de bombeiros. Era como se a mascarada tivesse pousado.

"Não vamos precisar dos seus punhos aqui."

"Olha aqui" – segurou na gola do uniforme do homem – "Faça os seus homens me fazer chegar até o tanque e concentre o seu trabalho em controlar a merda deste incêndio. Entendeu?" – o homem ficou confuso – "E me dê uma porra de uma máscara para eu não me intoxicar."

A vigilante recebeu a máscara e seguiu dois bombeiros até o interior do edifício da fábrica. Dois deles tinham as mangueiras voltadas ao tanque de combustível de gás enquanto os outros controlavam o fogo ao redor. A vigilante encostou a mão no tanque. Estava muito quente mesmo com a proteção das luvas, mas ela suportou o toque inicial e ali concentrou toda a sua energia.

"Fala para eles pararem de desperdiçar água aqui e cuidem para esse teto não desabar em nossas cabeças" – a vigilante ordenou.

Os bombeiros trabalharam duro para controlar o fogo ao redor enquanto a vigilante se concentrou no tanque. Usou tanta energia que e houvesse algo que refletisse seus olhos naquele momento, veria que eles ficaram cinzas claros como resultado da intensidade de energia que colocava ali. Do lado de fora, um dos operadores da fábrica olhava para a medição da temperatura de um dos sensores instalados dentro do tanque. Lá dento estava um inferno, mas no tanque a temperatura baixava.

"Isso não pode estar certo" – disse o operador ao capitão e lhe mostrou os indicadores na tela. Era impossível, dadas circunstâncias, o tanque estar tão resfriado.

Do outro lado da cidade, a vigilante socava uma gangue que estava espalhando o terror em um dos bairros próximos ao centro. A princípio, gritavam toque de recolher e as pessoas que não obedeceram de imediato foram punidas. Foi quando chegou a vigilante. Começou surrando alguns que davam sopa perto das sombras. Depois arrancou um tonel de lixo e o usou como escudo contra as armas de fogo até que tivesse a oportunidade de se aproximar o suficiente para arremessar o metal contra os bandidos. Render os outros dois restantes não foi difícil. Um homem de meia idade se aproximou de um dos bandidos desmaiados e começou a chutá-lo com gosto.

"Ei. Ele já era e a policia deve estar chegando" – a vigilante parou o homem.

"Esse desgraçado corrompeu a minha menina" – ele falou com ódio na voz e lágrimas nos olhos – "e minha menina está morta! Onde estava você quando precisei?"

"Eu não sou Deus, senhor. Não sou onipresente. Lamento com o que aconteceu com a sua filha, mas linchar esse sujeito não vai trazê-la de volta."

As sirenes se aproximaram. Era hora da vigilante correr. Sacou o celular que vibrava no bolso.

"O que foi?"

"Nova crise na 16°. É melhor ir para lá."

"Preciso de uma carona!"

"Voador a caminho."

Próximo ao centro, dois vigilantes atuavam lado a lado para combater outro grupo que comandava uma onda de assaltos. Enquanto um vigilante se concentrava em capturar as armas com telecinésia, um segundo, mais baixinho e com olhos vermelhos brilhantes, os derrubava com uma espécie de energia invisível. Acima deles, um helicóptero sobrevoava e jogava luz sobre os dois.

Não muito longe dali, o voador largou a vigilante na esquina do alvo. Havia um maluco com alguns reféns clamando pela presença do herói da cidade. A vigilante bateu no ombro os policiais que faziam u a pequena barreira e tentavam negociar.

"Você é o vigilante mesmo? Porque se não for..." – um policial disse raivoso, pronto para apontar a arma.

"Sou eu" – a voz saiu cansada – "O que ele quer?"

"Você pelos reféns" – o policial acenou freneticamente – "Capitão... aqui!"

Dois policiais vieram na direção da vigilante. Um homem com bigode e outro que se parecia muito com a fonte de Mercedes dentro da polícia.

"Como eu gostaria de colocar as mãos em você em outras circunstâncias" – o capitão resmungou – "Mas o fato é que você vai nos ajudar aqui."

"Farei tudo que for possível, senhor."

"Nós faremos a troca e se você tiver a oportunidade, pegue esse desgraçado. Vamos te dar a melhor cobertura possível."

"Sim senhor..."

"Preparem o vigilante."

Santana recebeu um colete a prova de balas e equipamentos de escuta. Ela estava disposta a fazer o jogo da polícia enquanto houvesse reféns sob a mira do louco da vez. O capitão voltou a negociar com os homens e apresentou a vigilante. Sob pretexto de querer garantias da autenticidade do vigilante, foi solicitado que este erguesse um carro específico que estava ali estacionado. Que as quatro rodas fossem tiradas do chão. Foi um sacrifício, mas a vigilante fez o ordenado.

"Parabéns, vigilante. Você acaba de acionar uma bomba capaz de destruir um terço desta cidade."

"O quê?!" – várias pessoas gritaram, inclusive o capitão e a vigilante.

"Coloque o carro no chão e tudo vai explodir. E não tente colocar suportes porque nós vamos explodir tudo. Se a vigilante sair aí debaixo, nós explodimos. Fora isso, vocês podem ficar com os reféns."

"FILHO DE UMA P..." – foi o que os policiais ouviram da vigilante através da aparelhagem de áudio.

O esquadrão anti-bombas foi acionado. Enquanto isso, a vigilante sustentava um carro e não estava sendo fácil. A história logo ganhou comoção, a polícia não tinha como evacuar um terço da cidade no meio da noite. Seria o caos. Então começaram a retirar as pessoas daquele quarteirão e dos vizinhos e isolar um perímetro maior.

Sustentar e equilibrar um carro não estava sendo fácil. A vigilante foi se ajoelhando devagar. Ouvia vozes a incentivando, muitas pernas ao redor. O barulho de um helicóptero acima. Um homem do esquadrão anti-bombas se meteu debaixo do carro com uma lanterna forte. Estava checando os dispositivos e tudo que a vigilante desejava era que ele encontrasse e cortasse o fio certo.

"Vigilante, eu sou o agente Gordon" – um homem se ajoelhou, mas ela não conseguia virar a cabeça para vê-lo porque sustentava o peso do carro nas costas. As mãos tremiam, as pernas estavam bambeando, mas ela procurava se abstrair – "Preciso saber se está tudo bem."

"Não muito" – estava ofegante. Na frente dela, o agente do esquadrão anti-bombas fez sinal de desolação.

"Olha, eu vou ficar aqui contigo até quando você me disser que for possível. Vou te manter informado de toda situação, não esconderei nada. Poderá confiar em mim integralmente. Se precisar de qualquer coisa, água, bebida isotônica, apenas diga. Se precisar que a gente chame alguém: diga."

"Ok..."

Os agentes conversaram entre si e a vigilante conseguia apenas ver as sombras das pernas. O corpo doía, os braços ameaçavam fraquejar e a revolta era grande. Quem faria algo sádico assim e com que propósito? Os minutos foram passando e o corpo queria ceder. Gordon conversava, os agentes discutiam e a vigilante tinha vontade de mandar tudo para o inferno. Foi quando ela notou uma mudança no ambiente. O helicóptero que sobrevoava se deslocou para outra área e a vigilante ouvia sussurros mais agitados.

"Vigilante" – Gordon voltou a aparecer após alguns minutos – "Há alguns amigos seus que sugeriram uma solução que os nossos agentes disseram ser possível. Há uma esperança. Mas você vai ter de ficar sozinha."

"Tu... tu...do bem. Obrigada, Gordon."

"Foi um prazer, vigilante. Vou dizer algo extra-oficialmente: a coragem que você demonstrou ter ao vir aqui foi ímpar. Eu te admiro."

O agente foi embora e outros agentes também. De repente um vigilante se ajoelhou e olhou para a colega.

"Feche os olhos e não se preocupe porque eu vou segurar para você."

Mesmo com os olhos fechados, a vigilante percebeu uma onda de luz azulada. De repente, ficou tudo escuro. Santana sentiu algo diferente. Para começar, havia o cheiro de ozônio. Quando abriu os olhos, pequenos raios azuis apareciam aqui e acolá em meio a escuridão. O carro não estava mais pesado. Ela retirou a mão e viu que ele estava perfeitamente equilibrado no ar. Matt o sustentava com telecinésia de algum ponto. Então ele virou o veículo no ar e o colocou de ponta cabeça. O esquadrão anti-bombas rapidamente avançou para a retirada dos explosivos. Sem ninguém mais em risco, a vigilante finalmente tentou se levantar. Enfraquecida pelo esforço, cambaleou quando se levantou e se viu sustentada por dois outros mascarados. Matt e Rachel. Os agentes aplaudiam e tudo que sabia era que precisava sair dali. Sentiu os braços moles, as pernas bambas. Estava fora de combate. Mas precisava ir embora.

"Pessoal..."

"O voador vai te tirar daqui. A gente se vira."

Foi quando sentiu alguém a abraçar por trás e a erguer do chão. Enquanto o voador a levava para outro lugar, fechou os olhos para descansar. Desmaiou por alguns minutos porque quando deu por si, estava deitada num sofá.

"Evite se mexer" – quase deu um salto ao ouvir a voz de Kurt.

"O quê?" – Santana retirou a máscara. O lugar estava escuro, à luz de velas, mas ela ainda pôde reconhecer o apartamento dele e de Rachel.

"Seu amigo vigilante te deixou na escada de incêndio e bateu na minha janela. Não esperava que estivesse desacordada e você é mais pesada do que aparenta. Mas entendo..." – hesitou por um instante – "O que fez naquela rua... foi impressionante."

"Você viu?" – Santana tentava reorganizar o pensamento – "Claro que viu. Tinha um helicóptero sobrevoando ali boa parte do tempo."

"O sinal foi cortado na hora do resgate e, como vê, a luz ainda não voltou."

"Cadê Rachel?"

"Ainda lá fora."

"E os outros?"

"Infelizmente eu não conheço os outros, Santana."

Santana procurou pelos fios da escuta. Já não estavam mais ali. Apalpou o bolso. Precisava entrar em contato com Mercedes para saber o que aconteceu e a situação atual. Foi quando bateram à porta. Santana deu um pinote do sofá. A adrenalina fez o corpo reagir, ficar pronto, em alerta. Kurt conferiu a porta pelo olho mágico, então pegou a máscara e a jogou na direção de Santana e depois apontou para o quarto de Rachel. A vigilante entendeu, fechou a porta. Mas ficou em alerta, tentando ouvir a conversa abafada.

"Finn? O que está fazendo aqui?"

"Estava na vizinhança e a cidade está o caos. Cadê Rachel? No quarto?"

"Rachel está na faculdade ensaiando a peça. Ela ligou a pouco e disse que estava bem, que o grupo ia ficar lá por segurança."

"Você também não estava na peça?"

"Hoje eu não me senti bem..."

Santana odiava se sentir encurralada. Ou ela dava o fora dali, ou criava uma situação constrangedora para se safar. Precisava falar com Rachel e com os outros, mas Finn não dava pinta de que iria embora tão cedo. Olhou pela janela. Aquele prédio era péssimo para se escalar e ela não confiava nas próprias forças naquele momento. Além disso, a iluminação pública estava toda apagada. Resolveu esperar. Checou o celular e estranhou. O aparelho tinha morrido. Parecia até que foi fritado por dentro. Isso a angustiou.

"Ele finalmente foi embora" – Santana levou outro susto quando a porta se abriu.

"Você vai me matar se continuar com essas entradas" – levou a mão ao peito.

"Eu não teria tal sorte" – Kurt encostou-se ao portal.

"Meu celular fritou de alguma forma e preciso encontrá-los. Saber se estão bem... só preciso de um casaco de frio diferente."

"Você não parece que está em condições... e a cidade está caótica."

"Eu posso ter saído fora do ar por alguns minutos, mas já estou preparada para outra."

"Santana Lopez. Fica! Prometo que não vou te amolar. Eu não sei como é que vocês vigilantes se organizam, mas há barulho de patrulhas passando o tempo inteiro. Além disso, os seus amigos sabem que está aqui."

A vigilante sentou-se na cama de Rachel e suspirou. Kurt estava certo. Tirou a jaqueta, o tênis pesado e só poderia rezar para que todos os outros estivessem bem. Então tomou um pouco de água e deitou-se na cama de Rachel. Dormiu de exaustão.

...

As manchetes do dia seguinte eram escandalosas. "Noite de terror" anunciava o principal jornal. "Polícia e vigilantes trabalham juntos", noticiou o concorrente mais moderado. "Máfia faz represália a vigilantes", arriscou a manchete de um grupo de notícias de alcance nacional. O que chamou atenção da última manchete é que a apuração foi justamente de Sue Sylvester e ela ficou curiosa sobre o que a repórter sabia para chegar a tais informações. As notícias destacavam também o número de presos: 34 homens e 13 mulheres. Mortos: oito. Metade foi na explosão da fábrica. O que Santana sabia é que foi um inferno. Ela e os companheiros passaram quatro horas em ação, o que é uma eternidade.

Outras manchetes relacionadas ocupavam o espaço nobre dos sites de notícias. "Apagão pode ter sido causado por bomba eletromagnética". "Cidade às escuras". "Luz volta seis horas depois do apagão em apenas metade da cidade". "Prefeitura decreta situação de emergência e toque de recolher."

"Não acha melhor tomar café antes de checar o seu feito?" – Kurt mal acreditava que Santana mal tinha levantado e já estava de coara para a tela do computador.

"Não estou brincando" – ainda assim, Kurt colocou uma caneca de leite com chocolate ao lado da vigilante, que de vez em quando alongava o pescoço dolorido – "Rachel deu notícias?"

"Não" – Kurt respondeu seco.

Santana continuava a ler as informações e encontrou uma que a fez ficar de cabelos em pé. Afirmava categoricamente que os vigilantes eram seis e os caracterizaram. O "voador", o "super-forte", o "gelado", e outros três que eles não conseguiram classificar, mas teorizaram em cima dos poderes. Um dos vigilantes, disse a notícia, montou uma bomba eletromagnética para eliminar o sinal que faria as bombas nas crianças serem detonadas e foi isso que causou o apagão.

"Quem?" – Santana disse alto.

"Está falando comigo?"

"Não... eu preciso ir" – terminou o leite.

"Vai com essas roupas?"

Santana olhou a calça jeans folgada e suja, a blusa que não cheirava muito bem. A jaqueta e a máscara estavam no canto ao lado da cama de Rachel.

"Paciência."

Antes de sair e pensar em procurar algum telefone público, um carro buzinou em frente ao prédio. Em seguida, uma voz conhecida gritou por Santana. A vigilante reconheceu o carro de Mercedes, mas a voz que a gritou era de Rachel.

"Ao menos já sei que Rachel está bem" – Kurt disse quando olhou pela janela ao lado de Santana.

"Preciso ir. Obrigada por tudo, Lady."

"Diga a Rachel que ela me deve duas."

As duas estavam ali para pegar a líder e irem a uma reunião urgente. Santana abraçou Rachel e reparou no lábio cortado e no roxo no queixo.

"Não é nada" – Rachel afastou a mão de Santana – "Vamos."

"Para onde?" – perguntou assim que entrou no carro e cumprimentou Mercedes rapidamente.

"Cabana."

Santana aprovou. Era dia de semana e, apesar da reforma, a cabana conseguia abrigar os integrantes, desde que não se incomodasse com a poeira e a lama ao redor da casa. Mesmo a parte ampliada já tinha teto, parede e chão. Falava fazer os acabamentos. Assim, eles poderiam conversar, gritar e não ser amolados. Sem mencionar que o banheiro está funcionando e em perfeito estado. Ela precisava tomar um banho e ficou sem-jeito de fazer isso na casa de Rachel e Kurt.

Mercedes, Rachel e Santana foram os últimos a chegar ao refúgio seguro dos vigilantes. Matt abraçou a colega com carinho, seguido por Quinn. Ele estampava um arranhão no rosto e um curativo no braço. Quinn ainda expressão cansada e fedia a fumaça. O que mais chamou atenção de Santana foi a presença de Tom. Ela encarou Artie pedindo silenciosamente por explicações.

"O que..." – Santana ameaçou reclamar.

"Ele salvou a sua vida ontem."

"O quê?"

"A bomba eletromagnética que causou um apagão local e interrompeu os sinais por algumas... horas... foi ele quem desenvolveu" – enquanto Artie explicava, Tom deu um tchauzinho, fazendo Santana reagir cruzando os braços. O gesto não ajudava a ganhar a confiança dela.

"Eu quero conversar contigo agora" – segurou Artie pelo colarinho e praticamente o arrastou para um dos quartos da cabana – "Que merda é essa?" – disse ao jovem que flutuava em sua frente. Era sempre uma imagem estranha.

"Tom é confiável e eu tenho a impressão que a capacidade dele de inventar não é tão natural como ele pensa."

"Não interessa, Artie. Não me importo com quem você saia fora do grupo. Mas a nossa unidade tem de ser mantida. Não é porque você acha que fulano tem super-poder que automaticamente deva entrar para o time e saber todos os nossos segredos."

"Você não confiou em Rachel? Por que não pode confiar em Tom? Ele salvou a sua vida. Ele é gente boa. Dê uma chance."

"Rachel é outro caso. Eu a preparei para entrar no grupo e ela se mostrou ser de extrema confiança. O que você fez... foi deliberado e descuidado. Por melhor que ele tenha feito, isso não justifica a inclusão assim, do nada, no nosso grupo. Daqui a pouco meia cidade vai saber quem somos. E aí? Adeus ao sopro de normalidade que ainda temos."

"Mas já está feito. Então não é melhor integrá-lo e fazer com que ele se sinta bem-vindo?"

"Você é o responsável direto por ele, Artie. Se Tom pisar na bola, eu juro que corto as suas preciosas bolas, está entendido?"

Santana deixou o quarto ainda possessa. Ela olhou para os amigos e depois para Tom. Precisava dizer alguma coisa. Cruzou os braços e encarou o novato.

"Artie de contatou ontem?" – o tom de Santana era inquisitivo.

"Foi o contrário. Eu estava acompanhando tudo pela televisão e sabia que essas bombas de controle dependem de algum tipo de sinal. Independente de qual seja, esse sinal pode ser interrompido com uma bomba eletromagnética. Essa é a minha coisa. Há anos que desenvolvo um tipo de bomba eletromagnética de pequeno alcance. Algo que fiz para testar algumas teorias."

"E você a usou ontem..."

"É. Aquela era filha única, mas valeu à pena."

"Essa bomba destruiu todos os eletrodomésticos num raio de 500 metros e causou apagão na cidade inteira" – Mercedes disse enquanto consultava alguns sites – "Você cometeu um prejuízo de milhões de dólares e quem vai pagar o preço somos nós. A prefeitura vai querer cortar nossas cabeças, caçar nossos traseiros."

"Mas valeu à pena" – Tom insistiu – "Você e centenas foram salvos."

"Esse tipo de prejuízo só é perdoado no gibi" – Matt se meteu – "Não estou dizendo que não esteja agradecido por salvar a vida de Santana. Mas uma cidade ser destruída e a população ainda agradecer é coisa de gibi. Só no desenho que o Super-Homem destrói a metade dos prédios e ninguém morre."

"Pessoas morreram ontem. A cidade entrou em caos, já estão nos culpando por isso. E você ainda vestiu a nossa máscara para criar uma zona fantasma no meio da cidade" – Quinn completou.

"Estão dizendo que era melhor eu deixá-la explodir?" – Tom deu um passo para trás.

"Não, mas quando você foi negociar com os policiais, usou uma máscara e se identificou como um dos nossos sendo que não é" – Matt explicou.

"Você o quê?" – Santana estava no limite para avançar em Tom e torcer o pescoço dele, mas Rachel segurou a mão dela para prevenir.

"Não foi difícil. A identidade visual de vocês é um lixo, se me permite criticar..." – Tom cruzou os braços – "Não acredito que estou sendo condenado aqui depois de salvar o seu traseiro."

"E se você contatou Artie, que dizer..." – Quinn era a voz mais racional naquele instante.

"Que ele pode ter me contado o segredo antes..."

"Escapuliu" – Artie flutuou até a cadeira e sentou-se.

"Inacreditável como esse grupo sobrevive apesar de todas essas... nem dou conta de dizer!" – Santana levantou os braços e se movimentou pela sala – "Cedes, preciso conversar contigo em particular depois. Pode ser?"

"Claro, mas..."

Mercedes não obteve resposta. Santana limitou-se a entrar no banheiro para tomar a sonhada chuveirada. Precisava esfriar a cabeça e tratar um pouco do corpo dolorido. Tom olhou para os vigilantes e a empolgação dele por fazer parte da equipe terminou com o clima constrangedor.

"Ela é assim mesmo" – Artie disse ao amigo – "Mas acho que a gente deveria ir devagar..."

"Talvez eu deva ir embora" – Tom ficou sem jeito.

"Talvez" – Quinn concordou. Ela também não confiava no sujeito novo – "Santana é assim desconfiada, mas você já teve a oportunidade de conhecê-la antes e... isso aqui não é diversão. É uma grande responsabilidade. As pessoas se machucam, nós nos machucamos e colocamos nossas vidas em risco. Acho melhor você... chegar mais devagar. Não é mesmo Artie?"

"Sim. Claro. A noite foi dura para todos nós."

...

Frank não estava feliz com o terror da noite passada. A coisa fugiu do controle. Pânico generalizado era ruim para os negócios. Significava que as pessoas correriam para se armar e a idéia dos vigilantes inspirava resistência. O teste? Um exagero que sequer foi idéia dele, mas troglodita pensou que seria divertido fazer alguns testes.

Havia uma festa de criança no subúrbio da Metrópole. Frank conversava descontraidamente com os convidados. A maioria figurões, banqueiros e pessoas da alta-sociedade. Um dos "funcionários" chamou a atenção do jovem vovô orgulhoso, que se desculpou para atender um telefonema no escritório.

Recebeu um relatório com vídeos e avaliações. Eram seis telas distintas discriminando cada um dos vigilantes em ação.

"Quem é o líder?" – perguntou.

"Aparentemente, a menina forte."

"O link frágil?"

"Ainda não sabemos."

"As identidades?"

"Estamos trabalhando nisso. Mas temos pistas sobre quem seja um deles. O que observei é que eles eram bem coordenados. São mais ágeis que a polícia e não seguem regras. Conseguiram segurar nossas ações, até a cidade virar um caos por completo no apagão. Isso foi algo que nem eu consegui prever. A nossa bomba não era de grande alcance, mas a bomba que eles lançaram... isso foi alta tecnologia. É a nossa melhor pista para conseguir identificar um deles."

"Faça o que for preciso."

...

Artie estava incomodado com o silêncio de Santana. Os vigilantes não precisaram trabalhar tanto assim para descobrir que a máfia estava por trás dos ataques coordenados. Mas o caos do apagão foi algo à parte. O oráculo advertiu para as intenções da polícia, confirmado depois pela fonte de Mercedes na polícia. Os agentes descobriram que o alcance da bomba tinha raio de 50 metros, mas os riscos em desarmá-la eram grandes demais devido à complexidade do mecanismo. Descobriram, no entanto, que a pessoa que a elaborou não é nenhum terrorista comum. Trata-se de alguém com habilidades, com conhecimento de causa. O inquérito ainda estava em fase de investigação, mas o oráculo descobriu dados preliminares que mostram que a bomba na fábrica tinha a mesma assinatura da instalada no carro.

O que Artie sabia é que Santana esqueceu algumas sutilezas e bateu em alguns integrantes da máfia para conseguir certas informações. Descobriu que a ordem veio de Frank, não do chefão local. Isso significava que nem eles sabiam quem se tratava, que só obedeciam. A situação era mais incômoda do que se imagina e deixou Santana mais mau-humorada que o costume.

"Tem novidades?" – Tom perguntou ao colega ao final do expediente.

"Algumas" – Artie olhou para os lados – "E você?"

"Algumas. A gente pode ir a algum lugar para conversar a respeito."

Tom colocou a cadeira de Artie no carro e os dois foram ao restaurante favorito dos vigilantes. Era a primeira vez de Tom naquele lugar. Depois de pedirem a refeição, trocaram informações.

"Tenho uma pequena lista de referências sobre quem poderia ter feito àquela bomba" – Tom mostrou a Artie – "Uma das razões para eu ter falido foi o tempo que dediquei para fazer aquela. E agora que sei que ela funciona... bom... eu poderia ficar milionário de novo" – ficou sem jeito com o olhar torto de Artie – "Bom, a questão é que quando se desenvolve esse tipo de trabalho, se entra em contato com pessoas afins. Esse tipo de grupo não é grande, sabe? Eu sei de alguns que seriam capazes de fazer um mecanismo como aquele."

"Isso é ótimo" – Artie sorriu ao ver a lista na tela do computador do colega – "Isso é ótimos mesmo."

"Espero que agora Santana desista de querer nos matar. Pode ser até que ganhe o respeito de Rachel" – Tom tomou um pouco da coca-cola.

"Rachel?"

"Ela é muito bonita. As meninas todas são... mas Santana é gay, Quinn é comprometida e Mercedes... ela não faz muito meu tipo. Rachel por outro lado..."

"Você quer um conselho?" – Artie sorriu para o amigo – "Se quiser ganhar a confiança de verdade do grupo, especialmente de Santana, esqueça Rachel."

"Por quê? Não vai me dizer que as duas são..."

"As duas são complicadas. Até onde sei, Rachel está livre. Mas ela tem um namorado antigo que ainda a balança. E tem essa tensão sexual ridícula quando está com Santana. É melhor não se meter no meio."

"E você? Não te vejo circular com uma garota."

"Não é muito fácil conseguir uma quando se está numa cadeira de rodas" – Artie ficou sem jeito com a triste realidade – "Já tive alguns breves romances na faculdade. Já fui apaixonado por uma colega. Tina é o nome dela. Cheguei a entrar num grupo de teatro amador por causa dela. Mas nada de interessante aconteceu."

"Teatro amador?" – Tom sorriu – "Nunca te imaginei fazendo teatro."

"Teatro musical amador. Rachel foi uma das fundadoras do grupo, que tinha esse ex-namorado dela. Santana, Mercedes e eu entramos no grupo a convite de Tina. Quinn e Matt também faziam parte, mas eles entraram por outras razões. Mas foi lá que a unidade do grupo nasceu."

"E você não faz mais? Teatro, eu digo."

"Todos nós saímos depois que Finn fez uma votação entre os membros fundadores para expulsar Santana do grupo só porque ela e Rachel estavam de rolo. Depois disso eu não tive mais tempo para me dedicar às atividades culturais, apesar de que colaboro tocando numa banda de uns caras da faculdade."

"Quer saber?" – Tom terminou a refeição e limpou a boca no guardanapo – "Deveríamos sair. Dois nerds na noite. A gente vai nesses lugares de dançar e tenta pegar umas meninas."

"Eu não sei..."

"De que adianta ser herói se não puder viver um pouco?"

Artie olhou para o amigo e refletiu. Tom tinha razão. Adianta nada se dedicar tanto para os outros e não ter tempo para si mesmo. Para achar o amor, mesmo que isso não seja prioridade no momento. E daí que ele estava numa cadeira. Não era tão ruim e tinha o orgulho macho de ser inteiramente funcional. Procurou na internet um lugar bom para dançar e se divertir. Havia um anúncio de festa-show nas proximidades da estação de energia, nos limites da cidade. É para lá que iriam.

...

A festa estava quente, como era de costume naquela fraternidade. Santana apareceu junto com Mercedes, Tina e outras colegas ocasionais da arquitetura. A primeira coisa que a estudante fez foi se servir com uma bebida mais forte. Era sempre assim. Para alguém cujo metabolismo processava o álcool rapidamente, cerveja era como refrigerante. Caso ela quisesse ficar realmente bêbada, precisava de algo mais forte. Arrumou uma garrafa de vodca e serviu-se de um copo cheio. Sem mistura. Começou a dançar junto com as colegas até que uma menina chegou junto. Sempre tinha uma que se encostava. Era bonita de rosto, belo corpo. Santana reconhecia de algum lugar, do campus mesmo. Não lembrava o nome.

"Evie, das relações internacionais" – a moça tinha um belo sorriso.

"Santana, arquitetura."

"Eu sei" – a moça piscou e passou a dançar mais próxima e de forma insinuante e sussurrou no ouvido – "Você é a lésbica mais quente do campus. Sabia que tem uma fila de garotas que gostariam de experimentar contigo? E quem já teve essa sorte, quer repetir..."

"E você?"

"Testarei minha sorte."

A dança evoluiu para toques ocasionais. E os toques ocasionais evoluíram rapidamente para beijos. Chegou um ponto em que saíram da pista de dança e procuraram um ligar mais reservado, onde Evie levantou a saia curta e deixou que Santana a penetrasse com os dedos enquanto devorava seu pescoço e massageava o seio. Era quente e erótico. Havia uma festa rolando, o som era abafado de onde estavam, e Santana a fez gozar rapidamente contra uma parede.

"Limpe" – mostrou os dedos que Evie ficou mais que feliz em levá-los até a boca.

"Passe a noite comigo" – a moça sussurrou – "Posso te recompensar."

Saíram da festa em direção ao apartamento da moça para que Santana tivesse sua recompensa. Depois de uma noite de sexo. A estudante sentou-se na beira da cama já no início da manhã após um cochilo. Passou a mão no rosto e depois nos cabelos. Olhou para a parceira da vez, que dormia relaxada de bruços. Os cabelos ruivos se espalhavam pelo travesseiro. Santana teve o que queria por uma noite: um corpo quente, um orgasmo.

Depois de uma passagem rápida pelo banheiro, recolheu as roupas e as vestiu. Não estava interessada em ficar e passar pelo constrangimento e o vazio do dia seguinte com alguém que não importava.

"Não quer ficar mais um pouco?" – foi surpreendida pela voz arrastada quando se preparava para ir embora à francesa – "Posso fazer café e a gente pode conversar. Uma conversa real."

"Pode ser" – não era realmente a vontade dela, mas ficou sem-jeito de recusar.

Evie fazia um bom café. Disse que preferiu alugar uma quitinete em vez de um dormitório para ter mais privacidade. Aparentemente ela era uma estudante das mais espertas e ambiciosas dentro do curso que fazia.

"Meu sonho é trabalhar em algum país asiático, de preferência na China."

"China?" – Santana franziu a testa. Que tipo de pessoa sonharia em trabalhar na China?

"É exótico, antigo, com uma cultura das mais interessantes."

"Você sabe que o governo chinês não é tão interessante, certo? Ou você é comunista?"

"Não" – ela sorriu – "Longe disso. Mas e você? O que pretende fazer depois de se formar no próximo ano?"

"Tenho sonhos bobos e mais regionais. Quero montar um escritório de arquitetura e fazer alguns edifícios tortos. Algo que marque uma cidade e que tenha um impacto positivo sobre ela. Como numa obra de Niemeyer, sabe? Ou imaginar uma casa como Frank Wright, ou um prédio elegante e ao mesmo tempo ousado como os de David Chipperfield."

"Eu não conheço muitos arquitetos, desculpe. Mas você já teve projetos ou algo assim?"

"O espaço de recreação e piquenique da reserva é um projeto meu. Também estou com um projeto concorrendo para a construção do anexo da reitoria. É assinado junto com um dos meus professores, mas a idéia é minha. Fora isso, fiz pequenos projeto pela agência júnior da universidade. É basicamente isso."

"Interessante..."

"Nem tanto" – Santana sorriu – "Minha colega de dormitório odeia quando eu disparo a falar sobre arquitetura. Ela diz que o meu lado nerd é pouco atraente."

"Santana Lopez tem um lado nerd."

"Eu uso óculos de armação preta quando estou estudando" – provocou risadas na garota.

"Tenho certeza que é uma nerd muito sexy..." – como não viu reação da estudante com o comentário, Evie olhou para a xícara de café e arriscou outra abordagem – "E não há ninguém especial na sua vida? Alguém para dividir o seu lado nerd?"

"Eu tive uma namorada. Jenny. Ela se formou e a gente se afastou."

"Você sempre soube que era gay?"

"Basicamente. E você? Para que lado os seus sinos dobram? Meninos? Meninas? Os dois?"

"Você foi a minha primeira..."

"Sério? Sem ofensa, mas pareceu que você sabia muito bem o que fazer."

"Não me deixou completar, Santana. Você foi a primeira sem um cara presente."

"Mesmo? Típico!"

"Isso é algum problema?"

"Escute, Evie... eu não estou a procura de um relacionamento sério. Ultimamente, nem mesmo de transas ocasionais. Ontem a noite... eu vinha me sentindo só e você se atirou em mim."

"Isso eu não posso negar" – estampou um sorriso charmoso que foi correspondido por Santana.

"O que eu quero dizer é que não ligo se você queria apenas uma aventura com a lésbica quente do campus e depois voltar para os caras. Foi uma ótima noite e eu sou grata por ter partilhado ela contigo" – Santana terminou o café – "Vou indo..."

"Tudo bem" – Evie se aproximou e despediu-se de Santana com um suave beijo nos lábios – "Você é legal. Uma garota bonita e inteligente como você não deveria se sentir solitária."

"Acontece às vezes."

"Você deveria procurar a sua pessoa, sabe? Alguém que te faça realmente feliz. Mas, enquanto isso, quando quiser, pode me ligar" – pegou uma caneta e escreveu o telefone na palma da mão de Santana.

"E se a minha pessoa for você?" – resolveu provocar um pouco.

"Eu ficaria honrada."

Santana inclinou-se para beijar Evie mais uma vez antes de sair em definitivo. Ficou grata por ficar para o café da manhã. Às vezes era bom conversar com um completo desconhecido sem o menor compromisso. Olhou o número e fiou tentada a salvá-lo. O celular tocou. Era Rachel. Santana olhou a foto dela no monitor segundos antes de atender. Ela queria que Rachel fosse a pessoa dela, mas não acreditava que isso fosse acontecer.

"O que foi Rach?"

"Você está atrasada para o nosso tai chi" – Santana sorriu com a cobrança.

"Eu chego aí em meia hora."

...

Artie morria de rir com as investidas trapalhadas de Tom com as meninas. Ele levava um fora, mas não desistia e logo ia atrás de outra garota.

"É a lei da conservação, meu caro amigo" – tomava mais uma cerveja – "Precisamos lutar para reproduzir e perpetuar nossos genes."

"Mas as garotas não estão muito dispostas a colaborar com essa idéia."

"Se não colaborarem, a gente bebe mais duas cervejas em comemoração nosso fracasso, meu caro amigo."

Artie ergueu o copo de cerveja para brindar mais uma vez. Era divertido sair com Tom. Em especial porque era um sujeito que sabia tudo de relevante da vida dele: estudos, trabalho e a vida secreta como vigilante. Isso facilitava a amizade em tudo. Sair com Tom era diferente do que sair com as meninas, como estava habituado. Houve uma época em que Santana e Mercedes estavam em relacionamentos e ele era deixado de lado. Mesmo quando elas romperam com os amantes, a coisa não ficou diferente. Sempre havia alguém se atirando em Santana e Mercedes se tornou uma cínica. Com Tom, ele poderia ser grosseiro, falar da supremacia do pênis, dos tamanhos dos seios, de bocetas, e não ser repreendido.

"Deveríamos ir a uma casa de stripers" – Tom sugeriu depois da terceira recusa da noite – "Já que não temos sorte aqui, ao menos lá poderíamos pagar por uma lap dance e ver coisas que nos interessa."

"Você paga a minha lap dance. Eu sou um duro estagiário e é você quem ganha salário de verdade."

"Feito."

Havia algumas casas de stripers nos limites da cidade, próximo ao setor industrial, exatamente ao lado de um hotel de beira de estrada em que muitos homens que frequentavam a famosa rua costumavam pagar por um quarto e ter algumas horas com prostitutas que faziam ponto ali. Prostituição, aliás, era um negócio que a máfia controlava exatamente naquele ponto, tal como as investigações deles apontavam que a maior casa de stripers da cidade era administrada pelo mafioso local, subalterno de Frank. Existiam alguns paradoxos ali. Prostituir-se não era um crime, desde que a garota ou garoto fosse maior de 18 e respeitasse uma cartilha de regras. Mas explorar a prostituição era um crime. Ter uma casa de stripers era legal e se pagava imposto por isso. Ilegal era abrigar nesses ambientes um prostíbulo e fomentar o tráfico. Quando a polícia fazia uma limpa naquela rua, em geral era para dar algum tipo de satisfação social. Pegavam um cafetão ou dois. Um traficante pequeno, apreendiam alguns quilos de drogas. Estranhamente nunca amolaram a maior casa de stripers.

Tom não parecia estar tão ciente dessas peculiaridades. Artie sim. Estava em conflito. Talvez pudesse se divertir e ainda fazer algumas observações como vigilante. Esse pensamento o confortava. Tom pagou a entrada da maior casa e os dois apreciaram o meio de um show entre duas mulheres que despiam uma a outra. Desenvolviam a apresentação hora insinuando sexo entre elas, hora se exibindo e se tocando para que os homens pudessem colocar mais e mais dinheiro na tanguinha.

Naquela casa, num salão reservado, havia um clube exclusivo com outras regras destinado a alguns figurões. Rezava a lenda que para os Vips os shows tinham nu total, permissão para tocar, lap dance com sexo oral, e um pequeno cassino irregular. Mas para simplórios como Tom e Artie, a parte da casa em que lhes era permitido, funcionava como outra qualquer: a dança, a bebida (cara), os petiscos (caros) e a lap dance individual sem tocar (mais cara ainda).

"Tom?" – um homem se aproximou – "Thomas Richards?"

"Theodore Imonen?" – o nome imediatamente chamou a atenção de Artie. Ele não estava tão bêbado para não se lembrar que aquele sujeito fazia parte da lista de pessoas feita pelo próprio Tom que teriam a capacidade de desenvolver explosivos com a complexidade como o encontrado no carro-bomba-armadilha – "O que faz aqui?"

"De passagem pela cidade visitando amigos. E você?"

"Eu trabalho aqui agora. Quer dizer, não aqui" – sorriu sem jeito – "Na empresa de tecnologia. Ei Theo, esse aqui é Artie. Ele trabalha comigo e estamos aqui apreciando algumas belezas."

Artie o cumprimentou com um falso sorriso. Theo trocou mais algumas palavras com Tom antes de se despedir.

"Ele sempre foi um bom sujeito" – Tom comentou sem raciocinar.

"Você o conhece desde quando?"

"Dos encontros em que promovia quando eu ainda era rico. Mas fazia bons anos que não o via."

"Tom, se você não se incomoda, acho que deveríamos sair daqui."

"Por quê? Não está se divertindo?"

"Se você quiser realmente ser um de nós. Precisa aprender a confiar nos seus instintos e nos instintos dos seus companheiros. E eu digo aqui, agora: não é uma boa idéia ficarmos aqui."

Tom encarou Artie ainda em dúvida. Estava um pouco bêbado e morrendo de vontade em saciar a libido nem que fosse numa lap dance. Mas parecia que ser vigilante implicava em colocar os próprios desejos em segundo plano. Ele terminou por concordar. Por coincidência ou não, encontrou Theodore na saída da casa junto com dois outros homens.

"Ei Tom" – o home se aproximou com um falso sorriso – "Nós vamos tomar uma cerveja. Não quer se juntar a nós para se lembrar dos velhos tempos?" – estava sendo excessivamente gentil.

"Artie é a minha carona e nós já vamos."

"Artie pode vir conosco, certo?"

"Me diz onde e eu te sigo."

"Ok."

"O que está fazendo?" – Artie sussurrou.

"Confie em mim" – acenou para Theodore – "Acione o localizador que coloquei nesses novos celulares" – disse assim que entrou no carro. Artie obedeceu. Estava nervoso.

Tom seguiu o carro de Theodore e outro os acompanhou logo atrás, como uma escolta. Quando carro tomou direção a uma rua próxima dali que havia bar ou restaurante algum, Tom começou a tremer. Se as pernas de Artie funcionassem, ele também estaria sentindo o mesmo.

"Eu não vou parar" – Tom avisou a Artie. Ele acelerou o carro e passou direto quando o da frente deu a seta avisando que iria estacionar.

Sem mais, o carro de trás acelerou junto. Tom não estava habituado a tanto perigo e começou a dirigir por puro reflexo e extinto. Artie, ao lado, nada poderia fazer a não ser se segurar e torcer para não se arrebentar em algum poste. Os homens atrás começaram a atirar e Tom a se apavorar ainda mais. Ele queria chegar o mais próximo possível de um bairro mais movimentado e jurava para si mesmo que se conseguisse sair ileso, viveria no celibato.

"Acho que não somos os únicos a procurar pessoas que desenvolvem bombas" – Artie ainda teve espaço para fazer a piadinha.

"Você acha?" – Tom virou o carro bruscamente numa curva e por pouco não perdeu o controle. Os dois carros continuavam a perseguição e estavam implacáveis.

Na curva fechada seguinte, Tom não teve a mesma sorte. Um pneu foi atingido e o carro capotou duas vezes antes de parar encostado a um poste. Os dois carros cercaram o capotado. Algumas pessoas que estavam na rua àquela hora se aproximaram para saber se os ocupantes estavam bem. Mas os homens que saíram dali estavam armados e isso afastou aos curiosos. Tom se machucou muito no acidente e Artie estava desmaiado. Os capangas bem que tentaram arrancar Tom do carro, mas duas patrulhas motorizadas da polícia se aproximaram. Houve uma troca de tiros e reforços foram chamados. Nesse meio tempo, um dos vigilantes chegou ao local seguindo o rastro do sinal acionado pelo colega. Precisou parar por um momento e observar. Ao longe, usou os poderes para derrubar os vilões e ficou de olho quando os reforços chegaram. Todos foram presos enquanto Tom e Artie foram encaminhados para o hospital. Tom tinha um corte na cabeça e logo poderia ser liberado e Artie precisou ficar em observação.

"Theodore Imonen" – Santana repetiu o nome depois que Tom relatou toda a história – "Cedes, tem como levantar tudo sobre esse sujeito? Eu vou falar com oráculo a respeito. Ver o que ele pode fazer."

"Vou tentar."

"Se ele for importante, vai sair da delegacia num instante. Precisa ficar de olho. A gente precisa colocar as mãos nesse sujeito e fazer algumas perguntas."

"Como posso ajudar?" – Tom perguntou humildemente.

"Vá para casa e descanse. A gente conversa melhor depois."

Tom acenou, mas argumentou que preferia ir para casa quando Artie tivesse alta. Santana e o resto não se opuseram.

...

Na saída da delegacia, dois dias depois. Theodore, ou melhor, troglodita, deixou o lugar acompanhado do advogado e entrou num carro de luxo. Seguiram até um hotel confortável no centro da cidade e lá ele se trancou num quarto. Cinco minutos depois, alguém invadiu o lugar pela janela.

"A que devo a honra?" – disse cinicamente diante do invasor.

"Um passarinho me contou que você está na cidade a mando de Frank e que andou fazendo muitas travessuras."

"O seu grupinho é realmente bom" – troglodita começou a andar devagar em direção a uma mesa com uma pasta – "pensei que levariam mais tempo para me encontrar."

"Se você der mais um passo, eu quebro suas pernas" – o homem respeitou a ameaça – "Eu vou ser bem direto e gostaria de respostas diretas se puder. Qual foi o propósito daquela palhaçada com a bomba há duas semanas?"

"Não foi pessoal."

"Desculpe se eu levei para esse lado. Mas é que minhas costas ainda doem."

"Frank não ficou feliz depois que vocês deram um prejuízo de milhões e ficou curioso para conhecê-los. Você sabe: para triturá-los pessoalmente."

"Se ele quiser nos conhecer, que marque dia e hora."

"Não acha que é muito cheia de si."

"É a vida" – retirou um pendrive e o jogou no carpete.

"O que é isso?"

"Uma cópia das provas que existem contra você. Algo que não vai tornar possível para os advogados do seu chefe te livrar dessa vez. Diz aí, por exemplo, a origem do seu apelido de troglodita, porque você não é exatamente gentil quando vai executar uma dívida para o seu chefe. Mas eu posso quebrar o galho se você me contar algumas coisinhas."

"Como por exemplo?"

"Quem é Frank?"

"Fez a pergunta errada, meu bem. Nem eu mesmo sei a verdadeira identidade dele."

"Você não conhece a identidade, mas sabe como contatá-lo diretamente."

"Prefiro a cadeia a falar. Na cadeia, ao menos, estarei vivo."

"Se é assim, você vai querer do jeito fácil ou do jeito doloroso?"

Troglodita virou-se e foi surpreendido pela velocidade com que a vigilante o rendeu e o fez apagar. Acordou minutos depois na porta da delegacia. O computador estava entre suas pernas e preso a ele estava uma posta cheia de provas contra Theodore. O HD do computador, claro, foi todo copiado.

...

Frank via mais manchetes nos jornais. "Figurões da máfia são presos". "Polícia prende 37 em operação surpresa". "Detetive condecorado entre os presos".

"Senhor" – o mordomo lhe entregou o telefone – "É a advogada."

"Obrigado" – pegou o telefone – "Senhorita Perez? Vamos fechar negócio."

...

Tom e Artie estavam trabalhando a manhã inteira fazendo a instalação elétrica nos novos cômodos da cabana, inclusive alguns dispositivos de segurança. Enquanto isso, Matt e Santana terminavam a nova varanda, Rachel e Mercedes faziam uma limpeza e Quinn corria atrás de Beth enquanto fazia o almoço. Faltava apenas lixar a madeira de dentro, pintar e fazer as instalações. Tom observou as pessoas trabalhando. Eram heróis num momento caseiro. Ele não sabia o que se passava na mente deles, mas ele nunca havia sido tomado por tal sentimento de satisfação. Primeiro por ter feito algo de bom para a sociedade. Segundo, por ter sido aceito em algo que se orgulhasse de fazer parte.

"Pausa para o almoço" – Quinn decretou.

Os sete vigilantes sentaram-se à mesa de madeira e apreciaram a torta e os legumes. Era um momento de bonança que eles aproveitariam bem.

PRÓXIMO EPISÓDIO

(Rachel centric) – É chegada a hora da estreia da peça e Rachel se vê num momento definidor da vida.